quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

AINDA EXISTE UM LUGAR





Venha sentir a paz que existe aqui nos campos/ O ar é puro e a violência não chegou/
O céu bem limpo e muito verde pela frente/ Uma vertente que não se contaminou/ Pela manhã o sol nascente vem sorrindo/ E os passarinhos cantam hinos no pomar/ O chimarrão tem um sabor de esperança/ E a criança traz um futuro no olhar (Ivo Brum e Miguel Marques).
De muita tertúlia participei com Miguel Marques. Este é um caso raro de instrumentista perfeito e dono de uma voz super afinada. Miguel anda mais recolhido ao seu sítio no interior de Santiago, a idade vai pegando, mas continua com suas maravilhosas composições. Toca tudo de ouvido, tem o famoso e raro “ouvido absoluto”. Certa vez,como alhures já contei, ele me convidou para ajudar, numa Califórnia em Uruguaiana, a tocar uma obra musical sua. Eram vários instrumentistas. Estávamos “passando o som” no palco e ele chegou perto de mim e sussurrou: “dá uma levantada na tua corda mi”. E de fato, ele tinha razão.
Mas o que eu queria falar era sobre a verdadeira música nativa. Não concordo com o termo música galponeira A música nativa se cria e se toca até numa taipa de açude. Existem os compositores que não sabem distinguir um cavalo de uma égua. Fazem um barulhaço bagual, é música para baile, tipo bate-coxa, em que os músicos rebolam mais que baiana no trio elétrico. Mas é válido, tem quem goste e é preciso respeitar.
De outro lado , a música que descreve dores, amores, natureza, céu, estrelas, lidas, os animais,  as vidas “pra fora”. A Ministra do STJ Fátima Andrighi, minha querida amiga,  me perguntou da razão de nossa música autêntica não ter muita acolhida de São Paulo para cima. Não soube lhe responder: talvez porque não se priorize a percussão, talvez pelos vocábulos que só aqui se usam, ininteligíveis para nossos irmãos de outras plagas, e talvez por causa da excelente temática das letras, que não contém aquelas lamúrias “kitsch” de dor de cotovelo.
O fato é que no nosso Estado há diferenças que vivenciei. As regiões coloniais e industriais têm times de futebol famosos, gostam de música de todos os tipos e gêneros. As regiões campeiras tem população rarefeita,ênfase na agricultura e pecuária, não têm grandes times de futebol. Lá o esporte é o rodeio, o tiro de laço.Até cidades pequenas têm seus locais de rodeio.  A música ainda é a gaúcha, mas também tem alguma sertaneja, por incrível que pareça.
Há quem lastime que sua cidade não tenha mais de 50 mil habitantes. Penso que mais vale ficar do tamanho em que está, para que ainda  se possa dormir sem grades…( ainda existem lugares assim)

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMAS? SERÁ MIGUÉ?


A FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMA

Tá me cheirando migué


por João-Francisco Rogowski
Advogado

Além de votar em Bolsonaro fiz campanha para ele nas redes sociais, porque entendi que elegê-lo era a única forma de derrotar o projeto criminoso lulopetista e o terrorismo.
Na sua posse ao ministério o General Augusto Heleno enalteceu sobremodo a estruturação e a eficiência da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, levada a cabo pelo General Sérgio Etchegoyen.
O presidente Jair Bolsonaro manifestou-se pelo Twitter informando que quer a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) com validade de 10 anos.
Hoje (15) o presidente assinou o decreto que flexibiliza a posse de arma de fogo de defesa pessoal pelo cidadão.
Para ser justo reconheço algum avanço nessas questões, mas para ser fiel à  minha consciência devo dizer que eu esperava bem mais.
Claro que entendo que atual administração pública federal está apenas no início de sua gestão, mesmo assim já sinto um aperto incômodo no peito.
Se o Serviço de Informações está tão bem estruturado como afirmou o Gen. Heleno, por que então o governo foi pego de calças na mão em relação à onda de atentados terrorista no nordeste do país?
Recentemente passei uma temporada em Portugal e fiquei sabendo que em muitos países europeus  a Carta de Condução de veículos é vitalícia, em outros é válida por 15 e até 50 anos.
A obtenção da  Carta de Condução também é muito simples, dependendo da categoria, se amador, o condutor é dispensado de exame de direção, assina uma declaração sob as penas da lei que sabe manejar veículos.
A exigência mais rigorosa é a do Atestado Médico para que se possa dirigir o qual pode ser solicitado ao médico de família, ou atendimento nas Unidades Públicas de Saúde ou  clínicas particulares.
Esse documento é exigido uma única vez, porque o condutor tem a obrigação legal de comunicar ao Departamento de Trânsito qualquer alteração em seu estado de saúde que limite sua capacidade para conduzir veículo. Os médicos também são responsáveis por  efetuar essa comunicação caso observem em seus pacientes déficit prejudicial à condução de veículo.

Por fim a questão da “flexibilização” da posse de arma de defesa pessoal.


