quinta-feira, 9 de abril de 2020

MAIS DIÁLOGO SENHORES


A vida me ensinou algumas coisas. Uma delas reza que é melhor conciliar do que, estando em vantagem, mesmo assim teimar e prolongar a discussão. Também muito observei na vida que quanto menor a educação de berço de uma pessoa guindada a alto posto, maior é o uso bruto de sua “otoridade”. 
Existem nos tempos atuais pessoas cujo conhecimento se cinge ao seu mundo particular e profissional ou ocupacional. Está cada vez mais rarefeito o conhecimento enciclopédico ou como dizem os alemães, uma “Weltanschauung”, uma visão do mundo. 
Ocorreu, então, o vírus. Não sou imprudente a ponto de dizer o que é melhor ou pior. Mas me incomoda muito a possibilidade de milhares de pequenos, médios e grandes empreendedores quebrarem. Até li, numa publicação de negócios, que poucos conseguirão sobreviver a uma paralisação de dois ou três meses. Os pequenos, então, já estão sem caixa.
Me indigna a atitude de alguns gestores da coisa pública de todas as esferas. A maioria se arvora em régulos das suas sesmarias, não querendo nem saber se vai acontecer um colapso ou não. Me infelicita a falta de diálogo, de concertação.  Também aprendi na vida que sempre se encontra, com  diálogo e boa fé, um caminho menos nefasto e dolorido.
Penso, também, que alguns governadores nitidamente se arvoram como os salvadores da pátria, alguns pisoteando regras republicanas, não querendo nem saber das consequências. 
Na órbita federal, dê-lhe  pseudo bondades e bateção de cabeças. 
Nosso presidente está desconectado da maioria dos mandatários estaduais, inclusive dos presidentes dos legislativos. Pena que ele insista em ignorar Senado e Câmara. Concordo que nem tudo são flores nessas instituições, mas é o que temos por enquanto. Para complicar mais,  é nítido que entre integrantes do seu  ministério há uma cizânia de dar medo. A novidade  foi uma derrota tática do Presidente, ao ser “ convencido” a não demitir Mandetta. Agora se expôs o que  muitos previam : um núcleo duro resolveu intervir. 
O primeiro mandatário a meu ver cometeu erros evitáveis, como o de  desautorizar pessoas leais ou as demitir imotivadamente. Falta-lhe meditar antes de se expressar. Vislumbro com pesar que  muitos amigos, que votaram no Bolsonaro, fizeram anônima campanha por ele, brigaram até com parentes, já estão desencantados (para dizer o menos).
Vamos nos cuidar e rezar para que as coisas se ajeitem e que não ocorram convulsões sociais.O perigo é grande.Sem emprego e sem comida é zebra na certa.
Hoje é quinta feira Santa, dia bom para meditar. Feliz e abençoada Páscoa!

quinta-feira, 2 de abril de 2020

TUDO ZERADO


Pois é. O sonho de muitos “teen agers” era o aeroporto. Lavar pratos na Irlanda, voar fagueiro para o Canadá, surfar em maravilhosas praias  estrangeiras, tudo sob o especial patrocínio dos papais, que achavam muito linda essa imersão esportiva, amorosa,cultural.
Aprender o inglês, inobstante se juntarem aos brasileiros, quase só com eles compartilhando experiências.Eu dava risada quando um filho ou neto de algum amigo voltava mal balbuciando alguma coisa em inglês.
Depois havia o dourado sonho de se mudar para a Flórida ou Califórnia para viver a vida de rico, arranhando um espanhol nasalizado.
De nossas paradisíacas praias os mais endinheirados não queriam nem saber.Praias brasileiras eram só para remediados ou, no máximo, emergentes. Iam para as praias cheias de seixos e pedras de Nice, mas jamais para as de nosso Nordeste.
Por sua vez suarentos e obesos europeus, vermelhos como um camarão, muito mais que o sr. Trump, mas com o mesmo cabelo tingido, aportavam no Rio de Janeiro, Salvador e outros locais menos votados para aquele turismo sexual básico.
Ah! Quero me mudar para Portugal, onde não há a bandidagem brasileira. Quero  morar em Paris e viver aquela aura poética, mesmo morando num quartinho e comendo nas “ delicatessen”. 
Tudo isso terminou, ou foi ao menos suspenso pelo inconveniente Corona. Pronto. Tudo fechado, aviões no chão, gente empilhada nos aeroportos, ansiosos desesperados, para voltar ao seu “ home sweet home”.As companhias aéreas simplesmente deixaram milhares de passageiros chupando o dedo. Dólares e euros não valiam mais nada. Não havia comida, tudo fechado. Não havia hospedagem. A solução era deitar sobre a mala e verter lágrimas e mais lágrimas.
Eu me escapei, graças a meus santos prediletos, de encalhar em Cabo Verde, na Ilha do Sal. Havia um avião que saía de Porto Alegre direto ao arquipélago. Estava quase comprando a passagem para gozar das maravilhas que os folhetos traziam, bem como o Google, mas algo me alertou. Tinha que ter o atestado de vacina da febre amarela. Eu e minha mulher tínhamos extraviado nossos certificados. Lendo melhor as exigências e havia várias, cada uma com mais tantos dólares, achei que iria me incomodar com tantas minúcias, até visto tinha que ter. Desisti. Uma semana depois deu essa zebra toda no mundo e os voos para lá foram cancelados.
Viram só como é bom ter um “ Schutzengel” ( Anjo da Guarda) ? Está tudo zerado no mundo.Cairam os sonhos de aeroporto.
 Como diz Gilberto Gil:" e agora, o melhor lugar do mundo é aqui, e agooraaa!".

