quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O CÉU TEM MAIS UMA ESTRELA

Cleonice Gessinger, casada Kraether, minha irmã mais nova, minha baita amiga desde todo o sempre,partiu.
 Por sinal, eu me divertia muito pelo fato de haver uma época, em setembro, em que Lia, minha outra irmã e eu tínhamos a mesma idade, de seis a 27 de setembro de cada ano. Nós dois nascemos “em domicílio” como se dizia antigamente. Isso lá na Linha Arlindo. Era na base da parteira e estava feito o brique .Já a Cleonice nasceu quando  morávamos na cidade e olha que chique, a mãe deu a luz no hospital. Meu pai era enlouquecido pela Nice. Enquanto Lia e eu também éramos tratados com carinho normal, nossa irmã mais nova mandava literalmente no pai e na mãe. 
Nice se escapou de ter morrido lá pelos três anos de idade. Meu pai tinha um armazém e não é que essa guria travessa foi subir numa pilha de sacos de feijão? Pai e mãe estavam na parte da frente do armazém, quando se ouviu um barulhão. Eram os sacos desmoronando. Meu pai subiu correndo para o depósito e lá estavam os sacos amontoados. Num frenesi começou a retirar as bolsas até que viu uns fios de cabelinho louro aflorando. Retirou mais dois sacos e lá estava a guria sem um arranhão. Deus quis que ficasse entre o vão de dois sacos.
Nice sempre foi muito mimosa, mas não gostava de ser forçada a nada. Quando meu tio Afonso Gessinger S.J. foi ordenado padre, a festa foi em Boa Vista. Nice era a anjinha madrinha, toda vestida de branco. Pois chorou o tempo todo, já que não queria exercer tal papel. Vendo-se as fotos antigas da carinha dela , não tem como não convir que atualmente seria caso de chamar o Conselho Tutelar.
Ao contrário de Lia e eu que gostávamos dos luxos da casa dos avós paternos, Nice não se desgrudava de sua mãe e de sua avó Bertha, na humilde casa sem água corrente e sem luz elétrica. Gostava de correr descalça e ajudar a pegar os ovos lá no galpão ou ir de carroça com o Tio Lino Etges buscar pasto para as vacas.
Nice casou-se bem jovem com o dr. Raul Kraether. Raul mostrou ser um cavalheiro ao  aceitar que o casamento fosse na igreja católica, pois era luterano. Mas com Nice não tinha grêgrê para dizer gregório.
Foram vindo os filhos. Léo, Juliana e Henrique. Minha mana parecia uma galinha choca com seus filhos. Era impressionante ver seu desvelo, seus cuidados. Seguindo os passos de seu pai Raul, odontólogo de grande renome, todos os três filhos abraçaram a Odontologia. 
Nice viveu para seus filhos e, depois, para seus netos.Era mãe, avó, amiga e conselheira.

Partiu antes do tempo. Agora ela é uma estrelinha brilhando no céu.

domingo, 4 de agosto de 2019

HAPPY HOUR CULTURAL


Nesses tempos de redes sociais está cada vez mas difícil uma conversa com pouca gente, nada de TV
ou barulho, mas sim violão, violino ao vivo e um vinho especial.
Conversa fluindo . O tempo passando sem a gente perceber. 

Na foto o acadêmico Franklin Cunha em sua residência no meio das árvores, Maristela e eu , Rosane de Oliveira e seu esposo o escritor Tailor Diniz. Não se falou em política. Só amenidades.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O GRE-NAL DO SEU ELEUTÉRIO


Seu Eleutério nasceu, cresceu e se fez homem na Vila Florida, Santiago. Herdou de seu pai 300 hectares de campo, que não eram muito, mas não eram pouco.  Foi na Vila Florida que mataram o juiz dr. Moisés, que tinha ido fiscalizar uma urna. Os votos eram de papel e havia a notícia de que uns desordeiros iam falsificar os papéis. O dr. Moisés, juiz de Santiago , foi lá para coibir esses desaforos, mas um facínora  puxou do smith wesson e o baleou. Hoje o dr. Moisés é patrono da Justiça Eleitoral do Brasil.
Seu Eleutério criava gado “poliango” e ovelhas “corriedal”. Onde morava não existia ainda televisão. Mas pegava bem, de noite, a rádio farroupilha de Porto Alegre, além das desgranidas estações dos castelhanos. Também pegava a rádio Santiago, do seu Jaime Pinto.
Seu Eleutério tinha duas taras: uma era, em dia de chuva, pegar sua Rural Willys e ir para Santiago jogar truco do Club União e depois dar um carinho para as prendinhas na casa da “Pintinha”. A outra era ser fanático torcedor do Internacional, o Colorado.
Seu Eleutério nunca tinha assistido um jogo de futebol de verdade, nem em Santiago. Mas sabia a escalação do time do Inter de 1955: Milton, Florindo e Oreco; Mossoró, Odorico e Lindoberto; Luizinho, Bodinho, Larry,Jerônimo e Canhotinho. Quando se passava nos tragos, insistia em lembrar  e recitar a escalação.
Seu Eleutério tinha um problema, que era uma pontada “nos polmão”. Achando que sua vida estava meio para o fim, decidiu visitar sua filha, que morava em P. Alegre. Ele iria com um neto ver um Gre-Nal. Era nos Eucaliptos.
Seu Eleutério lustrou bem as botas, foi no barbeiro arrumar os cabelos e não dormiu duas noites de tanta ansiedade.O trem saía de Santiago 20 horas, fazia baldeação em Santa Maria e chegava em Porto Alegre 8 da manhã. Tinha um vagão restaurante em que comeu ovos fritos com bife. Tomou todas, percorreu os vagões, encontrou vários estancieiros, com os quais proseou a noite inteira, alternando uma pinga com cerveja Gazapina.
O trem chegou em Porto Alegre com algum atraso, só  11 da manhã, mas a filha estava esperando. Se abraçaram, se relincharam bastante, pegaram um carro de praça e se foram para o Passo da Areia, onde a filha morava.
Seu Eleutério não quis almoçar, só descalçou as botas e se atravessou no sofá para tirar uma pestana. O jogo era 16 horas e o trem de volta saía meia noite. Seu Eleutério acordou com um barulhão de tiros e foguetes.O jogo tinha terminado 1x0 para o Inter.
E a filha: “Pai, tu tava dormindo tão bonito, que não quis te acordar.”

