quinta-feira, 21 de setembro de 2023

MINÚCIAS - PARTE II

Meu filho Rudolf Genro Gessinger, advogado e proprietário rural, observou com muita acuidade coisas que nem todos conhecem. Dei abrigo a ele na minha coluna da Gazeta, resta a ele agora procurar seu espaço:

“Entre outros exemplos que se poderia dar, cada profissional do campo - incluindo o patrão - era responsável por um certo e curto repertório de tarefas. Não que sobrasse mão de obra, pois o êxodo rural que progride desde a década de 1960 encoraja cada vez mais campeiros a cambiar o largo dos campos pelos bretes da cidade. Como reflexo desse movimento, os ranchos e pequenas estâncias foram desaparecendo, dando lugar a grandes áreas de poucos donos. 

A gestão sobre essas grandes áreas não era tão rígida há 20 anos - e quanto mais pra trás, menos ainda - pois muitas tarefas eram delegadas sem critérios bem definidos e não havia um controle preciso sobre o que exatamente estava acontecendo numa estância. Entre faltas e excessos, as coisas corriam frouxo, principalmente para quem não tinha financiamento para pagar, e se tropa, rebanho e manada eram considerados “gordos e sãos de lombo”, estava tudo certo.  

Pode-se dizer que as relações de trabalho eram muito mais maleáveis em todos os sentidos. Os filhos do capataz nem bem largavam a teta e já saíam campo a fora. Lidas rápidas e menos brutas como buscar as vacas de leite de manhã não raro eram feitas por um piá de 6 anos sozinho, que depois pegava seu transporte na porteira para ir pra aula. Era sua forma de ajudar a família, pois encurtava o serviço do pai. A remuneração poderia ser toda in natura e não se enxergava problema nenhum nisso, 20 anos atrás.

Na época da tosquia, não era incomum que profissionais - que, assim como no caso do alambrador, não necessariamente eram peões - trabalhassem “pela bóia” e por alguns pelegos cada um, os quais eles mesmos lavavam na sanga depois da lida. Os patrões não tinham tanto receio de problemas trabalhistas 20 anos atrás: o empregado que batesse às portas da Justiça do Trabalho podia desistir de conseguir serviço em toda a região. Espalhava-se ligeiro uma lista negra não escrita.

Tenho notado que, ao longo dos últimos 20 anos, a realidade do campo, enquanto lugar de trabalho, tem abandonado padrões seculares para adotar, como tinha antevisto Pedro Ortaça, a uma postura de ambiente profissional, no qual se busca aumentar a produção com planejamento, controle e otimização em cada uma das etapas da cadeia produtiva, buscando a maximização dos resultados, tal qual ocorre numa empresa na cidade.”

terça-feira, 12 de setembro de 2023

TITO GUARNIERE

 TITO GUARNIERE

 

UM PRESIDENTE ENTEDIADO COM O BRASIL

 

É impressionante como Lula se dedica ao destino do mundo e como ele desconsidera o fato de que a tarefa que lhe foi confiada pelos brasileiros foi governar o Brasil, resolver e encaminhar as soluções para os problemas do país.

O presidente tem uma visão restrita e limitada da função. Ele parece entediado com o Brasil. No caso, tudo o que ele aparenta buscar – a qualquer custo - é uma maioria folgada no Parlamento, que lhe permita andar pelo mundo com as suas chorumelas, cobrando dos demais governantes ( principalmente os dos países ricos ) as soluções que salvarão o planeta.

Desse modo ele vai à Delhi, na Índia, e diante do G-20 – os 20 países mais ricos do mundo - , faz a autocrítica em nome de todo o colegiado e bate de frente contra o neoliberalismo, a versão supostamente mais sórdida do capitalismo. É o santo guerreiro contra o dragão da maldade.

 A pobreza, as desigualdades decorrem de uma conspiração dos ricos e dos poderosos, os bem-nascidos do centro do mundo. Claro, os Estados Unidos à frente, o grande mentor, executor e beneficiário da trama sinistra. Lula acredita que dessa forma, condenando os países ricos, se chegará finalmente à redenção da humanidade e que assim será lembrado pela história. Ele acredita em Marilena Chauí, que cunhou a frase famosa: " quando Lula fala, o mundo se ilumina".

Criticando a concentração da renda na mão dos ricos, ele passa ao largo do fato notório : o Brasil é um campeão das desigualdades sociais e da concentração da renda e da riqueza.

É verdade que as ações do seu governo têm o propósito de minorar a pobreza e, portanto, reduzir as desigualdades. Mas o conjunto das proposições se resume às fórmulas envelhecidas do Estado indutor e produtor de toda a riqueza. 

São escassas as palavras e as ações do governo no sentido de incentivar os investimentos, facilitar as atividades produtivas, criar um ambiente que facilite a abertura e o desenvolvimento de negócios, empresas e agentes econômicos. O governo Lula não gosta do mercado, não gosta de empresários, não gosta de empresas. Tudo tem de vir do Estado, o velho e ruim Estado, que em passe de mágica, fará brotar do chão os bens, os serviços, as riquezas. 