quinta-feira, 5 de março de 2020

UMA CARTA VINDA DE SANTA ROSA - RS


Somando ao leitor Ivanhoé, e lendo seu post sobre o escasseamento das escritas por
"pouco mais ter a escrever ", acredito, claro, na sua possibilidade, que, abandonando o
imediatismo de comentar as 'atualidades', seria, nesse momento estival de pensamentos
desnutridos de rancores e outras intenções, um mote para releituras de momentos passados...

Essa "familiaridade", apesar das distâncias geográficas, é uma das 'cosas' buenas que
a informática nos propiciou, o que virtualmente dá direito de leitor a "cobranças", nesse
caso, de total apoio por este que vos escreve :):):)

Vendo um filme juvenil, de título "Todo Dia", a protagonista (Angourie Rice), ante a
despedida inevitável de sua alma gêmea, pede: "Deixe marcas"...

O jornalista Marconi, em entrevista ao Sr. Júlio Ribeiro, na "Rádio Press", disse que não
se lembrava da voz de seu Pai, instante em que é apresentado a um registro de arquivo de
gravação/entrevista...

Pesquiso um Zeca Blau, não temos mais que a foto de um 'roupeiro' no Blog de Rafael Nemitz,
em anúncio de venda anos atrás.

Em compensação, por exemplo, primordial o resgate que o Prévidi fez nas obras Personagens
do Centro
, e também o que o próprio editor da Revista Press vem fazendo no Valvulados.

Em algum de seus livros, Irvin D. Yalom, ao tratar de morte e eternidade, tece um raciocínio de
que a morte realmente acontece quando ninguém se lembrar mais do de cujus... (Testo isso às
vezes visitando algum campo santo, quando não há lápide, não se sabe mais quem era, quando
pereceu...). Ele segue, propalando que a eternidade dura enquanto durar a lembrança dos
terceiros em relação à pessoa desaparecida fisicamente.

Claro que cultuar ídolos pode nos levar a alguma frustração.

Apesar de os tempos atuais produzirem uma sensação de desimportância à memória,
tenho que ela é o único bem que ultrapassa gerações, nos permitindo voltar a lugares e
épocas não frequentados, pois "suas paredes não desmoronam".

É compreensível a demanda de seu "leitorado" cativo, e, nessas linhas carregadas de vírgulas,
registro minha estima e votos que o Sr. nos propicie mais sabedoria e Memórias!