quinta-feira, 11 de julho de 2019

SOBRE AS DECLARAÇÕES RECENTES DE FRAU MERKEL


Penso,  pedindo antecipadas desculpas a quem discorde, que a Alemanha não está em condições, como nenhum país está, de censurar nosso presidente, que recém foi empossado no cargo, com o apoio de milhões de brasileiros.
Recentemente a renomadarevista Der Spiegel publicou ampla reportagem sob o título  “die fettenJahre sind vorbei” em tradução livre: “os anos gordos se foram”. Num subtítulo consta “ wir sind ärmer, als wir meinen” ( somos mais pobres do que pensamos”). E em outro parágrafo: “gastamos mais dinheiro com o passado do que com ofuturo”.
Como é bem de ver, a situação não é de otimismo, pois já ouvi de várias pessoas que a Alemanha tem dificuldades.
Creio que os alemães superaram um pouco o “Schuldkomplex” ( complexo de culpa)por causa das duas guerras em 50 anos .É difícil entender como ir para uma guerra quando, mesmo que vencessem, não teriam paz, nem futuro. 
Lembro-me bem que há poucos anos os atletas da seleção alemã não cantavam seu hino nacional, por medo,segundo concluo, de serem nacionalistas em excesso.  Por sinal, só cantam o último verso, abandonando, com razão o “Deutschland über alles”. Ainda bem que permaneceram com  um dos movimentos do Quarteto do Imperador de Joseph Hayden, que é a música do hino alemão.
No momento em que o Brasil quer parcerias, quer voltar a crescer, a senhora Merkel manifesta sua desconfiança de que vamos acabar com  o pulmão do mundo.
 Argumentam que, junto com a Noruega, a Alemanha manda muito dinheiro para que a Amazônia não seja dilapidada. Não saberia dizer se esse dinheiro vai para as mal explicadas ONGs ou o que. O que é óbvio é que nosso país não tolera interferências em sua plena soberania sobre seu território.
Nossas leis ambientais são rigorosas. Claro que há problemas na Amazônia, mas isso não quer dizer que queiramos sua destruição.
Por essa razão lamento, como descendente de alemães, que a senhora Merkel não tenha sido mais prudente e cuidadosa. Somos um povo afável, bom de dialogar.
O Brasil tem tudo: rios,cachoeiras, pecuária, soja e demais grãos, enormes áreas que permitem produção de alimentos naturais em escala,  riquezas que poucos países têm. Mais:tem  alegria!
Quando o avanço da tecnologia for corriqueiro, a briga vai ser por água e alimentos. O Brasil agora é um ótimo parceiro . E a Alemanha também o é. Parceiros não devem brigar.
Hostilizar um chefe de Estado não é bom negócio.

domingo, 7 de julho de 2019

O homem na Lua e muita gente nua - Flávio Tavares




O homem na Lua
 e muita gente nua
     FLÁVIO  TAVARES*

O  cinquentenário da chegada do homem à Lua, no próximo 20 de julho, não é apenas data de festa e júbilo pelo que a ciência e a tecnologia alcançaram. O maior e mais admirável feito da História humana nos obriga, também, a uma profunda reflexão crítica sobre o comportamento e a atividade de cada um de nós, habitantes do planeta: o que aprendemos com aquela façanha de amor e dedicação à ciência, ou de que nos serve no dia a dia?

    A própria ciência tem centenas de respostas, desde a antevisão de desastres naturais até as previsões da meteorologia, além do que descobre aos poucos, ao entender o universo.

   Nosso humanismo, porém, pouco – ou nada, até – aproveitou para valorizar nossa vida na Terra a partir da comprovação da desolação da Lua, onde tudo é inércia e morte. Aqui, onde a água dá cor à vida, tratamos o planeta com desprezo, como se a natureza não nos protegesse e nossos semelhantes fossem indesejáveis intrusos.

  Fui um dos bilhões de habitantes da Terra que, naquela madrugada do domingo 20 de julho de 1969, assistiram ao vivo, pela televisão, aquilo que mais parecia o deslumbramento de um sonho fantástico. Até então, a inatingível Lua só era perscrutada pelos telescópios. Ou era, apenas, um relato poético, um Sol noturno dos namoros apaixonados. “Levar-te-ei à Lua!”, exclamavam os namorados (assim, em mesóclise), no êxtase da paixão.