Há que se diferenciar as armas de fogo de defesa e de ataque.
Armas de defesa têm menor potencial ofensivo, geralmente o revolver e pequenas pistolas.
Já as armas de ataque são os fuzis, pistolas de uso restrito das Forças Armadas e outras armas mais potentes.
Lembro-me que antigamente a pessoa interessada em adquirir uma arma de defesa ia a uma loja de armas, apresentava documento de identidade, comprovante de endereço e preenchia um formulário e aguardava uns dias a aprovação pela Polícia que obviamente levantava a ficha (antecedentes) do comprador.
Uma vez aprovado o cadastro do candidato a venda era formalizada e ele poderia ter a arma de defesa em sua posse e guarda (não o porte).
O decreto de “flexibilização” assinado hoje traz uma série de regulamentações e exigências que tutelam o cidadão em detalhes dos mais triviais, como ter um cofre ou armário com tranca para guardar a arma de defesa se houver crianças ou doentes mentais no local.
Quando eu era criança recordo-me que meu Pai guardava a arma em cima do roupeiro e descarregada, ele nunca precisou de uma lei obrigando-o a ser diligente e cuidadoso com a guarda de sua arma.
O excesso de regulamentação tratando o cidadão com um retardado, como um incapaz desprovido  de autodeterminação e pragmatismo é próprio do comunismo totalitário que tutela tudo e todos, e nada tem a ver com um sistema político democrático, liberal, que respeita e assegura aos indivíduos o direito de viverem e se conduzirem de acordo com a sua liberdade natural, o seu livre arbitro dado pelo Soberano Deus ao homem e que até mesmo ELE respeita.
Sinceramente eu esperava que o lema desse novo governo fosse liberdade com responsabilidade!

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João-francisco Rogowski



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A PRAGA DOS FOGOS


A Gazeta de quinta-feira passada publicou um artigo de Afonso Schwengber , a quem ainda não tenho o prazer de conhecer, sobre os fogos de artifício. Gostei muito da crônica, de estilo direto, claro, sem rodeios e salamaleques. Apesar de eu não achar  graça nenhuma  em fogos, nada tenho contra os não ruidosos.
Em qualquer lugar do mundo, exceção feita a alguns lugares atrasados , os fogos são tratados como algo perigoso. Ao ar livre ou fora dele.
Nos noticiários, os dedos e mãos amputados, os olhos arrancados e as coisas estúpidas de ano novo, carnaval e outras festas.
Comprar fogos ruidosos deveria ser como comprar antibióticos: receita retida.  Teria que ser como comprar uma arma de fogo: com papéis em dia, passando pela Polícia e tudo; fogos têm pólvora, da qual dá para fazer munição de armas. Essa barulheira absurda incomoda demais, mas como existe gente que gosta de bobagens, vá lá. Para comprar fogos o sujeito teria que entrar na loja munido de uma guia da autoridade competente. Essa guia teria que ser retida e clipada na nota fiscal. Para obter essa guia o sujeito teria que fazer um requerimento à Prefeitura expondo as razões de incomodar os outros (juntando atestado psiquiátrico). O filho passou no vestibular  lá na Universidade de Barro Amarelo?  Dê-lhe foguetes! O comprador não acha bonito o céu estrelado, precisa do artifício humano? Adora assustar as pessoas normais? Ou odeia os animais?
Passo seguinte:onde quer soltar os foguetes? perto de hospitais? nem pensar. Perto do Centro da cidade onde vivem  milhares de  idosos? nem pensar. Perto da mata onde moram os passarinhos? nem pensar. Soltar os fogos num lugar isolado ele não quer, por que será?
Quem sabe pode soltar os foguetes no porão de sua própria  casa. Também não vai querer.
Vejam o absurdo: o cidadão comum tem que entrar em filas e realizar um périplo demorado para obter uma licença ambiental. O fogueteiro não precisa de nada. Compra sem formalismos e solta onde bem entende e nos obriga a ouvir o que não queremos!
Mais uma observação: penso que os gestores públicos têm que refletir bem se bancar a compra desses artefatos não beira às raias da improbidade administrativa.Só quem não se informa apoia a aplicação de dinheiro num evento efêmero , quando há outras necessidades urgentes.As entidades públicas, que gastam nosso dinheiro, têm que observar prioridades. Estivéssemos morando num país em que reluzem o ouro e o dinheiro, todo mundo  gordinho e são de lombo, até vai. Mas estamos mais pobres do que imaginamos.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

JEJUM E RECEIO - BLAU SOUZA *



 

 

           Ainda na fase de valorizar Natal, parábolas e histórias edificantes ou divertidas, vou lembrar uma contada pelo Dô, meu cunhado, pai do Fernando Adauto, da Ana Maria, do alemão Gilberto e do Guilherme. O apelido, última sílaba acentuada do nome Fernando, fixara-se nos tempos em que atuava como jogador de futebol e nas rodas boêmias, nas serenatas, ao exercitar voz e violão. A verdade, é que suas visitas de noivo à Vera, na Estância do Sobrado, eram muito festejadas pela gurizada da casa. Pois ele sabia muito bem alternar música e histórias que se iam encaixando no imaginário de guris de campanha. Algumas ficaram bem gravadas em minha memória, de onde seleciono, hoje, uma delas, para compartilhar com os leitores. 

            Num tempo que já vai longe, quando não havia automóvel e as viagens eram feitas na base do cavalo, os gaúchos valorizavam a hospitalidade de uma forma comovente, até porque, em alguma ocasião, dela poderiam depender. Mandar desencilhar, servir mate e oferecer boia e pousada fazia parte do bem receber. É claro que isso não dispensava minuciosa observação do paisano recém-chegado, da sua montaria, das vestes e arreios, bem como do trato dispensado por ele à montaria e aos pertences. Em alguns lugares, o tratamento incluía lavar os pés de quem chegava, como ocorreu com o nosso viajante, que desde a madrugada cavalgava com poucos intervalos para descansar, arrumar os arreios e beber água de sanga. O fiambre, as galletas tinham sido devoradas havia algum tempo e a fome não era pouca. Olhando para o sol e os horizontes, calculava o meio dia, e ainda estava distante da estância que divisava ao longe. Não seria aconselhável apressar a marcha, pois o cavalo, suado e arfante, dava mostras de cansaço em dia quente de verão. Mas a sombra de arvoredo, casa, galpão e expectativa de presença humana, reavivavam cavaleiro e montaria. Finalmente, anunciados pelo latido dos cachorros, ouviu-se um Ô de casa do chegante, enquanto alguns peões saiam pela porta do galpão e o patrão se aproximava, respondendo à saudação de Laus Sus Cris (Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo) feita pelo viajor. A este, não passara despercebida a noção de ter chegado com atraso, na hora da sesta, que sucede ao almoço e recupera o pessoal para as lides da tarde.