Saudações,

Rafael Saratt Pereverzieff
Santa Rosa/RS

quarta-feira, 4 de março de 2020

A RAREFAÇÃO DE MINHAS POSTAGENS

A vida tem ciclos. 
A pessoa esforça-se por haurir conhecimentos, depois trabalha duro para viver relativamente bem. Em certa época apaixona-se múltiplas vezes. Tem filhos, tem netos.
Chega uma fase em que você tem que dar graças a Deus por ter saúde, filhos encaminhados, família normal. 
É uma fase de alimentação sem excessos, exercícios físicos moderados, jogar tênis sem pressa.
Viagens? 
Só se for com muito conforto e para lugares que ainda não conheci. Mas o tempo me ensinou que os melhores lugares , ao menos para mim, são minhas duas casas. Nada substitui minhas duas camas.
Então à saúde de que vou ficar horas e horas em stress nos aeroportos?
Já escrevi muito e muito e vejo que pouco muda. As coisas rodam e rodam e voltam ao mesmo lugar.
Não me preocupo mais com o Bolsonaro, com o Lula, com as reformas.
Me interesso com a serenidade do meu dia a dia.
Conformado com a certeza de que cumpri minhas missões dentro do mundo jurídico , social e familiar.
Adoro Porto Alegre aos sábados e domingos. Gosto da praia fora de estação. Amo o Rio de Janeiro  no outono. Gosto de Santiago, Unistalda, Santa Cruz, Rivera, onde caminho incógnito e despercebido  .
Meus escritos ficam, mais e mais, rarefeitos por pouco mais ter a escrever.
Simples assim.

segunda-feira, 2 de março de 2020

CARTA DE UM QUERIDO AMIGO

Nós, seus leitores ( na minha casa tem 4) estamos sentindo sobremaneira sua ausência nos posts em seu Blog. (09 de fevereiro de 2020  o último) . Comungamos é claro, da sua tristeza pela última postagem noticiando o desaparecimento prematuro do jovenzinho gaúcho, seu mais que amigo, um filho por adoção. Sentimos aqui, de muito longe essa tristezada, pois não deve ter dor mais profunda que a perda de um filho. Nada, se compara a isso, com certeza. Mas, querido amigo, a vida continua. Sigamos em frente e atenda nosso humilde pedido no sentido de voltar a postar. Quero crer que sempre o fizestes com o maior carinho . Então, não se prive desse prazer. Aqui estamos esperando seu retorno. O bom filho, a casa retorna.
Grande abraço, Ivan, Cris, Ivanhoé Jr. e Felipe. 
Recomendações a espôsa e filho.
São Paulo-Brasil

domingo, 9 de fevereiro de 2020

FOI PARA O CÉU MEU PEÃOZINHO ERICK


Luiz César e dona Marilza foram trabalhar na nossa fazenda em Unistalda muitos anos atrás. Vieram com eles dois filhos pequenos: Luciano e William. O tempo foi passando, os guris crescendo. Eis que um dia o casal apareceu na nossa casa, na estância. Disseram que dona Marilza estava grávida. Se a gente não se importava. Claro que não! respondemos. O piá de nome Erick logo se revelou, desde tenra idade, um cavaleiro nato. Foi se criando na nossa fazenda e demonstrava um amor incrível pelas pequenas lidas com seu pai. Assim fomos vivendo em harmonia, como uma família só. Circunstâncias de negócios obrigaram a Pecuária Gessinger a celebrar parceria  sem ter gestão direta na fazenda. Sempre incentivamos os guris ao estudo. Erick, o mais novo, era guapo e muito inteligente. Tinha o dom da inteligência emocional.
Deus o chamou para si na triste data de hoje. 
Estamos todos da família de luto. Repito, éramos uma família. ( Érick está na foto entre mim e seu pai, quando era pequeno)
Nossas condolências aos pais, irmãos e familiares.
Maristela, Ruy e Rudolf Gessinger