Se um governo anterior, como o de Temer, promove uma reforma, ainda que pífia, como a reforma trabalhista, que de algum modo barateia os custos do emprego no Brasil, entre os mais altos do mundo, hordas de arautos saem a campo para afirmar que estão retirando direitos e prejudicando a classe trabalhadora. É como se fosse possível criar os empregos sem as empresas. 

O governo do PT é bom para chacoalhar as árvores e colher as frutas. Mas o partido não tem a menor vocação para plantá-las, cultivá-las até que se tornem produtivas.

 

titoguarniere@terra.com.br


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

AS MINÚCIAS DO NOSSO ESTADO

 O Rio Grande do Sul é interessantíssimo. Em Pelotas fala-se de um jeito, em Porto Alegre é outro e assim vai. Mas o que me assombra é o “você” entre as crianças. As professoras gostam de usá-lo. O “tu” está quase condenado à morte.

Mas existem lugares com uma fala muito interessante. Elas se situam na região perto de Santiago e proximidades. 

Meu filho, Rudolf Genro Gessinger, que praticamente se criou na nossa fazenda, é graduado em Direito pela PUC de Porto Alegre, tem pós-graduação pela mesma faculdade, e cuida do nosso escritório perto do Palácio do Governo.

Vou dar ao meu filho a palavra:

“Em Timbre de Galo, o lendário Pedro Ortaça já anunciava que "o campo é quase a cidade". O campo ainda era, 20 anos atrás, um lugar regulamentado principalmente por usos e costumes da região. Os valores de seriedade, simplicidade e valentia eram lema para homens e mulheres que dificilmente mudavam de domicílio ou se deslocavam grandes distâncias por consideráveis períodos de tempo. 

20 anos atrás, ainda não havia luz em muitas estâncias da região das missões e fronteira oeste. O sinal de telefone era fraco e maioria da peonada nunca tinha acessado a internet. Em verdade, mal e mal sabiam do que se tratava. Até mesmo o modo de se expressar do profissional do campo era vago e impreciso. 

Um rádio ligado alto no galpão fornecia as notícias regionais e proporcionava distração para os momentos de intervalo e folga. Era difícil ter televisão na estância, fora a do patrão. Se tinha, era à parabólica. 

O trabalhador rural era o que tinha se criado por ali. Havia, em regra, frequentado a escola agrícola. Fora dela, normalmente não era manso no estudo. Estudar era caro, longe e sem muito sentido para quem aprendeu o que sabia pela experiência e pelos costumes que eram lhe passados.

Assim, existiam profissionais especializados em só uma atividade rural. As microrregões tinham um homem que era conhecido por ser, por exemplo, o alambrador. 

O alambrador, em geral, era o homem que lidava com o aramado (as cercas) ou ficava de caseiro, ponto. Para começar, o alambrador era, em maioria, um profissional autônomo, de forma que não era peão de ninguém. No máximo peão por dia (leia-se, para uma lida específica em que se precise de mais gente).

Quando precisava revisar uma cerca, era só chamar o alambrador. Nenhum peão de campo, 20 anos atrás, pararia a lida para consertar o aramado. Interromper a doma, então, menos ainda.

O pior dos castigos para um peão campeiro é manda-lo carpir, desde sempre e até hoje. Tanto é que existe um dito para quem, digamos, está sendo inconveniente: "mas vai carpir um lote!".” (Continua)

terça-feira, 29 de agosto de 2023

SEM PARAR O PANO

 TITO GUARNIERE

 

SEM PASSAR O PANO

 

Faço uma breve revisita aos assuntos da semana. Uma repassada – sem passar o pano.

Chegou aos olhos e aos ouvidos da Inteligência do governo que certos setores do bolsonarismo andam se movimentando para agitar o Sete de Setembro que se aproxima. Não surpreende. Essa gente se apropriou dos símbolos nacionais como a bandeira, e querem tomar para si também a data nacional. Só por essas atitudes já deveriam merecer, isto sim, o repúdio nacional. 

Mas não creio que desta vez eles terão a folga que usufruíram em 8 de janeiro. O governo já está bem mais estruturado, todos nós já sabemos do que os "patriotas" são capazes quando se reúnem para manifestações. Além disso, o Exército parece ter aprendido a lição e não existem mais os acampamentos ao redor dos quartéis. Antes as nossas briosas forças armadas não notaram o viés golpista daqueles ajuntamentos. Ou notaram e por isso não fizeram nada? 

Mas os efeitos nefandos do janeiraço ainda persistem. Em Porto Alegre um vereador da cidade fez aprovar na Câmara Municipal a criação do Dia do Patriota, escolhendo a data de 8 de janeiro para a "comemoração". Era o que faltava, mas não vai colar.

Vira e mexe, o enxofre do imposto sindical invade os ares, vindo de onde é mais óbvio. Desta feita, quem sugere o ressurgimento é o ministro do Trabalho, o notório Luiz Marinho(PT). Eles não gostam que chamem de "imposto sindical". Mas imposto é. Por que o que eles querem – mesmo, de verdade – é uma contribuição voluntária, porém obrigatória, se me entendem. 

O deputado Aécio Neves às vezes volta ao noticiário. Ele provocou o presidente Lula, que havia instado o povo brasileiro a pedir desculpas a Dilma Rousseff pelo impeachment. 

