quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A GAZETA ME ENSINOU A LER

 Eu vim com meus pais da colônia para a cidade depois de morarmos algum tempo em  Boa Vista,distrito de Santa Cruz. Meus pais queriam ir para a cidade para que seus filhos estudassem. Éramos só minha irmã Lia, eu  e bem depois minha irmã Cleonice, já falecida. Eu tinha 5 anos de idade.

Meu pai se estabeleceu num local perto da então Sudan.

Depois ele acertou na loteria e: hosannas! comprou duas casas na Rua Thomas Flores, 876. Recentemente  essas casas foram demolidas. A casa de moradia era de número 864. A  outra 876, onde era o armazém. 

Vendia-se de tudo. Mas o inexorável aconteceu. Chegou , devagar, o que acabou com os pequenos comércios. Os supermercados.

Mas antes disso meu pai estava bem.

No balcão sempre estava Gazeta de Santa Cruz, se não me engano era esse o nome. 

Só depois se transformou para o nome atual.

A Gazeta de então tinha também  reportagens internacionais. Eu , com uns 13 anos, me inteirava dos problemas da India, do Nehru, das questões de diversos   países, tudo estava na Gazeta. Não se precisava  comprar o Correio do Povo ou o Diário de Notícias.

Havia notícias internacionais, mas também nacionais e estaduais. Também, é lógico, os “ potins sociais” do caríssimo Michels.

As tragédias dos Narico, o episódio triste da morte de um Delegado de Polícia e por ai ia. 

Tudo  isso eu lia sofregamente na Gazeta.

Quando se acendeu nos EUA  o problema da segregação racial,    entreguei  um artigo contra essa prática  aos 15 anos. Meu artigo foi publicado na época. 

Recentemente  

o caríssimo Borowski o localizou e a 

Gazeta o repercutiu no ano passado.

Hoje nosso amado jornal está moderníssimo. Acho que a direção fez bem em manter as questões locais, mescladas com colunas e artigos muito importantes.

Atualmente eu, por exemplo, leio o jornal pelo celular . 

Mas ainda é muito charmoso o exemplar físico.  

Há quem deprecie o jornal de papel. Discordo. Há ainda uma população que quer ler com calma, sublinhar e recortar .

Em suma: a Gazeta me ensinou a ler , a pensar, a escrever e a recordar. 

 

   


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

DE PATRIOTAS A DESORDEIROS

 TITO GUARNIERE


DE PATRIOTAS A DESORDEIROS


Ainda há muito para ser estudado nos eventos dramáticos no Brasil, desde outubro. O mais surpreendente e duradouro foram as concentrações bolsonaristas ao redor dos quartéis, pedindo a intervenção militar. E em 8 de janeiro o impensável ataque das hordas golpistas aos prédios dos três poderes em Brasília. Ficamos a um triz de uma convulsão social, uma ruptura violenta da ordem constitucional.

Alguma coisa, é verdade, tinha de se esperar e haveria de acontecer. Mas nessas horas ninguém prevê a sucessão de acontecimentos, nem na ordem em que ele se dão, nem na intensidade, nem nos desdobramentos próximos e remotos. Afinal, a trama golpista, as provocações, os ataques às instituições como o TSE e o STF e a imprensa, tudo se repetiu sem tréguas desde a campanha de 2018 e depois a cada dia do governo Bolsonaro..

Quando os bolsonaristas começaram a armar as barracas ao redor dos quartéis, era de se imaginar que se tratava de um fenômeno passageiro. Mas os dias, as semanas passaram e os acampamentos se mantiveram em plena atividade, quando não em crescimento e expansão.

Os manifestantes-golpistas enfrentaram todas as adversidades, a precariedade da vida em barracas, inclusive as torrenciais chuvas de verão, e lá se ficaram em impressionante pegada, vibrantes de um fé cívica meio aloprada, vivendo intensamente a expectativa de que nas "próximas 72 horas" o resultado das urnas seria anulado e Bolsonaro ou quem sabe o general Augusto Heleno ocuparia a cadeira presidencial.

Os ativistas mostraram garra e perseverança, em meio ao emaranhado confuso das suas ideias, ao mesmo tempo em que apresentavam nítidos sinais de uma desvario coletivo, de uma pane de compreensão do senso comum, de um desligamento da realidade – pareciam ter atravessado as fronteiras do universo lógico e comum para adentrarem a um universo paralelo.

O contingente estava convencido que a vitória de Lula era a vitória do comunismo, e que cada um (a) era um(a) combatente da liberdade, que era preciso resistir a todo custo ao avanço vermelho. Não duvido de que, naquele meio, havia gente disposta a morrer pela causa, sem jamais ter se perguntado se de fato tal causa era real, fazia algum sentido. Movidos pelos impulsos da hora e apelos insanos de um patriotismo de fancaria, perderam completamente a capacidade de raciocinar. Estavam enfeitiçados de ardor juvenil no projeto desatinado de "salvar o Brasil".