   Naquele momento, a façanha da astronáutica mudava a correlação de forças na “guerra fria” e os Estados Unidos passavam à frente da União Soviética. Doze anos antes os russos haviam lançado o Sputnik e em 1961 Iuri Gagarin fizera o primeiro voo espacial. Naqueles tempos de 1950-1970, tudo se circunscrevia à disputa entre as duas superpotências e isso fez a repercussão política do feito superar a visão humana e da ciência.

   Hoje, a cada dia mais sabemos da desolação lunar. As fases da Lua ganharam suportes científicos que explicam sua influência na Terra. Assim, a todo instante o universo e o Sistema Solar passam, também, a fazer parte da nossa vida. A astronomia tem nova e mais ampla dimensão. Se ainda indagamos os astrólogos para saber do amanhã, é apenas por nosso apego ao lúdico, esse atávico amor ao inesperado, originado na tradição e em nosso apego à fantasia.

  Não aprendemos, porém, a grande lição de o ser humano ter pisado na Lua. Em vez de tentar entender o universo, ou em vez de nos sentirmos pequenos ante ele, a cada dia destruímos nosso planeta, obra suprema do processo da Criação.

    Nos últimos cem anos, em nome do “progresso”, devastamos a Terra muito mais do que a destruição acumulada ao longo dos bilhões de anos do planeta. Sabemos que o aquecimento global é catastrófico e que as mudanças climáticas nos levarão a uma desolação comparável à da Lua, mas permanecemos praticamente inertes. Seduzidos pela cobiça e por suas prazerosas pequenezes, continuamos a desmatar imensas áreas verdes, como a Amazônia. Ou a poluir e degradar terras, águas e ar, como em Brumadinho ou em Mariana.

    A extração e o uso dos combustíveis fósseis – em especial, o carvão – são apontados pela ciência como os principais responsáveis pela hecatombe do aquecimento global. Com base nessa constatação, as reuniões intergovernamentais promovidas pela ONU vêm advertindo para o horror à vista e fixando datas e metas para evitá-lo, ou acertando acordos sobre o clima. O de Paris, mais recente, ampliou o que fora acertado já em 1992 na cúpula de chefes de Estado no Rio de Janeiro. O papa Francisco aprofundou o debate na encíclica Laudato Si’, fez a teologia tocar no tema fundamental – a vida – num alerta que ele próprio renova a cada momento.

    A série de intermináveis pequenezes do dia a dia, porém, desvia nosso olhar do essencial e vemos tudo sem enxergar nada. É como anoitecer ao meio dia, à luz do Sol, e usar lanterna ou lampião para vislumbrar o próprio rosto.

    Imprensa, rádio e televisão mostram, todo dia, nosso desdém pela natureza, que é vida em si. As geleiras derretem-se na Groenlândia e no Himalaia. Na Antártida, no inverno do Hemisfério Sul, a terra preta mostra que o gelo sumiu.

   O desdém irresponsável torna-se criminoso também aqui, ao nosso redor. A poucos quilômetros da nascente, as águas do rio Tietê estão infestadas de espuma branca industrial, num horror antes visível apenas na cidade de São Paulo. A Petrobrás e as demais petroleiras que exploram o nosso litoral jogam no oceano (sem nenhum tratamento) o equivalente a mais de 2 mil caminhões de cascalho e areia encharcados de óleo, por ano. E o fundo marítimo se infesta de HPA, um hidrocarboneto de alto poder cancerígeno.

       Como serão os segredos devastadores da exploração do nosso pré-sal?

    Ao norte do País, a cobiça continua a desmatar a Amazônia. Agora o atual governo nos expõe ao ridículo espetáculo circense de que a Alemanha e a Noruega tenham de “convencer” nosso ministro do Meio Ambiente a proteger nossa floresta. Ao sul, o projeto de uma mina de carvão a céu aberto degradará, em poucos anos, o rio Guaíba, que abastece a capital gaúcha.

    Somos o país que mais consome agrotóxicos, permitindo aqui até pesticidas proibidos na Europa e nos Estados Unidos. A lista de nosso irresponsabilidade é longa, sempre incompleta por ser interminável...
      Faz 50 anos, ciência e tecnologia levaram o homem à Lua. Não aprendemos, porém, a viver em paz e em solidariedade. Somos difusos e complicados, ternos e brutais. As religiões e filosofias surgiram para nos emendar ou regenerar, mas o delírio da condição humana não se dissipou.
     Hoje conhecemos a Lua, mas cada vez há mais gente vivendo na rua, ignorando o mundo, às vezes quase nua.
- -
*  JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM  2000 E 2005, PRÊMIO APCA EM 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
 (Por especial e honroso pedido do dr. Franklin Cunha)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

COMENTÁRIO DO ACADÊMICO FRANKLIN CUNHA


O Padre Clovis Lugon, jesuíta suíço, escreveu um livro que sugiro  sua leitura por quem se interessa pelo tema oportunamente exposto pelo Dr. J.F.Rogowski.
“ A República  “Comunista” Cristã dos Guaranis , 1610-1768, Editora Vozes.
Sempre que sou abordado por um indiozito  tremendo de frio e me oferecendo cestinhas de vime para comprar um pão,
lembro-me da República Guarani e  de sua violenta e anti-cristã destruição por parte dos reinos da Espanha e de Portugal. Tratava-se de um exemplo que corria o risco de se propagar e ameaçar os dois impérios invasores e predadores  da América.
Sursum corda !!
Franklin Cunha