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

CRIANCICES DE ADULTOS


Não quero que ninguém se ofenda. Apenas não entendo e , antes de consultar o melhor psiquiatra do mundo, queria uma explicação de meus amigos. Peço , antecipadamente, desculpas por parecer  tão casmurro.Mas é o que penso.
Velório. Risadas, piadas. Acho de menor elegância. Além disso não é melhor só abraçar os que sofrem o luto, sem dizer nada? Porque tirar o microfone das mãos do Criador e discursar , entre convulsões, piorando a dor dos já chorosos com " Deus sabe o que faz".
Como assim? Quem somos nós para imputar ao Criador a morte da pessoa?
Por que a afeição tem que ser verbalizada? Sinceros são os gestos, como fazem nossos parceiros da vida aqui no planeta e que são  os animais, que já pararam, antes de nós, de falar e falar.
E que dizer dos fogos, que são a criancice dos adultos. Qual é a graça dessas luzes efêmeras, que não servem para nada? Ahh mas tem os coloridos! Ah é isso?Então os fogos são melhores do que a lua, o sol, as estrelas? E qual é o resultado que os fogos deixaram depois de 30 segundos? Qual seu legado? O que sobrou? Não entendo por que o mundo inteiro gosta de queimar pólvora, assustar pássaros e animais? Não seria melhor abraços e cantares? Sim!Cantar, cantar, cantar! Disso pouca gente se lembra.
E que tal uma tertúlia? Tragam adultos e crianças para tocar. Desliguem a música eletrônica, por favor.
Alguém se lembra de que há prioridades nesse nosso país tão rico, mas tão pobre? Deixemos os países ditos ricos e deslumbrados, mas que não geram alimentos, fazerem suas criancices. Nós não temos nenhum direito de gastar dinheiro em infantilidades .Os fogos, sejam quais forem, são uma agressão  à natureza e agridem os indefesos animais e demais integrantes da nossa nave azul.
Sou testemunha de cães fugirem desesperados. Já vi ninhos de pássaros caídos depois desses espetáculos que, repito, considero infantiloides. E vou mais longe: são visivelmente ímprobrobos os agentes públicos que gastam nosso dinheiro a título dessas atividades sem fundamento.
Amigos leitores: há uma riqueza acumulada que permita essas coisas com nosso dinheiro? E os hospitais? Todo mundo atendido? E as escolas? Sobrando dinheiro para os professores? Sobrando dinheiro para estradas? E a cultura verdadeira? E o ensino gratuito das artes ?
 Gente, é questão de prioridade.
Vamos sempre lembrar: mesmo com teu próprio dinheiro, não te assiste o direito de ferires a natureza. 
A mãe Natureza está nas últimas. Quem sabe leva teus filhos num lugar escuro e lhes mostras a beleza do céu com suas constelações? É grátis.E não polui.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

SUCESSÃO FAMILIAR


Filhos é assunto complicado, mesmo quando tudo vai muito bem. Como sempre digo, o maior problema é o dos pais não saberem dizer não. Minha sogra Nelcy, mãe da minha mulher Maristela, sentenciou certa feita, no seu linguajar campeiro: filho e filha nascem tudo “nefastos”. A tendência é serem indóceis. Se deixar solto, lá vai o boi ou a vaca com a corda campo afora. Depois, para corrigir ,é muito difícil. 
A minha turma está bem encaminhada, mas como não são filhos da mesma mãe, sempre há alguns ruídos. Pequenos ciúmes,  queixumes. Eu raciocinei assim: vou criar todos do mesmo jeito. Não vou soltar dinheiro, nada de dar tudo na mão, ou “ deixa que eu faço”. Também deliberei não espalhar, antes de minha cremação, todos os pilas que amealhei  a duras penas. Só me faltava   não ter uma velhice tranquila por já não ter reservas para seguir vivendo com independência.Por sinal sei de dolorosos casos de idosos que nem administram mais seu cartão de crédito. Nem têm acesso ao que é de seu direito.
Portanto é importante, se você  conseguiu galgar uma posição financeira interessante, que organize a sucessão familiar.Também creio que  tem que ser tudo conversado em vida. Como fica a futura partição dos bens? É ou não é que sempre há uma filha ou um filho que tem mais pendores para os negócios?Claro que se ama e se quer bem a todos.  Mas a verdade é que é preciso que se enfrente a situação sem muita demora. 
Vou dar um exemplo: uma  fazenda. Se ela tiver que ser dividida, vai dar zebra. Ela tem que ficar nas mãos de um descendente, que desde criança, junto com sua mãe , ajudou a construir a estância no que ela é   hoje. Não faz sentido picotá-la, pois não haveria mais escala para a produção.   Assim os  demais terão  seus quinhões em imóveis e outros bens, para que não se destroce um projeto que anda bem. 
É constrangedor, mas a sucessão familiar não pode redundar em brigas. Às vezes será importante uma Holding bem conduzida. Esses acertos da situação incumbem enquanto se está lúcido e ativo. Com muita conversa, bom humor, carinho, respeito, sempre é factível solução harmônica. 
Dir-se-á que em família equilibrada e feliz, essas coisas são despiciendas. O problema, bem ou mal, são os que, por casamento ou união estável, possam interferir, o que seria de seu direito. 
Um dos meus parceiros e amigo de anos , sentenciou: “os ensinamentos milenares da Bíblia dão a solução”. Ao que repliquei:  não é bem assim. No Brasil a judicialização de tudo é o fator maior para que  haja insegurança jurídica. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