E foi assim que em janeiro de 2023 as "tropas" se lançaram ao assalto final em Brasília, quebrando tudo que encontraram pela frente, devastando a Praça dos Três poderes, invadindo cada prédio , estilhaçando cada vidro, a rebeldia sem causa, o caos pelo caos, como nunca se viu na República.

Mais de mil deles estão presos. De um ponto de vista estritamente legal não têm nada que reclamar : foram presos em flagrante delito. Descobriram que a jornada nada tinha de gloriosa: o que fizeram foi coisa de marginais, desordeiros, o que – com toda a certeza – a maioria até então não era.


titoguarniere@terra.com.br

twitter: @TitoGuarnieree

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

NELSON WEDEKIN

 Nelson Wedekin

TITO GUARNIERE


O DIREITO, O STF E ALEXANDRE DE MORAES


No estado de Direito, decisão final e irrecorrível é aquela pronunciada pela mais alta Corte da Justiça - no Brasil o STF. Você pode gostar ou não, mas é a última palavra. De certo modo, todas as sentenças dos tribunais inferiores são provisórias enquanto existir grau de recurso perante um tribunal superior, como a Corte Suprema.

As sentenças de Moro que condenaram Lula não eram definitivas. O STF, no exercício pleno de suas atribuições e prerrogativas, devolveu ao presidente o direito de disputar a eleição. Dizer que a decisão foi errada é nada além de uma opinião jurídica ou política. Também se poderia dizer erradas as decisões que condenaram Lula. O pretexto de que a decisão foi equivocada ou injusta não dá o direito de invadir o prédio da Justiça e quebrar tudo.

A contradição se torna ainda mais aguda quando se reclama das prisões de centenas de "manifestantes", como se as suas ações deletérias fossem coisa de bravos patriotas. Não são patriotas, são delinquentes. Foram presos por agente do Estado cometendo crimes graves, de ordem variada, como manda a lei e como aconteceria em qualquer país civilizado do mundo.

Resolutamente: os presos não são manifestantes pacíficos, inocentes injustiçados. Pagam a conta do que fizeram de mal. Embora seja cedo para dizer, mas sabendo como é a Justiça brasileira, sustento desde logo que a arruaça de janeiro em Brasília sairá barato para todos os seus autores, e mais ainda para os seus chefes políticos e mandantes.

De dentro das prisões, os presos clamam pelos seus líderes – os que os levaram à epilepsia de janeiro e apelam para o tratamento digno que de fato são merecedores. Aquela gente descobriu da forma mais difícil que os direitos humanos não são o "esterco da vagabundagem", como disse uma vez o foragido da Disneylândia, mas uma conquista do progresso social e da civilização.

No ínterim, vão enfrentando a postura ereta de um juiz vigoroso. Alexandre de Moraes já mostrou que não é de passar o pano: violou a lei, cometeu o crime, paga. A impunidade não pode ser atribuída apenas aos crimes dos endinheirados, de colarinho branco. A lei deve valer igualmente para todos. Assim deverá ser também no caso de movimentos sociais, como o MST, se invadir propriedades de terceiros.

Moraes não estaria agora abusando do seu poder, como insistem os seus críticos? Em situação de normalidade, talvez. Mas estivemos a um passo do golpe de estado. Situação excepcional exige força e rigor excepcionais. Se fosse um juiz ao qual faltasse força moral, coragem e capacidade de decisão, , talvez a estas alturas já tivéssemos sucumbido na escuridão do arbítrio, na derrocada das instituições, na usurpação do poder pelos golpistas.

Levará tempo ainda para que se dissipem as sombras de janeiro - longo período para o desmonte daquele estado de confronto e caos permanente que foi o governo Bolsonaro. Tempo para restabelecer as bases mínimas de uma convivência sem sobressaltos, para que a democracia vigore plenamente e seja o fio condutor do nosso futuro, como nação e como povo.


titoguarniere@terra.com.br

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

ACONTECIMENTOS RESSENTES

 Primeiramente gostaria de dizer que já havia feito um esboço do meu artigo .

Sobreveio um tufão que ninguém esperava. Bolsonaro quieto nos EUA, calminho.

 Houve   uma  notícia de que Bolsonaro tivera uma recidiva do ferimento a facão. Eis que , sem que ninguém soubesse de nada, uma turba invade os lugares sagrados da nossa pátria.

Não consegui dormir quando soube  de bagaceiras destruindo nossos templos.

Tratei de correr e encher o tanque de combustível.

Fiquei completamente triste , com vontade de sair  do Brasil e ir para qualquer lugar onde tivesse uma velhice de paz. Estou com 77 anos de idade e ainda não me considero velho:podem perguntar ao Dummer, ao Flávio Haas e outros amigos que ainda jogo tênis.

A metade dos meus amigos eu já tinha deletado por causa das brigas no Whats.

 Não adiantava eu explicar aos fanáticos o que era o Sofisma da falsa analogia  ( é uma falácia  que ocorre quando a conclusão de um argumento depende de uma semelhança entre dois objetos que possuem diferenças  relevantes . Por exemplo.

