terça-feira, 26 de março de 2019

PRA REFLETIR - TEXTO DE TITO GUARNIERE


TITO GUARNIERE

 

TROFÉU DA INSENSATEZ

 

Na semana que passou no Brasil tudo o que tinha de dar errado, deu. Se Deus é brasileiro, entrou de férias. Somos incapazes de concordar minimamente sobre o que é mais prioritário e urgente. Cada um tem sua receita e não abre mão dela.

 

Para começo, há dúvidas sobre se existe governo. Bolsonaro confirma a cada passo o que já era antes possível intuir: falta-lhe visão estratégica, capacidade de diálogo com a nação, conhecimento da política. Falta-lhe leitura e o dom da palavra. É homem de reduzidas habilidades. Só se faz entender pelos seus exaltados seguidores nas redes sociais. Não acresce um único aliado aos seus valores e propósitos, e perde rapidamente o capital político que angariou na eleição.

 

Bolsonaro já disse, mais de uma vez, que não veio para fazer, mas para desfazer o mal que veio antes dele. Pode dar certo um governo de ambição tão rala? É isso que ele pensa, que foi eleito para o desmantelamento, a desconstrução? O papo maçante do PT era o do “nós contra eles”. O de Bolsonaro é o mesmo, de mão trocada.

 

Em Brasília, a reforma da previdência está no caminho certo para o brejo. Partidos inteiros desertam do compromisso de apoiá-la. Não há reforma previdenciária sem perdas. Mas se ficar a impressão de que uma corporação - como a dos militares - receberá compensações e perderá menos, os políticos, com o seu aguçado senso de sobrevivência, terão a razão que falta para não votarem a reforma impopular.

 

De outro ponto da Esplanada, o ministro Sérgio Moro resolveu peitar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para que acelere o trâmite do seu pacote anticrime. O juiz pode expedir mandado de prisão, quebrar sigilo bancário, homologar acordo de delação, condenar réu no processo de sua alçada. Mas projetos de lei , para passarem no Congresso, pedem tenacidade, paciência, articulação política. Ninguém aprova leis pelos belos olhos de ministro de Estado.

 

Maia não é o meu deputado predileto, mas era tudo o que o governo tinha na articulação política. Ela agora está nas mãos de um punhado de neófitos voluntariosos.

 

Na mesma Praça dos Três Poderes, uma parte ponderável do Supremo Tribunal Federal está em conflito aberto com os procuradores da Lava Jato. Semana sim, outra também, estes últimos, diante das críticas mais banais, ou de qualquer decisão que os incomode, entoam o mantra de que “querem acabar com a Lava Jato”. Eles se têm na alta conta de únicos honestos e de último baluarte na luta contra a corrupção. A empáfia gera reações. A do STF é apenas uma delas.

 

Até mesmo a prisão de Temer vai engrossar a indisposição do MDB, de setores do PSDB e de outros partidos, para qualquer coisa que venha do governo.

 

Os poderes digladiam entre si, em embates gerais e pontuais: é tudo o que o Brasil não precisa nesta quadra errática da vida nacional. Haverá alguma voz disposta a trazer um pouco de luz, a propor uma trégua, necessária para que, de algum modo, nós possamos nos recompor? Ou vai continuar rodando assim o carroção pesado, de rodas enferrujadas, em que nos transformamos? No final, nos enfrentaremos todos para saber quem ganha o troféu da insensatez?

 


 

domingo, 17 de março de 2019

ÁGUAS DE MARÇO E OS CAMPEIROS







Lindas as cenas que ontem presenciei na agora plácida e calma Xangri Lá. Na praia quase deserta, com mar azul, sol radiante, apareceram jovens cavaleiros, alguns montados de em pelo, com suas montarias.
Vieram conhecer o mar, junto com seus cavalos e éguas.
Até um jovem casal, pilchado a preceito apareceu.

sexta-feira, 15 de março de 2019

AINDA SOBRE AS FALAS DE BOLSONARO

( J.F. Rogowski - Jurista e teólogo)
Sobre as excentricidades comportamentais de Jair Bolsonaro e filhos penso que vem agradando ao povo por variadas razões, embora por vezes nos assuste.

Particularmente eu preferia  ler no Twitter do Presidente Bolsonaro mais sobre projetos para tirar o país da crise.

O Brasil está enfermo, edemaciado pelo acúmulo de sujeira e corrupção ano após ano.

O povo tornou-se gado, mas não da raça  Ile de France bem  cuidado e sim uma boiada magra, perebenta, maltratada, refém de inúmeras estruturas cujo único objetivo é poder, dinheiro e dominação.

