Eu não sou da época do gênero musical bate-estacas,
mas creio já ser da época do "melhor nem tentar".
Meus amigos de juventude e eu jamais fizemos uma serenata, porque naquela época
já estava ficando complicado, mas lembro que na minha infância, nossa família
tinha um amigo, policial, chamado José, e, vez ou outra, quando estava de
plantão na Delegacia, em madrugadas monótonas proporcionada por uma sociedade
sem crimes e que dormia cedo, ele arregimentava outros policiais, músicos, e
iam até nossa casa nos brindar com serenata.
De início algum vizinho se assustava com a presença da viatura policial de
madrugada, mas em seguida ao ouvir a música logo entendia do que se tratava.
Acordávamos todos e alegres levantávamos da cama e bem recepcionávamos os
amigos.
É triste ver que essas homenagens, manifestações de verdadeira amizade, foram
se perdendo ao longo do caminho, que as pessoas foram se enclausurando dentro
de suas casas e de si mesmas.
Será que algum dia voltaremos a ter um modo de vida mais sadio e afetuoso?
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
domingo, 24 de fevereiro de 2019
BAILES DA COLA ATADA E OUTROS - SABOROSO TEXTO DE FRANKLIN CUNHA
RUY,
amigo
No
tempo doas prostíbulos ( casas de tolerância, cabarés, puteiros), na Vacaria,
muito longe de Poa - onde funcionavam dezenas deles entre a Voluntários, a Cabo
Rocha e a Pantaleão –alguns fazendeiros, fundaram o que chamavam de
Chacrinha, cerca de 5kms da cidade. Construíram cerca de 15 casinhas onde
alojavam principalmente meninas pobres do sul- catarinense.
E
lá, com a bandinha do seu Chiquinho financiada por ele ( tio de um ex-governador,
figura folclórica pois herdou duas fazendas de duas ex-esposas e passou a vida
tocando de graça nos bailes da região), ele com o bandonion, uma violeira -que
ele papava - um brigadiano na bateria e um chofer de praça, flautista e
comunista. As meninas todas peladas e o varões também, menos a camisa que a
época elas eram mais compridas e com abas atrás e na frente Então ,para dançar
melhor amarravam as abas , as da frente nas detrás e dê-lhe baile a noite toda.
.
E lá aconteciam os famosos “ bailes de cola atada “.Sempre às sextas, porque no
sábado os alegres e fogosos bailantes machos,cumpriam o
desagradável e aborrecido compromisso com as esposas no clube do
Comércio, situado em oposição à Igreja Matriz de Nossa Senhora das
Oliveiras.com a qual,os bailantes da sexta , no domingo contribuíam com gordos
óbolos.
Caxias.
Um
empresária sexual, teve a ideia de programar um baile às sextas-feiras só
para homens da apodada terceira idade o qual se realizava dentro do
horário das 18 às 23. Falei com um deles, primo de 80anos,e lhe perguntei
o que lá faziam.Primeiro me disse que a casa estava sempre à cunha. E que lá
contavam os acontecimentos da semana, tomavam cerveja, conversavam e contavam
piadas para as meninas da casa, alguma até cursavam a UCS. E...só. As 23
iam todos para casa onde dormiam muito bem depois dessa eficiente
sessão de psicoterapia de grupo.
No
final do papo com meu primo ele me revelou como os jovens da cidade apelidaram
o acontecimento das sextas:BAILE DA COBRA MORTA. Aí ele me olhou nos
olhos, deu uma gargalhada e me disse: “ Sabe, primo, que este é um
apelido bem certo “.
sábado, 23 de fevereiro de 2019
MUTAÇÕES - COMENTÁRIO DO DES. GUINTHER SPODE
Estava lendo "Mutações" e, ainda sem concluir a
leitura, pensava eu, mas será que o Ruy vai esquecer das serenatas.
Coisa bonita que eram. Primeiro aquelas românticas,
depois aquelas entre amigos, até mesmo como brincadeira para acordar amigos e
amigas na madrugada. Até depois de casado, ao voltarmos para casa tarde da
noite (ou já madrugada) em pequenos grupos (de casais e não casados)
costumávamos aqui em São Leopoldo e imediações (inclusive Porto Alegre), entre
amigos, uns surpreenderem outros que dormiam profundamente. Daí para o
prolongamento da noite até o amanhecer, bastava um violão, uns bons tragos e
até um churrasco, era para já. Mesmo os incomodados no início, em razão da
música, nas mais das vezes muito mal executadas e pior ainda cantadas, aos
poucos entravam na brincadeira que virou mais um motivo de encontro e de
amizades que existem até hoje.
Não perdi, nem me afastei de nenhum destes amigos músicos
importunos da madrugada.
Sabia-se viver. Havia limites e éramos mais tolerantes,
até porque naquela época e idade tudo facilmente virava festa.
Cumprimentos pelo texto.
Grande abraço
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
MUTAÇÕES
O que houve com os bailes?