“ Foi descoberta a cura do câncer do pulmão em humanos . Um novo medicamento foi testado em ratos  e mostrou eficácia extraordinária. Como seres humanos são mamíferos, assim como ratos, é certo que  curará os humanos. ”.

E aí alguns  meus amigos, jejunos em  do Direito e em Filosofia, ficavam entrando em tudo quanto foi Fake.

Agora se viu que não foi de graça que , num gesto heróico, todos os governadores acorreram , junto com com todas autoridades importantes, e  mataram a serpente num golpe só.

Voltem, então, para casa os que , inocentes, mal informados, se achando heróis, viram que, atrás dos fechamento das ruas e estradas, havia  gente mal intencionada .

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Para amenizar, mando mais uma obra minha e de Nenito Sarturi.

. 

Uma das composições tem o nome de  “ Confiteor campeiro”.

Eu me confesso a Deus Nosso Senhor/ de todas criaturas criador

Pelos crime cometidos, contra os irmãos animais

Confesso meus pecados contra marrecas e capinchos 

Pacas, jacus, pombas e tatus,

Muçuns , lambaris e inhambus

Dá-me Senhor a graça de poder um dia ainda

Achegar-me na borda de um açude, sem que tudo saia em disparada.

Que eu também evolua, para não matar sem fome,

para não usar a fala só para mentir

Que eu possa um dia dar de comer no bicos dos passarinhos

Acariciar os filhotes de bichos 

Tendo no ombro a pomba da paz!

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Em Unistalda aprendi muita coisa que não sabia. Ali conheci animais silvestres como nunca tinha visto.

A Natureza faz de tudo para preservar a fauna e a flora. 






terça-feira, 3 de janeiro de 2023

HEIMATLAND ( RUDOLF GENRO GESSINGER)

 Entre todas as palavras que eu conheço, a que mais me fascina integra o idioma alemão: Heimatland.

Nos sites de tradução, comumente vais achar "pátria" como primeiro termo correspondente em português. Existe uma tempestuosa problemática linguística em volta do termo Heimat, mais especificamente, mas toda a amplitude dela não nos interessa aqui.
"Pátria" seria uma tradução sintética demais, porque atribui um aspecto coletivo que Heimatland não tem, necessariamente. Está mais ligado a uma preferência afetivo-familiar e, portanto, singular. Literalmente, seria "terra onde fica o lar". No nosso português gaúcho, Heimatland seria "querência".
Muito embora a semântica de Querência quase esgote Heimatland, eu acrescentaria – para aprimorar a etimologia – que Heimatland é o teu lugar no mundo; a terra de cuja cultura fazes parte. É o berço das tuas mais queridas memórias e o jardim dos teus sonhos. 
Por isso, acredito que traduzir Heimatland como "terra natal" é uma opção pobre em termos de sentido da expressão, pois origem pode se relacionar pouco ou nada com identificação com um lugar: pertencimento!
Heimatland é o lugar para onde, por profundo apego, queres sempre voltar. Como pressuposto, só valoriza completamente sua Heimatland quem já saiu dela um dia para conhecer outros lugares.
Os mistérios do vasto mundo em que vivemos te instigam a ir adiante para explorá-los. Assim, principalmente, enriqueces tua experiência de vida. 
A motivação está quase sempre lá fora, no desconhecido. 
O conforto e a paz, entretanto, ficam te esperando pacientemente no caloroso abrigo da tua Heimatland.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O QUE FICOU DO MUNDIAL

 O preclaro jornalista Romeu Neumann se adiantou de mim e publicou uma excelente coluna dia 19.12, na Gazeta do Sul. Mauricio Goulart também com muita argúcia na terça feira. 

Agora, seguindo seus passos, vou me permitir algumas considerações. 

Os esportes são algo muito diferente uns dos outros, mas o que será necessário sempre é o cumprimento da ética.

Dou, por todos , os exemplos do tênis e suas regras.

Na dúvida em um lance, decida contra você. Eu disse  contra você.

Penso que no futebol é importante que, ao par dos treinamentos, haja noções mínimas de civilidade. 

Há pessoas que brincam muito, mas não concordo com a assertiva de que a maioria dos jogadores de futebol  vieram na favela, mas  a favela não saiu deles. Não é assim, pois  os mal comportados se sobressaem e aparecem. E isso resulta em falsa opinião.

Neste mundial houve muito bom comportamento. Todos vimos.

O grande exemplo foi a final. 

Que maravilha, poucas faltas, cavalheiros se degladiando no gramado. Via  de regra jogou-se com muita força, mas é do jogo. Também achei que foram muito  corretas as arbitragens.

No que tange aos cabelos pintados de branco e as dancinhas, é coisa normal, assim como as pinturas corporais. Todas essas coisas são uma característica dos povos  que vivem em climas quentes. A muitos pode parecer deboche. 

Algo que me fez espécie foram duas coisas lamentáveis.

