quinta-feira, 26 de setembro de 2019

AS PERDIZES SALVADORAS


Na região da campanha, até alguns anos, era comum a caça de lebres, perdizes, pacas, jacus, marrecas, pombas, quase tudo, enfim, de que se mexesse. Quase todos tinham armas de caça. Até eu tinha duas, uma calibre 12 e outra calibre 20. Os campos eram, como ainda hoje, muito extensos. 
Quero deixar claro que mais tarde nunca deixei caçar nos campos da nossa família. Inclusive a queridos amigos negava a entrada. Até brincava, “se teu problema é carne, vamos carnear um chibo (cordeiro)”. Nem pescar não deixava. Todavia  uma noite antes da sexta-feira santa não tem jeito. Tudo bem, é fazer de conta que não se vê  nada, mesmo porque não há como fiscalizar ou montar guarda  ante quase 40 açudes.
Mas voltemos aos anos 60 e 70. Era comum se ver carros voltando das caçadas com os bichos “ornando” as portas e os tetos . 
Naquela época eu até caçava,mas sempre dentro da quota. Depois de um tempo, quando casei com Maristela e juntos tocamos a fazenda, é que eu vi como era daninha a caça e me tornei um conservacionista.
Certa feita, logo que assumi em Santiago, lá por 1975, fui convidado para comer uma perdizada no sítio de um forte fazendeiro de um município vizinho, que usava o refúgio para suas festas. Seria num sábado à noite. Era verão e o homem tinha até piscina, coisa rara naqueles tempos.Estavam convidadas também umas meninas faceiras que seriam trazidas lá de São Borja, fato que eu desconhecia antes de chegar.
Um amigo meu, que era casado,o Carlos, teve dificuldades em explicar para a esposa da razão de ser festa só de homens, ao que ele retrucou que ia ser caçada com pescaria e só voltaria dia seguinte. Mas a esposa choramingava perguntando porque o esposo tinha se barbeado e perfumado. Peguei carona com meu amigo e nos fomos. Chegados ao sítio as perdizes estavam preparadas, com saladas e tudo que era coisa boa,em grandes e finas travessas. Por “mala suerte” as meninas não puderem ir e deu um temporal bagual, assim que só vieram cinco dos 40 homens convidados. Não ía sair a festa. Ao que tive uma idéia: “Carlos, vamos pedir e pegar umas travessas dessas, encher de perdizes, total vai quase tudo fora e vamos jantar na tua casa.” O anfitrião concordou e nos deu travessas de saladas, umas vinte perdizes assadas, um engradado de cervejas geladas, mais sobremesas . Saímos à toda para a cidade.Carlos tocou a campainha e exclamou: 
“Amoooorrr, surprêsa, arruma a mesa que já vou servir as perdizinhas, ou tu achou que eu ia fazer bobagem?” 
Veio a jovem esposa toda vermelha de tanto chorar: “meu anjo e eu fui duvidar de ti…”

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

DE MÉDICOS E LOUCOS...


É um velho refrão: de médicos e loucos, todos temos um pouco.Salvo porém com coisas muito simples não deveríamos bancar os médicos, baseados por
exemplo no Google. Concordo que essa ferramenta é muito útil para nossa informação. Mas daí a nos auto medicarmos vai um perigo real. Também tenho certeza de que é um erro grave desobedecer às instruções dos profissionais da saúde. Em fevereiro deste ano publiquei uma crônica na qual narrava uma bobagem que cometi, aos 47 anos, após me operar de um esporão do calcâneo. O médico mandou que ficasse de repouso vários dias, com a perna para cima. Não dei muita bola, não sentia dores, saí de muleta  para lá e para cá, deu uma deiscência de sutura, tive que me submeter a debridamento e esperar por longo tempo pela cicatrização por segunda intenção.
Certo dia cheguei à fazenda após uma semana de ausência. Após os relinchos de praxe,perguntei pelo filho de um dos peões. Me disseram que estava de cama. Tinha caído de moto e “lastimado” a perna, mas estaria tudo bem porque um “arrumador” de osso já tinha dado jeito. Entrei no quarto do rapaz. Estava de calção e com uma tala de lascas de taquara envolta numa fita de pano, do meio da coxa até o meio da canela. Claro que se tratava de uma fratura grave. Chamei o pai do guri e disse que ia levar o filho imediatamente ao hospital. “Mas doutor, não “percisa”, o osso vai ficar bom!”. Insisti que não tinha conversa e que ia já chamar a ambulância. E o pai renitente. Fui claro: “então vou chamar agora a Polícia! !” A ambulância veio logo, o rapaz foi internado, é claro que a perna estava fraturada. O moço se salvou. Graças aos médicos do Hospital de Santiago.
Certa madrugada, na estrada, vi uns carros estacionados no acostamento. Tinha havido uma colisão frontal entre dois caminhões. Um dos motoristas dava a impressão de já estar morto. Nisso chegou a Polícia. Ainda deu tempo de eu conseguir subir na cabine do outro caminhão, que estava com o vidro da janela semi aberto e o motorista estava lúcido. A deformação com o choque não permitia abrir nenhuma das portas e ele estava com as pernas presas. Alguns homens arrancaram os cabos da bateria para evitar um incêndio. Os policiais pediram que nos afastássemos, que a ambulância já fora chamada. Subi na boléia do que estava vivo e lhe perguntei como estava. Ele respondeu: “atendam o outro, vejam se está vivo e fiquem frios que estou bem”. Segui meu caminho e de noite o rádio deu a notícia. Os dois motoristas tinham morrido.A falta de um médico...que pena.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MORO, MOURÃO, GUEDES E BOLSONARO