           Claro que o Dô ia adaptando a história à capacidade de entendimento da gurizada, bem como dando espaços para perguntas e comentários, que por vezes alteravam enredo e fluxo do que pretendia dizer. Por sabedoria que a vida lhe ensinara, adequava as histórias ao público como fazem os editores de literatura infantil no aproveitamento de textos, por vezes trágicos, de autores consagrados como os irmãos Grimm, Hans Handersen e tantos outros. Certamente os autores citados não seriam tão conhecidos mundo afora, não fossem mascaramentos e traduções orientados através dos tempos e com valorização crescente de imagens e cores. Numa cadeira de balanço, cercado pelos guris, que disputavam seus joelhos, ele criava fatos e personagens que preenchiam o imaginário de ouvintes atentos e curiosos. Dô pontilhava linhas que iam sendo preenchidas pela imaginação e pela memória de cada um. As interrogações eram muitas e às vezes serviam como ponto final e instigante das histórias.

           Mas voltemos ao paisano e sua fome. Estava claro para ele, que chegara após a refeição, algo muito precioso em dia de estômago vazio. Desencilhou, foi bem recebido, mas ninguém mencionava alguma coisa que lembrasse almoço, comida, boia... Antes que o estancieiro voltasse para a sesta, ordenou que trouxessem banco, bacia, jarro com água e toalha para lavar os pés cansados do recém-chegado, que se ia apresentando ao responder perguntas enquanto mateava. O peão caseiro ia iniciando o preparo do ritual do lava-pés, quando o paisano, avaliada a situação e a fome, perguntou com voz entre firme e suplicante: Será que não faz mal, lavar os pés em jejum?

 

 

*Médico e escritor

 

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A BIC E A MICHELLE




“Michelle, ma belle
Sont les mots qui vont très bien ensemble
Très bien ensemble”

Impressionante. Até eu, calejado, maroto nas curvas da vida, peleador, homem de brigar com filhos e netos, dizendo que quem dorme demais termina pobre; logo eu, que aprendi ser a maior maldição se comover por coisas simplórias e golpistas, seguindo, por exemplo,  alguns grupos pseudo religiosos caça níqueis, logo eu que tomei ferro vida a fora, até fome passei quando morava na casa da UESC, na Tomás Flores, em Porto Alegre, nos anos sessenta, estudando na gloriosa UFRGS, até eu chorei emocionado. As lágrimas não eram de crocodilo, sem embargo da  inefável beleza de Michelle, a esposa de Bolsonaro
 e seu ballet de libras. Mais ainda  me comoveram  as lágrimas da  tradutora e os beijos na boca, selinhos, da Michelle em Bolsonaro. Que espetáculo surpreendente; Michelle, la belle, deu um show, abanou, muito mais do que seu combalido consorte esfaqueado. Um cara que convive com uma mulher assim, esse taura é de fundamento.
Depois vieram o vice eleito, com sua cabeleira de asa de graúna, mais preta que  noite de tormenta, o meu querido amigo Lorenzoni e outros menos votados, todos assinando o papel com a caneta Bic. Olha só: usar a caneta Bic é uma afronta à Mont Blanc. E se fosse mil anos atrás, um agravo à Parker 51.
Que lance!!  Podia, na hora da assinatura, vazar tinta, sujando os punhos engomados dos escolhidos. Ao revés, a Mont Blanc mostraria o poder e a nobreza. Mas, me indago, por que assinar? Se hoje é tudo digital?
Não bastaria Bolsonaro dizer que tinha escolhido e pronto? Quem ousaria confrontá-lo? Quem sabe receio de uma liminar de um juiz de plantão num sábado à meia noite, num dia de feriadão?
Bolsonaro optou pela Bic.  Optou porque quer mostrar que é despojado, que ao assinar não mostrou um relógio de ouro como Collor, ou um Tag Heuer ou, pior ainda, um relógio de algibeira folhado a ouro?
Ok, até aqui meu querido leitor, minha amiga que me lê já sestrosa.
Seguinte: eu votei no Bolsonaro e quero que tu e eu possamos ter a frau Glock ou um 38 legalizado em casa, não quero que mexam para pior na reforma trabalhista, quero um governo que não persiga injustamente, usando  um demônio chamado  burocracia, os  empresários.
Mas teria havido um  pouco  de populismo?
Ou não...Vamos ver o que vem por aí.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

GAUDÊNCIO SETE LUAS


GAUDÊNCIO SETE LUAS ANDA TRISTE

Guilherme Socias Villela*

“Quem quer levar oferendas pra Gaudêncio em noite escura, leve bom trago de venda, mate-amargo e rapadura” - Luiz Coronel.