Alguns atletas não cantaram seus hinos e outros ficaram naquela postura absurda de mascar chicletes. Dizem que fazem isso para evitar o vômito…

Também houve casos em que alguns atletas fizeram pouco das medalhas que receberam. Isso é muito lamentável.

Sempre achei que alguns raros, conquanto joguem bem, se excedem com “luxos” que não são exemplos para ninguém. Muito já se viu o atleta se tornar  pobre tempos depois de parar.

Outra coisa. Quase todos os atletas do mundo sabem falar inglês. 

Os atletas  brasileiros quase não  dominam o idioma . São, em sua maioria, monoglotas.

Quanto ao jogo oferecido pelo nosso time, continua sendo muito lento por vezes. É bola para o lado e para trás. 

O nosso Tite é boa gente, mas creio que cometeu muitas faltas . A pior foi mandar um menino inexperiente para cobrar um pênalti. 

Parabéns a todos demais atletas do mundo.

A final entre dois times mostrou muita educação, cortesia, “ fair play”, coisa que o Brasil  está aprendendo a ter.

No final, vimos os atletas   se cumprimentando com os adversários. Pouco depois os filhos de vários jogadores se abraçando .

Parabéns,   atletas da Argentina e da França.


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

SAUDE, SORTE, SUCESSO

 

Tg2023


TITO GUARNIERE


FELIZ 2023 – SAÚDE, SORTE, SUCESSO


Que lhes posso desejar para 2023? Só coisas boas – saúde, sucesso, sorte, nessa ordem e só na letra "s" do dicionário.

O principal é a saúde. Pergunte ao homem mais rico do mundo, quando fica doente, o que ele mais deseja, e na ponta da língua está a palavra mágica : saúde! Ou mudando um pouco , perguntem se ele daria metade da fortuna em troca de ficar 10 anos mais jovem. Como em nenhum negócio espetacular dos tantos que fez ao longo da vida, ele responderá de pronto, sem pensar ou vacilar : sim, mil vezes sim.

Vi uma foto que me comoveu, Pelé e a filha Kelly no leito de hospital , em São Paulo. O craque, a celebridade, o gênio, o rei, certamente vivendo o ocaso de uma existência gloriosa, as batidas do coração lentas e descompassadas, talvez desse todo o seu reino de glória para se movimentar, sentar de conta própria, respirar normalmente. Mas mesmo o rei estava ali se rendendo à lei da vida, que é a mesma lei do fim e do passamento. Em momento fugaz de lucidez, ele talvez esteja implorando por um pouco de força, de luz – de saúde. Nessa hora não há rei, nem riqueza ou genialidade: o mundo fica igual e ninguém escapa à dor e ao sofrimento.

Então, saúde é o que interessa, como dizia o bordão da tevê. Saúde para caminhar lentamente na alameda olhando ao redor e pensando na vida, respirar o ar puro do campo, olhar as estrelas na noite clara, tomar no colo a criança e embalar-lhe o sono inocente. Saúde, caro(a) leitor(a) é o que lhe desejo mais do que tudo, e aos seus, no ano que está para começar.

Torço pelo seu sucesso no estudo, no trabalho, no seu projeto de vida. O sucesso é demorado e difícil – uma trajetória de altos e baixos, uma longa aventura cheia de percalços. O sucesso, que depende acima de tudo do nosso esforço pessoal - muito mais suor e vontade do que de talento e habilidade.

O sucesso, que não é garantido nem mesmo para quem se esfalfa no trabalho. Como nada é perfeito, nem sempre o empenho, o interesse, o esforço e o foco redundam na vida bem sucedida. Mas sem a energia, o esforço pessoal, a perseverança, dificilmente você conhecerá o êxito, a realização plena, o reconhecimento e a admiração (e às vezes a inveja ) de todos. Então, mãos à obra e quem sabe, com um pouco de sorte, o sucesso lhe abrirá um largo sorriso.

A sorte, ah sorte. É preciso muito sorte para desfrutar de certos privilégios (tipo viajar de classe executiva a Paris, Londres, Nova York duas ou três vezes por ano, morar na mansão e no bairro seguro, passar o final de semana na casa de campo ou da praia, trocar de carro todo ano e coisas assim) – sorte de vir ao mundo com talentos especiais(atores e atrizes de cinema, atletas de ponta, cantores e cantoras pop), nascer em berço de ouro, ganhar na loteria, casar com milionário ou mulher rica. O ruim é que estamos exaustos de saber que essas coisas só existem para uns poucos afortunados. Mas se a sorte nos contemplar em 2023 , seja bem-vinda!

Bem, meus caros, de toda forma são os votos que formulo para você e os seus em 2023: saúde, sorte, sucesso.

sábado, 24 de dezembro de 2022

SOBRE NATAL E ANO NOVO

 Vamos recapitular.

Nasci em Linha Arlindo onde meu pai tinha um pequeno armazém. Naquele tempo o nascimento não era complicado: meu pai chamou uma parteira que assistiu ao parto em casa mesmo. Apesar das advertências da minha mãe,  que não queria outra criança tão logo, meu pai alegou que mulher  não engravidava enquanto desse de mamar. Resultado: minha irmã Lia nasceu antes que eu completasse um ano.