O que me chamou a atenção foram os comentários de leitores na Folha. A maioria era de petistas, dizendo que Aécio era corrupto e não tinha moral para falar de Dilma. Ora, Aécio – que não é meu personagem predileto – é tão ou mais inocentado pela Justiça quanto Lula. Assim, a Justiça que inocentou Lula foi honorável e justa. Porém se a mesma Justiça inocentou Aécio isso não importa: ele continua sendo corrupto. 

O PT está buscando uma forma de compensar Dilma pelo impeachment. Uma ideia: a devolução simbólica do mandato presidencial que lhe foi retirado. Tudo bem, sendo simbólico não vai doer. Mas que se imponha uma condição : que o discurso de "posse" seja em idioma dilmês.

 O Brasil foi vítima de mais um apagão. Janja, a primeira-dama, antes mesmo de qualquer investigação lascou o diagnóstico: foi por causa da privatização da Eletrobras. E todos aqueles apagões que aconteceram durante anos a fio antes da privatização foram por culpa de quem? Não seria da Eletrobras estatal?

 

Foi a mesma coisa com os desastres da Vale de Brumadinho e Mariana. Os anti privatistas se apressaram em culpar a Vale privatizada. Se esqueceram um detalhe: as duas

barragens que ruíram , causando destruição e mortes, foram construídas quando a Vale era estatal.

 As esquerdas, os petistas em geral, estão enfurecidos com a atuação de Cristiano Zanin. Todos os votos do indicado de Lula no STF parecem formulados por um ministro "terrivelmente evangélico".

 

titoguarniere@terra.com.br

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

SANTIAGO E OUTRAS PROSAS

 Por uma questão de negócios acabei chegando a uma solução interessante e inesperada. 

Como já falei várias vezes, tempos atrás fui designado para Juiz de Direito em Santiago. Dois anos depois fui promovido por merecimento. Andei por várias Comarcas e acabei chegando em Porto Alegre. 

Entrementes conheci uma moça, durante uma festa de aniversário.  Ela era de Santiago. Tudo isso alguns já sabem.

A família dela tinha raízes fortes na pecuária. Acabei comprando glebas de campo, quando já estava aposentado. Isso em Unistalda, ao lado de Santiago. 

O preço do campo estava barato e fui comprando áreas contíguas.  Consegui fazer muitas melhorias e tive algum  sucesso, até em exposições na Expointer.

Posteriormente fui fazendo alianças e a verdade é que meu filho Rudolf melhorou as coisas ainda mais.

Fizemos melhorias e benfeitorias como açudes, cercas e galpões.

Construímos uma ótima casa na própria fazenda, com muito conforto. 

Certo dia me foi oferecida uma casa em Santiago. Achamos que seria uma boa compra.

Santiago é uma cidade limpa, pequena, feliz, todos se conhecem. 

Muitas residências antigas, mas bem cuidadas e limpas.  

A propósito a nossa cara Rosane de Oliveira diz: “somos responsáveis pela aparência de nossas cidades”.

Maristela e eu começamos a passar sete dias por mês em Santiago.

Estou revendo amigos de outros tempos. 

O pessoal tem um costume fantástico. Tu te encontras no  supermercado com um conhecido e é aquela abração de quebrar costelas. A pergunta principal é “tá bem de saúde”?

Enfim, quase  todos se conhecem, por nome e tudo.

O trânsito  é calmo e cordial como se fosse em cidade européia.

Posso me dar como um homem feliz. 

Em primeiro lugar está minha querida Santa Cruz do Sul onde nasci e cresci.

Peço desculpas ao louvar outra cidade. Mas vale a pena conhecê-la.

Mudando de saca para mala gostaria de falar um pouco sobre o papel importante do Agro. Ele nos salva da fome. No entanto, a maioria das pessoas está em outras atividades. Mas sem comida, fica difícil a vida, para não dizer impossível.  

Há uma busca incessante por terra, tanto para a agricultura quanto para a pecuária. Quase ninguém a vende.

Nossa família, por sinal, não vende por preço nenhum nossa fazenda.

A cada dia há mais necessidade de meios de transportes, e o problema grave é a precariedade das nossas estradas. 

Exemplo: tu estás numa rodovia mas não tens como sair de atrás de um caminhão. 

Volto ao assunto.


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

SOBRE LULA

 Depois de ser promovido de Santiago do Boqueirão fui atuar numa entrância maior, a Comarca de São Leopoldo. Fiquei uns tempos e fui promovido a Porto Alegre, na época de entrância final. De início mantive minha morada ul última aem São Leopoldo, indo todos dias para Porto Alegre. Posteriormente me fixei em Porto Alegre.

Voltemos agora a São Leopoldo. Certo dia quando eu já havia voltado para a advocacia, um colega de Novo Hamburgo me convidou para irmos observar a chegada de Lula, que falaria para altos próceres, só gente graúda.

O salão estava lotado e me sentei nas cadeiras bem perto do visitante. Decidi, antes da fala, cumprimentar Lula, que estava suando copiosamente, segurando um copo com um líquido parecido com guaraná, com cubos de gelo. Apertei sua mão e voltei à minha cadeira.

Lula se saiu bem e foi  aplaudido.