    Gaudêncio é um velho taura. Romântico. Criado pela imaginação de uma mente privilegiada. Um vivente de campanha que um dia “pulou a cerca da  vida”.  Onde Gaudêncio anda hoje ninguém sabe. Comenta-se que aquele xiru fantástico nasceu no pampa gaúcho. Aquerenciado naqueles tapetes verdes.
Pastos bíblicos. Arbustos. Umbus solitários. Casuarinas. Céus azuis emoldurando nuvens brancas - por vezes sombrias, chamando os temporais que afastam os pássaros. Rebanhos de gado. Ovelhas. Cavalos de variadas pelagens. Vez por outra, a lo lejos, se vê um ginete - um centauro rodeado de cuscos amigaços, fiéis, prontos a avançar sobre javalis invasores.
    Ah! O fascinante o pampa gaúcho.
Ocorre que, recentemente, o velho Gaudêncio assistiu na televisão (deve ter sido em algum canal celeste de assinaturas) o desfile temático da Semana Farroupilha deste ano. (Desta vez, nela incorporaram, como importantes na produção das riquezas do Rio Grande do Sul, descendentes de gaúchos imigrantes - dentre eles, alemães, italianos e poloneses). Mais recentemente, viu o Encontro de Artes e Tradição Gaúcha, em pleno parque da Octoberfest de Santa Cruz do Sul. Nos dois eventos o velho ficou entre surpreso e fascinado.
    Entretanto, meditando na sua sabedoria campeira, percebeu, desconfiado que nem cavalo torto, que muitas coisas vêm mudando no pampa. Atualmente, nas estâncias mais avançadas, se fala em genética de bovinos, pastagens artificiais, confinamento, certificação, rastreamento dos rebanhos de gado destinados aos mercados internacionais, além de chips nas orelhas dos novilhos e outras coisas inimagináveis para o seu tempo. (Mudaram as relações de produção e as mútuas lealdades das antigas relações trabalhistas entre patrões e peões.) Nessa ocasião, viu águas resplandecentes nas plantações de arroz; viu novos amplos matos de eucaliptos e, novidade, imensas extensões de terras pampianas preparadas para o plantio de soja - nunca tivera visto isso em seu tempo do lado de cá! Hum! Pensou, deve ser o progresso.
    Ademais, na querência das almas dos justos, onde deve estar o velho Gaudêncio, ele também notou que as melodias dos cantos do seu tempo vêm mudando. Pois o velho andou espiando, entre uma nuvem e outra, e percebeu que a música nativista vem sendo, aos poucos, contaminada por sons estranhos. Escutou, num dia desses, a música sertaneja se intrometendo!
Ouviu melodias do seu tempo emolduradas por uma bateria própria de animados rocks musics! Guitarras elétricas! Até um órgão apareceu - com suas pedaleiras e tubos vibrando em sons desajeitados! Só faltou o saxofone.
    Por fim, voltando para o seu canto das almas, mateando, o velho Gaudêncio aprontou-se para um jogo de osso e um truco gaudério. De longe, ainda olhou, com saudades, para uma sanga que conhecera em vida. Nela viu um peixe de prata - era sua adaga que, quando partiu, a havia atirado no fundo do rio.
    Como disse seu talentoso criador, hoje, se alguém ver  “um pássaro bater asas, é Gaudêncio envolto em plumas”.
    Depois, Gaudêncio Sete Luas partiu. De novo. Meio triste.

* Economista, ex-prefeito de Porto Alegre.



SÔBRE O BIOMA PAMPA


A região do Bioma Pampa pode não ter grandes cidades, enormes chaminés industriais, shoppings, condomínios fechados. Muitas áreas são de afloramento basáltico, os chamados “campos duros”. Aí é complicada a agricultura de escala, apenas alguns pedaços, aqui e ali, permitem o plantio direto.
Mas a flora e a fauna nativas são ricas.
Se fizeres uma gaiolinha de tela de  três metros quadrados e a colocares no chão, evitando que os animais comam as plantas, vais ver, depois de algumas semanas, que há uma diversidade incrível de gramíneas de várias espécies. O campo nativo, portanto, não é como um campo de futebol onde só há uma espécie de gramínea. Ademais, nos campos nativos medram arbustos e árvores raras. Dou como exemplo o Pau Ferro, cuja madeira  dura  dezenas e dezenas de anos, conquanto se desenvolva no meio de um pedregal. As florestas ciliares, que protegem arroios e sangas, evitam que falte água durante a estiagem.
Os córregos têm como base as pedras, em muitos trechos há a formação do que se chama de “lagoões”, verdadeiras piscinas que armazenam a água, sob a proteção de frondosas árvores nativas. O gado solto no campo não costuma tomar água em balde ou tanques, é bom lembrar. E poços artesianos são caríssimos e interferem no aquífero guarani.
Assim que começamos a comprar terras contíguas à nossas propriedades víamos, pelos campos, esqueletos de animais silvestres. Percorrendo as invernadas não se viam perdizes, perdigões, veados campeiros, pombões, emas, capinchos, jacus, bugios, marrecas.
O que aconteceu? um milagre! Hoje voltaram os bandos  de jacus, as capivaras (capinchos) banham-se nas sangas e assim vai. É claro que alguns bichos dão uma roubadinha nas lavouras de pastagens, mas isso é pouco se se pensar que o homem roubou bons pedaços de seus “habitats”.
Um dia o falecido Nico Fagundes me disse que o sorro,  tão combatido,  na verdade não comeria cordeiros desde que houvesse outros animais de sua corrente alimentar. Com efeito: a vaca, a ovelha e o cavalo não são nativos da América. Apenas há uns quinhentos anos estão aqui e daí, argumentava ele, os sorros preferem comer outros bichos. Dito e feito: proibí a matança desses canídeos. De qualquer modo não é por causa de um cordeiro que vamos matar um animalzinho que chegou aqui antes de nós, humanos, muitos milênios atrás. Mais: respeitar o meio ambiente pode ser lucrativo. Aqui os animais são felizes. Chegará o dia em que será geral o bem estar animal. Enfim, tenho tantas dúvidas sobre o papel dos humanos no planeta..

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

MAGNÍFICA CRÔNICA DE FRANKLIN CUNHA

Filosofia, música, a comunicação humana e a verdade

George Steiner em” Nostalgia do Absoluto”, pergunta “Tem futuro a Verdade? Responde que em nosso cérebro a busca da verdade está fatalmente impressa. Pela dieta, clima, pelos excedentes econômicos que inicialmente puseram em funcionamento  a potencialidade inata daqueles milagrosos  e perigosos seres humanos, os antigos gregos, para uma grande e continuada explosão de gênio. E o fizeram através da filosofia que é a arte de fazer perguntas.
Citando Heidegger, Steiner repete que as perguntas são a devoção, a oração do pensamento humano. E que nós, ocidentais, somos animais construídos para formular perguntas e tratar de conseguir respostas custa o que custar. 