Meu pai se mudou para a cidade em Santa Cruz e abriu um armazém de secos e molhados  na rua Thomas Flores, na esquina com João Alves. Isso quando eu tinha 6 anos.

Na época a cidade parava  praticamente aí.

Nos domingos o pessoal da colônia vinha de carroça para assistir a missa bem de madrugada. Lavavam os pés nos fundos do nosso armazém .

Naquele tempo o Natal era algo muito lindo. As mães montavam vistosos enfeites, que elas mesmas faziam. Os pinheirinhos eram naturais.

Os presentes eram muito poucos, mas nos traziam muita alegria.

Enquanto eu era solteiro  sempre passava o Natal com meus pais.

Aí aconteceram uma série de evoluções. Ao me casar logo vi que os costumes da minha então  esposa eram diferentes dos da minha família. Não digo melhores ou piores. Eram diferentes.

Pouco a pouco notei que o Natal, em muitos lares, não tinha as cantorias e rezas a que estávamos acostumados.

O consumo foi se apossando de quase tudo. As crianças passavam a  nadar em presentes. 

Ao invés das simples refeições e orações, alguns natais se transformaram em foguetórios.

Resolvi  me esconder, com a família, em lugares calmos e silenciosos.

Acontece que os filhos crescem, casam, têm seus filhos. Por vezes vão morar em lugares distantes. 

Meu filho mais velho mora com sua família na Alemanha. Já está há cinco anos e não tem planos de voltar.

Resumo da ópera: nem sempre se consegue reunir todos em seu torno. 

Decidimos então, minha esposa do segundo casamento  e eu, passarmos o Natal na fazenda, comendo algo frugal e dormindo cedo. 

Lá não chega o barulho dos fogos de artifício.

Não nos arriscamos mais a ficar na cidade no dia primeiro do ano. Aí sim é um horror  para cães e outros animais, principalmente nos balneários. O foguetório faz os pobres animais entrarem em pânico. Muitos fogem de casa. O estrondo  dos fogos machuca o tímpano dos nossos irmãos animais.

Como é que tem gente que gosta disso?

Esse é o preço que se paga quando se tem mais idade: ao fim e ao cabo se constata que o divino aniversariante é totalmente esquecido.

Aos poucos as orações e as tradições desaparecem e em seu lugar reina o nada.

Estarei em erro?




quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O SENSATO GENERAL MOURÃO

“Lula foi eleito e tem que governar”. Mourão descarta intervenção. ( entrevista na Gazeta de 2.12, 2022). Esses dias o General concedeu uma bela entrevista à Gazeta do Sul.Por sinal a Gazeta é um Grupo para o qual escrevo desde os 15 anos. Gostaria de dizer que gosto muito do Exército Nacional e por ele tenho muito respeito. Fui Juiz de Direito em Santiago-RS, com menos de 30 anos. Santiago tem quatro quartéis , se não me engano. Ali conheci o General Heraldo Tavares Alves, hoje falecido. Era um homem religioso, muito refinado e elegante. Nós dois sempre nos sentávamos juntos na antiga igreja de Santiago. Havia um padre jovem que gostava de censurar os autores do golpe militar. Eu ficava na minha e o General ficava tranquilo. Dito isso, vamos aos assuntos com o General Mourão. Desculpem-me se erro. O então candidato a Presidente Bolsonaro não parecia ser muito próximo do General. Eleição terminada, me pareceu que Bolsonaro não fez muito caso de seu vice. O General, no entanto, manteve-se tranquilo e não reclamou. Quando se aproximaram as novas eleições o General foi esquecido. Mourão não gritou, não reclamou , candidatou-se ao Senado e foi vitorioso. Imediatamente surgiram, de muitos cantos, indivíduos que não se conformavam com o resultado das eleições. Para irem votar não reclamaram de nada. Pessoas de boa índole, até acho que sérias, foram convencidas de que houvera fraude. O General Mourão, ainda vice-presidente da República, concedeu uma entrevista à Gazeta dizendo que Bolsonaro perdeu as eleições e que o vencedor iria assumir. Enfim, o General Mourão, homem sério, no próprio dia em que terminaram as eleições, apoiou o que a maioria do povo decidiu. Concordo que é lícito a quem perdeu não se conformar. A inconformidade, porém, não há de ser agressiva, muito menos se vem acompanhada de fechamento de estradas e outros logradouros. Consta que vários bloqueios de estradas foram patrocinados por terceiros, o que entendo como beirando às raias de ilícito penal. Por sinal ,a matéria está sendo estudada pela Polícia Federal. Nem Bolsonaro apoiou esses absurdos que fizeram o país parar por uns dias. Ao contrário, proclamou para a nação inteira que cessassem os distúrbios. Esclareço que não entro no mérito das qualidades ou não dos candidatos. Refiro-me a “ virada de mesa”. Os que acham que as Forças Armadas devem intervir, que protestem de maneira ordeira . Ou querem discordar do General Mourão e do próprio Bolsonaro?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