Somos dominados por uma burocracia perversa que comanda um Estado paquidérmico, socialmente inútil, que suga todos os nossos recursos em forma de impostos injustos onde os mais pobres pagam mais e os mais ricos pagam menos e não se tem retorno de nada.

A Tributação Injusta e Excessiva é Uma Forma Cruel de Dominação do Povo. https://t.co/9bBICxfmEE

Estamos aprisionados no interior de uma gigantesca maquina caça-níquel  sempre a espreita para nos tirar dinheiro, seja com multas de trânsito, pedágios, taxas e etc.

Em Portugal, um país com uma  economia tímida, sem grandes parques industriais, agronegócio inexpressivo, mas  com um povo maravilhoso e hospitaleiro,  quando  lá se vê uma rodovia magnífica que mais  parece um tapete de veludo preto com pedágio a 30 centavos (lá se diz cêntimos), uma bombona de 20 litros água mineral por 70 cêntimos, percebe-se  a monstruosidade que é o custo de vida no Brasil.

Todos deveriam viajar para países de primeiro mundo, especialmente os menos aquinhoados precisariam fazer um esforço e ir nem que fosse vez única na vida, porque somente quando  se sai daqui e se consegue olhar de fora é que se vê o tamanho da fossa séptica em que estamos metidos (ou fedidos ou f...).

Diante de um cenário de tamanha perplexidade, a nação acuada a com água batendo no pescoço, as  idiossincrasias do Presidente Jair Bolsonaro acabam tendo uma conotação positiva ainda que noutro contexto fossem reprováveis, porque esse comportamento incomum digamos assim, cria uma conexão com as massas populares que ao menos vislumbram algo diferente saindo  da mesmice,  dando a impressão que daqui a pouco o Messias Bolsonaro fará um gol de bicicleta e nos tirará dessa  caótica e triste realidade.

quinta-feira, 14 de março de 2019

MENSAGEM DE ROSANE DE OLIVEIRA A RESPEITO DE MINHA MAIS RECENTE POST


Caríssimo Ruy,

Como sempre, teu comentário é perspicaz e equilibrado. Tens a isenção necessária para criticar os erros do presidente. A ti ninguém poderá chamar de comunista nem te mandar pra Cuba ou pra Venezuela, como fazem os leitores comigo quando aponto o equívoco de dar foco a irrelevâncias ou de se deixar levar pelos arroubos dos rebentos.
Tenho certeza de que a tua intenção é colaborar, porque sabes (com o perdão pela metáfora surrada) que estamos todos em um transatlântico e a ninguém interessa que afunde. Sabemos muito bem que, se o navio afundar, não haverá bote para todo mundo. 
Eu gostaria de ver o presidente focado em questões relevantes, como a reforma da previdência, das quais o país depende para voltar a crescer. Siga nessa trilha. Acho que o presidente ganharia muito se chamasse pessoas como tu para umas duas horas de prosa. No poder, os homens (e mulheres) cercam-se de concordinos. Não sabem o quanto ganhariam se ouvissem vozes plurais, como disse o general Hamilton Mourão a propósito do caso Ilona Szabó. 