CRÔNICA DO JURISTA E TEÓLOGO ROGOWSKI

Ainda bem que hodiernamente se têm consciência acerca da contribuição que os africanos deram ao Brasil, mas olvida-se a questão indígena, máxime, em nosso Estado (RS), cuja história é riquíssima com a epopeia dos  Charruas, Minuanos e Guenoas.
Certa feita solicitei a um candidato quando em campanha para vereador em Porto Alegre, que visitasse um alojamento indígena no bairro Vila Nova, zona sul, e ali constatasse a penúria em que eles vivem, produzindo algum artesanato vendido nos semáforos por crianças que, um pouco vendem, outro tanto pedem esmolas.
O candidato desatendeu minha sugestão e não se elegeu, ninguém mais quer assumir uma bandeira de luta, compromisso com uma causa meritória e autêntica, miram somente em seus projetos pessoais, por isso, tanta rejeição do povo à classe política.
E pensar que através da educação ministrada pelos jesuítas floresceram os sete povos das missões com um nível cultural muito acima do dito "homem civilizado".
Grandes artistas da música, pintura, escultura se revelaram em meio aos indígenas, bem como, aflorou-lhes um senso de empreendedorismo comunitário, obviamente, tudo ensinado pelos Padres, daí a ideia da criação e comércio de mulas, transporte de cargas, produção da erva mate para abastecer o Estado e os países platinos.
Talvez os Padres só olvidaram uma coisa, as advertências bíblicas, "vigiai e orai", "orai sem cessar", pois, sempre me pareceu que grandes projetos nascidos do coração de Deus para abençoar milhares de pessoas logo são atacados pelo maligno e acabam malogrando, não raro de maneira trágica, com muita violência e derramamento de sangue como aconteceu na Guerra Guaranítica (1750 - 1756) com  o massacre dos índios.
Uma das mais instigantes teses científicas da atualidade, os "campos mórficos", proposta pelo cientista inglês Rupert Sheldrake, segundo a qual os campos mórficos são estruturas que armazenam informações (têm memória) e  se estendem no espaço-tempo, portanto, não me espantaria se o que visses foi de fato uma "assombração", ou seja, uma "gravação", um registro dimensional no espaço-tempo, porém, o que me assombra e assusta de verdade,  é o descaso com a história e a questão indígena gaúcha.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

TAPERAS E SEUS MISTÉRIOS





Vou embolar dois assuntos.
1)“Cuando se abandona el pago, tira el caballo adelante y el alma tira pa’ trás.”
É assim que nascem as taperas, os ocupantes das casas as abandonam, o cavalo puxa para frente, mas a alma puxa para trás.
Nos nossos campos há várias taperas.Mas lá, perdida no meio de uma invernada de campo nativo, há uma  especial. Me disseram que ali moravam fantasmas. Ainda restam algumas paredes. A casa era de pedras superpostas, com amálgama de barro. O  telhado ruiu ou foi levado pelo vento e o mato tomou conta. Um dia, numa linda tarde de domingo, decidi ir solito até a tal tapera, montado no meu cavalo Poeta.
Cheguei, apeei do cavalo e me estirei sobre a relva macia. Acabei adormecendo. Senti uma espécie de inquietude que acelerou meu coração. Me deu a impressão de que via, num átimo,uma jovem descendo a vereda, pelo trilhozinho, em direção à sanga, com um balde. Tinha longos cabelos negros, usava um xale de lã crua, calçava chancletas de couro cru.Percebi a voz de um homem com sotaque castelhano. Ela implorava que ele ficasse no rancho pois "diz que" andavam degolando sem piedade por aí...
Abri os olhos. Voltei à realidade.Teria sido o vento ,que causava assovios no taquaral, imitando vozes?Seriam as almas penadas ocupando a tapera?Ou apenas um sonho?
2)É certo que os campos dessa região já foram habitados por índios guaranis, fugidos da perseguição do homem branco, tentando salvar seu modo viver.
No riacho Itacurubi, que hoje dá nome a um pequeno município encostado em Unistalda,teria sido  morto o índio e lider Andresito Guazurari. O meu querido amigo Nico Fagundes, que tantas vezes me honrou com sua estada na minha estância, era um admirador desse heróico defensor de  seu povo. Levei, certo dia,Nico  até o outro lado de São Borja, a Santo Tomé,Corrientes, onde há um enorme monumento em honra de Guazurari. Nico,inclusive, deu o nome de Andresito a seu filho mais novo.
Guazurari é venerado nas províncias de Misiones, Corrientes e na região missioneira do RGS. Lutava pelo seu povo que queria continuar livre, com seus costumes e seus deuses.
Nossa História missioneira é pouco estudada no RGS, ao contrário da outra margem do Rio Uruguai.
Lí, não me lembro onde, que um cacique teria dito ao padre que o queria converter: “ o problema é que o deus de vocês é muito brabo”.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