EDUARDO LEITE

Como eu disse num artigo de algum tempo atrás,durante a Expointer eu sempre era convocado pelo Paulo Sérgio Pinto, vice-presidente da Rede Pampa, para participar das entrevistas com diversos personagens da política e do agronegócio. Tudo ao vivo desde a bela casa que a Pampa tem lá dentro da parte nobre do Parque. Paulo Sérgio e eu somos amigos antiquíssimos. Inclusive a filha dele, Ana Paula, ao se formar em Veterinária, nos honrou com um pedido de estagiar na Pecuária Gessinger. E lá ficou Ana Paula vários meses sujando as botas, vacinando o gado. Enfim, aprendendo a prática. Nos comovemos, Maristela e eu, porque existem centenas de estâncias mais aparelhadas. Ana Paula não aceitou, quando de nossa ausência, almoçar na nossa casa. Ela fazia questão de almoçar na casa do capataz. Voltando ao assunto do programa, também já ia esquecendo que durante cinco anos tivemos um programa na Rádio Pampa, todos os domingos das 7 às 9.30, ao vivo.O Rudolf, ainda piá, anotava os recados. Parei por causa da falta de tempo. Mas tenho saudade. Bem antes das eleições vencidas por Eduardo Leite ele foi convidado para integrar a banca da Pampa, ao vivo, direto do estúdio ali no parque. Quando Eduardo Leite adentrou, ele sentou ao meu lado, após as apresentações. Muito bem vestido com a indumentária gaúcha. Logo pensei: esse rapaz de seus trinta e poucos anos deve ser gauchinho de apartamento. Nada disso, o cara conhecia tudo de pecuária , finanças e tal. Na saída eu profetizei ao grupo: " bota esse cara na televisão e ele mata a pau". Leite se manteve calmo e respeitoso ante as crises que jorravam de Brasília. Ficou frio durante esse emaranhado de “fake news” em que uma ala da política se envolveu. Num churrasco no galpão do Palácio, recebeu vários próceres políticos de outros Estados. Não muitos, mas também não poucos. Era um balão de ensaio. Colocaram seu bloco na rua. Hoje, com a TV e as redes sociais, nunca se pode prever com exatidão uma eleição. Vide Bolsonaro. Voltando: Eduardo expôs sua preferência sexual sem medo. Pensei , desde o começo, que ele teria que tentar um novo governo estadual. Andou tentando algumas alianças, mas não deu certo. Quase perdeu as novas eleições, mas foi hábil, muito hábil. Enquanto no Planalto fermentavam horrores inconfessáveis, Eduardo e seu vice agiram serenos. Tenho fé na minha amiga a Simone Tebet. Que dupla maravilhosa seria para um vôo mais ousado. Quem viver, verá. (Em tempo: saibamos perder. O Direito deve prevalecer.Dezenas de séculos sabem mais que nós).

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A CRIMINALIDADE ESTÁ VENCENDO

Me doem as palavras sentidas do meu caro amigo Romeu Neumann ao narrar ,em sua crônica , os crimes de bandidos ao seu patrimônio. Peço emprestadas as palavras de Eliseu Gomes Torres, eminente jurista, desembargador aposentado. “Direito não é só retórica. É, também, conjuntura, circunstância e momento. Procuro explicar. Desde a redemocratização do país, isso em 1945 ( outubro,), passamos a viver uma era de perplexidade, decorrente da velha dicotomia entre liberdade e autoritarismo. As massas conseguiram eleger João Goulart, discípulo de Getúlio Vargas, Vice-Presidente por duas vezes. Na segunda, a renúncia de Jânio tornou-o Presidente, depois daquele sufoco que foi a Legalidade. Depois de um plebiscito, Jango retomou seus poderes presidenciais. Mas aí esbarrou num Congresso adverso e acabou deposto. Até então,vigorava no Código de Processo Penal, o instituto da prisão preventiva. Alí, nos arts. 311 a 313 do CPP, estava prevista a decretação da prisão preventiva como garantia da ordem pública, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal,desde que houvesse provas da existência do crime e indícios suficientes de sua autoria. Em plena vigência do regime militar, houve necessidade de abrandar o instituto da prisão preventiva. Tratava-se de assegurar a liberdade do Delegado Sérgio Paranhos Fleury, paulista, que era tido como o algoz-mor dos presos políticos da OBAN e do DOI-CODI . A chamada Lei Fleury continua em vigor até hoje e assim permanecerá, não por razões políticas, mas pela simples incapacidade do poder público em prover as vagas necessárias para segregar da sociedade os que cometeram crimes graves, puníveis com reclusão. Todavia, mesmo com a drástica redução das exigências para a decretação da custódia preventiva, é inegável que subsistem os motivos determinantes de sua decretação : garantia da ordem pública, conveniência da instrução criminal e possibilidade de que o réu venha evadir-se para evitar a aplicação da pena. O que pretendo frisar é que as circunstâncias e conjunturas brasileiras bradam pela custódia preventiva de tais réus. A prisão deles não é uma mera questão de retórica, mas uma imposição do momento.” Lembro-me claramente que esse afrouxamento da lei redundou em uma verdadeira falência penal. Os delitos tornaram-se banais . Os criminosos sabem que os processos se arrastam e não há lugar para todos nas prisões. Não há como a Justiça dar conta de todos processos. Neumann tem razão: o crime está vencendo. (É o que penso, respeitando quem discorde, pois a matéria é controversa)