Eu
admito, peço perdão, que sempre fui objetivo e prático. O baile era, na minha
concepção pecaminosa, (da qual dava meticulosas explicações no confessionário),
uma mera primícia do amor carnal e do namoro.Tirando fora mãe,irmãs, avó,
tia, senhoras casadas, noivas, com as quais não tinha nenhum interesse em
dançar.O baile, portanto, para minha mente meio fogosa, era um jeito de ,no
ardor dos 17 anos, abraçar a menina dos seus 16, sempre respeitando sua
relutância , o que ela fazia empurrando meu ombro para trás, mas eu
tentando haurir seu perfume de” Miss France” e ouvir seu coraçãozinho batendo e
batendo.
Beijo na
boca, só escondido.
Enfim, hoje há, segundo meu filho mais
novo,aplicativos, que entre outras coisas, localizam, num zaz, tua futura
parceria para um namoro. Nem sabia .
Vamos em frente . As mulheres conquistaram
seus lugares. Viva! Tenho filhas vitoriosas e nada raivosas. Mas essa de uma
senadora dar uma de Maria Bonita, tirando uma pasta das mãos do presidente
do Senado, foi demais. E ainda, ante o pedido de devolução, disse
desafiadoramente “então vem buscar”. Ficou feio. As mulheres, com a
igualdade conquistada, têm que também
aceitar os ônus da convivência. Ou não?
Outra
perquirição. Onde estão as cantorias? Ao tempo em que eu lecionava na Unisinos,
após as aulas nas sextas feiras à noite, nos reuníamos para um churrasco
e - sabem o que?- para cantar. Sim, cantar. Nos anos oitenta, início dos 90,
era comum jantar com alunos, ocasião em que se cantava após a quinta cerveja.
Coisa de louco era quando se entoava o Carinhoso. Na passagem do “ai se tu
soubesses” era uma desafinação só. Mas era bom. Hoje seria quase impossível
isso num restaurante. Atrapalharia os que passam teclando suas infinitas
mensagens pelo celular .
Muito
comuns eram as serestas na praia. Quantas e quantas fazíamos Guido Koehler,
Celso Campos e eu. Hoje não dá mais por causa das cercas elétricas e das portas
trancadas.
O máximo
que estou conseguindo hoje é tocar em casa com meu filho Rudolf. Se há
convidados, raramente um se aguenta quieto até o fim da música. Penso em
estabelecer uma regra nos meus churrascos caseiros. Duas salas: uma para os
tagarelas. Esses só ganhariam mocotó frio com cerveja quente e tomada no bico;
outra para os que apreciam música ao menos 15 minutos. Para esses filé
argentino e chopp importado de München ou aquela Freixenet Brut tiritando de
frio.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
A REBELDIA DE BOLSONARO
A nação está inquieta com a
situação de saúde do nosso presidente. Um pouco do que está acontecendo se deve
a algumas imprudências do próprio Bolsonaro. Primeiro foi permitir que o
carregassem em via pública, sem um esquema mais técnico de segurança, o que
redundou no atentado.
Apesar de
eu não ser médico, aprendi muitas coisas na vida.Conto um episódio. Eu estava
com 45 anos, jogando tênis , quando meu calcanhar começou a incomodar. Um
médico que jogava comigo olhou e diagnosticou ali na hora que era um “ esporão
do calcâneo”.Acabei decidindo mandar operar. Fui para casa e achei que em
breves dias voltaria a jogar normalmente. O médico me dera instruções para
ficar em repouso, com a perna mais levantada. Não dei muita bola . Eram duas
incisões. Uma estava fechando bem. A outra parecia meio estranha, Resumo: era
uma deiscência de sutura que levou ao debridamento e tive que esperar 90 dias
para que houvesse cicatrização por segunda intenção. Tudo por não acatar as
instruções do médico.
Essas
pequenas ansiedades e imprudências do presidente, viajando para lá e para
cá, nitidamente não se cuidando, fazendo uma viagem que não era urgente para
Davos, certamente não ajudaram em nada para a recuperação. Está com 63 anos de
idade, o que não é muito nos dias de hoje, mas há que se convir que sua
resistência está longe de ser a de um homem de 23 anos. Sofreu um procedimento
invasivo o que representava muitos cuidados. Mas o primeiro cuidador de
sua bronca é o paciente.
Fiquei
matutando muito tempo sobre o por que dessa inquietude do presidente. Qual a
razão de não se acalmar? Não poderia ter tomado posse, reunir-se com seu vice e
ministros e estabelecer que ninguém deveria sair dos trilhos ( incluindo-se o
vice), e que quando estivesse completamente apto, voltaria a tomar as rédeas.
Para que uma pressa afobada se o mercado estava calminho, calminho com as
diretrizes já reveladas? Mais: o que não tem solução, solucionado está. As
reformas estão esperando e se arrastando há decênios, não custava aguardar por
mais um ou dois meses?
É
possível que essa bateção de cabeças dos primeiros dias do novo governo tenha
sido um dos motivos de Bolsonaro não passar o governo ao vice. Ficou um pouco
bizarra essa desordenação inicial, um desautorizando ao outro, um falando uma
coisa e o outro desmentindo. Todo mundo temendo que o Ministro Paulo Guedes
chutasse o balde num acesso de impaciência.