Num outro momento o vi do alto do meu apartamento no edifício em frente ao palácio do governo do Estado, oitavo andar. 

Pouco antes das eleições passadas houve uma multidão para aplaudir Lula. Assisti ao que disse Lula e a cada tanto lá vinham aplausos. Me alegrei porque não houve problema algum. Inobstante achava que a quantidade de pessoas não era tão grande. Pensei que Lula perderia. Estava com rouquidão, mas discursava bem.

Houve a eleição e se mostraram coisas inimagináveis, tais como a invasão do Congresso Nacional.

Vale dizer que na primeira eleição votei em Simone Tablet, com quem  troquei  conversas. 

Votei em branco na segunda  por não me sentir bem com nenhum dos dois  candidatos.

Mas espero que Simone Tebet venha mais forte  na próxima eleição.

Tenho uma preocupação. Notadamente Lula é monoglota. Ao que consta não domina nenhum idioma geral. Não há, todavia, como negar a inteligência do nosso presidente.

Lula está com 77 anos de idade, assim como eu.

A diferença é que ele nitidamente tem problemas de saúde talvez não graves.  

Eu pratico todos os dias caminhadas ou tênis. Mesmo assim às vezes me esqueço de algumas coisas.

Bem, desejamos que Lula cuide com sua idade. Que sua esposa  continue zelando por sua saúde, como o fez em sua privação de liberdade.

Creio que temos dois ótimos senhores nos  seus cargos, tanto no  Senado Federal, Rodrigo Pacheco, como do Arthur Lira, firme e forte na Presidência da Câmara Federal.  

Me preocupa o “toma lá, dá cá” com as nomeações.

Haverá  troca-troca aos seis meses?

Mais: que não comecem de novo as invasões de terras! Vai dar problemas para todos.

(Um forte abraço ao Sr. Arcélio Back, da Cereais Back de Vera Cruz, admirador desta coluna e do jornal).

(Colaborou Maristela Genro Gessinger)






quinta-feira, 27 de julho de 2023

O VALOR DE UMA LEMBRANÇA

 Tenho muita alegria em receber mensagens de todos os quadrantes.Desde muitos anos me interesso pelos cemitérios e pelos que um dia guardaram nossas lembranças . De muitas assim se fazia. Entre essas estão o enterro. O fogo é um desses modos. 

Passemos para o Egito: quanta pompa para as celebrações fúnebres . 

Recebi uma mensagem muito interessante.

“Acompanho as suas colunas na Gazeta do Sul e descobri que é meu conterrâneo: sou nascido e criado no Distrito de Boa Vista - Santa Cruz do Sul, onde seus antepassados tiveram casa comercial.

      Meu nome é Rogério Harz e após a aposentadoria passei a me dedicar a diversas entidades, entre as quais a Associação JEALISC que cuida da manutenção do Cemitério comunitário mais antigo de Santa Cruz do Sul, localizado em Alto Linha Santa Cruz. Ele estava abandonado, o mato havia tomado conta e lá por 1989 um grupo de jovens e pessoas da Comunidade iniciaram a recuperação.

      Desde 2010, o Cemitério faz parte do Patrimônio Histórico de Santa Cruz do Sul e atualmente é ponto de visitação e pesquisa de pessoas de diversas regiões do Estado e até de locais mais longínquos. Foi realizado um belo trabalho e tornou-se um local organizado, limpo e de fácil circulação por entre as lápides.

      Agora, com o apoio de um casal de pastores aposentados, nos desafiamos a escrever um livro em que será contada a história da localidade, constarão as fotos de todas as lápides e com a tradução para o português das inscrições em alemão. Simultaneamente haverá a produção de um vídeo apresentando todas as lápides. Assim, pretendemos preservar definitivamente parte da história desses primeiros imigrantes, que a partir de 1850 povoaram a Alto Linha Santa Cruz e arredores.

      Essa empreitada está com investimento previsto de R$26 mil reais (pelo menor orçamento) e estamos em campanha de pedido de doações, com possibilidade de registro do nome do doador no livro.

      Recentemente conheci seu filho Rafael em evento aqui em Santa Cruz ele deixou todos impressionados com sua fala e simpatia, além de demonstrar um talento a mais ao cantar em alemão para os presentes. Quando estiver de passagem por Santa Cruz do Sul, teríamos imenso prazer em acompanhar uma visita ao local .”

Agora me pergunto: como fica , depois da cerimônia, a lembrança física do ente querido?

Gosto muito de visitar os túmulos de nossos antepassados.

Visitei os Gessinger na Alemanha, inclusive os que morreram nas duas guerras.


Os meus Gessinger vieram de Zeltingen- Rachtig, às margens do Mosel ( em alemão “ Die Mosel”).



terça-feira, 25 de julho de 2023

PUNITIVISMO NA ESQUERDA E NA DIREITA

 TITO GUARNIERE

 

PUNITIVISMO NA ESQUERDA E NA DIREITA

Não importa o campo político dos atores, da esquerda ou da direita, no Brasil se põe toda a fé na mudança da lei, na esperança de que ela tenha o poder mágico de solucionar os males que nos afetam. Diante de um fato de repercussão na opinião pública, imediatamente pululam proposições, ainda no calor dos acontecimentos: eis aí uma fonte permanente de ideias precipitadas, soluções simples, porém erradas. 

