quinta-feira, 10 de outubro de 2019

UMA PITADA DE FUTEBOL


Sou colorado. Sempre fui. Mas não doente. Mesmo porque quando, nas poucas ocasiões de minha  vida em que adoeci, ninguém do Inter veio me visitar. Torço pelo Inter mas a triste sina de nós colorados é ressuscitar os mortos, como o Avaí e a Chapecoense e tomar gol dos grandes aos 50 minutos do segundo tempo. O Rio Grande sempre foi assim, vocês sabem. A eterna luta de chimangos contra maragatos. Gremistas e colorados.
O futebol dá muito dinheiro, especialmente  para empresários, jogadores, advogados da área. Há coisas, porém, que me repugnam no futebol.
Raciocine comigo. Eu sou teu advogado numa causa de alto vulto. Sei de todos os teus pontos fracos. Mas, de um dia para outro, passo para o outro lado e vou advogar contra ti.  Inimaginável. Esses dias um treinador que defendia os interesses  de um clube foi demitido. No outro dia chefiou o time contra aquele do qual fora dispensado, aproveitando-se
de  informações privilegiadas.E o que dizer da falta de ética de alguns jogadores, simulando faltas?
Apesar de eu ser colorado admiro muito o Renato Gaúcho.Recentemente Renato não gostou da maneira como um clube que o queria contratar agia. Imediatamente renovou com o Grêmio.
A aparente arrogância de Renato creio ser fruto de sua infância quase pobre. Mas, ao invés de ficar chorando pelos cantos, se manteve forte e foi galgando posições.
E porque seria aparentemente arrogante?
É porque a arrogância calculada enquanto causa revolta nos adversários e fortalece seus comandados.  Está fora de qualquer cenário Renato treinar o Inter, nem na próxima encarnação. Daí porque ele pega pesado nas suas manifestações. Conhece futebol, foi excelente
atleta.Apenas  considera o Colorado fraco e insignificante. Essa tomada radical de posição guerreira, ajuda na união do seu grupo.Gostei de uma entrevista dele após uma derrota nos pênaltis. Disse: “ chegará o dia em que o treinador vai cobrar os pênaltis”.
Renato, eu sei , eu vi, era o rei da noite. Até nisso mudou. Anda quieto e discreto. Mas ele conhece tudo dos bastidores e, principalmente, dos meandros extra campo. Sabe  como pensa a  gurizada que saiu  da favela, mas a favela não saiu deles.  Segundo sei não corteja dirigentes. Hoje, com o Bolzan, que é um lord inglês, não tem atrito.
Em seguida será técnico da seleção brasileira, salvo se o Grêmio lhe oferecer uma grana mais preta ainda.
Mas não irá para o exterior.  É monoglota, só fala  o português.  Não creio que tenha lido o Pequeno Príncipe, muito menos qualquer obra de Paulo Coelho (no que empata comigo).

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

FAR WEST FRACASSADO



À medida que vou avançando na idade, conquanto a cada ano melhore meu drive de direita no tênis, cada vez mais diminui minha vontade de escrever sobre essa bagunça política brasileira. Estou, portanto, me preservando para um dia merecer ser convidado de novo à reunião tenística do Trem das Onze.
Enquanto o nosso querido jurista e advogado Astor Wartchow nos contempla com ensinamentos jurídicos, eu me exponho aos áulicos do politicamente correto e vou desfiando “causos” de campanha. Estou muito enjoado da cena jurídica. A propósito, já várias vezes falei sobre a importância das galas e cerimônias. Nunca compareci a uma audiência sem terno a gravata. Jamais fui a um casamento de camiseta .Pode ser frescura, mas como tive berço, sempre dei senhoria às autoridades, às senhoras, aos senhores.
A cerimônia faz com que nos contenhamos de ímpetos inferiores. As galas nos ensinam a respeitar os demais. Jamais objetar, jamais se atravessar enquanto o orador está falando.
Mas vamos ao far west.
Um eminente integrante de alto escalão  jurídico consegue ser escolhido entre seus pares  e, em seguida, ser guindado ao alto posto do Ministério Público. Age com denodo, enfrenta contrariedades, bate cabeça com cabeças coroadas do dito Excelso Pretório. As luzes dos holofotes estão sempre em sua mira. 
Chega, porém, o dia em que considera melhor se retirar, se aposenta com proventos integrais e parte para a iniciativa privada.
Decide deixar um legado para nós, meros espectadores, escrevendo, com “ghost writers” ao que consta, passagens de sua turbulenta trajetória.
Acompanhemo-lo.
Ele se ressente contra um integrante da alta corte. Integrante esse que não é uma unanimidade e que em matéria de cerimônias e galas sabe pouco. Dito magistrado é daqueles de corar os frequentadores das redes de vôlei do posto 5 em Copacabana.
Nosso procurador achou que o magistrado o tinha desaforado. A solução judiciária  não lhe pareceu correta. Abriu seu cofre e deu bom dia  à Frau Glock, afamada austríaca que, uma vez acionada, vomita azeitonas de chumbo
Decidiu matar o Ministro. E depois se suicidar. Aí já vejo dois problemas. Como assim, matar o ministro desafeto sem lhe dar chance de defesa? Ok, atirou no Ministro e depois? vai esperar para ver se matou e depois se suicidar? Mais um problema: onde se dar o tiro ? Na boca, no ouvido, no coração? Teria prática nessas coisas?
Colocou a Glock debaixo do manto sagrado da Justiça e se dirigiu ao desafeto.
O gaúcho sempre diz: se fores sacar, atira para matar.
Esse procurador não deveria ter contado sua covardia.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