Não sei
não, todos esses desencontros iniciais têm solução,mas será que nosso
presidente não estará receando o chamado fogo amigo?.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
POR ISSO QUE NUNCA QUIS TER FACEBOOK
Texto primoroso de J.F.Rogowski
caiam fora da zumbilândia
Caros
todos!
Estamos
vivendo na @zumbilândia, a terra dos zumbis digitais.
As
pessoas independentemente de nível cultural e social estão passando por um
processo de lavagem cerebral e idiotização que tem me assustado.
Na
política impera o maniqueísmo e o patrulhamento ideológico de dois lados radicais e antagônicos.
Estamos
proibidos de pensar por conta própria, de exercer o senso crítico sobre a
realidade, temos que escolher um de apenas dois lados, e seguir com a manada
respectiva daquele curral mental.
Fora
da política estão os demais loucos de todo o gênero, tem para todos os gostos
(ou mau gostos). Eles formam grupos e movimentos estruturados, com
simpósios, congressos, etc., uns defendendo que a terra é plana, outros que ela
é quadrada; outros afirmando a inocuidade dessa polêmica já que ela será
inapelavelmente destruída pelo planeta Nibiru que se aproxima em rota de
colisão; outros dizem que sim, que haverá a colisão, mas que seremos salvos
pela frota de espaçonaves estelares do comandante Ashtar Sheran que está
em prontidão atrás do sol.
Meu
intuito longe está de ridicularizar essas pessoas, porque elas sinceramente
acreditam nisso, embora, fizesse até mais sentido um “astral cheirão” debaixo
do sol da Jamaica do que no espaço sideral.
E
pior disso tudo é que os habitantes da
Zumbilândia não se contentam em confraternizar entre si, buscam fazer novos adeptos, assim entopem a minha caixa postal com
todo tipo de mensagens surreais - 99,9% não passam de lixo
eletrônico.
Tendo
a situação ficado insuportável pelo tempo que eu estava gastando até
mesmo para apagar essas mensagens, fiz um público apelo (reproduzo abaixo)
pedindo que só me enviassem mensagens que fossem realmente relevantes.
Pedi
encarecidamente que cessassem o envio de Spam. Não sei se foi de pirraçada, mas
aí que aumentou o tráfego de lixo.
Então,
sem alternativa, acabei me retirando do Facebook.
E,
se o bombardeio continuar no WhatsApp, me retirarei dali também.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
O OUTRO LADO DAS VIAGENS
Toda vez que viajo estranho minha
imersão compulsória em três situações: no check in no aeroporto; no avião antes
da partida e , já no hotel, na hora do café da manhã.Nesses momentos a gente vê
coisas para lá de estranhas ao nosso dia a dia.Câmeras em mim, com foco num
banco do aeroporto.
Meu Deus
o que é um Aeroporto às 5 da manhã! É visível que algumas pessoas caíram da
cama e saíram, em desabalada carreira, sem trocar de roupa e, por conseguinte,
sem banho, em direção ao aeroporto. Claro que, como é da filosofia brasileira,
os pontuais são relegados ao inferno e os retardatários e relapsos têm
preferência. Os alto falantes gritam desesperados pelos tardinheiros. Os
passageiros já no avião, esperando que os atrasados embarquem, o que pune e atinge os “ certinhos”.
Mas
voltemos ao portão de embarque. Todo mundo sabe que não pode levar consigo
faca, tesoura etc. Pronto, pára a fila. A moça passa no detector que dá o
alarme. Mais um incidente que poderia ter sido evitado.
Todo
mundo sentadinho no avião e antes de ele começar a corrida para alçar
vôo o senhor Jones, que ficou uma hora
no saguão, só agora sentiu vontade de ir ao banheiro.
Na
viagem, muitas pessoas , na falta de espelhos para mirar suas
maravilhosas e incomparáveis belezas, usam esse aparelho vital para o
prosseguimento da vida, o celular, para suas indispensáveis selfies, pena de
sofrerem uma apoplexia. E dê-lhe selfies, com direito a mil caras e bocas,
sorrisos congelados que chegam às raias da idiotice.Fico matutando: para que e
para quem tantas fotos?
O avião
está pousando e o comandante implora que todos fiquem sentados até ele
estacionar. Nada feito , mesmo o pessoal sabendo que não há como subir ao
pódio e ser o primeiro a sair do avião. Em seguida a correria para ser primeiro a pegar sua mala.Na saída muitos vão certificando, em altos berros, ao
celular,que amam seus interlocutores, comentam como foi o dia anterior,
para que todos nós saibamos de sua
inefável e indispensável história.
Já no
local de recolhimento das bagagens, erram de esteira e se desesperam por não
localizarem sua mala. Claro que não tiveram o dificílimo tirocínio de
saberem o número de seu vôo e em qual esteira está.
Corta
para o refeitório do hotel.
As portas
dos elevadores se abrem e dezenas de famintos, que provavelmente há 30 dias não
se alimentam, irrompem qual um arroio durante a enchente e vão em busca de uma
mesa. Se atracam no buffet enchendo o prato até cerca de 30 centímetros, para
deixar quase tudo intocado ao final.
Por que
estranho isso?Será que meus pais erraram na minha educação?