OVELHA NÃO É PARA MATO, SR. PRESIDENTE


Está causando perplexidade, em alguns setores da sociedade, o agir do presidente da república.
Na maioria das nações, principalmente as que aprendem com o passado, os governantes optam por comportamento discreto. A humanidade foi coletando, pelo andar dos séculos, normas, algumas consuetudinárias, outras legais, de comportamento, tanto  das autoridades como dos cidadão comuns.
É de bom alvitre,portanto, para todos nós, cuidar com o que se diz .Já antes de Cristo se dizia que “ se ficasses calado, passarias por filósofo ( Si tacuisses, philosophus mansisses).E não é por nada que os germânicos advertiam  que falar é prata, mas silenciar é ouro ( reden ist Silber, schweigen ist Gold). Não aconteceu já contigo, que me lês, que a todo passo alguém, mesmo decênios depois,traz a tona uma frase infeliz que proferiste? Daí o outro provérbio:” és o dono das palavras não ditas,mas escravo eterno das ditas”.
O nosso presidente criou constrangimento, pela falta de clareza, quando disse que só há democracia com aquiescência das Forças Armadas. No que ajudou essa afirmação? Teria sido um afago aos militares? era necessário expressar esse pensamento?
A publicação, pelas redes sociais, de uma irresignação sua por uma postura de gosto condenável durante o carnaval redundou no que? Resultou no fato de que aquele proceder, de pouquíssima repercussão, percorreu o país, teve manchetes até no exterior. Muitos mandatários de países adiantados devem ter se perguntado: mas será que no Brasil não há outras autoridades, em nível inferior ao presidente, para tomar conta desse incidente? Teria sido de bom gosto o próprio presidente ter reproduzido o ato que achou condenável?
Daí chegamos à outra assertiva: o pretor não cuida de coisas pequenas ( de minimis non curat praetor). Assim como não cabe ao juiz algemar o assaltante, não faz nenhum sentido o presidente se arvorar em guardião dos bons costumes.
Sinceramente penso que o presidente deveria trazer, para perto de si, pessoas que bem o aconselhassem. Cito como exemplo meu colega de bancos acadêmicos do Direito da Ufrgs Nelson Jobim, deputado federal,ministro do STF e seu presidente, ministro da defesa, advogado de escol. É desse padrão de conselheiros, não desdenhando os demais que o assessoram, que necessita Bolsonaro. Homens e mulheres experimentados, de uma vida inteira sem máculas, pessoas razoáveis e prudentes que possam ajudar a amenizar essa turbulência que está desnecessariamente ocorrendo. A saúde de que entrar em  áreas em que há controvérsias técnicas? Ovelha não é para mato.


sexta-feira, 8 de março de 2019

FUNERAIS LINGUÍSTICOS


Funerais linguísticos

Franklin Cunha
Médico
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras
      
E quando a Divindade quer abater a arrogância dos homens  não necessita do raio nem da violência; basta que confunda a sua linguagem, que a unidade da língua seja abolida, e a torre cuja cúspide deveria tocar no céu torna-se uma ruína, como estigma da impotência humana.   
Walter Porzig
em “O Mundo Maravilhoso da Linguagem”.