DA SABEDORIA ANTIGA

Sempre gostei de História e principalmente de normas e provérbios antigos.Hamurabi, que viveu cerca de 1.700 anos antes de Cristo, compilou uma série de leis. Maior parte delas hoje nos pareceriam cruéis. Uma das mais famosas é a “ olho por olho, dente por dente”. Mas entre as dezenas delas , uma me impressionou. Dizia , em síntese, que se um “ awilum” ( cidadão) tivesse bens furtados e não soubesse o autor, deveria ir ao Templo descrever tais objetos, jurando serem verdadeiras suas alegações, que seria ressarcido pelo tesouro real. O que é isso senão a responsabilidade objetiva do Estado, que temos hoje?
A Bíblia, como todos sabemos, é uma compilação de preceitos, narrativas, ordenações, provérbios. A mim interessa muito o Antigo Testamento.
Hoje, já com os cabelos tordilhos, posso assegurar que a maioria dos provérbios que se acham na Bíblia, bem como nos repositórios de quase todas as civilizações, são pérolas do saber.
Vamos para o livro dos provérbios da Bíblia. No capítulo 22 está escrito: “ Bom renome vale mais do que grandes riquezas, a boa reputação vale mais que a prata e o ouro” . 
Com efeito, quantos exemplos temos de pessoas ímprobas, que acumularam riquezas até mais não poder, usando de meios ilícitos e que, ao chegarem no último quarto da vida ,amargam não terem  nem o afago e nem a assistência de seus descendentes. Tendo já falecido e ante a menção de seu nome, nenhuma frase de louvor e respeito, mas o desdém.
Vamos ao versículo 23.22. “ Dá ouvidos a teu pai, àquele que te gerou e não desprezes tua mãe quando envelhecer”.
Aqui se cria, hoje em, dia um problema. Como assim se em muitas famílias pais e filhos não conversam?
Mas vamos para temas que muito estão sendo debatidos. Observemos  o que diz um dos livros da Bíblia: “ Deuteronômio 16:19, “Não perverterás o direito, não farás acepção de pessoas nem aceitarás suborno, pois a corrupção cega até os olhos dos sábios juízes e prejudica a causa dos justos”.
Para se ver como há séculos havia a preocupação com uma justiça imparcial e honesta.
Nos Salmos, 93. 20 , mais um alerta antigo e hoje atual: “ Acaso poderá aliar-se a vós um tribunal iníquo, que pratica vexames sob a aparência da lei?”
Para concluir, cito  novamente o Deuteronômio , quando se refere ao juiz: “não aceitarás presentes, porque os presentes cegam  os olhos do sábio e destroem a causa dos justos” ( 16.17).

Não são de hoje, como se vê , as advertências sobre o bem viver, sobre a harmonia, a retidão e a seriedade que devem imperar. Inclusive em todo o universo jurídico.

terça-feira, 25 de junho de 2019

CARTA DE TITO GUARNIERE PARA EMANUEL


Caro Emanuel :
Que pena, Emanuel, que logo você, que me falou um dia de uma manhã azul, e me tocou tanto, agora  as manhãs são  as que mais doem.
Mas, desculpe, não fico penalizado. Tenho-o da conta de um homem elevado e corajoso. Claro, não a ponto de amenizar a dor física. A ninguém ainda foi dado tal privilégio. E é fácil, à distância, só com as dores da idade (que no meu caso não são tão dramáticas) fazer comentários a respeito.
Em todo o caso, Emanuel, admiro tua paciência, teu estoicismo - tua lucidez e tua -de novo - coragem.
Belo texto, palavras certeiras, estilo íntegro, que nem a doença logrou alcançar.  Tua escrita é, por assim dizer, o sinal mais forte de que ainda estás de pé. Sei que existem os sentimentos, as doces lembranças, o convívio amoroso com os teus. Sei que devem existir momentos de desânimo. Não sei quando partirás - espero que ainda tenha um bom trecho da estrada. Mas precisas saber que, de algum modo, deixarás um legado, de gestos, palavras, atitudes - sonhos sonhados e desfeitos, esparanças vívidas e realidades decepcionantes. O que importa , já disseram tantos, é a caminhada, não o destino final.
Nós sempre teremos a nosso favor o sorriso largo e o riso solto, a filosofia fácil e a que não se compreende bem, a  bisbilhotagem infantil, as nossas previsões catastróficas, o otimismo contido, o nosso amor à vida, as paixões secretas e as que não dava para disfarçar,  a nossa discreta proteção dos amigos(ignorando os seus-deles-erros e defeitos), perdoando aqui e acolá  mas não esquecendo, derramando uma lágrima sutil de emoção da cena do filme, do acorde da música, da rima poética, do texto que  gostaríamos de ter escrito(mas que coube a outro mais telantoso), dos nossos tropeços, dos nossos êxistos modestos, dos nossos medos - bem, Emanuel, de tanta coisa, como aquelas que você descreve a fala no teu texto. 
"Nunca esqueça" - , leio o título e me vêm a cabeça o que disse alguém ( não tenho facilidade para as citações , como você ): " Quando eu era mais novo, me lembrava muito bem do que tinha acontecido e do que não tinha acontecido. Agora, a caminho da velhice, sinto que só me lembro do que não aconteceu". (a citação é mais ou menos assim, não é literal).  
D'ont forget, dear friend, que neste lado de baixo do mapa deste país tão esgarçado nos seus dramas e nas suas contradições, há gente como eu que reza e torce pela vida, que deseja ardentemente e reza pela teu bem estar e pela tua saúde.