O mais comum desse viés ilusório se encontra em matéria penal, para configurar um novo tipo de crime ou (geralmente) para aumentar as penas de crimes já configurados – a dose das penas inibiria o crime.

O que inibe o crime não é a dose das penas. Se houver boas chances de escapar da autoria, de absolvição, de reduzir substancialmente as penas, o elemento se dispõe a correr os riscos da empreitada criminosa. Dito de outro modo, não faz muita diferença o tamanho das penas, mas a possibilidade de escapar delas ou reduzir os danos.

 Olhem o caso presente, em que a proposta do governo é elevar a 40 anos a pena de cadeia para quem atentar contra a vida de certas autoridades. Se o sujeito toma uma arma e planeja matar o, digamos, presidente da República, está tomado por um grau de loucura e fanatismo em que nada o deterá.

 Em matéria de legislação todas as correntes políticas são punitivistas. Lembram das "10 Medidas contra a Corrupção", de Deltan Dallagnol, Moro e da Lava Jato? Um conjunto de propostas de novos tipos penais e de aumento draconiano das penas de crimes ligados à corrupção. Era o punitivismo da Direita.

Uma nova onda punitivista está em curso no pacote de Flávio Dino e do governo Lula – o punitivismo da esquerda. Há um componente de propaganda político nesse embate desgastante, de pouca valia, esforço que é mais o de subscrever e consolidar uma tal e determinada narrativa de mundo - as partes pretendem demonstrar de que lado está o bem e de que lado está o mal.

 No que interessa - a punição rápida e eficaz dos criminosos - , na sentença e na sua execução, a justiça é lenta, leniente, concessiva, paternalista. (Exceção nada honrosa da Lava Jato, suas exorbitâncias e estripulias). A nossa justiça toma em consideração atenuante e ampla a classe e a situação social do transgressor da lei - subjaz com enorme frequência um juízo "social" para o comportamento anti social. De nada adianta a dureza das penas.

 A onda de punitivismo vem na pior hora: é mais do que tempo de desinflamar os espíritos, baixar a temperatura política, isolar os radicais, criar um ambiente de harmonia e diálogo. Assim, pôr esse caminho tortuoso, agravamos a intolerância, o ódio, que todas as partes atribuem ao outro, seu contrário no campo político. Se as partes se atribuem a prática do ódio e o clima de tensão, é porque ambas de alguma forma o estimulam. 

O que fazer do pacote inoportuno, inconveniente, gerador de novas contendas, e de riscos de uso mal intencionado e autoritário ? Retirá-lo de pauta. Levá-lo em fogo baixo até que se esqueçam dele. Lançar sinais de paz e convivência. Restaurar um clima civilizado no embate político.


quarta-feira, 19 de julho de 2023

ESCOLAS CÍVICO-MILITARES - POR TITO GUARNIERE

 O governo Lula mandou bem ao terminar com o programa de escolas cívico-militares de Bolsonaro. Podia ter discutido melhor, como sempre exige o PT, mas o próprio programa havia sido instituído por decreto, sem audiência ou debate público.

 O maior defeito do programa estava no duvidoso pressuposto de que militares são mais competentes, honestos e patriotas do que civis. Isso é uma bobagem monumental. Trata-se de um preconceito, em que só pessoas muito desatentas (para não dizer burras ) pegam carona e espalham – um mote permanente, uma insistente falácia no governo anterior.

Era disseminado amplamente nos redutos bolsonaristas que a escola pública e civil era um antro de professores doutrinadores de esquerda, de drogados e desajustados, que só pensam em sexo, drogas e rock n'roll. Como era comum entre bolsonaristas, eles tomavam o que era exceção e residual como a regra dominante.

 Que existem professores doutrinadores existem. Eles – os da esquerda e os da direita(que igualmente existem ) - têm o dever ético de se enquadrar na norma e no princípio de que a escola não é lugar de propagação ideológica. É conceito de natureza político-ideológica que os militares são mais disciplinadores e que os professores de escolas públicas civis são mais com concessivos, mais tendentes a permitir a desordem e a balbúrdia.

Aqui nem há discussão. Ninguém em sã consciência defende que a escola conviva com o desrespeito, o caos, a desordem. A escola, militar ou civil, os regulamentos, os métodos de ensino, impõem a obediência a certas condutas civilizadas, sem as quais nem o professor mais qualificado é capaz de transmitir o conhecimento e preparar o jovem para a vida e a cidadania.

O programa tinha buracos sem fim. Se era para melhorar o ensino, vamos convir, uniformes e valores militares não servem para coisa alguma. Numericamente, as 216 escolas que aderiram ao programa eram um grãozinho de areia entre as mais de 178 mil escolas públicas do Brasil. Era pura propaganda, puro "marketing" militar.

 Nesse conjunto, trabalhavam mais ou menos 900 militares da reserva, que recebiam uma gratificação entre R$ 2,6 mil reais(sargentos) até R$ 9 mil(coronéis) por mês, nomeados sem concurso. Francamente, nesse particular parecia mais uma boquinha de agrado aos militares da reserva. Correspondiam aos cargos de confiança de livre nomeação, tão a gosto dos partidos políticos de todas as vertentes.