Mas o que seria a Filosofia? J.P. Feinmann, o filosofo argentino atual responde: ”É um estado aberto, uma correspondência com o ser com o qual queremos nos comunicar e permitir seu e nosso desocultamento. Seriam momentos específicos , nos quais se dá uma comunicação profunda, uma comunicação espiritual. E esses momentos encantados podem se dar através da palavra, do exemplo de vida, da música.  
No filme de Polanski, O Pianista, há uma cena em que um oficial nazista encontra um judeu escondido dentro de uma casa em escombros. Estão separados por mil coisas não há nada que os una. Há um piano e o nazi pede que execute algo. O pianista, que era polaco, toca nada menos do que uma sublime partitura, a balada nº 1 de Chopin.
Ocorre então entre eles uma mediação da arte através da música e isto está à margem da história e da temporalidade, é enfim, uma comunicação filosófica.
O estranho, diz Feinmann que Heidegger dava pouca importância à música.
Mas houve uma ocasião em que o filósofo talvez tenha entendido e gostado de uma melodia. Depois da guerra, quando  estava sendo submetido a um processo por ter colaborado com o nazismo, o filósofo se asilou na casa de um amigo. Este, tentando agradá-lo toca uma sonata de Schubert. Heidegger a escuta e diz: “Isto não podemos fazer com a filosofia”.       
Romain Rolland, escritor e musicólogo, ao receber uma visita de seu amigo Gandhi executou para o indiano o Noturno OP.9 nº 2 de Chopin. Gandhi nada entendia e percebia na música europeia, diferente da música indiana em harmonia, andamento, ritmo e melodia. Ao concluí-lo, Roland perguntou se tinha gostado, Gandhi respondeu “Se o amigo o tocou deve ser uma linda melodia”.
Steiner também conta que uma vez Schumann executou um de seus estudos sinfônicos para piano e quando o finalizou um dos assistentes perguntou: “Mestre? O que significa esta música, o que quiseste dizer com isso”? Schumann o olhou fixamente e tocou de novo o estudo. E essa foi a resposta.
Em tempos sombrios a verdade para vencer a mentira deve ser repetida sempre e sempre como tentou Schumann, como faziam os filósofos gregos há dois mil anos e a grande música do ocidente até hoje.      

Franklin Cunha
Médico
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras                                                                                                                                              
     

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

LIMINARES DE ÚLTIMA HORA


De novo reitero que escrevo para o povo, que nem sempre entende a linguagem jurídica. Eu mesmo sempre procurei ser conciso nas minhas decisões, até que para as partes, destinatárias da decisão, saibam interpretar o que foi decidido. Mais: sempre acreditei que aquele que não consegue ser resumido, rápido, conciso, não domina bem o assunto. Fica dando voltas e voltas, tipo mosca tonta, para no no final, dizer ao que veio.
Vou falar um pouco sobre o “imbroglio” do eminente ministro do STF que, quando não havia mais cafezinho nos bules, quando apagavam as luzes no prédio judicial, profere uma decisão que teve repercussão mundial.
Câmeras, por favor, num forum qualquer. É véspera de um feriadão, o segurança se prepara para apagar as luzes e, eis que do nada, apressurados  senhores adentram e pedem para falar com o juiz. É um pedido de tutela antecipada, uma liminar, um pedido de urgência. Mas o fato que deu origem a essa pressa é de um mês atrás. Só agora, faltando um minuto para o fim do expediente, antes de longo recesso, pedem uma decisão urgente.
Eu procedia assim, quando era plantonista: “se o senhor quer que eu decida agora, pois  tem pressa, vou indeferir e senhor pode voltar ao aeroporto; mas se não quiser assim, vou meditar e despacharei oportunamente”.
Essa de despachar no plantão é perigosa. Há que se ver bem se o assunto é de urgência mesmo, ou é algo para pressionar e impossibilitar qualquer recurso em sentido contrário.
Esse assunto  da execução da condenação da pena depois da confirmação em segundo grau já estava sedimentado em várias cortes. E embasado em sólidos argumentos.
Pois bem, hoje começa o recesso judicial em todas as cortes. Tudo para. Tudo se complica, todo mundo está fixado nas férias, no Papai Noel, nos fogos que vão explodir muitos dedos, nas gordices do dia 31. Mas, meus sais, heavens, meu Deus, my God, mein Gott, no último dia, na última hora antes do recesso, o nobre ministro profere uma decisão até defensável em termos jurídicos. Mas na última hora, quando será difícil a veiculação de uma inconformidade? Quando já está pautado o julgamento do assunto?
Pode ser que quando este artigo for lido, o Brasil arda em chamas, o Toffoli tenha obstado a execução imediata do despacho, as redes sociais enlouqueçam mais do que já estão, o dólar não pare de subir, a bolsa entre em surto psicótico, os parentes voltem a brigar, Bolsonaro tenha que desautorizar um de seus ministros mais afoito. Enfim, ninguém vai morrer, mas o Judiciário morre um pouquinho mais...