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

A "TAL" DE RESPONSABILIDADE

TITO GUARNIERE Lula está eleito e seu governo está em formação. Não votei nele no primeiro turno. Ainda tenho para mim que Bolsonaro, além de um péssimo governante, além de não ser chegado ao batente, e da vocação para a mentira e a encrenca, é a uma ameaça para a democracia. Ou seja, o meu apoio a Lula no segundo turno não se deu por afinidade, não foi escolha firme e pensada, mas porque a alternativa era muito pior. Minhas restrições a Lula não eram por causa da corrupção. Enquanto ele não for condenado pela Justiça, ou enquanto se mantiver a decisão de anulação dos seus julgamentos, no estado de Direito, prevalece a teoria da presunção de inocência. Eu, todos nós, podemos ter dúvidas sobre a sua honestidade, e temos do direito de não votar nele por isso. Porém o juízo moral, ético e político é diferente da condenação judicial. Tanto é assim que a lei lhe permitiu concorrer em 2022 – da mesma forma que o impediu de ser candidato em 2018. Mas não aposto no governo Lula, a não ser nos estritos limites dos meus motivos. Comecei a ter razão muito cedo, antes mesmo da posse. As suas declarações sobre os limites de gastos e sobre a responsabilidade fiscal denunciam que em todos estes anos ninguém, lhe informou - e nem ele descobriu por si- sobre o valor intrínseco do equilíbrio entre o que o Estado gasta e o que ele arrecada. Quando Lula se refere a "essa tal" responsabilidade, revelando seu desprezo pelo conceito, dá mostra do seu desconhecimento, a sua ignorância a respeito. Ele está parado em uma página vencida da teoria econômica, segundo a qual a responsabilidade fiscal é um truque, uma artimanha das elites econômicas, dos endinheirados, em favor dos seus próprios interesses, para melhor saquear os recursos do Estado. Sim, tais elites promovem com frequência o saque dos recursos do Estado. Mas isso não significa que – necessariamente – o equilíbrio fiscal seja um instrumento diabólico para que eles (os ricos) ganhem sempre, como em um jogo de cartas marcadas. Trata-se de uma equação razoavelmente simples: para gastar mais na melhoria de vida dos desvalidos, dos mais pobres, é preciso ter mais recursos. Se não há correspondência razoável entre o que se dispende e o que se arrecada, então em algum momento as contas se desarrumam. As consequências – aquelas que vêm depois - são devastadoras : inflação, desemprego, juros altos, crise econômica, menos recursos para a educação, saúde, segurança pública. Não tem essa de que "um pouco de inflação não faz mal a ninguém ". Faz. O processo inflacionário já é uma disfunção, um desajuste, um descontrole. Um pouco de descontrole não gera controle, tende a mantê-lo e agudizá-lo até o desastre. Quem paga a conta? Os que mais necessitam da ação e da assistência do Estado, os desvalidos, os pobres.. Não fosse assim tudo se resolveria com uma boa máquina impressora e rolos de bom papel: fazer a guitarra da emissão de dinheiro tocar, cobrir os custos e os gastos do Estado com moeda tinindo de nova. Surpreende, de todo o modo, que Lula desconheça ou menospreze tão elementar realidade. titoguarniere@terra.com.br Twitter : @TitoGuarnieree