As escolas cívico-militares de Bolsonaro eram beneficiárias de verbas generosas, que vinham direto do orçamento das Forças armadas – verbas às quais as demais escolas públicas não tinham acesso. A ideia clara, quase confessada, era "demonstrar", nos rankings de avaliação , que as escolas cívico-militares eram superiores, geravam um ensino de maior qualidade do que as civis.

As escolas públicas existem para formar cidadãos autônomos e produtivos, não soldados ou guerreiros."São instituições de paz, civis, de administração civil e de orientação pedagógica civil" (jornal O Estado de São Paulo, em editorial).

 

titoguartniere@terra.com.br

Twitter : @TitoGuarnieree

sábado, 15 de julho de 2023

UM POUCO DE MINHAS ANDANÇAS

 Inicio me referindo a  um amigo a quem não fui apresentado pessoalmente. Todavia sempre trocamos  mensagens pelo Whatsapp. Disse-me que tenciona viajar muito e quer entrar firme para ajudar a  melhorar a vida de pessoas necessitadas.

Aplaudi e lhe disse que também faço o que é possível. 

Também já fiz muitas viagens, desde 20 anos até cerca de 60. Depois comecei  a não gostar mais muito, nem que fosse de avião e na classe executiva.

Sucede que comecei a colocar minhas alegrias, com minha mulher, em  casas que nos recordavam felicidade, tudo onde passamos em vários lugares, um diferente do outro.

Tive muita sorte na vida, soube ser cuidadoso. Assim também minha mulher.

A primeira está em Porto Alegre, num lugar lindo no oitavo andar. Lá estão muitos livros, instrumentos musicais, vinhos guardados.

Adoro ir para minha casa na praia em Xangri-Lá. Lá tenho amigos para jogar tênis.

Gosto de cuidar da minha fazenda para onde vou frequentemente. Lá um dos meus filhos zela e cuida de tudo a par de cuidar dos seus negócios advocatícios. 

Gosto muito de Santiago que fica perto da fazenda.Onde temos uma morada muito gostosa. Lá temos muitas amizades, muitas mesmo.

Assim sendo, tenho pouca  vontade de passar trabalho dentro dos aviões.

—------

Em todos esses locais que menciono tenho a sublime presença de pessoas que não incomodam. 

Quando digo incomodam, refiro-me a pessoas que não param de brigar com amigos e não se conformam que terminou o jogo. Lei é lei, pombas! Um candidato foi vencedor; na eleição seguinte faltarem-se votos. Não soube perder. 

Parem com a choradeira de que as urnas foram  isso ou aquilo. Quanto alguns venciam, aí tudo era bom . 

A verdade é que até o símbolo nacional foi tomado. Havia pessoas que tinham receio  de empunhar a bandeira nacional.

……..

Fiquei muito feliz com a atuação da  Gazeta e nossa querida prefeita de Santa Cruz , com seus ajudantes.

Meu filho  Rafael Koerig Gessinger foi muito bem tratado e se espera que possa ir mais vezes para a terra onde nasci. 

Muito empenho tive com meus filhos para que  estudassem outros idiomas, mas não esquecessem  o alemão. Tentassem falar com os avós, tios e tias em  alemão. Não se deixassem levar por brincadeiras de mau gosto.

Um outro filho,  Armando, mora há anos na Alemanha. Está muito feliz lá.

Até minha esposa fez curso de alemão no Goethe e disso muito se orgulha.

Também por me apaixonar pelo Direito Alemão, passei vários meses na Alemanha, no Max Planck Institut para o Direito. Isso me ajudou muito em inúmeras circunstâncias.

O Direito Alemão é algo!!


quarta-feira, 28 de junho de 2023

A LUTA DAS MULHERES

 Revendo nuns alfarrábios que já se mostram vetustos, eu mesmo me surpreendi. Fui olhar umas peças de processos Judiciais. Vejamos essa peça de um processo. Tratava-se de uma “investigação de paternidade e pensão alimentícia". Note-se bem que na época não havia o prodígio que temos hoje, ou seja em 1981 não havia computadores pessoais e todas essas ferramentas que temos hoje. 

O linguajar tosco me impede de transcrever na íntegra os termos. Todavia vamos pinçar partes mínimas para se ver o absurdo que havia naquele tempo: 

“O réu, na referida noite e data, limitou-se a se gozar com a autora, reservando seu “semem” para uma outra menina que, pela primeira vez, surgia na roda. O réu e mais dois companheiros estiveram em “suruba” com a autora.”

Em outro relatório da Polícia Civil, em 1986, há termos absurdos:

“A declarante, apesar de ser do sexo feminino, desde que se conhece por gente, tem tendências pelo sexo masculino, informando que desde menina sempre quis ser homem.” 

Incríveis outras peças tocando nesses assuntos como se fossem crimes.

Para se ver como houve injustiças para muitas mulheres.


No início dos anos setenta as mulheres já estavam em toda parte. Nas faculdades de medicina, de odonto, engenharia e tantas mais. Na minha turma do Direito da UFRGS havia um terço de gurias, todas muito estudiosas. Em várias áreas se destacavam: nas rádios, nas TVs, nos jornais, na advocacia, no magistério superior, na política. Mas não tinham acesso à magistratura estadual aqui no RGS.