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
O FENÔMENO WATTSAPP
O renomado
médico e escritor J.J. Camargo escreveu recentemente:
“Há uma incontrolável ânsia de usar todos os instrumentos de
aproximação virtual para conectar pessoas que foram convivas em épocas tão
remotas que o tempo se encarregou de borrar-lhes a lembrança.
O convite para que participasse de um grupo de WhatsApp que devia reunir todos os
sobreviventes de um tempo de colégio me pareceu desde logo assustador. Não
conseguia imaginar como recuperar uma intimidade necessária para justificar
a reaproximação depois de, sei lá, 55 anos, só porque esta prática virou uma
febre (passageira?) na internet. O desespero aumentou quando fomos comunicados
de que todos os abaixo listados estavam automaticamente incluídos no grupo, e
eu só lembrava bem de uns cinco de uma turma de 50.”
Digo eu.Pois é: o Whatts se espalhou e se mostrou útil. Todavia,
trouxe consigo um monte de inconvenientes, para se dizer o menos. A
começar pelo dilúvio de fakes, informações irrelevantes, calúnias, ofensas e
até coisas risíveis. Na pressa de digitar, a pontuação foi uma das vítimas.
Exemplo: eu estava viajando e mandei uma mensagem para minha empregada
que mora em São Leopoldo e vem trabalhar em P. Alegre, perguntando se ela ainda
estava na minha casa . Resposta: “não estou no trem”. E agora: “não, estou no
trem”; ou “não estou no trem”?
Outra situação. Às vezes se é convidado para entrar num grupo
que, por exemplo, gosta de jogar tênis e marcar horários. Pronto: em seguida
meu aparelho se enche com mil “ bom dia”, informações sobre frutas que fazem
mal, frutas que fazem bem, malefícios do vinho, benefícios do vinho e por aí
vai. Resultado, achei mais prático contatar direto com os parceiros e saí do
grupo.
Aí entro no assunto das amizades virtuais e , desde já, adianto
minha tese. A amizade, como diz o nome, é virtual; pois que fique nessa esfera.
Querer reunir o grupo para uma janta vai resultar, depois das saudações de
praxe, em ensurdecedores silêncios.
Mas o que me provocou frouxos de risos foram as recentes eleições.
Tsunamis de denúncias contra o Bolsonaro, outros contra o PT e as esquerdas, um
caos total que acabou resultando em brigas entre até pessoas da mesma família.
Volto, agora, ao assunto dos grupos. Penso que são inviáveis os
grupos com exagerado número de participantes. Ninguém aguenta ler tanta coisa a
cada cinco minutos.
Quanto aos reencontros com amigos que não se viam há décadas,
todo cuidado é pouco. Melhor é distribuir crachás, com letras bem grandes e
vigiar a boca. Nada de “ como tu tá velho”, “ bah… como tu tá gordo”.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
BRILHANTE CRÔNICA DE AFIF JORGE SIMÔES NETO - MAGISTRADO E ESCRITOR
SÓ TU E EU
Tenho contabilizado horas de voo a transportar esta minha
fuselagem carnal pra lá e pra cá, desorientado, como quem carrega o filho
padecido à procura de um posto de saúde sempre lotado. Com ela, períodos atrás,
subia serras que pareciam tocar seus galhos na soleira do céu. Atravessava
pequenos rios que ainda davam vau e descia bravas encostas, sem sequer
perguntar o que estava achando da travessia.
O meu corpo, quando moço, era pleno de viço e vaidade.
Tinha fôlego de maratonista. Braços em incansável préstimo aos outros da mesma
espécie, e pernas resolutas a buscar amores desviados de sua rotina vulgar. Uma
cabeça que eu não diria lúcida, mas complacente com a turbulência da viagem, e
um tórax descarnado, muito próprio de quem viveu escondido na timidez.
O meu corpo, quando moço, tinha veias e artérias
assemelhadas ao desenho de arroios interioranos, por onde o sangue novo
desfilava todo o seu ímpeto de cavaleiro medieval.
Nos olhos vívidos, um cenário de primaveras enfloradas,
quando a vida ainda era uma paisagem de aurora, musicada pelo riso sinfônico
dos canarinhos da terra.
É claro que a gente não envelhece tão depressa assim,
entre um jantar e o café da manhã do dia seguinte. Mas tenho notado que o meu
corpo já não é mais o mesmo quando se acalma dentro de mim a cada sono que
empeça. Os constantes deslocamentos deixaram-no afônico, em dispneia, embora
resista em admitir a chegada da maresia que vai apodrecendo máquina e casco e
convés.
A propósito, a linhagem racional a qual pertenço clama
não é de hoje por uma CPI contra o Criador. O intento dos meus pares é
investigar a fundo a ação omissiva d’Ele, que nada fez para impedir que os dias
roubassem descaradamente o nosso tônus muscular, nosso colágeno, os cabelos e
até um pouco da gana de viver, a cada despedida na gare da estação.
Sinto que se aproxima o momento de a carcaça me
abandonar, exaurida e febril em razão do sofrimento tirano que lhe impus no
verdor dos anos. E na minha opaca lembrança do que serei depois, restarão
algumas imagens reveladas pela fotografia esmaecida de um tempo imemorial.