René Etiemble, professor de literatura da Sorbonne, está empenhado há anos numa intensa luta  contra o perigo de descaracterização da língua francesa pela invasão incontrolável de palavras inglesas ou, pior, anglo- americanas. Em seu livro Parlez-vous franglais? editado há três décadas, ele se propõe a defender não apenas o idioma, mas a cultura e o modo de viver dos franceses. Não são apenas palavras de empréstimo que se insinuam no francês - diz Etiemble - mas trata-se de uma doença metastática que corrói a pronúncia, o léxico, a morfologia, a sintaxe e o estilo. E, segundo recente pesquisa, dois terços dos gauleses são favoráveis à instituição de uma terapêutica radical contra essa grave doença.
Há duzentos anos Rivarol afirmava: “O que não é claro não é francês”. Dessa boutade Etiemble não participa, pois sabe que nenhum idioma é auto-suficiente e nem pode dispensar verbetes alienígenas para permanecer fluidamente vivo e atualizado. Porém a admissão indiscriminada  de torrentes de palavras com grafia, pronúncia, forma e flexão completamente diversas da língua original pode prejudicá-la seriamente, embotando a criatividade linguística dos seus usuários e obstruindo as fontes genuínas de enriquecimento e renovação.
A linguagem é uma estrutura de grande complexidade, definidora da humanização do homem. O linguista Noam Chomsky afirma, e tanto  neuropsicólogos como  geneticistas confirmam, que a possibilidade da fala é uma condição adquirida in útero (“As crianças não aprendem a falar: já o sabem “). Cavalli-Sforza, outro linguista, diz que o ser humano nasce com a capacidade de apreender uma língua, o que o distingue das outras espécies animais, mesmo as mais vizinhas, possuidoras de meios de comunicação limitados. A linguagem é uma criação cultural, tornada possível graças a um substrato anatômico e neurológico complexo e único no reino animal. Afinal, ela foi o principal veículo transmissor de toda a cultura e garantiu a sobrevivência e a supremacia desse ramo de primatas ao qual pertencemos. E a maravilhosa diversidade de culturas criadas pelo homem através dos tempos, é que fez surgirem milhares de idiomas.
Se estes fossem apenas um meio técnico para o mero exercício do comércio internacional, haveria vantagens e nenhum prejuízo em falarmos todos a mesma língua.  O problema é que signos linguísticos diversos implicam em modos de pensar, de sentir e de interpretar o mundo, igualmente, diferenciados.
Esse é o sentido mais profundo de uma comunidade idiomática específica;  o de ter uma imagem e uma  visão peculiar do homem e do seu universo cósmico e mental. Por isso, quando uma língua se extingue, perdem-se milhares de anos de história do desenvolvimento cultural e da experiência psicobiossocial de todo um povo.
Se o desaparecimento das línguas prosseguir no ritmo atual, o futuro nos reservará  uma uniformização não só lingüística, mas cultural, ética, estética  e mesmo ideológica. E já se tornou um truísmo afirmar-se que na diversidade está a liberdade. 
Um exemplo ilustrativo de diversas e ricas articulações em línguas culturalmente muito próximas, oferecem as designações das várias espécies de relógios, nos idiomas alemão e francês. Em alemão, Taschenuhr é o relógio de bolso; Wanduhr o de parede; Turmuhr, o relógio da torre; Sonnenuhr, o de sol; Wasseruhr, o de água; Sanduhr, o de areia. Quer dizer, todos os instrumentos para medir o tempo estão, primeiro, designados sob o nome principal Uhr, hora, depois se distinguem por sua forma e maneira de funcionar. Essa distinção aumenta nossa compreensão sobre o objeto designado. O francês, diversa e caracteristicamente, coloca nesses utensílios de uso diário, mais interesse nas diferenças de forma do que nas de funcionamento. E, assim, os nomeia: montre, o relógio de bolso; pendule, o de parede; horloge, o da torre, cadran, o relógio de sol; clepsydre (lindíssima palavra !), o de água e sablier, o de areia.
Então, os diversos tipos de relógios desempenham entre os alemães exatamente o mesmo papel que entre os franceses, porém a concepção linguística é diferente, não apenas foneticamente como, também, pelo conteúdo, quer funcional, quer estético.
Se tais diferenças já se manifestam em objetos concretos e singelos, o que ocorrerá naqueles voláteis e complexos conceitos que expressam a mais alta elaboração do pensamento humano tais como o bem, o mal, a liberdade, os direitos individuais, a vida e todos os juízos de valor no seu mais amplo sentido? Pois bem; a comunidade idiomática se funda sobre a posse comum e consensual de um grande número de tais concepções e interpretações. E, precisamente porque essa concordância é sentida como natural e não como algo especial, os povos se unem mais fortemente pela  comunidade idiomática  do que por um discurso ideológico de qualquer origem. 
Muito se tem realçado o desaparecimento de etnias, de espécies animais, vegetais e de paisagens, mas pouca ou nenhuma atenção tem se dado às perdas linguísticas e ao papel essencial desempenhado pelos idiomas nas suas respectivas culturas. Para George Steiner, se os funerais linguísticos continuarem com a frequência atual, os seis mil idiomas hoje existentes, dentro de um a dois séculos serão reduzidos somente a uma centena ou menos. E, assim, perderemos um preciosíssimo acervo de nossa milenar e diversificada herança cultural que, na verdade, deu relevante contribuição para o atual estágio civilizatório.
A luta pela manutenção de variados idiomas e culturas talvez seja decisiva para a resistência à uniformização totalitária, não apenas linguística, mas de estilos de vida, de condutas éticas, de sensos estéticos e, enfim, da  liberdade de expressão e de pensamento.                      




   

           


terça-feira, 5 de março de 2019

MAIL DA PSIQUIATRA E COMUNICADORA LAIS LEGG


Pois eu sou do tempo que tínhamos aulas de música na escola, além de dança e canto orfeônico. E todas nós adorávamos. Quando chegávamos para a aula de música, a “ma soeur” Ruth Maria já tinha enchido o quadro-negro com as letras quilométricas da música que iríamos cantar. Lembro de “História triste de uma praieira” (“era meu lindo jangadeiro, de olhos da cor verde do mar, também como ele, traiçoeiro...”), “Camino  Verde”, “Guanabara linda”  e outras tantas.

Sabíamos o que era uma clave de sol, colcheia, semi-colcheia, etc. E também cantávamos na capela do colégio, cuja acústica deixava o nosso canto quase celestial. Cantávamos em latim!!! Lembro, até hoje, a letra de “Tantum ergo”  (“tantum ergo sacramentum veneremur cernui et antiquum documentum novo cedat ritui...”). Sabíamos que era de São Tomás de Aquino.

Assim, a música entrava pelas veias e artérias desde a tenra idade. Claro que as freiras tinham as suas objeções: rock and roll nem pensar! Elvis Presley era o demônio e, para desespero delas, vieram os Beatles, aqueles cabeludos de Liverpool. Imaginem se elas ouvissem as músicas de hoje ... teriam um piripaque.