Abraço do N.Wedekin

segunda-feira, 24 de junho de 2019

NEVER FORGET


NEVER FORGET” 
(“NUNCA ESQUEÇA”)
EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

Neste dia em que o inverno começa, não queria pedir indulgência pela emoção.
Escuto “Never Forget”, com Michelle Pfeiffer, e lembro-me do morango com nata que mamãe fez para mim quando passei no Exame de Admissão (não existe mais) no “Colégio Catarinense”, na Ilha, e iria para o Ginasial (também não existe mais).
Da letra: “Você está em casa”.
Nasci tarde demais.
“Diga que vai me entender”.
Revi mais uma vez “Meia Noite em Paris” (“Midnight in Paris”), de Woody Allen.
O tempo melhor de nossas vidas será sempre o que não vivemos: o outro – além.
Recordei-me de um diálogo de um filme em que um personagem, ironicamente, pergunta a outro se ele é um “suicida”.
O interlocutor responde de bate-pronto: “Só de manhã”.
E era o horário do dia que eu mais amava – havia um ritual, abria as cortinas do quarto e dizia: “Bom dia, dia”.
Bom dia, dia.
Querem saber (relevem o vitimismo) o que é um câncer doloroso e incurável:
A Velha Companheira, a Indesejada das Gentes na soleira da porta para me dar o bote, e eu espero, vivo esperando, vivo achando que sempre falta alguma coisa.
Afinal, o que é o câncer incurável? É isso. Ser suicida de manhã (a gente não se mata não), para mim a hora que mais dói (literalmente, não é dor metafórica ).
Meu (hipotético) Pai: Poupe-me das dores físicas, que das morais eu mesmo cuido.
“Amor e saudade estão estáveis”.
Recordei-me de uma discussão sobre a Misericórdia Divina e a Raiz do sofrimento e do Mal entre dois padres jesuítas cultos no início da década de 60, no “Colégio Anchieta” – onde fiz o antigo Curso Clássico, também estudei com Bolsa de Estudos (como no “Catarinense” em Florianópolis), em Porto Alegre.
O Sofrimento é um Mistério? É. Mas a constatação não me satisfaz.
Por que Deus teria feito os homens tão imperfeitos?
E a raiz do Mal? – insisto.
Vi aos 20 anos uma criancinha numa cadeira de rodas e aquilo nunca me saiu da cabeça.
Penso em Franz Kafka e Albert Camus – santos de minha imensa devoção – e constato: O Absurdo é a evidência que desperta.
Quando eu tocava no assunto, todos retrucavam: “Esqueces do Livre Arbítrio”.
Resta-me escutar de novo “Never Forget.
Uma voz mais forte me adverte: “Não seja chorão”.
Um homem de verdade enfrenta a morte de frente, olha nos seus olhos, bem lá dentro e deverá dizer: avante.
Michelle canta pungente e suavemente.
Por favor, escutem (a letra e a música).
O morango com nata, com um suco de maracujá, uma regata, o rosto de minha mãe, ela no fogão de lenha, posta de tainha frita, pirão d’água, e essa emoção que inunda esta manhã – ria, sem lágrimas.
Rio, com lágrimas...
Sentimental demais.
Estou segurando este meu Inimigo Íntimo há quatro anos, cinco meses e vinte e um dias.
Alfredo David, meu sobrinho e amigo, tão iluminado e amado, faria hoje 60 e foi-se com 28 anos.
Os mais brilhantes de uma geração carregam nas mãos uma vela que queima mais rápido?
Alguém me perguntou se minha geração – a de 1945, do final da guerra, fracassou.
Se quiser ser sincero, diria que internamente meus companheiros, meus melhores amigos, fizeram o que amaram: foram professores, editores, escritores, cineastas, cientistas políticos, engenheiros, jornalistas, advogados, médicos, arqueólogos, enfermeiros, servidores públicos, dramaturgos etc.
Deu para o gasto – não sei se para o gosto...
No outro sentido, sim, fracassamos.
A injustiça que combatemos nos nossos eternos 20 anos, cresceu, como a brutalidade, a morte na tortura, a vitória (provisória?) novamente da ignorância, da xenofobia, do preconceito, do ressentimento, do horror à inteligência, do neopentecostalismo mais reacionário, das redes antissociais fundamentalistas, do individualismo feroz, e do que mais deplorei e deploro, até o último momento da minha vida: a desigualdade torpe e obscena.
(Quero dizer eu tenho alguns amigos evangélicos autênticos e íntegros – não sou dono da verdade.)
VIVEMOS NO BRASIL E NO MUNDO UM PROCESSO DE REGRESSÃO CIVILIZATÓRIA.
Tomo os remédios, cuidam de mim, ainda como tainha frita, nata raramente encontro, e minha memória parece uma alameda de mortos – amigos tão amados.
E Michelle canta: “Jamais te esqueceremos”.
Ela proclama: “Você vai voltar para casa”.
Casa. Casa.
“Lembrei de todos os dias do sol de verão antes do inverno chegar”.
“Jamais vamos te esquecer.”
UM DIA ESTAREMOS TODOS EM CASA.
"Todas as imagens serão calcinadas pelo tempo. No máximo, nas conversas em volta de uma mesa de festa , pode ser que alguém lembre-se de uma parenta morta. Seremos apenas um nome, cujo rosto vai se desvanecer até desaparecer na massa anônima de uma geração distante". (Annie Ernaux).
E alguém acrescenta: "Nada restará de ninguém; Mas até lá, até o fim, até o nada, dará para compartilhar gestos, cidades, sentimentos, raciocínios, lágrimas, o mundo. Será possível sentir o que é comum a todos, a solidão".
Já foi muito repetido (justamente cristalizado): a arte nos salva, nos legitima.
Recordo-me do grande escritor negro norte americano James Baldwin (1924-1987): ”O riso e o amor vêm do mesmo lugar, mas pouca gente vai lá".
(Brasília, junho de 2019)

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quinta-feira, 20 de junho de 2019