SOBRE JANOT - TEXTO DE TITO GUARNIERE

TITO GUARNIERE


DESTRAMBELHO

Esse cidadão, Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, não é muito certo da cabeça. Dizem que ele era meio chegado à beberagem. A bebida social, relaxa e descontrai o ambiente. Mas em demasia causa danos irreparáveis ao cérebro, ao fígado, ao corpo inteiro. Terá sido a causa do destrambelho?

O ex-procurador é um homem perigoso. Por pouco não cometeu um assassinato a sangue frio e o país – e o mundo – ainda teriam de assistir, em sequência e estarrecidos, um suicídio ao vivo na televisão. Nem o ficcionista mais criativo imaginaria a cena.

Não é possível que Janot não tenha pensado nesse cenário, e nas suas terríveis consequências, para ele e sua família, o Supremo, o Ministério Público Federal, que ele comandava, os seus pares e colegas, e para o Brasil.

Psicopata de carteirinha, destituído de empatia, de respeito pela vida humana (inclusive a própria, já que ia se matar) e, no caso dele, acima de tudo, de senso de justiça, entretanto, ocupava um dos mais altos cargos da República, e era o chefe de uma instituição proeminente do aparato judicial e do Estado brasileiro.

As razões alegadas pelo ex-procurador eram as mais fúteis. O ministro Gilmar Mendes, do STF, teria revelado que a filha de Janot, era advogada de uma empresa investigada pela Lava Jato. Nada mais. Não a acusou de nenhum ato irregular ou ilegalidade. Era apenas um fato – verdadeiro, por sinal.

Pois a ofensa que não houve se tornou de tal gravidade que Janot, na plenitude do exercício do seu alto cargo, em parafuso, tomou a resolução de matar o desafeto. E nessa voragem de loucura, planejou fazê-lo em pleno tribunal, a mais alta corte do país. O ato seguinte ao "tiro na cara" de Mendes, seria o suicídio. Chegou a engatilhar o revólver Glock. Mas na última hora foi contido, segundo ele pela mão de Deus.

É o perigo de ter armas à mão. Mesmo Janot, figura central na hierarquia da República, que deveria se conduzir com comedimento, treinado nos embates de que é feita a vida de um procurador, por um triz não causou uma tragédia histórica.

Como sabemos agora, Rodrigo Janot dormia com a arma carregada na cabeceira da cama, decerto atormentado pela paranoia comum a indivíduos da espécie. Outro que dorme com o revólver ao lado da cama é Bolsonaro. É de dar calafrios na espinha.

Janot é aquele procurador-geral da República que assinou um acordo de delação de pai para filho, concedendo aos irmãos Batista, Joesley e Wesley, da JBS, perdão eterno de todos os rolos em que estavam metidos, em troca de gravar o próprio presidente da República, a fim de incriminá-lo. O ex-procurador, provavelmente já tomado de algum grau de demência, havia se imbuído da missão de afastar Temer da presidência a qualquer custo. E usou de todo o seu poder, artimanhas e truques baixos, para alcançar o objetivo. Causou um mal irreparável. Não há país que resista a tal grau de insolência.

Que os moralistas de baixo custo – que infestam as redes sociais –, nada tenham visto de anormal na armação, era de se esperar. Mas a grande mídia, com raras exceções, como o Estadão, deitou e rolou sobre o episódio, crucificando a vítima (Temer) e livrando a cara dos delinquentes.

titoguarniere@terra.com.br