Era assim: o Tribunal de Justiça abria o edital para o concurso a juiz de direito, do qual constavam vários ítens como idade, escolaridade, bons antecedentes, mas não havia nenhuma restrição quanto ao gênero. Esgotado o prazo para as inscrições,  a lista era submetida ao exame da comissão de concursos, que indeferia, sumariamente, a inscrição das mulheres. No concurso seguinte ao meu, várias mulheres se inscreveram novamente e o assunto foi levado por mais uma vez ao órgão especial do TJRS.  Acontece que o colegiado já tinha uma composição de desembargadores mais jovens. Foi fundamental, a meu ver, o fato de uma filha do desembargador César Dias  haver se inscrito. Seu nome: Maria Berenice Dias. Houve uma grande discussão e a votação mudou, abrindo as portas para as mulheres. 


Assim como a pioneira Maria Berenice as mulheres começaram a se destacar, caindo por terra todas aquelas falácias que eram motivo para os receios já narrados.

Em breve haverá vagas no STF. Será imperioso que sejam preenchidas por mais mulheres.


segunda-feira, 26 de junho de 2023

DISCURSO DE RAFAEL KOERIG GESSINGER

 

DISCURSO POR OCASIÃO DO CAFÉ GERMÂNICO CULTURAL

ALUSIVO AOS 400 DIAS PARA O BICENTENÁRIO DA IMIGRAÇÃO ALEMÃ

PROMOVIDO PELO MUNICÍPIO DE SANTA CRUZ DO SUL E PELA COMISSÃO OFICIAL DO BICENTENÁRIO DA IMIGRAÇÃO ALEMÃ

SANTA CRUZ DO SUL, 26 DE JUNHO DE 2023

 

BICENTENÁRIO DA IMIGRAÇÃO ALEMÃ NO BRASIL UMA FESTA DA INTEGRAÇÃO HUMANA

 

Rafael Koerig Gessinger

 

A referência óbvia para o Bicentenário é o ano de 1824. E, de fato, é com base num acontecimento ocorrido naquele ano que gostaria de começar. Mas não é um acontecimento ligado a navios, viagens ou a um grupo de pessoas corajosas que deixou a Europa em direção ao Brasil. Não. Trata-se da estreia de uma composição musical. Em 7 de maio de 1824, em Viena, tocava-se, pela primeira vez na história, a composição que consagraria os seguintes versos do poeta Friederich Schiller:

 

Deine Zauber binden wieder,

Was die Mode streng geteilt,

Alle Menschen werden Brüder,

Wo dein sanfter Flügel weilt.

 

Que teus encantamentos liguem novamente

O que os modismos separaram severamente,

Todas as pessoas tornam-se irmãs

Onde tuas suaves asas demoram-se.

 

Schiller está falando da alegria (Freude), que tem o poder de fazer sorrir, que tem o poder de iluminar mentes e corações, que tem o poder de construir pontes e de fazer amigos, que tem o poder de vencer modismos que separam. É justamente nesse registro que a Comissão Oficial do Bicentenário da Imigração Alemã tem pensado o Bicentenário: como uma festa da integração humana. Alle Menschen werden Brüder!

Quando o Governador Eduardo Leite fez publicar, em setembro de 2021, o Decreto 56.110 para organizar as comemorações, o recado foi claro: o Rio Grande do Sul celebra a integração humana, o Rio Grande do Sul celebra o migrante e seus encontros culturais. Exaltemos, portanto, as culturas e seus encontros. E tudo isso não somente com os olhos no passado, mas, como muito bem vêm insistindo o Cônsul Simandl, o Diretor Hoffmann, do Goethe Institut de Porto Alegre, e o Secretário de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Mateus Wesp, com os olhos no futuro.

É, por isso, que a Comissão também volta seus olhos para o futuro, provocando vários atores e diversas entidades. São muitas as frentes que estão sendo estimuladas: ciência, cooperação técnica, economia, agricultura, intercâmbio acadêmico, arquitetura, gastronomia, música, cinema, cidadania, direitos humanos, literatura, língua alemã, sustentabilidade, turismo, enfim, nada escapa ao Bicentenário.

Mas um elemento simbólico, talvez não tão palpável, tem a ver com a reflexão sobre a migração e o migrante de ontem e de hoje. Afinal, quem saiu da Alemanha há 200 anos? Quem chega na Alemanha hoje, no século XXI? Quem chegou no Brasil há 200 anos? Quem chega no Brasi hoje, em 2023?

A resposta deve ser única: Seres humanos. Pessoas! Nós! Quem saiu da Alemanha há 200 anos e quem chega na Alemanha hoje? Pessoas! Humanos! Quem estava no Brasil há mais de 500 anos e quem chegou ao Brasil nos últimos séculos? Pessoas! Seres humanos! Nós!

Antes de tudo, o fenômeno migratório é um fenômeno humano. Acidentalmente, é fenômeno acentuado neste ou naquele período, nesta ou naquela região. Mas deveríamos aproveitar nossa capacidade de nos debruçarmos sobre nós mesmos, sobre nossa própria história e nossa própria atualidade, para percebermos que a migração diz respeito ao ser humano, simplesmente, e não a este ou aquele grupo étnico ou político ou social.