170 ANOS DE CULTURA ALEMÃ EM SANTA CRUZ DO SUL


170 anos, homenagem à cultura.Dra. Lissi Bender – integrante da comissão 170 anos.
Celebrar 170 anos da Imigração Alemã é também celebrar a fundação de Santa Cruz. Santa Cruz foi a primeira colônia totalmente planejada e executada pelo governo da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O governo de nosso Estado convidou, por meio de seus emissários, famílias de língua alemã, de regiões germânicas a se estabelecerem na recém fundadaKolonie Santa Cruz.
A Universidade de Santa Cruz do Sul se uniu às celebrações que ensejam honrar e festejar este começo.  Com músicas e cantos da cultura germânica, a orquestra e o coro da UNISC promoveram um concerto que tocou fundo a alma dos participantes, e deixou a alma dos descendentes dos imigrantes em júbilo. Foi uma noite cultural ímpar, para celebrar a cultura germânica em um de seus aspectos mais sensíveis, a música, o canto, a cultura. Deveras, as famílias de imigrantes vieram de um mundo cultural marcado pela reforma da Igreja, pelo mundo das ideias de Martim Luther. Luther defendia queler fomenta a inteligência; que o povo precisa ler, precisa aprender a pensar para ser livre e não poder ser ludibriado; que a Bíblia precisa ser lida e compreendida por todos e, para isso, a traduziu para o alemão. Sua impressão foi possível graças a invenção da imprensa por Gutenberg.E não é à toa que hoje a Alemanha sedia a maior feira mundial do livro.
A defesa de Martin Luther também permeou os ideais do Iluminismo, incentivando as pessoas a fazerem uso de sua própria capacidade racional; o grande filósofo alemão Kant as encorajava: Habe Mut, dich deines eigenen Verstandes zu bedienen, ou seja, tenha coragem de fazer uso de seu próprio entendimento. No início de 1800, já se havia tornado muito popular uma canção que lembrava ao povo que os pensamentos são livres:  Die Gedanken sind frei.
Os imigrantes vieram de um mundo que valorizava o canto, o livro, a leitura. Na Prússia a frequência à escola já era obrigatóriadesde 1752; de um mundo em que já existiam universidades, antes mesmo de o Brasil ser descoberto (fiz meu doutorado em uma dessas universidades seculares); vieram de um mundo em que floresciam pensadores e poetas. Em que poesias, como as de Goethe, Heine, Fallersleben, Eichendorf eram transformadas em canções populares.
O advento da imprensa, incentivou os poetas Clemens Brentano e Achim von Armin a coletar canções da tradição oral alemã, desde a Idade Média até o início de 1800 e a publicá-los em três volumes, em 1805 e 1808, sob o título Des Knaben Wunderhorn, em tradução literal: A corneta mágica do menino. Nestes três livros registraram inúmeros cantos que acompanhavam as pessoas em suas caminhadas, cantos voltados para a natureza em sua profusão e transformação ao longo do ano, cantos infantis, cantos de amor, de despedida, de reencontro e muitos mais.
Deveras, o cantoe a música compõem um dos muitos bens culturais que acompanhou os imigrantes a Santa Cruz. O canto esteve e está presente na vida das pessoas desde o berço até a morte. Canto para a criança adormecer, para acompanhar a família nas lides do dia a dia, seja em casa, na roça, na igreja, na comunidade, no enterro. Na minha infância o canto participava de todos esses momentos. E continuamos cantando, por que sem o canto, sem a música, a vida seria um engano, nos lembra Nietzsche: “ Ohne Musik wäre das Leben ein Irrtum”.