A música consegue alterar, imediatamente, o humor de qualquer pessoa. É mais eficaz que qualquer fármaco. Assim, considero uma lástima que os concertos, as serenatas  e quaisquer outras manifestações artísticas estejam desaparecendo. Quem sabe voltando ao currículo escolar não melhore?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

AINDA SOBRE SERESTAS - TEXTO DO DR. ROGOWSKI

Eu não sou da época do gênero musical bate-estacas, mas creio já ser da época do "melhor nem tentar".
Meus amigos de juventude e eu jamais fizemos uma serenata, porque naquela época já estava ficando complicado, mas lembro que na minha infância, nossa família tinha um amigo, policial, chamado José, e, vez ou outra, quando estava de plantão na Delegacia, em madrugadas monótonas proporcionada por uma sociedade sem crimes e que dormia cedo, ele arregimentava outros policiais, músicos, e iam até nossa casa nos brindar com serenata.
De início algum vizinho se assustava com a presença da viatura policial de madrugada, mas em seguida ao ouvir a música logo entendia do que se tratava.
Acordávamos todos e alegres levantávamos da cama e bem recepcionávamos os amigos.
É triste ver que essas homenagens, manifestações de verdadeira amizade, foram se perdendo ao longo do caminho, que as pessoas foram se enclausurando dentro de suas casas e de si mesmas.
Será que algum dia voltaremos a ter um modo de vida mais sadio e afetuoso?

domingo, 24 de fevereiro de 2019

BAILES DA COLA ATADA E OUTROS - SABOROSO TEXTO DE FRANKLIN CUNHA


RUY, amigo
No tempo doas prostíbulos ( casas de tolerância, cabarés, puteiros), na Vacaria, muito longe de Poa - onde funcionavam dezenas deles entre a Voluntários, a Cabo Rocha  e a Pantaleão –alguns fazendeiros, fundaram o que chamavam de Chacrinha, cerca de 5kms da cidade. Construíram cerca de 15 casinhas onde alojavam principalmente meninas pobres do sul- catarinense.
E lá, com a bandinha do seu Chiquinho financiada por ele ( tio de um ex-governador, figura folclórica pois herdou duas fazendas de duas ex-esposas e passou a vida tocando de graça nos bailes da região), ele com o bandonion, uma violeira -que ele papava - um brigadiano na bateria e um chofer de praça, flautista e comunista. As meninas todas peladas e o varões também, menos a camisa que a época elas eram mais compridas e com abas atrás e na frente Então ,para dançar melhor amarravam as abas , as da frente nas detrás e dê-lhe baile a noite toda.
. E lá aconteciam os famosos “ bailes de cola atada “.Sempre às sextas, porque no sábado os alegres e fogosos bailantes machos,cumpriam  o desagradável  e aborrecido compromisso com as esposas no clube do Comércio,  situado  em oposição à Igreja Matriz de Nossa Senhora das Oliveiras.com a qual,os bailantes da sexta , no domingo contribuíam com gordos óbolos.

Caxias.
Um empresária sexual, teve  a ideia de programar um baile às sextas-feiras só para homens da apodada  terceira idade o qual se realizava dentro do horário das 18  às 23. Falei com um deles, primo de 80anos,e lhe perguntei o que lá faziam.Primeiro me disse que a casa estava sempre à cunha. E que lá contavam os acontecimentos da semana, tomavam cerveja, conversavam e contavam piadas para as meninas da casa,  alguma até cursavam a UCS. E...só. As 23 iam todos para casa  onde dormiam muito  bem depois dessa eficiente sessão de psicoterapia de grupo.
No final do papo com meu primo ele me revelou como os jovens da cidade apelidaram o  acontecimento das sextas:BAILE DA COBRA MORTA. Aí ele me olhou nos olhos, deu uma gargalhada e me disse: “ Sabe, primo,  que este  é um apelido bem certo “.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

MUTAÇÕES - COMENTÁRIO DO DES. GUINTHER SPODE


Estava lendo "Mutações" e, ainda sem concluir a leitura, pensava eu, mas será que o Ruy vai esquecer das serenatas.
Coisa bonita que eram. Primeiro aquelas românticas, depois aquelas entre amigos, até mesmo como brincadeira para acordar amigos e amigas na madrugada. Até depois de casado, ao voltarmos para casa tarde da noite (ou já madrugada) em pequenos grupos (de casais e não casados) costumávamos aqui em São Leopoldo e imediações (inclusive Porto Alegre), entre amigos, uns surpreenderem outros que dormiam profundamente. Daí para o prolongamento da noite até o amanhecer, bastava um violão, uns bons tragos e até um churrasco, era para já. Mesmo os incomodados no início, em razão da música, nas mais das vezes muito mal executadas e pior ainda cantadas, aos poucos entravam na brincadeira que virou mais um motivo de encontro e de amizades que existem até hoje.
Não perdi, nem me afastei de nenhum destes amigos músicos importunos da madrugada.
Sabia-se viver. Havia limites e éramos mais tolerantes, até porque naquela época e idade tudo facilmente virava festa.
Cumprimentos pelo texto.
Grande abraço

