sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

MUTAÇÕES


O que houve com os bailes?
Eu admito, peço perdão, que sempre fui objetivo e prático. O baile era, na minha concepção pecaminosa, (da qual dava meticulosas explicações no confessionário), uma mera primícia do amor carnal e do namoro.Tirando fora  mãe,irmãs, avó, tia, senhoras casadas, noivas, com as quais não tinha nenhum interesse em dançar.O baile, portanto, para minha mente meio fogosa, era um jeito de ,no ardor dos 17 anos, abraçar a menina dos seus 16, sempre respeitando sua relutância , o que ela fazia empurrando meu  ombro para trás, mas eu tentando haurir seu perfume de” Miss France” e ouvir seu coraçãozinho batendo e batendo.
Beijo na boca, só escondido.
 Enfim, hoje há, segundo meu filho mais novo,aplicativos, que entre outras coisas, localizam, num zaz, tua futura parceria para um namoro. Nem sabia .
 Vamos em frente . As mulheres conquistaram seus lugares. Viva! Tenho filhas vitoriosas e nada raivosas. Mas essa de uma senadora dar uma de Maria Bonita, tirando uma pasta das mãos do presidente  do Senado, foi demais. E ainda, ante o pedido de devolução, disse desafiadoramente “então vem buscar”. Ficou feio. As mulheres, com a igualdade  conquistada, têm que também aceitar os ônus da convivência. Ou não?
Outra perquirição. Onde estão as cantorias? Ao tempo em que eu lecionava na Unisinos, após as aulas nas sextas feiras à noite, nos reuníamos para  um churrasco e - sabem o que?- para cantar. Sim, cantar. Nos anos oitenta, início dos 90, era comum jantar com alunos, ocasião em que se cantava após a quinta cerveja. Coisa de louco era quando se entoava o Carinhoso. Na passagem do “ai se tu soubesses” era uma desafinação só. Mas era bom. Hoje seria quase impossível isso num restaurante. Atrapalharia os que passam teclando suas infinitas mensagens pelo celular .
Muito comuns eram as serestas na praia. Quantas e quantas fazíamos Guido Koehler, Celso Campos e eu. Hoje não dá mais por causa das cercas elétricas e das portas trancadas.
O máximo que estou conseguindo hoje é tocar em casa com meu filho Rudolf. Se há convidados, raramente um  se aguenta quieto até o fim da música. Penso em estabelecer uma regra nos meus churrascos caseiros. Duas salas: uma para os tagarelas. Esses só ganhariam mocotó frio com cerveja quente e tomada no bico; outra para  os que apreciam música ao menos 15 minutos. Para esses filé argentino e chopp importado de München ou aquela Freixenet Brut tiritando de frio.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A REBELDIA DE BOLSONARO


A nação está inquieta com a situação de saúde do nosso presidente. Um pouco do que está acontecendo se deve a algumas imprudências do próprio Bolsonaro. Primeiro foi permitir que o carregassem em via pública, sem um esquema mais técnico de segurança, o que redundou no atentado.
Apesar de eu não ser médico, aprendi muitas coisas na vida.Conto um episódio. Eu estava com 45 anos, jogando tênis , quando meu calcanhar começou a incomodar. Um médico que jogava comigo olhou e diagnosticou ali na hora que era um “ esporão do calcâneo”.Acabei decidindo mandar operar. Fui para casa e achei que em breves dias voltaria a jogar normalmente. O médico me dera instruções para ficar em repouso, com a perna mais levantada. Não dei muita bola . Eram duas incisões. Uma estava fechando bem. A outra parecia meio estranha, Resumo: era uma deiscência de sutura que levou ao debridamento e tive que esperar 90 dias para que houvesse cicatrização por segunda intenção. Tudo por não acatar as instruções do médico.
Essas pequenas  ansiedades e imprudências do presidente, viajando para lá e para cá, nitidamente não se cuidando, fazendo uma viagem que não era urgente para Davos, certamente não ajudaram em nada para a recuperação. Está com 63 anos de idade, o que não é muito nos dias de hoje, mas há que se convir que sua resistência está longe de ser a de um homem de 23 anos. Sofreu um procedimento invasivo  o que representava muitos cuidados. Mas o primeiro cuidador de sua bronca é o paciente.
Fiquei matutando muito tempo sobre o por que dessa inquietude do presidente. Qual a razão de não se acalmar? Não poderia ter tomado posse, reunir-se com seu vice e ministros e estabelecer que ninguém deveria sair dos trilhos ( incluindo-se o vice), e que quando estivesse completamente apto, voltaria a tomar as rédeas. Para que uma pressa afobada se o mercado estava calminho, calminho com as diretrizes já reveladas? Mais: o que não tem solução, solucionado está. As reformas estão esperando e se arrastando há decênios, não custava aguardar por mais um ou dois meses?
É possível que essa bateção de cabeças dos primeiros dias do novo governo tenha sido um dos motivos de Bolsonaro não passar o governo ao vice. Ficou um pouco bizarra essa desordenação inicial, um desautorizando ao outro, um falando uma coisa e o outro desmentindo. Todo mundo temendo que o Ministro Paulo Guedes chutasse o balde num acesso de impaciência.
Não sei não,  todos esses desencontros iniciais têm solução,mas será que nosso presidente não estará receando o chamado fogo amigo?.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