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

SALVE ARROIO DO MEIO

Fui o primeiro juiz da então recém criada Comarca de Arroio do Meio. Está festejando 50 anos. Deixem-me contar. Em 1969 me formei em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul aos 24 anos. Em 1968 fui aprovado, com o primeiro lugar, no concurso de Delegado de Polícia. Na época era possível se inscrever nesse concurso em se estando no quarto ano da faculdade. Por razões que não cabem agora, achei melhor pedir exoneração do cargo e fui advogar em Porto Alegre. Dois anos depois me submeti ao concurso para Juiz de Direito, aos 26 anos, sendo aprovado. Eu me achava muito verde ainda para enfrentar uma comarca perto da Capital. Escolhi uma bem longe: Horizontina, que era um lugar calmo e eu poderia estudar nas horas vagas. Ocorre que era muito longe e, na época, de difícil acesso. Hoje está muito diferente e é um lugar muito progressista. Fiquei um ano e soube que a Comarca de Arroio do Meio fora instalada, mas estava sem juiz titular. Pedi remoção e me mudei “com mala e cuia” para uma confortável casa nessa linda cidade. Quando fui olhar os processos em andamento, pasmem! Entre cível e crime o total dos feitos não chegava a 350! Ninguém matava ninguém, ninguém roubava ou furtava nada, todos pagavam suas contas. Achei que ia me entediar . Relatei isso ao Presidente do Tribunal, que resolveu que eu ficaria em Arroio do Meio com a jurisdição, mas em regime de exceção julgaria processos de Soledade. Me encantei com a região toda, Lajeado, Estrela, Encantado, onde muitas vezes substituí os colegas em férias ou outro motivo. Fiquei um ano maravilhoso em Arroio do Meio, onde fiz muitas amizades. Me lembro até hoje das partidas de futebol de salão que eu jogava. De dormir no verão com as janelas abertas. Da alegria das pessoas. Dos peixes do rio que costeia a região. Muitas vezes me indagava: porque não são todas as cidades assim? Por que não há criminalidade? Me lembro bem que a famosa cidade de Nova Bréscia fazia parte da Comarca de Arroio do Meio. Certo dia o Promotor de Lajeado e eu fomos convidados para um churrasco em Nova Bréscia, onde a maioria dos habitantes era de origem italiana. Na hora dos discursos o Promotor, que fizera estágio na Itália e falava corretamente o italiano, pediu a palavra e fez seu discurso. As pessoas faziam meneios com a cabeça, não entendendo nada. Claro, o pessoal falava um dialeto e não entendia esse italiano acadêmico. Ao ser promovido, depois de um ano, saí chorando. Até hoje tenho saudade. Por sinal, tenho saudade de todos os lugares onde jurisdicionei.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

OS PENSAMENTOS SÃO LIVRES

( Die Gedanken sind frei). Me perdoem.Para Presidente votei no menos pior. Que chatice essa briga entre amigos, parentes , mil suspeitas. Bolsonaro foi muito ladino. Há quatro anos, quando de sua posse, mostrava-se insatisfeito por não ter conseguido entrar no primeiro turno. Debitou a culpa às urnas, que não seriam confiáveis. Bolsonaro tomou , para sua exclusividade, a bandeira nacional.Os adversários acabaram não fazendo um contraponto simples: colocar as bandeiras também, talvez com os números de sua grei. Bolsonaro arrebanhou para si a maioria do rebanho dos pastores pentecostais. Sempre invocando o nome de Deus. Lula sofreu percalços enormes, como sua prisão. Nitidamente a idade o pegou. Mas algo seu deu certo. Ligou-se com a direita. No que tange a candidatos do Governo Estadual, são vinhos da mesma pipa. Sou amigo de ambos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

É MUITO GRITO E POUCA LÃ

Esse adágio é muito conhecido na Campanha. É quando se separa um porco para o carnear. Conforme o caso o coitado, prevendo o que lhe vai acontecer, desanda a gritar antes de o punhal cumprir seu papel. Quero crer que hoje em dia, haja um jeito menos cruel no abate de suínos. Por sinal, nunca tive chiqueiros na fazenda. Quando tinha vontade de comer carne suína, ia ao supermercado: era mais barato do que os peões estarem às voltas com a pocilga. Com a ovelha é diferente. Ela fica resignada, sua jugular é cortada e tem uma partida serena ao céus dos animais. Sem fazer alarde. Quando da tosa, a lã é tirada do corpo do animal, com todo cuidado, para não o ferir. Ele não dá nem um pio. Conclui-se que não adianta o suíno gritar. Isso serve para nós humanos. Gritar para que? Por que discutir? Tem razão o que grita mais alto? Que fiasco, em alguns palcos, sejam quais forem: num tribunal, na televisão, no futebol. É uma gritaria que pretende travestir-se de razão. Acontece um acidente na estrada. Dois carros se batem, mas não houve mortos nem feridos. Inobstante saem os dois de seus respectivos veículos e começam a discutir em altos brados. Ao invés de tentarem um acordo com calma, sacam de suas armas. Os dois perdem. Nosso povo está visivelmente dividido. Claro que dos dois lados há pessoas sérias e crentes de que está com a razão seu preferido. A maioria das pessoas se acalma, cuida do seu linguajar, procura não discutir em via pública, comparece às urnas respeitosamente, seja qual o candidato em quem quer votar. Terminada a eleição, entra em cena a “vendetta”, com degola dos adversários. “Vae victis”, como se lê nos brocardos latinos: “ai dos vencidos”. Sim, desde muitas eras impera esse brocardo cruel. “Vae victis é uma expressão latina que significa "Ai dos vencidos"], ou mais analiticamente, "triste sorte aquela reservada aos derrotados", pois os derrotados em batalha estão inteiramente entregues à misericórdia dos seus conquistadores e não devem esperar ou pedir leniência.” Daí porque o nosso sistema dá a alguns funcionários públicos, aos Promotores, aos Magistrados, enfim, a aqueles que devem ser protegidos dos que ululam como lobos. Pena que alguns pretendentes aos altos postos da administração pública não tenham o mínimo dos conhecimentos de milenares regras. A começar pela boa educação. Que saudade dos tempos em que as pessoas podiam divergir de maneira cortês.