ANDANÇAS POR RÁDIOS E TV III


Como estava dizendo o programa inaugural na Pampa foi um balaço. Em ponto às 7 tocava a cortina eu entrava no ar com a hora certa, rápida saudação aos ouvintes, número do telefone para recados e já passava para as manchetes do jornal O Sul que também circulava aos domingos. E eu pronunciava OOOOOO SUUUULL, o que deixava o pessoal bem faceiro. Não contente com isso eu mesmo cantava o jingle do jornal.
Com o passar das semanas o programa foi sendo conhecido e depois de meio ano o Ibope deu que nosso programa dominava a audiência no horário entre as classes A/B.
Eu tinha um time de amigos os quais eu entrevistava no decorrer do programa, entre eles o Heitor Schuck. Ele era uma atração extra por seu sotaque de colono alemão. Eu perguntava como estavam as safras, problemas da agricultura, o que era de muito agrado dos urbanos. De vez em quando soltavamos umas frases em alemão, só para agitar as massas. Para assuntos políticos eu chamava gente de todos os partidos, mas não para falar em política e sim saber um pouco da vida e da trajetória deles e delas. Geralmente eu telefonava dias antes, oportunidade em que  já combinava uma pergunta picante. Em assuntos jurídicos eu sempre pedia que não falassem juridiquês. E, o principal, perguntas curtas e respostas sintéticas. Quando chegava aos cinco minutos eu dizia: “ amigo, que boa entrevista, tchau” e já entrava uma música.
Durante um tempo eu omiti que a Maristela era minha mulher e só a chamava de Maristela Genro, omitindo o Gessinger. Eu a iincumbia, alternadamente com o Rudolf, que tinha uns 8 anos, de  ler os recados dos ouvintes. E ficava me “ galinhando” para ela, o que agitava os ouvintes: “ oi minha querida, tudo bem contigo?” fala os recadinhos, minha flor”. E os ouvintes comentando o “ romance”.Diziam : “ esse cara tá dando em cima de ti!”.
Grande lance do meu programa foi  ter anunciado em primeira mão o furacão Catarina. Estávamos nos dirigindo para a rádio e um amigo de Torres me ligou dizendo que fora grande a destruição. Pronto, passei das 7 até 9,30 entrevistando pessoas a respeito. A Gaúcha só começou a noticiar às 9 horas.
Nosso programa foi ao ar por seis maravilhosos anos. Acontece que nossa fazenda começou a crescer muito e o escritório também, de maneira que tinha que aproveitar sexta, sábado e domingo para cuidar dos negócios ( o olho do dono engorda o boi). Tive que parar o programa, do qual tenho ainda muita saudade.
Migrei, então, para a TV Pampa, participando do Pampa Debates e assessorando o Paulo Sérgio nas transmissões da Expointer.


quinta-feira, 13 de junho de 2019

ANDANÇAS POR RÁDIOS E TV II

Arroio do Meio era tudo de bom. Na época não dispunha de uma emissora de rádio, de sorte que não pude exercer  meus “pendores” jornalísticos. Após um ano fui promovido para a Comarca de Santiago, que estava vaga há dois anos.Junto com ela passei a jurisdicionar, por substituição, Jaguari e São Vicente do Sul. Após alguns meses as pilhas de processos parados haviam sumido dos armários, muito pela boa vontade do grupo seleto de advogados da época.
Santiago é uma cidade distante de quase tudo e, talvez por isso, fervilhava de cultura. Em pouco tempo me apresentaram o proprietário da Rádio Santiago, a única da cidade na época. Chamava-se Jaime Medeiros Pinto, uma das mais interessantes pessoas que já conheci.Poeta, músico, cantava muito bem. Eu participava assiduamente dos programas locais. Depois que fui promovido, fiquei muito tempo sem ir a Santiago. Vários anos após conheci minha “ campeirinha” Maristela, de renomada família local. Ela e eu fomos crescendo na pecuária e  acabamos comprando uma bela casa no centro da cidade, apesar de termos moradia em Porto Alegre.
A essa altura reencontrei um advogado de nome  Antônio Cocentino que era dono de uma nova rádio. A emissora era a FM Verdes Pampas, com 50 kw!  Cinquenta KW que faziam a emissora ser ouvida num raio enorme. Cocentino quis me vender a rádio, mas preferi fazer uma experiência: importar o sistema “ talk and news”, dando prioridade a entrevistas e notícias. Não funcionou, pois o povo estava acostumado a muita música, alguns recados e um monte de  anúncios.
Infelizmente pouco depois Cocentino faleceu num acidente.
Certo dia, estando  em vias de me aposentar, recebi convite para um programa na Rádio Pampa de Porto Alegre.Fui e gostei. Há tempos eu estranhava que Porto Alegre não tinha programa informativo nas manhãs de domingo. Na Gaúcha era o Nico Fagundes com o Galpão do Nativismo; na Guaíba eram tocadas músicas românticas, como até hoje. Na Pampa havia reprises de programas. Apresentei ao Paulo Sérgio Pinto, vice da Rede Pampa, o projeto de um programa que seria levado ao vivo, das 7 até 9,30 da manhã, aos domingos. Só faria entrevistas por telefone, máximo de cinco minutos, leria os recados mais interessantes, sendo  minha mulher e meu filho Rudolf  meus “ secretários”. Meu lema era: “ em rádio um segundo de vacilo e o ouvinte muda de estação”. Nome do programa: “ Pampa Grande do Sul”. Cortina:minha composição com letra de Nenito Sarturi, “ sóis de outono”.