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

MUTAÇÕES


O que houve com os bailes?
Eu admito, peço perdão, que sempre fui objetivo e prático. O baile era, na minha concepção pecaminosa, (da qual dava meticulosas explicações no confessionário), uma mera primícia do amor carnal e do namoro.Tirando fora  mãe,irmãs, avó, tia, senhoras casadas, noivas, com as quais não tinha nenhum interesse em dançar.O baile, portanto, para minha mente meio fogosa, era um jeito de ,no ardor dos 17 anos, abraçar a menina dos seus 16, sempre respeitando sua relutância , o que ela fazia empurrando meu  ombro para trás, mas eu tentando haurir seu perfume de” Miss France” e ouvir seu coraçãozinho batendo e batendo.
Beijo na boca, só escondido.
 Enfim, hoje há, segundo meu filho mais novo,aplicativos, que entre outras coisas, localizam, num zaz, tua futura parceria para um namoro. Nem sabia .
 Vamos em frente . As mulheres conquistaram seus lugares. Viva! Tenho filhas vitoriosas e nada raivosas. Mas essa de uma senadora dar uma de Maria Bonita, tirando uma pasta das mãos do presidente  do Senado, foi demais. E ainda, ante o pedido de devolução, disse desafiadoramente “então vem buscar”. Ficou feio. As mulheres, com a igualdade  conquistada, têm que também aceitar os ônus da convivência. Ou não?
Outra perquirição. Onde estão as cantorias? Ao tempo em que eu lecionava na Unisinos, após as aulas nas sextas feiras à noite, nos reuníamos para  um churrasco e - sabem o que?- para cantar. Sim, cantar. Nos anos oitenta, início dos 90, era comum jantar com alunos, ocasião em que se cantava após a quinta cerveja. Coisa de louco era quando se entoava o Carinhoso. Na passagem do “ai se tu soubesses” era uma desafinação só. Mas era bom. Hoje seria quase impossível isso num restaurante. Atrapalharia os que passam teclando suas infinitas mensagens pelo celular .
Muito comuns eram as serestas na praia. Quantas e quantas fazíamos Guido Koehler, Celso Campos e eu. Hoje não dá mais por causa das cercas elétricas e das portas trancadas.
O máximo que estou conseguindo hoje é tocar em casa com meu filho Rudolf. Se há convidados, raramente um  se aguenta quieto até o fim da música. Penso em estabelecer uma regra nos meus churrascos caseiros. Duas salas: uma para os tagarelas. Esses só ganhariam mocotó frio com cerveja quente e tomada no bico; outra para  os que apreciam música ao menos 15 minutos. Para esses filé argentino e chopp importado de München ou aquela Freixenet Brut tiritando de frio.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A REBELDIA DE BOLSONARO