Na partilha dos haveres, não terei mais nada a
oferecer-te, oh, Deus, afora estes pedaços meus sobrados do naufrágio.
Tu me fizeste assim, uma inquieta biruta a desviar-se das
rotas da ventania, e eu sou, tão-somente, um rascunho em papel de pão do que
fui quando me era inteiro.
Ah, corpo velho de ternas lembranças, agora sei por que
andas arredio comigo, com cara de enfado e uma importuna vontade de quem pensa
em se aprontar para o salto mortal. É chegada a hora do retorno ao colo úmido
da terra, abrigo virginal e morno de todos os teus iguais de pele, ossos e
fadigadas carnes
Varando estradas, em virações sentidas, vai o meu corpo,
adulterado e melancólico. Do Corcovado ao Chiniquá, com cantos vagos, seguimos
nós. Bem no final, por entre nuvens ou arrebóis, só tu e eu...
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
A ÚLTIMA FLOR VERÁ NOSSO FIM
Sem árvores, sem flores, nada de
polinizadores, abelhas, pássaros, sequestro de carbono, fim da vida. Fim para a
qualidade do ar e do solo. Fim de tudo.
Tenho uma
casa em Xangri La, a uma quadra do mar, sobre três terrenos. Muitas flores,
árvores, cuidamos de manter lindo o nosso jardim, nas quatro estações do ano.
Fui notando que, tirando o verão, ninguém arrancava flores que se esgueiravam
para a calçada. No período de veraneio, muitas pessoas seguiam para suas casas
e , ao cruzarem com um galhinho para fora da cerca, o arrancavam para o jogar,
passos adiante, fora. Também decidi colocar, encostados à cerca, dois pequenos
containers, um para lixo orgânico e outro para reciclável, com amplos dizeres
para os distinguir. Amarrei-os com uma corrente contra a cerca. No verão as
pessoas passam e atiram papéis, garrafas etc., o que é um desrespeito, mas nem
sequer selecionam o coletor certo.
Um dia ví
um jovem passando e atirando uma garrafa no meu coletor orgânico. Eu estava
perto e lhe chamei a atenção. O rapaz abriu o coletor, pegou a garrafa e a
atirou aos meus pés. Quis lhe perguntar em que presídio aprendeu a ser tão mal
educado, mas claro que recolhi a garrafa e dei por encerrado o assunto. O moço
me dirigiu uns impropérios e se afastou, sob os olhares dos vizinhos que já
tinham acorrido para me auxiliar no caso de uma encrenca.
No
inverno passado decidi fazer outra experiência. Comprei vários vasos grandes de
argila, coloquei humus, plantei florzinhas neles e os deixei na frente da minha
casa, no meio fio da calçada. Foi tudo tranquilo, inclusive no começo do verão.
Chegou a bagunça do fim de ano, dormi muito pouco devido ao foguetório,
levantei seis da manhã do primeiro do ano, pois tinha ido dormir às 22 horas
(não dou a mínima pelota para as “entradas”, com seus propósitos e juras de
melhoras, janto qualquer coisa com meus afetos e vou dormir bem feliz), abri a
porta da frente e…. os vasos estavam tombados. Gente arruaceira cruzara vinda
da praia em direção aos seus albergues temporários e achara maravilha
maltratar, não a mim, mas a mãe Natureza. Levantei os vasos que, por sorte, não
se haviam quebrado e replantei as plantinhas com suas flores. Reguei-as primeiro
com minhas lágrimas e, depois, com água.
Agora em
seguida chega a hora do Planeta Atlântida. Milhares de pessoas aportam em
Atlântida, distrito de Xangri La. Já decidi deixar todas as flores plantadas
nos vasos grandes . Só vou colar um adesivo: “não nos mate por
favor,ajudamos no sequestro de carbono”. Saberão o que é isso?
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
AINDA EXISTE UM LUGAR
Venha sentir a paz que existe
aqui nos campos/ O ar é puro e a violência não chegou/
O céu bem
limpo e muito verde pela frente/ Uma vertente que não se contaminou/ Pela manhã
o sol nascente vem sorrindo/ E os passarinhos cantam hinos no pomar/ O
chimarrão tem um sabor de esperança/ E a criança traz um futuro no olhar (Ivo
Brum e Miguel Marques).
De muita
tertúlia participei com Miguel Marques. Este é um caso raro de instrumentista
perfeito e dono de uma voz super afinada. Miguel anda mais recolhido ao seu sítio
no interior de Santiago, a idade vai pegando, mas continua com suas
maravilhosas composições. Toca tudo de ouvido, tem o famoso e raro “ouvido
absoluto”. Certa vez,como alhures já contei, ele me convidou para ajudar, numa
Califórnia em Uruguaiana, a tocar uma obra musical sua. Eram vários
instrumentistas. Estávamos “passando o som” no palco e ele chegou perto de mim
e sussurrou: “dá uma levantada na tua corda mi”. E de fato, ele tinha razão.
Mas o que
eu queria falar era sobre a verdadeira música nativa. Não concordo com o termo
música galponeira A música nativa se cria e se toca até numa taipa de açude.