No primeiro domingo em que foi ao ar, foi um “ balaço”.
( SEGUE)

sexta-feira, 7 de junho de 2019

JÁ PELAS TABELAS - AFIF JORGE SIMÕES NETO



Pedem-me otimismo, mas se fosse exigida de mim a oferta da dor causada pelo olho do machado, daria elas por elas. Não me venhas tu de novo com aquelas frases empacotadas, cheias de ecletismo. A sociedade aparvalhada quer saber apenas o que tens a oferecer de proveitoso, além do inútil palavreado sonoro, com cheiro de naftalina. Basta de púlpitos e tribunas. O homem foi embora de si, e se perdeu entre os mapas da navegação. O discurso virou uma atividade tão banal quanto as folhas secas que o outono vai varrendo para debaixo das árvores copadas.

A mulher do vilarejo, vinda de parto ocorrido na viatura policial, procura em vão o remédio para controlar a hemorragia uterina, medicamento que o político lhe prometeu perto do palanque. Se ninguém do povo exigiu nada, por que, então, se obrigar a tanto, argumenta o bem votado, enquanto se afasta da eleitora com a cautela própria dos covardes.

O velho sisudo, de rígida educação recebida em colégio de padre, crítico voraz dos maus costumes, entregou-se de vez à lábia da princesinha do lupanar. A doação em cartório da casa mobiliada e piscina com azulejo é mera retribuição ao simulado amor que Kelly Andressa sente por Amâncio. Os filhos havidos com a primeira mulher, e ela junto, que arranjem outro lugar para morar. Agora, as atenções mudaram de endereço, e a amásia já deixou claro para o provedor que não vai aceitar gente estranha abrigada sob a mesma carpintaria.

O jogo lancinante das paixões prossegue intenso sobre o pano nauseabundo das aparências. O gordo imprevisível e o salafrário encurralado pela jogatina desistiram das apostas, diante do adiantado estado de podridão do sentimento de piedade dedicado ao próximo.

É uma questão de tática a ser empregada no aperfeiçoamento dos negócios escusos, balbucia o da ponta da mesa, insinuando a derrota do amigo contendor, que deu uma saidinha. Foi ao banheiro, vomitar a última fatia de esperança que estava entalada na garganta.

Ninguém é um balaio de ternura. Mora em nós o lado perverso assimilado no contato das ruas. Ou, quem sabe, te imaginas diferente dos demais irmãos de reza e infortúnio? Por falar nisso, nunca é demais trazer à boca o segundo quarteto dos Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos: Acostuma-te à lama que te espera!/O Homem, que, nesta terra miserável,/Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera.

À tardinha, escuta bem, ó distraído transeunte, o sino da igreja chamando desesperadamente os crédulos para a missa de corpo presente da senhora Dona Fé. Matou-se de tédio, desiludida face às últimas ocorrências.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

ANDANÇAS POR RÁDIO E TV

Eu sempre tive fascínio pela comunicação. Em casa  passava ouvindo rádio. Eu devia ter uns 15 anos quando decidi falar com o sr. Bartholomay para ele me deixar ler uns comerciais.Em Santa Cruz só havia uma emissora que na época tinha o prefixo ZYE8. Havia uma caixinha na frente do microfone dentro da qual achavam-se cartões com textos datilografados. O papel do locutor era ler comerciais, dar a hora e a temperatura. Após isso o operador, do outro lado do vidro, dava um sinal e a gente anunciava a música que quase sempre era “ patrocinada”. Exemplo:
-alô , alô Maria  Clara que mora em Monte Alverne. Seu admirador Armindo lhe dedica a música “ que beijinho doce”. A rádio “ talk and news” só foi surgir bem mais tarde( notícias 24 horas, com música só por alguns segundos).
Quando me mudei para  Porto Alegre em 1964 apresentei-me na Rádio Continental. Ficava de locutor algumas horas, mas recebi uma proposta em outra atividade e larguei.
Ao assumir meu cargo de juiz de direito em Horizontina em 1972 ,uma das primeiras coisas que fui fazer foi visitar a Rádio Vera Cruz.Eu era o primeiro juiz a trabalhar na recém criada comarca. Passava dando entrevistas e gostava de explicar o papel do Judiciário.
Fato interessante: muita gente de Horizontina era procedente das “ colônias velhas”, o que englobava a região de Santa Cruz, Lajeado, etc. Horizontina confrontava com o Rio Uruguai.Acontece que do lado argentino as  terras eram mais baratas. Lá se ia o pessoal para o outro lado. Sucede que, por vezes, pessoas com pendências judiciais cíveis tinham ido embora. Era problemático mandar carta rogatória para os chamar. Não sei se eu faria isso hoje: eu pedia que a rádio desse, na hora do meio dia, uns avisos de que fulano estava sendo chamado para resolver assunto de seu interesse ( claro que não era matéria criminal). Pois não é que os colonos, que escutavam a rádio Vera Cruz, pegavam a barca, atravessavam de volta para o Brasil, andavam vinte quilômetros e se apresentavam? Era lindo de ver como já tinham uma entonação castelhana, mas a língua alemã continuava firme.
Terminada a audiência eu ficava conversando com essa gente maravilhosa. Muitos  estavam determinados a ficar na Argentina, mas diziam que jamais iriam torcer por outro time que não fosse Inter ou Grêmio.
Nas noites de solidão interminável eu escutava a LT4 Rádio Difusora Misiones. Foi quando conheci o belo folclore  argentino.

Eu adorava  Horizontina , mas quis ficar mais perto de meus pais. Me removi para a comarca de Arroio do Meio.
( CONTINUA).