POR ISSO QUE NUNCA QUIS TER FACEBOOK

Texto primoroso de J.F.Rogowski



caiam fora da zumbilândia

Caros todos!
Estamos vivendo na @zumbilândia, a terra dos zumbis digitais.
As pessoas independentemente de nível cultural e social estão passando por um processo de lavagem cerebral e idiotização que tem me assustado.
Na política impera o maniqueísmo e o patrulhamento ideológico de dois lados radicais e antagônicos.
Estamos proibidos de pensar por conta própria, de exercer o senso crítico sobre a realidade, temos que escolher um de apenas dois lados, e seguir com a manada respectiva daquele curral mental.
Fora da política estão os demais loucos de todo o gênero, tem para todos os gostos (ou mau gostos). Eles formagrupos e movimentos estruturados, com simpósios, congressos, etc., uns defendendo que a terra é plana, outros que ela é quadrada; outros afirmando a inocuidade dessa polêmica já que ela será inapelavelmente destruída pelo planeta Nibiru que se aproxima em rota de colisão; outros dizem que sim, que haverá a colisão, mas que seremos salvos pela frota de espaçonaves estelares do comandante Ashtar Sheran que está em prontidão atrás do sol.
Meu intuito longe está de ridicularizar essas pessoas, porque elas sinceramente acreditam nisso, embora, fizesse até mais sentido um “astral cheirão” debaixo do sol da Jamaica do que no espaço sideral.
E pior disso tudo é que os habitantes da Zumbilândia não se contentam em confraternizar entre si, buscam fazer novos adeptos, assim entopem a minha caixa postal com todo tipo de mensagens surreais - 99,9% não passam de lixo eletrônico.
Tendo a situação ficado insuportável pelo tempo que eu estava  gastando até mesmo para apagar essas mensagens, fiz um público apelo (reproduzo abaixo) pedindo que só me enviassem mensagens que fossem realmente relevantes.
Pedi encarecidamente que cessassem o envio de Spam. Não sei se foi de pirraçada, mas aí que aumentou o tráfego de lixo.
Então, sem alternativa, acabei me retirando do Facebook.
E, se o bombardeio continuar no WhatsApp, me retirarei dali também.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O OUTRO LADO DAS VIAGENS