Existem os compositores que não sabem distinguir um cavalo de uma égua. Fazem
um barulhaço bagual, é música para baile, tipo bate-coxa, em que os músicos
rebolam mais que baiana no trio elétrico. Mas é válido, tem quem goste e é
preciso respeitar.
De outro
lado , a música que descreve dores, amores, natureza, céu, estrelas, lidas, os
animais, as vidas “pra fora”. A Ministra do STJ Fátima Andrighi, minha
querida amiga, me perguntou da razão de
nossa música autêntica não ter muita acolhida de São Paulo para cima. Não soube
lhe responder: talvez porque não se priorize a percussão, talvez pelos
vocábulos que só aqui se usam, ininteligíveis para nossos irmãos de outras
plagas, e talvez por causa da excelente temática das letras, que não contém
aquelas lamúrias “kitsch” de dor de cotovelo.
O fato é
que no nosso Estado há diferenças que vivenciei. As regiões coloniais e
industriais têm times de futebol famosos, gostam de música de todos os tipos e
gêneros. As regiões campeiras tem população rarefeita,ênfase na agricultura e
pecuária, não têm grandes times de futebol. Lá o esporte é o rodeio, o tiro de
laço.Até cidades pequenas têm seus locais de rodeio. A música ainda é a
gaúcha, mas também tem alguma sertaneja, por incrível que pareça.
Há quem
lastime que sua cidade não tenha mais de 50 mil habitantes. Penso que mais vale
ficar do tamanho em que está, para que ainda se possa dormir sem grades…(
ainda existem lugares assim)
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMAS? SERÁ MIGUÉ?
A FLEXIBILIZAÇÃO DA
POSSE DE ARMA
Tá me cheirando migué
por João-Francisco
Rogowski
Advogado
Além de votar em Bolsonaro fiz
campanha para ele nas redes sociais, porque entendi que elegê-lo era a única
forma de derrotar o projeto criminoso lulopetista e o terrorismo.
Na sua posse ao ministério o General
Augusto Heleno enalteceu sobremodo a estruturação e a eficiência da Agência
Brasileira de Inteligência – ABIN,
levada a cabo pelo General Sérgio Etchegoyen.
O presidente Jair Bolsonaro
manifestou-se pelo Twitter informando que quer a Carteira Nacional de
Habilitação (CNH) com validade de 10 anos.
Hoje (15) o
presidente assinou o decreto que flexibiliza a posse de arma de fogo de defesa
pessoal pelo cidadão.
Para ser justo reconheço algum
avanço nessas questões, mas para ser fiel à minha consciência devo dizer
que eu esperava bem mais.
Claro que entendo que atual
administração pública federal está apenas no início de sua gestão, mesmo assim
já sinto um aperto incômodo no peito.
Se o Serviço de Informações está tão
bem estruturado como afirmou o Gen. Heleno, por que então o governo foi pego de
calças na mão em relação à onda de atentados terrorista no nordeste do país?
Recentemente passei uma temporada em
Portugal e fiquei sabendo que em muitos países europeus a Carta de
Condução de veículos é vitalícia, em outros é válida por 15 e até 50 anos.
A obtenção da Carta de
Condução também é muito simples, dependendo da categoria, se amador, o condutor
é dispensado de exame de direção, assina uma declaração sob as penas da lei que
sabe manejar veículos.
A exigência mais rigorosa é a
do Atestado Médico para que se possa dirigir o qual pode ser solicitado ao médico
de família, ou atendimento nas Unidades Públicas de Saúde ou clínicas
particulares.
Esse documento é exigido uma única
vez, porque o condutor tem a obrigação legal de comunicar ao Departamento de
Trânsito qualquer alteração em seu estado de saúde que limite sua capacidade
para conduzir veículo. Os médicos também são responsáveis por efetuar
essa comunicação caso observem em seus pacientes déficit prejudicial à condução
de veículo.
Por fim a questão da
“flexibilização” da posse de arma de defesa pessoal.
Há que se diferenciar as armas de
fogo de defesa e de ataque.
Armas de defesa têm menor potencial
ofensivo, geralmente o revolver e pequenas pistolas.
Já as armas de ataque são os fuzis,
pistolas de uso restrito das Forças Armadas e outras armas mais potentes.
Lembro-me que antigamente a pessoa
interessada em adquirir uma arma de defesa ia a uma loja de armas, apresentava
documento de identidade, comprovante de endereço e preenchia um formulário e
aguardava uns dias a aprovação pela Polícia que obviamente levantava a ficha
(antecedentes) do comprador.
Uma vez aprovado o cadastro do
candidato a venda era formalizada e ele poderia ter a arma de defesa em sua posse
e guarda (não o porte).
O decreto de “flexibilização”
assinado hoje traz uma série de regulamentações e exigências que tutelam o
cidadão em detalhes dos mais triviais, como ter um cofre ou armário com tranca
para guardar a arma de defesa se houver crianças ou doentes mentais no local.
Quando eu era criança recordo-me que
meu Pai guardava a arma em cima do roupeiro e descarregada, ele nunca precisou
de uma lei obrigando-o a ser diligente e cuidadoso com a guarda de sua arma.