Segunda-feira passada ouvi da boca de uma migrante colombiana que mora em Porto Alegre, por ocasião da Abertura da Semana do Migrante: “Sentir-se acolhido é o maior bem que um migrante pode experimentar.” Também foi muito repetida naquela noite a frase de São João Batista Scalabrini: “Para o migrante, pátria é a terra que lhe dá o pão!” A nova Lei de Migração, Lei 13.445/2017, bem como a política estadual de migração que será examinada pela Assembleia Legislativa, revela a maneira como o fenômeno da migração humana deve ser compreendido atualmente, a saber, assumindo a universalidade, a indivisibilidade e a interdependência dos direitos humanos, afirmando a acolhida humanitária e o repúdio à xenofobia e ao racismo, e promovendo o desenvolvimento econômico, turístico, social, cultural, esportivo, científico e tecnológico do Brasil. O migrante foi, é e será, sempre, uma enorme riqueza que deve ser comemorada e valorizada.

Prova disso é o sucesso de Santa Cruz do Sul e de todo o Rio Grande. O migrante de hoje é o bem[1]sucedido cidadão de amanhã.

Por tudo isso, o Bicentenário celebra a pessoa humana e sua capacidade de enfrentar desafios, de acolher, de se adaptar, de olhar o próximo como irmão e de partilhar sofrimentos e vitórias. O Bicentenário da Imigração Alemã quer ser a festa da fraternidade entre todos, sem exceção, uma genuína festa da humanidade inteira!

Com esse espírito, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio dos Gabinetes do Governador e do Vice-Governador e das Secretarias que fazem parte da Comissão - Cultura, Turismo, Desenvolvimento Econômico, Comunicação, Segurança Pública e Justiça, Cidadania e Direitos Humanos - além da UERGS e de mais de 50 entidades da sociedade civil, coloca-se como parceiro de todas as instituições e pessoas interessadas em fazer, ao longo de 2024, eventos e projetos que celebrem a vida e a pessoa humana tomando como referência histórica os 200 anos da imigração alemã, mas projetando o passado até o presente e mirando o futuro como palco de valores cada vez mais sólidos, como a liberdade, a igualdade e a fraternidade, tudo isso em torno de uma ideia viva e vibrante de dignidade humana.


quinta-feira, 15 de junho de 2023

CHAMADO PASSO DA AREIA

Desde jovem me fascinei com a obra de Gildo de Freitas. Ele foi um que vislumbrou fantasticamente o que estava acontecendo no mundo. Todos nós, que passamos dos sessenta, temos claras na retina as maravilhas de aqueles tempos. Na minha infância quase não havia crimes.Dormia-se de janelas abertas no verão. Praias de banho eram os riachos, onde abundavam os peixes . Em Santa Cruz havia vários locais de banho. Alguns ainda persistem , mas não com aquele viço daqueles tempos. De vez em quando meu pai nos levava de caminhonete para Rio Pardo. Eu me deslumbrava com a água do rio . Minha mãe e minhas irmãs se vestiam com aqueles “ maiôs” super pudicos e longos. Voltávamos todos com o rosto queimado na caixa de trás da caminhonete Dodge canadense ano 1955, se não me engano. Tinha uma cabine metálica na frente e atrás uma cabine de madeira com toldo em cima. Abaixo vai, portanto,o que Gildo de Freitas preconizou. Vou deixar intactos seus versos, sem nada corrigir, conquanto haja imperfeições de gramática. Importante é o conteúdo. …………… “Chamado passo d'areia Foi o lugar que eu nasci Foi ali que eu conheci Cousas que a gente admira Muçuns, jundías, taraíras Nos meus tempos de guri Não é querer me exibir Mas taraíras davam tantas Que nas quintas feiras santas Nós pescava por ali Mas quem tinha mais dinheiro Terminou com o nosso apoio Compraram nossos arroios Findaram nossos pesqueiros Um arroio companheiro Pesqueiro de bom tamanho Eram até praias de banho Pra quem não tinha dinheiro Naquelas partes mais altas Por onde a água descia Não eram só pescarias Davam muitas produções Auvoredo plantações pastagens e leitarias Da terra tudo nascia Pepino, feijão miúdo Era uma terra para tudo Aipim, melão, melancia Mas pode crer minha gente Que isto foi num disparato Derrubaram até os matos De angicos e Cambuíns Foram se metendo assim Que nem piolho em custura E as hortas de verdura Viraram todo em jardim Está derrota foi feita Em muitos poucos momentos Foram abrindo loteamentos E as construções vieram vindo Outros vendendo e saindo Mesmo que um papel no vento Eu conto com sentimento Tudo que era bom se foi Plantação, cavalo, boi Festança carreiramento Tudo se foi no momento E aonde pastava as vacas Hoje só se enxerga placas Aluga-se apartamentos.” …………….. E tudo isso aconteceu. Melhorou tudo de uns tempos para cá? Não esqueçamos que Passo da Areia se situava num lugar simples e longe do centro de Porto Alegre. Ali havia criação de animais, era um lugar bem distante e pouco habitado. E hoje? Tudo que era bom se foi…