BELA CRÔNICA DE FRANKLIN CUNHA

Legalidade, legitimidade e  a Economia

A tese de Giorgio Agamben, filósofo italiano, marxista e católico, é fundamental para entendermos nossa situação política e econômica atual. Diz ele que a distinção feita entre dois princípios essenciais da tradição ético-política ocidental, a legitimidade e a legalidade, parece ter sido esquecida e perdido toda a consciência delas por nossas  sociedades modernas.
Os poderes e as instituições, afirma Agambem, não se encontram deslegitimadas porque caíram na ilegalidade, mas pelo contrário, a ilegalidade está tão difundida e generalizada porque os poderosos perderam toda a consciência de sua legitimidade. Porém não devemos pensar que poderemos enfrentar as crises de nossa sociedade apenas  pela ação – evidentemente necessária – do poder judicial. Uma crise que golpeia a legitimidade não pode ser resolvida no plano do direito institucionalmente estabelecido. A sua  hipertrofia  acaba de desembocar, por meio de um excesso de legalidade, na perda de toda a legitimidade essencial.
As tentativas insuficientes da Modernidade de fazer coincidir  legalidade e legitimidade, procurando assegurar a legitimidade de um poder pelo tradicional direito positivo, que nos rege, acusa, julga e condena, deu como resultado o incontornável processo  de decadência no qual entraram parte de nossas instituições democráticas.
E é nessa conjuntura, em momentos de instabilidade política, econômica e social (e jurídica), que os economistas – confundido e manejando canhestramente  os conceitos de legalidade e legitimidade - assumem os destinos da nação. E assim as políticas econômicas têm sido sequestradas por grupos de tecnocratas que se encastelam em supostas leis imutáveis das relações comerciais. Esses grupos situados politicamente na extrema direita do neoliberalismo, habitualmente estão ligados a interesses escusos e adotam a crença de que os fins justificam os meios.
Assim- afirma Jacques Sapir (“ Economistas Contra a Democracia”) – “vivemos numa espécie de conjuntura  destinada a lesar gravemente  a democracia, já que esses grupos atuam por sua conta e risco à margem de um controle maior, usurpando espaços políticos com o argumento que são “ experts “em  economia.  Pior: são (de)formados por escolas e teorias econômicas que produzem “especialistas“, limitados em sua formação e interpretações da realidade e que se baseiam  somente em dados  econômicos, ignorando  as amplas  realidades social, cultural e ontológica dos povos nos quais  são aplicadas suas teorias.
Afinal, que tipo de “experts“ são esses, pergunta Sapir? Os mesmos que conduziram países inteiros, ( os exemplos são atuais, reais e evidentes), à corrupção e à pobreza?”
Com muita frequência ser especialista em economia, implica em ignorar a história, a política, a música, a poesia e enfim as grandes artes que derrotaram a barbárie e civilizaram a humanidade.
A especialização resulta em se perder de vista o esforço árduo de construir arte, a “sabedoria e a sapiência”, estas  bem definidas por Roland Barthes. Enfim, como economista muito especializado, o indivíduo domestica-se e aceita tudo o que poderosos do momento lhe disserem  e permitirem.  Em última análise, limitar-se à especialização é acomodar-se ao estamento presente e assim fazer o que os outros mandam, porque essa é, afinal, a especialização que lhes permitiram exercer. 
Pois, lendo o livro de Paulo Timm, “ Devires e Derivas“percebo eu ele não é um desses especialistas.
Economista, formados pela UFRGS, graduado na Escola Latina da Universidade do Chile, na CEPAL/BNDES e Técnico do IPEA, PauloTimm é dotado de uma ampla formação cultural que inclui não somente economia, como literatura, história, sociologia, psicologia, a música popular  e... a poesia.
São esses variados, úteis  e amplos conhecimentos é que lhe permitem e possibilitam interpretar a realidade dramática ( mesmo trágica) de um país rico, tão variado e  poderoso em nobres qualidades humanas como o nosso, o qual exclui de uma vida digna de seres  humanos milhões de nossos irmãos e irmãs brasileiros.
Enfim, assinalo que Paulo age, crê  e sonha poeticamente, pois  gostou e se emocionou quando lhe reproduzi a opinião profética de Antonio Machado quando este diz que “ La Poesia es una arma cargada de futuro “.

Franklin Cunha
Aeronauta
Médico
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

