sábado, 3 de maio de 2014

NOSCE TE IPSUM - PENSÉES DE IVAN SAUL


Ah, Maestro Gessinger!

 

Lindo tema escolheste!

 

Justo agora que venho de uma das minhas ocasionais 'recaídas diplomáticas', quando esbravejo espargindo toxidez. Me vejo, neste momento, cheio de dedos [sem trocadilho] para digitar um comentário simples e despretensioso. É a hora de baixar o tom do meu discurso, afinal, nem tudo na vida é ideologia e política, há também a filosofia, a contemplação do belo, enfim, O SOL TAMBÉM SE LEVANTA*. 

 

Sabes, amigo Ruy, da minha dificuldade em manter sob controle as tais "feras imprevisíveis que rugem dentro de nós", me parece, às vezes, que os meus métodos de contenção são inadequados e negligencio os possíveis estragos que minhas feras causam.

 

Sou o meu crítico mais feroz e nada que eu deixe passar na minha prédica, está livre de recriminação. Não é muito o que me agrada falar sobre mim mesmo, em geral, tenho pouco para acrescentar ao conhecimento humano e, nas poucas vezes que arrisco, à mim soa repetitivo ou plagiado [assim, muito do meu pensamento tem sido destinado à lixeira].

 

Conheço-me a mim mesmo, como o que se pode chamar de 'um doce de pessoa', afável, simpático, generoso. Tenho certeza de ser bom com meus semelhantes, sacrifico-me pessoalmente pelo alheio e pelo que eu entendo como bem comum.

 

Conheço-me a mim mesmo, sou um 'simples', minhas constantes brincadeiras comprovam. Prefiro a superficialidade no tratar, os fatos e as pessoas, e me relaciono melhor com gente ignorante e limitada - nas quais a malícia fica tão aparente que impossibilita a traição, o componente surpresivo da maldade - do que com aqueles mais cultos. Sem esquecer o respeito que merecem de mim a sabedoria e o talento.

 

Conheço-me a mim mesmo, sou um paladino das liberdades individuais - exercidas com responsabilidade, que fique claro - e não me calo diante das tentativas de cerceamento, seja em nome do que for, inclusive quando concordo com os motivos ou finalidades. Con buena onda, ouço e leio bobagens, cargado de mala leche, falo e escrevo o contraditório.

 

Conheço-me a mim mesmo, me encantaria conhecer o mundo, ver os sítios dos grandes fatos históricos. Queria ter visto Delphos, comodista, não moveria um pé fora da porteira, se o próprio Oráculo lá estivesse a minha espera [Dá pra consultar por email?]. Queria ter conhecido Jerusalém, ansioso, não vagaria 40 anos no deserto, nem 40 dias, nem 14 horas num avião, buscando respostas que contenho. Com que prazer hospedaria Marcus Tullius Cicero, ir atééé Roma?!

 

Será por conhecer-me a mim mesmo? Que não canso de citar - ou deixo de me comparar - ao grande pecuarista conterrâneo, à quem, passeando por Roma perguntavam:

 

 - Que horas são 'Seu Fulano'?

 

Ao que ele, consultando o cebolão respondia:

 

 - No Herval são seis horas, o pessoal já tirou o leite e o Beltraninho deve tá encerrando os cavalos!

 

Gente como eu não tem jeito, vai no Louvre e pensa, olhando pra Monalisa - será que lá em casa, já deram comida pras galinhas!?

 

Abraços do Ivan Saul

 

 

[* O título é uma referência que fez Hemingway ao Livro do Eclesiastes 1.5: O sol se levanta e o sol se põe e depressa volta ao lugar de onde se levanta. - significando que nada é novo sobre a Terra.]