Toda vez que viajo estranho minha imersão compulsória em três situações: no check in no aeroporto; no avião antes da partida e , já no hotel, na hora do café da manhã.Nesses momentos a gente vê coisas para lá de estranhas ao nosso dia a dia.Câmeras em mim, com foco num banco do aeroporto.
Meu Deus o que é um Aeroporto às 5 da manhã! É visível que algumas pessoas caíram da cama e saíram, em desabalada carreira, sem trocar de roupa e, por conseguinte, sem banho, em direção ao aeroporto. Claro que, como é da filosofia brasileira, os pontuais são relegados ao inferno e os retardatários e relapsos têm preferência. Os alto falantes gritam desesperados pelos tardinheiros. Os passageiros já no avião, esperando que os atrasados  embarquem, o que pune  e atinge os “ certinhos”.
Mas voltemos ao portão de embarque. Todo mundo sabe que não pode levar consigo faca, tesoura etc. Pronto, pára a fila. A moça passa no detector que dá o alarme. Mais um incidente que poderia ter sido evitado.
Todo mundo sentadinho no avião e antes  de ele começar a corrida para alçar vôo  o senhor Jones, que ficou uma hora no saguão, só agora sentiu vontade de ir ao banheiro.
Na viagem,  muitas pessoas  , na falta de espelhos para mirar suas  maravilhosas e incomparáveis belezas, usam esse aparelho vital para o prosseguimento da vida, o celular, para suas indispensáveis selfies, pena de sofrerem uma apoplexia. E dê-lhe selfies, com direito a mil caras e bocas, sorrisos congelados que chegam às raias da idiotice.Fico matutando: para que e para quem tantas fotos?
O avião está pousando e o comandante implora que todos fiquem sentados até ele estacionar. Nada feito , mesmo o pessoal sabendo que não há como  subir ao pódio e ser o primeiro a sair do avião. Em seguida a correria para ser  primeiro a pegar sua mala.Na saída  muitos vão certificando, em altos berros, ao celular,que amam seus interlocutores, comentam como foi o  dia anterior, para que todos nós saibamos de sua  inefável e indispensável história.
Já no local de recolhimento das bagagens, erram de esteira e se desesperam por não localizarem sua mala. Claro que não tiveram  o dificílimo tirocínio de saberem o número de seu vôo e em qual esteira está.
Corta para o refeitório do hotel.
As portas dos elevadores se abrem e dezenas de famintos, que provavelmente há 30 dias não se alimentam, irrompem qual um arroio durante a enchente e vão em busca de uma mesa. Se atracam no buffet enchendo o prato até cerca de 30 centímetros, para deixar quase tudo intocado ao final.
Por que estranho isso?Será que meus pais erraram na minha educação?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O FENÔMENO WATTSAPP


O renomado médico e escritor J.J. Camargo escreveu recentemente:
“Há uma incontrolável ânsia de usar todos os instrumentos de aproximação virtual para conectar pessoas que foram convivas em épocas tão remotas que o tempo se encarregou de borrar-lhes a lembrança.
O convite para que participasse de um grupo de WhatsApp que devia reunir todos os sobreviventes de um tempo de colégio me pareceu desde logo assustador. Não conseguia imaginar como recuperar uma intimidade necessária para  justificar a reaproximação depois de, sei lá, 55 anos, só porque esta prática virou uma febre (passageira?) na internet. O desespero aumentou quando fomos comunicados de que todos os abaixo listados estavam automaticamente incluídos no grupo, e eu só lembrava bem de uns cinco de uma turma de 50.”
Digo eu.Pois é: o Whatts se espalhou e se mostrou útil. Todavia, trouxe consigo um monte de inconvenientes, para se dizer  o menos. A começar pelo dilúvio de fakes, informações irrelevantes, calúnias, ofensas e até coisas risíveis. Na pressa de digitar, a pontuação foi uma das vítimas. Exemplo: eu estava viajando e mandei uma  mensagem para minha empregada que mora em São Leopoldo e vem trabalhar em P. Alegre, perguntando se ela ainda estava na minha casa . Resposta: “não estou no trem”. E agora: “não, estou no trem”; ou “não estou no trem”?
Outra situação. Às vezes se é convidado para entrar num grupo que, por exemplo, gosta de jogar tênis e marcar horários. Pronto: em seguida meu aparelho se enche com mil “ bom dia”, informações sobre frutas que fazem mal, frutas que fazem bem, malefícios do vinho, benefícios do vinho e por aí vai. Resultado, achei mais prático contatar direto com os parceiros e saí do grupo.
Aí entro no assunto das amizades virtuais e , desde já, adianto minha tese. A amizade, como diz o nome, é virtual; pois que fique nessa esfera. Querer reunir o grupo para uma janta vai resultar, depois das saudações de praxe, em ensurdecedores silêncios.
Mas o que me provocou frouxos de risos foram as recentes eleições. Tsunamis de denúncias contra o Bolsonaro, outros contra o PT e as esquerdas, um caos total que acabou resultando em brigas entre até pessoas da mesma família.
Volto, agora, ao assunto dos grupos. Penso que são inviáveis os grupos com exagerado número de participantes. Ninguém aguenta ler tanta coisa a cada cinco minutos.
Quanto aos reencontros com amigos que não se viam há décadas, todo cuidado é pouco. Melhor é distribuir crachás, com letras bem grandes e vigiar a boca. Nada de “ como tu tá velho”, “ bah… como tu tá gordo”.