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

NATAL ENTRE OPULÊNCIA E SINGELEZA - por Lissi Bender


Comemorar o Natal com opulência e, mais recentemente, com foguetório eu somente conheci aqui, depois de adulta.Celebrar o nascimento de Cristo é enaltecer valores por ele legados como fraternidade, união familiar, harmonia entre os humanos. Valores estes que me parecem não coadunarem com festança, barulheira e comilança. Até por que o aniversariante nasceu em condições precárias e pautou sua vida na simplicidade.
Natal em minha infância bucólica era despretensioso. Nele o aniversariante era e continua a figura central. O pinheiro era ornamentado somente na véspera do grande dia, com pequeninas velas de cera e tufinhos de algodão. Tudo preparado por Christkind, conforme a Wowa alertava.Para não incomodarmos Menino Jesus, estávamos proibidos de entrar na sala. Nossos pais nos ocupavam com afazeres externos para deixar tudo digno do evento.
Durante todo o Advento a casa rescendia a especiarias. Na companhia da Wowa Lídia fazíamos Weihnachtsdoss. Enfeitávamos os Doss com fina camada branca de clara de ovo em neve – a simbolizar as neves natalinas dos ancestrais e os salpicávamos com cristais de açúcar – a lembrar estrelas. Biscoitos natalinos se fazem presentes desde sempre na celebração e para ofertar às visitas. O segundo dia de Natal também era feriado. Ia-se de casa em casa admirar os pinheirinhos e os presépios.E, claro, receber e oferecer biscoitinhos.
Muito mais tarde, já adulta, conheci,nos centros urbanos,o Natal com peru, mesa farta e muitos presentes. Também participei de natais na companhia de famílias de amigos na Alemanha. Lá entrei em contato com um Advento rico em tradições. Por diversos Natais estive na terra de meus antepassados. Em país rico, conheci Natal singelo. Os presentes, muitos, são confeccionados pela própria família (como na minha infância). Principalmente pacotinhos de biscoitinhos ou presentes artesanalmente feitos em casa, ou algo que se sabe ser do desejo do presenteado, principalmente livros. Crianças recitam versos, cantos natalinos ressoam. Mesa disposta com símbolos natalinos e luz de velas. Na família de minha amiga Sabine Heinlea KöniginPastete (cestinha de massa folhada, recheada com RagoutFin) é servida com salada. Na família de meu amigo professor Engels serve-se salsicha grelhada com salada de batata à moda schwäbisch. Na família Rosemann, cujo filho é deputado federal, sempre sou recebida com uma grande variedade de biscoitinhos, feitos pela sua mãe, minha amiga Jutta, e Champagne. Noite de véspera, 22:00 horas é a vez do culto natalino à luz de velas e canções natalinas que vêm de longe, presentes em natais há muitas gerações e se ouve repicar de sinos por toda parte.No almoço em dia de Natal serve-se, principalmente, carpa ou ganso assado, com algum acompanhamento. As visitas são recebidas com biscoitinhos e Christstollen– cuca natalina –diante da árvore natalina, como sempre foi na minha infância: Natal singelo mas, por toda parte percebo espírito natalino presente.A propósito, o segundo dia de Natal continua feriado lá, e sem foguetório, porque Natal não é Noite de São Silvestre.
*Lissi Bender – doutora em Ciências Sociais, vice-presidente da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.
lissi.bender@gmail.com

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

17.12.69 - MINHA FORMATURA NO DIREITO DA UFRGS - REMINISCÊNCIAS CRUÉIS



 Em 1964 eu recém chegara a P.Alegre, trabalhava o dia todo no escritório de uma firma, estudava de noite no Julinho, para onde ia a pé.
Estava preocupado em não passar fome e em passar no  vestibular.
Eu vinha de uma família conservadora e, na verdade, estava preocupado com outras coisas.
Mas eu me lembro que nas ruas houve, a par dos protestos, demonstrações de júbilo pela deposição de Jango. Até um parente meu e sua esposa deram suas alianças de ouro para a campanha " Dê ouro para o bem do Brasil" .
Só após ingressar na Faculdade de Direito da UFRGS fui me inteirando desses grandes embates  ideológicos.
Estando já no quarto ano de Direito, soube que estava aberto o concurso para Delegado de Polícia, a que tinham acesso os bacharéis e os acadêmicos de Direito em final de curso.A dica me foi dada pelo colega Nelson Soares de Oliveira.
Inscrevi-me e fui aprovado. Fiz o curso na Academia de Polícia, onde, modéstia a parte, me classifiquei em primeiro lugar e fui orador da turma. 
A academia funcionava no último andar do Palácio da Polícia. Certa manhã ouviram-se gritos aterradores lá do térreo. Era nítido que estavam torturando alguém. Levantei-me na sala e protestei ante os colegas e o professor. Este disse apenas:
- cuidado rapaz, isso que estás fazendo é perigoso.
É testemunha do episódio o hoje Procurador de Justiça aposentado Antonio Dionísio Lopes, meu colega de turma  na Polícia.
No  dia da minha formatura em Direito, em 1969, pedi minha exoneração do cargo de delegado e fui advogar.
Em 1971 me submeti a concurso para Juiz de Direito.
Fui aprovado com  mais  uns 20 candidatos. Na época a nomeação era feita pelo Governador, mas a tal de nomeação não saía.
Até que alguém me assoprou que o motivo era eu. Eu seria comunista. 
Fui falar com o delegado  Pedro Seelig, que fizera a academia comigo e me queria bem, como eu a ele, e lhe expliquei o  caso.
Agora vem uma parte que hoje considero quase risível.
Pedro me perguntou:
- mas tu és comunista mesmo?
Respondi que não tinha tido nem tempo para ler Karl Marx, muito menos me dar ao luxo de ser comunista..

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O VALOR DO COSTUME


“Consuetudo loci  observanda est”, já diziam os antigos romanos de quem herdamos tantas jóias jurídicas. Os costumes do lugar devem ser observados. O Direito romano perdura até hoje, tendo tido, de parte dos germânicos, um aperfeiçoamento notável. Há muitas obras interessantes narrando como  os antigos romanos, além de conquistarem a então “Germânia”, difundiram seu sistema jurídico e mais, deixaram incrustado o latim na língua hoje alemã. Exemplos: soldat, revolution, apparat, vater e por aí vai.

No nosso
sistema jurídico o costume sempre foi considerado como uma das fontes do
Direito.