O excesso de regulamentação tratando
o cidadão com um retardado, como um incapaz desprovido de
autodeterminação e pragmatismo é próprio do
comunismo totalitário que tutela tudo e todos, e nada tem a ver com um sistema
político democrático, liberal, que respeita e assegura aos indivíduos o direito
de viverem e se conduzirem de acordo com a sua liberdade natural, o seu livre
arbitro dado pelo Soberano Deus ao homem e que até mesmo ELE respeita.
Sinceramente eu esperava que o lema
desse novo governo fosse liberdade com responsabilidade!
--
João-francisco Rogowski
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
A PRAGA DOS FOGOS
A Gazeta de quinta-feira passada
publicou um artigo de Afonso Schwengber , a quem ainda não tenho o prazer de
conhecer, sobre os fogos de artifício. Gostei muito da crônica, de estilo
direto, claro, sem rodeios e salamaleques. Apesar de eu não achar graça
nenhuma em fogos, nada tenho contra os
não ruidosos.
Em
qualquer lugar do mundo, exceção feita a alguns lugares atrasados , os fogos
são tratados como algo perigoso. Ao ar livre ou fora dele.
Nos
noticiários, os dedos e mãos amputados, os olhos arrancados e as coisas
estúpidas de ano novo, carnaval e outras festas.
Comprar
fogos ruidosos deveria ser como comprar antibióticos: receita retida.
Teria que ser como comprar uma arma de fogo: com papéis em dia, passando
pela Polícia e tudo; fogos têm pólvora, da qual dá para fazer munição de armas.
Essa barulheira absurda incomoda demais, mas como existe gente que gosta de
bobagens, vá lá. Para comprar fogos o sujeito teria que entrar na loja munido
de uma guia da autoridade competente. Essa guia teria que ser retida e clipada
na nota fiscal. Para obter essa guia o sujeito teria que fazer um requerimento
à Prefeitura expondo as razões de incomodar os outros (juntando atestado
psiquiátrico). O filho passou no vestibular lá na Universidade de Barro
Amarelo? Dê-lhe foguetes! O comprador
não acha bonito o céu estrelado, precisa do artifício humano? Adora assustar as
pessoas normais? Ou odeia os animais?
Passo
seguinte:onde quer soltar os foguetes? perto de hospitais? nem pensar. Perto do
Centro da cidade onde vivem milhares de idosos? nem pensar. Perto da mata onde moram
os passarinhos? nem pensar. Soltar os fogos num lugar isolado ele não quer, por
que será?
Quem sabe
pode soltar os foguetes no porão de sua própria casa. Também não vai
querer.
Vejam o absurdo:
o cidadão comum tem que entrar em filas e realizar um périplo demorado para
obter uma licença ambiental. O fogueteiro não precisa de nada. Compra sem
formalismos e solta onde bem entende e nos obriga a ouvir o que não queremos!
Mais uma
observação: penso que os gestores públicos têm que refletir bem se bancar a
compra desses artefatos não beira às raias da improbidade administrativa.Só
quem não se informa apoia a aplicação de dinheiro num evento efêmero , quando
há outras necessidades urgentes.As entidades públicas, que gastam nosso
dinheiro, têm que observar prioridades. Estivéssemos morando num país em que
reluzem o ouro e o dinheiro, todo mundo gordinho e são de lombo, até vai.
Mas estamos mais pobres do que imaginamos.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
JEJUM E RECEIO - BLAU SOUZA *
Ainda na fase de valorizar Natal, parábolas e histórias edificantes ou
divertidas, vou lembrar uma contada pelo Dô, meu cunhado, pai do Fernando
Adauto, da Ana Maria, do alemão Gilberto e do Guilherme. O apelido, última
sílaba acentuada do nome Fernando, fixara-se nos tempos em que atuava como
jogador de futebol e nas rodas boêmias, nas serenatas, ao exercitar voz e
violão. A verdade, é que suas visitas de noivo à Vera, na Estância do Sobrado,
eram muito festejadas pela gurizada da casa. Pois ele sabia muito bem alternar
música e histórias que se iam encaixando no imaginário de guris de campanha.
Algumas ficaram bem gravadas em minha memória, de onde seleciono, hoje, uma
delas, para compartilhar com os leitores.
Num
tempo que já vai longe, quando não havia automóvel e as viagens eram feitas na
base do cavalo, os gaúchos valorizavam a hospitalidade de uma forma comovente,
até porque, em alguma ocasião, dela poderiam depender. Mandar desencilhar,
servir mate e oferecer boia e pousada fazia parte do bem receber. É claro que
isso não dispensava minuciosa observação do paisano recém-chegado, da sua
montaria, das vestes e arreios, bem como do trato dispensado por ele à montaria
e aos pertences. Em alguns lugares, o tratamento incluía lavar os pés de quem
chegava, como ocorreu com o nosso viajante, que desde a madrugada cavalgava com
poucos intervalos para descansar, arrumar os arreios e beber água de sanga. O
fiambre, as galletas tinham sido devoradas havia algum tempo e a fome
não era pouca. Olhando para o sol e os horizontes, calculava o meio dia, e
ainda estava distante da estância que divisava ao longe. Não seria aconselhável
apressar a marcha, pois o cavalo, suado e arfante, dava mostras de cansaço em
dia quente de verão. Mas a sombra de arvoredo, casa, galpão e expectativa de
presença humana, reavivavam cavaleiro e montaria. Finalmente, anunciados pelo
latido dos cachorros, ouviu-se um Ô de casa do chegante, enquanto
alguns peões saiam pela porta do galpão e o patrão se aproximava, respondendo à
saudação de Laus Sus Cris (Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo)
feita pelo viajor. A este, não passara despercebida a noção de ter chegado com
atraso, na hora da sesta, que sucede ao almoço e recupera o pessoal para as
lides da tarde.