A nação está inquieta com a situação de saúde do nosso presidente. Um pouco do que está acontecendo se deve a algumas imprudências do próprio Bolsonaro. Primeiro foi permitir que o carregassem em via pública, sem um esquema mais técnico de segurança, o que redundou no atentado.
Apesar de eu não ser médico, aprendi muitas coisas na vida.Conto um episódio. Eu estava com 45 anos, jogando tênis , quando meu calcanhar começou a incomodar. Um médico que jogava comigo olhou e diagnosticou ali na hora que era um “ esporão do calcâneo”.Acabei decidindo mandar operar. Fui para casa e achei que em breves dias voltaria a jogar normalmente. O médico me dera instruções para ficar em repouso, com a perna mais levantada. Não dei muita bola . Eram duas incisões. Uma estava fechando bem. A outra parecia meio estranha, Resumo: era uma deiscência de sutura que levou ao debridamento e tive que esperar 90 dias para que houvesse cicatrização por segunda intenção. Tudo por não acatar as instruções do médico.
Essas pequenas  ansiedades e imprudências do presidente, viajando para lá e para cá, nitidamente não se cuidando, fazendo uma viagem que não era urgente para Davos, certamente não ajudaram em nada para a recuperação. Está com 63 anos de idade, o que não é muito nos dias de hoje, mas há que se convir que sua resistência está longe de ser a de um homem de 23 anos. Sofreu um procedimento invasivo  o que representava muitos cuidados. Mas o primeiro cuidador de sua bronca é o paciente.
Fiquei matutando muito tempo sobre o por que dessa inquietude do presidente. Qual a razão de não se acalmar? Não poderia ter tomado posse, reunir-se com seu vice e ministros e estabelecer que ninguém deveria sair dos trilhos ( incluindo-se o vice), e que quando estivesse completamente apto, voltaria a tomar as rédeas. Para que uma pressa afobada se o mercado estava calminho, calminho com as diretrizes já reveladas? Mais: o que não tem solução, solucionado está. As reformas estão esperando e se arrastando há decênios, não custava aguardar por mais um ou dois meses?
É possível que essa bateção de cabeças dos primeiros dias do novo governo tenha sido um dos motivos de Bolsonaro não passar o governo ao vice. Ficou um pouco bizarra essa desordenação inicial, um desautorizando ao outro, um falando uma coisa e o outro desmentindo. Todo mundo temendo que o Ministro Paulo Guedes chutasse o balde num acesso de impaciência.
Não sei não,  todos esses desencontros iniciais têm solução,mas será que nosso presidente não estará receando o chamado fogo amigo?.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

POR ISSO QUE NUNCA QUIS TER FACEBOOK

Texto primoroso de J.F.Rogowski



caiam fora da zumbilândia

Caros todos!
Estamos vivendo na @zumbilândia, a terra dos zumbis digitais.
As pessoas independentemente de nível cultural e social estão passando por um processo de lavagem cerebral e idiotização que tem me assustado.
Na política impera o maniqueísmo e o patrulhamento ideológico de dois lados radicais e antagônicos.
Estamos proibidos de pensar por conta própria, de exercer o senso crítico sobre a realidade, temos que escolher um de apenas dois lados, e seguir com a manada respectiva daquele curral mental.
Fora da política estão os demais loucos de todo o gênero, tem para todos os gostos (ou mau gostos). Eles formam grupos e movimentos estruturados, com simpósios, congressos, etc., uns defendendo que a terra é plana, outros que ela é quadrada; outros afirmando a inocuidade dessa polêmica já que ela será inapelavelmente destruída pelo planeta Nibiru que se aproxima em rota de colisão; outros dizem que sim, que haverá a colisão, mas que seremos salvos pela frota de espaçonaves estelares do comandante Ashtar Sheran que está em prontidão atrás do sol.
Meu intuito longe está de ridicularizar essas pessoas, porque elas sinceramente acreditam nisso, embora, fizesse até mais sentido um “astral cheirão” debaixo do sol da Jamaica do que no espaço sideral.
E pior disso tudo é que os habitantes da Zumbilândia não se contentam em confraternizar entre si, buscam fazer novos adeptos, assim entopem a minha caixa postal com todo tipo de mensagens surreais - 99,9% não passam de lixo eletrônico.
Tendo a situação ficado insuportável pelo tempo que eu estava  gastando até mesmo para apagar essas mensagens, fiz um público apelo (reproduzo abaixo) pedindo que só me enviassem mensagens que fossem realmente relevantes.
Pedi encarecidamente que cessassem o envio de Spam. Não sei se foi de pirraçada, mas aí que aumentou o tráfego de lixo.
Então, sem alternativa, acabei me retirando do Facebook.
E, se o bombardeio continuar no WhatsApp, me retirarei dali também.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O OUTRO LADO DAS VIAGENS