Pois no
campo o costume local deve ser observado, não só no aspecto jurídico, mas no
social. Vou dar exemplos: muitos negócios ocorrem com base no costume. Na
região onde temos fazenda os campos são medidos em quadras de sesmaria, que
equivalem a 87,12 hectares. Nos arrendamentos de campo duro, por exemplo, se
for para pecuária, o valor do arrendamento anual, por quadra, é de  cerca
de 4.000 quilos de boi gordo ao ano. Toma-se o valor do quilo vivo ( no Rio
Grande do Sul não se usa arroba) do boi como multiplicador. É assim e não se
muda.

Existem,
porém, outros costumes sociais. Na sexta-feira santa ninguém trabalha. Essa
data é cheia de preceitos. Nem pensar em comer carne, beber leite, se olhar no
espelho, dar risada, dançar ou até namorar, nem mesmo sendo a patroa…

A casa do
peão ou do capataz casado é um lugar sagrado, mesmo não sendo de propriedade
deles. O dono não pode chegar na porta da casa do empregado e ir entrando,
muito menos se ele não estiver. A esposa atenderá na porta.

O gaúcho
pampeano é muito cerimonioso no trato interpessoal. Assim, é de ótimo alvitre
dar tratamento de senhoria ao capataz e aos peões. Para as esposas também. E
tratar com muita prudência as filhas.Nada de gracejos ou comportamento dúbio. O
campeiro tem um zelo enorme por sua família e um desrespeito moral pode
terminar mal.

No caso
de um vizinho ter um cachorro matador de ovelhas, você terá que pedir a ele as
devidas providências e não agir por conta própria. É certo que ele solucionará
o problema. No caso de um animal alheio varar para sua propriedade, você mesmo
pode, havendo porteira, colocá-lo de volta. Do contrário tu levas o animal até
tua mangueira e avisa o proprietário para o buscar.

Sobrevindo
uma seca danada e os açudes e sangas do vizinho secarem, é costume secular
deixar o lindeiro trazer os animais mais fracos, desde que teus açudes ou
sangas estejam  em condição ainda não crítica. E para nada disso existe
contrato, papel ou lei..

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

PEDRA E VIDRAÇA - POR TITO GUARNIERE


TITO GUARNIERE
PEDRA E VIDRAÇA
Pareceu a muitos que quando o ex-juiz Sérgio Moro aceitou participar do governo de Jair Bolsonaro, na pasta da Justiça, nós ingressaríamos numa fase nova e virtuosa da política nacional. Mas o que se tem visto é um Moro que, em assuntos mais cabeludos, como são os do mundo inóspito da política, se comporta de forma muito parecida com os seus antecessores.
Voltou às manchetes a acusação de que o futuro ministro da casa Civil Onyx Lorenzoni teria recebido recursos de campanha do caixa dois de uma empreiteira. Moro, interpelado a respeito, ao invés daquele rigor vertical de juiz, que era a sua marca, saiu-se com a velha e surrada versão de que não havia provas. O forte do juiz Moro, até então, nunca havia sido levar em conta o princípio legal da presunção da inocência.
O ex-juiz Moro, futuro ministro, fez ainda pior no caso das movimentações financeiras incomuns do ex-motorista Fabrício Queiroz, que servia Flávio Bolsonaro, filho do presidente e senador eleito pelo PSL. Indagado a respeito pelos repórteres, “não ouviu” a pergunta e se retirou da entrevista sem responder.
É a vida como ela é. O ministro, ainda mais ele sendo Moro, tem de enfrentar as perguntas incômodas e até a insolência dos jornalistas. A imagem que passava, a visão ingênua dos eleitores, permitiam supor que talvez pudesse ser diferente. Não é. Os embates políticos, a cobertura da imprensa, são mais ou menos iguais em toda parte.
O caso do ex-motorista é inquietante. São muito próximas as relações de Queiroz - além dele a mulher e duas filhas foram funcionários do gabinete de Flávio - com a família Bolsonaro. Um funcionário de gabinete de político andando para cima e para baixo fazendo transações bancárias em dinheiro vivo - 176 entre os anos de 2016 e 2017 -, tomando o cuidado de não realizar operações superiores a R$ 10 mil (que acionam alerta automático no COAF), e um depósito de R$ 24 mil reais na conta – vejam só – da mulher do presidente eleito, Michelle Bolsonaro, nada disso é normal. Ao menos se usarmos a régua moral draconiana que Bolsonaro, Moro e Onyx Lorenzoni costumavam aplicar em relação a outros acusados de malfeitos.
O presidente explicou que era um empréstimo, e que o motorista Queiroz havia feito o pagamento na conta da esposa, porque ele não tinha mobilidade para isso. É razoável, embora há poucos dias, já presidente eleito, ele fez questão de ir pessoalmente a um caixa eletrônico para retirar dinheiro. Neste caso foi para agradar a clientela, dando uma de homem comum.
Mas se era para pagar um empréstimo, porque depositar na conta da esposa? E desde quando o credor precisa ir ao banco para receber o valor de uma dívida? O empréstimo estava declarado no imposto de renda do credor (o presidente) e do devedor? Ao que parece não houve tempo ou lembrança para tal formalidade.
Não estamos diante de nada grave, salvo fatos novos a respeito. Mas não existe isso de nova política e velha política. Há apenas a política, seu universo de intrigas, trairagens, pequenos delitos, às vezes grandes, situações simples de explicar e outras mal explicadas. É fácil ser pedra. Difícil é ser vidraça.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SAUDADES DA UNISTALDA AMADA