TEMOS QUE ACREDITAR


Tenho vários conhecidos e amigos, cujos filhos querem porque querem se mudar para o exterior. Sonham com trabalhar entregando pizzas ou lavando louça em restaurantes da Inglaterra. O motivo seria  a descrença no Brasil. O aeroporto seria a panacéia para todos os males. 
Nada contra se o jovem ou a moça forem bem fluentes no inglês . Sem isso, nada feito. Por sinal, fico com muita pena quando, no aeroporto estrangeiro, muitos brasileiros têm dificuldades em entender o que o policial da imigração está perguntando. Sábado passado  assisti a um jogo de tênis entre um alemão e um austríaco. Entrevistados pelo repórter inglês, responderam fluentemente . Nadal, Federer e tantos outros tenistas falam um inglês que dá gosto. Já o jogador de futebol brasileiro, bem como nossos técnicos, têm uma baita dificuldade.
Mas voltando ao que gostaria de dizer é que o Brasil está, não com a velocidade desejável, melhorando. Vamos parar um pouco de falar e discutir sobre o recente julgamento do STF. De um jeito ou de outro as coisas vão se ajeitar.
Notoriamente  o Brasil está melhorando na arte de negociar com os possíveis importadores. Em vários itens, como o agro, somos indubitavelmente de ponta. O presidente Bolsonaro parece que está aceitando os conselhos de pessoas ajuizadas no sentido de pensar muito bem antes de falar.  Como diziam os romanos: “ si tacuisses, philosophus mansisses” ( se calasses, passarias por filósofo). Amigos meus, executivos de empresas exportadoras, arrancavam os cabelos a cada pronunciamento de Bolsonaro envolvendo o mundo árabe ou a China.Praza aos céus que ele deixe certas questões, principalmente diplomáticas, para quem conhece e tem treinamento ( ovelha não é pra mato). Que ele não tente ser um enciclopedista, porque  não tem esse preparo.
Creio que, mesmo com a recente decisão do STF, a roubalheira não voltará com a voracidade de antes. Apesar de algumas mudanças duras , temos que concordar com o apertar das cravelhas, visando a estancar a gastança desnecessária.
Sou contra as “ fake news” e o deboche escrachado nas redes sociais. Acredito, no entanto, que graças a essas ferramentas, se descobriram  muitos cancros. Agora quase nada escapa da vigilância das redes  e mormente da imprensa séria.
Aos poucos vamos todos nos cuidando mais, sendo mais probos e vigilantes. A publicação de um proceder ilegal de um agente público, só ela, já é uma “ poena naturalis” ( pena natural) cujos efeitos são importantes para que todos reflitam sobre as consequências de não permanecer na trilha do bem.

domingo, 17 de novembro de 2019

OS ORÁCULOS DE UMA NAÇÃO DIVIDIDA

OS ORÁCULOS DE UMA NAÇAO DIVIDIDA
Guilherme Socias Villela
No Brasil hoje se vive uma nação dividida. Há os são contra e os que são a favor - a qualquer coisa que apareça. Há os que querem progredir, mostrar porque vieram ao mundo - vencendo obstáculos que se lhe apresentam no dia a dia. Há os que sofrem adversidades. Há os que desfrutam a vida, às vezes parecendo ter vindo ao mundo à passeio. E há os que mergulham no nada - não notam ninguém. Nem são glorificados.
           Tarrafeando sobre o mundo brasileiro de hoje, todos, com poucas exceções, quando tudo fica difícil nem mais apelam para os deuses.  Invocam para algo chamado Estado (no campo doutrinário, a instituição das instituições - segundo os princípios da ciência do Direito). No caso do Brasil, um Estado que, segundo enraizada crença, que põe e dispõe, a tudo provê - tal quais os deuses o fariam, pacientes com as fraquezas humanas. Neste sentido, lembre-se o caso ocorrido na década de 60 do século passado, quando enchentes no Sul foram simultâneas às secas do Nordeste brasileiros. Os irmãos nordestinos esperaram uma atitude do Estado e de seus representantes políticos. Mas, tudo ficou parado. (A exceção ocorreu quando alguém disse: "vou começar tudo de novo!". Era uma agricultora de Santa Catarina!)
            Dito isso, diga-se que houve um momento em que todos acreditavam no Estado. Confiavam, assim, nos critérios patrióticos da alta corte de justiça brasileira. ("Ainda juízes em Berlim!")
            Recentemente a Corte foi testada quando dos notáveis escândalos ocorridos na administração pública e na política brasileiras. Desde então se observa uma nação dividida e frustrada.
Crises políticas. Poder moderador desnorteado. A Corte nem leva em conta a riqueza dos ensinamentos do passado, e.g., de Antero de Quental (Conferência do Casino, Lisboa, Portugal, 1871), quando alertou para as características sociológicas dos povos ibéricos e do além-mar.
            À nação frustrada só lhe restam à impunidade de conhecidos crimes na vida política e social brasileira. Contudo seus oráculos para lá foram levadas por suas condições de reputações Intelectuais e ilibadas. Mesmo assim, em sua maioria, eles vêm protagonizando equívocos e vaidades. Acolhem, com naturalidade, o fisiologismo, o patrimonialismo e a corrupção - como se estes crimes fossem da natureza do povo brasileiro, tal qual a lenda do escorpião e o sapo!   
            Enquanto isso, o Olimpo permanece majestoso. Helênico. À espera que os seus inquilinos, quem sabe, o deixem. Desaparecendo. Mergulhando no nada.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O BONDE DO DESTINO - ASTOR WARTCHOW