Claro
que o Dô ia adaptando a história à capacidade de entendimento da gurizada, bem
como dando espaços para perguntas e comentários, que por vezes alteravam enredo
e fluxo do que pretendia dizer. Por sabedoria que a vida lhe ensinara, adequava
as histórias ao público como fazem os editores de literatura infantil no
aproveitamento de textos, por vezes trágicos, de autores consagrados como os
irmãos Grimm, Hans Handersen e tantos outros. Certamente os autores citados não
seriam tão conhecidos mundo afora, não fossem mascaramentos e traduções
orientados através dos tempos e com valorização crescente de imagens e cores.
Numa cadeira de balanço, cercado pelos guris, que disputavam seus joelhos, ele
criava fatos e personagens que preenchiam o imaginário de ouvintes atentos e
curiosos. Dô pontilhava linhas que iam sendo preenchidas pela imaginação e pela
memória de cada um. As interrogações eram muitas e às vezes serviam como ponto
final e instigante das histórias.
Mas voltemos ao paisano e sua fome. Estava claro para ele, que chegara após a
refeição, algo muito precioso em dia de estômago vazio. Desencilhou, foi bem
recebido, mas ninguém mencionava alguma coisa que lembrasse almoço, comida,
boia... Antes que o estancieiro voltasse para a sesta, ordenou que trouxessem
banco, bacia, jarro com água e toalha para lavar os pés cansados do
recém-chegado, que se ia apresentando ao responder perguntas enquanto mateava.
O peão caseiro ia iniciando o preparo do ritual do lava-pés, quando o paisano,
avaliada a situação e a fome, perguntou com voz entre firme e suplicante: Será
que não faz mal, lavar os pés em jejum?
*Médico e escritor
quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
A BIC E A MICHELLE
“Michelle, ma belle
Sont les mots qui vont très bien ensemble
Très bien ensemble”
Impressionante. Até
eu, calejado, maroto nas curvas da vida, peleador, homem de brigar com filhos e
netos, dizendo que quem dorme demais termina pobre; logo eu, que aprendi ser a
maior maldição se comover por coisas simplórias e golpistas, seguindo, por
exemplo, alguns grupos pseudo religiosos caça níqueis, logo eu que tomei
ferro vida a fora, até fome passei quando morava na casa da UESC, na Tomás
Flores, em Porto Alegre, nos anos sessenta, estudando na gloriosa UFRGS, até eu
chorei emocionado. As lágrimas não eram de crocodilo, sem embargo da
inefável beleza de Michelle, a esposa de Bolsonaro
e seu ballet de libras. Mais ainda me
comoveram as lágrimas da tradutora e os beijos na boca, selinhos, da
Michelle em Bolsonaro. Que espetáculo surpreendente; Michelle, la belle, deu um
show, abanou, muito mais do que seu combalido consorte esfaqueado. Um cara que
convive com uma mulher assim, esse taura é de fundamento.
Depois vieram o vice
eleito, com sua cabeleira de asa de graúna, mais preta que noite de
tormenta, o meu querido amigo Lorenzoni e outros menos votados, todos assinando
o papel com a caneta Bic. Olha só: usar a caneta Bic é uma afronta à Mont Blanc.
E se fosse mil anos atrás, um agravo à Parker 51.
Que lance!!
Podia, na hora da assinatura, vazar tinta, sujando os punhos engomados
dos escolhidos. Ao revés, a Mont Blanc mostraria o poder e a nobreza. Mas, me
indago, por que assinar? Se hoje é tudo digital?
Não bastaria
Bolsonaro dizer que tinha escolhido e pronto? Quem ousaria confrontá-lo? Quem
sabe receio de uma liminar de um juiz de plantão num sábado à meia noite, num
dia de feriadão?
Bolsonaro optou pela
Bic. Optou porque quer mostrar que é despojado, que ao assinar não
mostrou um relógio de ouro como Collor, ou um Tag Heuer ou, pior ainda, um
relógio de algibeira folhado a ouro?
Ok, até aqui meu
querido leitor, minha amiga que me lê já sestrosa.
Seguinte: eu votei no
Bolsonaro e quero que tu e eu possamos ter a frau Glock ou um 38 legalizado em
casa, não quero que mexam para pior na reforma trabalhista, quero um governo
que não persiga injustamente, usando um demônio chamado burocracia, os empresários.
Mas teria havido um
pouco de populismo?
Ou não...Vamos ver o
que vem por aí.
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