Estava me lembrando que a maioria dos fazendeiros iniciava a tosquia em janeiro. Achei que era de melhor alvitre antecipar para  novembro. Para mim, na ocasião, deu certo.
Mas as coisas vão mudando e se não acompanhares, vais te dar mal. 
Sou um homem que se adapta fácil a novos lugares:  não fico incomodando com as manias que toda região tem, de norte a sul, de leste a oeste. Quando mudo de posição, não fico falando mal de onde estive. Só me lembro das coisas boas.
Quando meu filho Rudolf estudava em Santiago achei que melhor seria cursar o ensino médio em P. Alegre. Custou a se readaptar, mas cursou o Direito na PUC,na Capital,  se forma agora no fim do ano e já foi aprovado nos exames da OAB. Passa, porém, indo a Santiago e Unistalda com seu valente Renegade diesel.
"Quando é tempo de tosquia", que saudade.
Ainda somos proprietários da fazenda, da Pecuária Gessinger, mas outra pessoa assumiu a administração e , como dizem os irmãos Sagrillo, " o negócio tem que ser bom para os dois" e para nós é muito bom. estamos lidando com uma pessoa honesta e inteligente.
A vida é assim, estou feliz morando em P. Alegre, Xangri la, Rio de Janeiro( no inverno), e visitando meu filho na Alemanha. Filhos e filhas todos bem colocados .
Maristela prestes a se aposentar.
Mas não há dia em que não pensamos em Santiago e Unistalda. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

CRÔNICA DE ROSANE DE OLIVEIRA



Precisa-se de artistas para tornar o mundo menos sombrio

Tenho curiosidade em saber do que se alimentam, onde vivem e que água bebem essas pessoas que se ufanam de desprezar a arte e quem dela faz seu ganha-pão

Das coisas bizarras que circulam na internet, uma das mais reveladoras da pobreza de espírito diz mais ou menos assim (para atacar as leis de incentivo à cultura): "Eu já precisei de médico, de dentista, de engenheiro, de advogado... mas nunca precisei de artista". Fico a imaginar do que se alimenta uma pessoa que despreza os artistas. Será que essas criaturas nunca se emocionaram com um filme? Não ouvem música? Não apreciam um belo quadro? Jamais foram ao circo? Não leram um bom livro? Não aplaudiram uma bailarina? 

Pois eu preciso dos artistas com mais frequência do que de profissionais de qualquer outro ramo. Podemos não gostar deste ou daquele estilo, mas o que seria um mundo sem música? Sem pintura? Sem literatura? Sem escultura? Sem malabarismo nas esquinas? Sem cinema? Sem teatro? Sem novela? Sem dança? Sem museus? Prefiro não imaginar. Mais fácil acreditar que quem diz não precisar de artistas é apenas um produto da miséria intelectual que ganhou visibilidade nas redes sociais ou da frustração de jamais ter recebido um aplauso.

Tive uma infância de escassos contatos com a arte. Criança, ficava extasiada com os tocadores de gaita e de violão. À noite, sentávamos diante de um velho rádio para ouvir aquelas duplas que cantavam a vida no sertão (Pedro Bento e Zé da Estrada, Zé Fortuna e Pitangueira, Tião Carreiro e Pardinho). Teixeirinha era ídolo na minha aldeia, cantando coisas que falavam ao coração dos homens do campo, como O Colono ("Não ri seu moço daquele colono/ agricultor que ali vai passando/ é um brasileiro da mão calejada/ de sol a sol vive trabalhando/ ele não veio aqui te pedir nada/ são ferramentas que ele anda comprando..."), Tropeiro Velho ou Tordilho Negro. Na Rádio Ibirubá, Roberto Carlos cantava "Debaixo dos caracóis/ dos seus cabelos/ um soluço e a vontade/ de ficar mais um instante...". Só muito tempo depois vim a saber que o rei não cantava para uma donzela de cabelos crespos, mas que aquela era a canção do exílio de Caetano Veloso. Esse mesmo Caetano que não canso de ouvir cantando Un Vestido y un Amor em versão melhor do que a de Fito Páez.

Minha carreira de artista começou e terminou aos sete anos, numa encenação na escola São Judas Tadeu. Escalada para o papel de Chapeuzinho Vermelho, desisti no primeiro ensaio quando soube que o lobo (Moacir Soares) seria esfaqueado pelo caçador e, de um saquinho cheio de Q-suco de groselha, jorraria o sangue cenográfico.

 Nunca atuei, mas tornei-me admiradora dos atores e atrizes. No dia em que tive a oportunidade de abraçar Fernanda Montenegro, a sensação foi semelhante à da epifania de ver no Museu do Louvre os quadros de Nossa Senhora que conhecia pelas reproduções chamadas de "santinhos" distribuídas pelo padre na igreja da Volta Vitória em que fiz a Primeira Comunhão.

Adulta, colecionei os fascículos de Os Mestres da Pintura, juntei trocados para comprar As Obras-Primas da Literatura. Poupei para ver os shows de Chico Buarque em Porto Alegre e comprar todos os seus discos. Fui ao Rio só para ver Paulinho da Viola. Aproveitei um sábado de folga para visitar o Museu Nacional de Shanghai (em vez de ir às compras na primeira viagem à China). Chorei de emoção assistindo à Filarmônica de Berlim regida pelo maestro Claudio Abbado. Vi A Bela e a Fera (na Broadway, no Gigantinho, no cinema e na escola dos meus filhos). Encantei-me com o teatro Kabuki em Kioto, com o flamenco em Barcelona, com os cantores de fados no Bairro Alto, em Lisboa. Levei minha filha adolescente para conhecer um espetáculo de tango um dia depois de termos aplaudido a Filarmônica de Buenos Aires no Teatro Colón. Tenho o Margs como um dos lugares mais sagrados de Porto Alegre. Dedico parte das minhas férias a visitar museus, gosto de novelas, adoro cinema, tenho paixão por bons livros. 

Poderia viver sem artistas? Talvez, mas a vida seria completamente sem graça.