O Bonde do destino
            Prevendo os reflexos colaterais e temerários da decisão do Supremo Tribunal Federal (que garantiu as solturas prisionais atuais e futuras), o presidente Toffoli enviou proposta ao Congresso Nacional sugerindo a interrupção da prescrição enquanto tramitarem os respectivos recursos.
            Ainda que solução intermediária e razoável, não impedirá, entretanto, que o condenado requerente fique livre da prisão anos e anos, face o volume de criativos recursos que se sucederão e a histórica morosidade do judiciário.
            Legislar sobre prescrição parece ser a única solução imediata para minorar os efeitos negativos. Isto porque a presunção de inocência é cláusula pétrea da Constituição Federal, só modificável (de modo restritivo) via nova constituinte. Ou seja, atualmente a cláusula se sobrepõe a qualquer proposta de emenda constitucional modificativa (PEC).
            Há um outro e anterior complicador. Se mais de cento e cinquenta parlamentares têm "judicialmente o rabo preso", e que somados ao conjunto dos partidos e parlamentares simpáticos aos políticos e empresários presos (por motivos óbvios), como alcançar 3/5 dos votos em dois turnos no Senado e na Câmara dos Deputados?
            Ademais, se ocorrer a aprovação de uma PEC que permita a prisão após decisão em segunda instância (minorando a cláusula de presunção de inocência), e recorrida a questão ao STF atual (!), este afirmaria sua inconstitucionalidade, com certeza. Com base na imutabilidade da cláusula pétrea via emenda parlamentar. Ou seja, a PEC, se nascer, nasce morta!
            Assim sendo, cabe refletir sobre uma questão inadiável. Esta cláusula (uma garantia individual) se sobrepõe a qualquer lei modificativa que pretenda a supremacia dos direitos coletivos e do interesse social?
            Na defesa do interesse social (prisão de criminosos, por exemplo), cabe recordar que na fase preliminar e investigativa os processos judiciais correm em favor da sociedade, com base no conceito de “in dubio pro societate”.
            Contrariamente, na fase de julgamento e sentença, mantidas as dúvidas de autoria e responsabilidade, a decisão corre em favor do acusado. “In dubio pro reo”, se diz!
            Mas, se após duas condenações (!), em primeira e segunda instâncias, e sem registros de cerceamento de defesa, caberia ainda decisão em favor do réu?
            Acredito que não. A partir deste momento, creio que a decisão deveria voltar a ser em favor da sociedade e na garantia da credibilidade e segurança do sistema judicial.
            Detalhe. Sem deixar de reconhecer o previsto direito individual aos recursos especial e extraordinário, e mantida a hipótese de presunção de inocência, o já sentenciado poderia recorrer às demais instâncias superiores. Porém, aguardaria o resultado dos seus recursos preso!
            Face seu histórico de intensa e prolongada dedicação partidária e discutível formação acadêmica, o ingresso e atuação de Toffoli no STF sempre estiveram sob críticas.   Agora, teve a oportunidade de “ficar maior” do que quando entrara. Entretanto, com seu voto de minerva “ficou menor”. Toffoli perdeu o bonde do destino!

domingo, 3 de novembro de 2019

JOSÉ NEDEL LANÇA MAIS UMA OBRA

NEDEL, José. Tomás de Aquino: Um ensaio.  São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2019, 136 p. Este ensaio, que constitui o 18º livro individual do autor, contém pontos relevantes da filosofia prática de T. de Aquino, além de notícias sobre sua vida e obra. Ganham destaque três capítulos, pela extensão e relevância teórica: os que versam sobre a caracterização da moral do aquinate (5º), a virtude (6º) e a lei (7º). Sua filosofia política é apenas sucintamente esboçada. O texto, sem pretensões de exaustividade nem de novidade, presta-se a servir de subsídio a estudantes e a leitores em geral que estimam a cultura clássica como portadora de mensagem supratemporal, por isso ainda válida em nossos dias de extraordinária dispersão de ideias e doutrinas. Como saudável e vigoroso contraponto a essa dispersão característica da modernidade, a filosofia perene, que tem em T. de Aquino o seu representante de maior autoridade, segundo a opinião comum dos doutos, pode servir de orientação segura, quando não de corretivo eficaz. Daí a oportunidade desta publicação. Preço: R$20,00.