Toda vez que viajo estranho minha imersão compulsória em três situações: no check in no aeroporto; no avião antes da partida e , já no hotel, na hora do café da manhã.Nesses momentos a gente vê coisas para lá de estranhas ao nosso dia a dia.Câmeras em mim, com foco num banco do aeroporto.
Meu Deus o que é um Aeroporto às 5 da manhã! É visível que algumas pessoas caíram da cama e saíram, em desabalada carreira, sem trocar de roupa e, por conseguinte, sem banho, em direção ao aeroporto. Claro que, como é da filosofia brasileira, os pontuais são relegados ao inferno e os retardatários e relapsos têm preferência. Os alto falantes gritam desesperados pelos tardinheiros. Os passageiros já no avião, esperando que os atrasados  embarquem, o que pune  e atinge os “ certinhos”.
Mas voltemos ao portão de embarque. Todo mundo sabe que não pode levar consigo faca, tesoura etc. Pronto, pára a fila. A moça passa no detector que dá o alarme. Mais um incidente que poderia ter sido evitado.
Todo mundo sentadinho no avião e antes  de ele começar a corrida para alçar vôo  o senhor Jones, que ficou uma hora no saguão, só agora sentiu vontade de ir ao banheiro.
Na viagem,  muitas pessoas  , na falta de espelhos para mirar suas  maravilhosas e incomparáveis belezas, usam esse aparelho vital para o prosseguimento da vida, o celular, para suas indispensáveis selfies, pena de sofrerem uma apoplexia. E dê-lhe selfies, com direito a mil caras e bocas, sorrisos congelados que chegam às raias da idiotice.Fico matutando: para que e para quem tantas fotos?
O avião está pousando e o comandante implora que todos fiquem sentados até ele estacionar. Nada feito , mesmo o pessoal sabendo que não há como  subir ao pódio e ser o primeiro a sair do avião. Em seguida a correria para ser  primeiro a pegar sua mala.Na saída  muitos vão certificando, em altos berros, ao celular,que amam seus interlocutores, comentam como foi o  dia anterior, para que todos nós saibamos de sua  inefável e indispensável história.
Já no local de recolhimento das bagagens, erram de esteira e se desesperam por não localizarem sua mala. Claro que não tiveram  o dificílimo tirocínio de saberem o número de seu vôo e em qual esteira está.
Corta para o refeitório do hotel.
As portas dos elevadores se abrem e dezenas de famintos, que provavelmente há 30 dias não se alimentam, irrompem qual um arroio durante a enchente e vão em busca de uma mesa. Se atracam no buffet enchendo o prato até cerca de 30 centímetros, para deixar quase tudo intocado ao final.
Por que estranho isso?Será que meus pais erraram na minha educação?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O FENÔMENO WATTSAPP


O renomado médico e escritor J.J. Camargo escreveu recentemente:
“Há uma incontrolável ânsia de usar todos os instrumentos de aproximação virtual para conectar pessoas que foram convivas em épocas tão remotas que o tempo se encarregou de borrar-lhes a lembrança.
O convite para que participasse de um grupo de WhatsApp que devia reunir todos os sobreviventes de um tempo de colégio me pareceu desde logo assustador. Não conseguia imaginar como recuperar uma intimidade necessária para  justificar a reaproximação depois de, sei lá, 55 anos, só porque esta prática virou uma febre (passageira?) na internet. O desespero aumentou quando fomos comunicados de que todos os abaixo listados estavam automaticamente incluídos no grupo, e eu só lembrava bem de uns cinco de uma turma de 50.”
Digo eu.Pois é: o Whatts se espalhou e se mostrou útil. Todavia, trouxe consigo um monte de inconvenientes, para se dizer  o menos. A começar pelo dilúvio de fakes, informações irrelevantes, calúnias, ofensas e até coisas risíveis. Na pressa de digitar, a pontuação foi uma das vítimas. Exemplo: eu estava viajando e mandei uma  mensagem para minha empregada que mora em São Leopoldo e vem trabalhar em P. Alegre, perguntando se ela ainda estava na minha casa . Resposta: “não estou no trem”. E agora: “não, estou no trem”; ou “não estou no trem”?
Outra situação. Às vezes se é convidado para entrar num grupo que, por exemplo, gosta de jogar tênis e marcar horários. Pronto: em seguida meu aparelho se enche com mil “ bom dia”, informações sobre frutas que fazem mal, frutas que fazem bem, malefícios do vinho, benefícios do vinho e por aí vai. Resultado, achei mais prático contatar direto com os parceiros e saí do grupo.
Aí entro no assunto das amizades virtuais e , desde já, adianto minha tese. A amizade, como diz o nome, é virtual; pois que fique nessa esfera. Querer reunir o grupo para uma janta vai resultar, depois das saudações de praxe, em ensurdecedores silêncios.
Mas o que me provocou frouxos de risos foram as recentes eleições. Tsunamis de denúncias contra o Bolsonaro, outros contra o PT e as esquerdas, um caos total que acabou resultando em brigas entre até pessoas da mesma família.
Volto, agora, ao assunto dos grupos. Penso que são inviáveis os grupos com exagerado número de participantes. Ninguém aguenta ler tanta coisa a cada cinco minutos.
Quanto aos reencontros com amigos que não se viam há décadas, todo cuidado é pouco. Melhor é distribuir crachás, com letras bem grandes e vigiar a boca. Nada de “ como tu tá velho”, “ bah… como tu tá gordo”.