Com Sérgio Moro eu me preocupava muito. Ele era um juiz singular, ainda não tinha a prática de julgamentos em colegiado. Explico-me: o juiz singular  despacha, instrui o processo e ao término profere a sentença, que tem que ser fundamentada. Isso o juiz vai fazer solitariamente, ele e Deus. Talvez se valha de pesquisas de assessores, mas quem tem a caneta é ele sozinho. No colegiado, Tribunais de Justiça, STJ, STF etc, a regra é que uma turma, um grupo, decide. Isso exige serenidade, acatar quando a maioria decide em contrário a suas convicções. É uma fase para a qual o magistrado tem que estar consciente de que a maioria decide e não ele sozinho.Por vezes se vêem em Tribunais, discussões acirradas, o que não é e nunca foi de meu gosto. Moro, portanto, se já não tinha a experiência de ser contrariado, muito menos tinha a vivência dos meandros  da política.
Por isso  esteve na corda bamba pronto para levar um empurrão e ser defenestrado sem cerimônia. A meu ver - e posso estar errado- o que o salvou foi a opinião pública. Com efeito, quando surgiram as pesquisas dando Moro com alto percentual  de aprovação, ligou-se a sirene do mundo político. Com Bolsonaro em baixa nas pesquisas, só um louco para dar o cartão vermelho a Moro. As ruas seriam tomadas por manifestantes e tudo mais.
Moro maneirou a expressão de suas contrariedades e vai surfando, calmo e fagueiro, na onda de seu prestígio ante as massas.
O General Mourão logo de início não se deu conta de que, conquanto ele fosse general e Bolsonaro capitão, este era Presidente. Mourão quis ajudar, mostrar seu potencial  de , na falta do Presidente, ser o homem certo para continuar no leme do barco. Acontece que isso não pegou bem, começaram as críticas e Mourão fez o certo. Diminui as aparições públicas. 
O nosso ministro Guedes é de pavio curto o que às vezes é bom. É muito preparado para a área, não estava precisando desse cargo para viver, ao contrário, está deixando de ganhar dinheiro. Muitas de suas posições causam certo temor, mas creio que o navio está no rumo certo. Por vezes me pareceu que ia chutar o balde, mas deve ter tido bons conselheiros que o dissuadiram. Posso estar errado mas o caminho para o bem estar de um povo não passa pelo coitadismo, por medidas populistas e por óbices à livre iniciativa.
No que tange ao Presidente, vamos ter que rezar para que seus excessos verbais não causem uma situação de irreversibilidade, se é que me entendem. 
Bolsonaro saiu das praias do Rio, mas a espontaneidade da maioria dos cariocas não saiu dele

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

A BELA AMPARO


Hoje, sem nenhum preconceito, vou contar um episódio de que tomei conhecimento há muitos anos.  É sobre um costume, que creio hoje desaparecido, que alguns homens da campanha tinham: “ter uma  protegida”. É um caso de amor “brujo” e enfumaçado, amalgamado com paixões carnais inconfessáveis.
Os fatos se deram também na região  da campanha gaúcha. A vida fluía sem muitas novidades .Vou descrever o que vi e ouvi, mas “por la leche de mi madre” juro que eu nunca fui dessas práticas, muito menos frequentar a “ zona”, pois minha mãe Ludmila,  me advertia severamente a não  frequentar esses lupanares, brandindo seu dedo em riste e me alertando  para as sífilis, gonorréias e outras coisas que poderiam me acontecer. 
Nessa cidade a que me refiro, havia um, como se diz hoje, operador do direito, que era meio feio, mas possuía muita “plata”. Tinha família constituída, ia com esposa e filhos para a santa missa, mas era um predador voraz das delícias do amor clandestino. 
O ínclito dr. Hermenegildo , chamemo-lo assim,  era respeitado e até admirado. Mas tinha um “fraco” por jovens mulheres. É que, segundo “pérfidos” costumes da época, era tolerada a “proteção” a uma mocinha, desde que isso não implicasse desrespeitar publicamente a esposa “legítima”. Até se ouvia: “ normal, coisa de homem”.
O dr. Hermenegildo, no entanto, tinha um mau costume para os preceitos consuetudinários da época. Não se contentava só nos meneios e práticas, mas se apaixonava. Alugava uma casinha, montava um instituto de beleza, como era usual. Todavia, depois de certo tempo, se “desapaixonava” e resolvia as coisas em perdas e danos.
Certo dia desembarcou, vinda de Rivera, uma morocha de fechar o trânsito. Aparecia nos cafés e restaurantes, vendendo “alfajores” que ela mesma fazia na casa de uma tia que morava lá perto dos trilhos. Arrastava olhares lascivos. Amparo era seu nome. Linda como laranja de amostra.
O dr. Hermenegildo a viu passando pela rua principal e a abordou. A moça não lhe deu atenção, fez um muxoxo e seguiu com o balaio de doces. Tipo da guria para constituir família.  Hermenegildo não se sofreu e concluiu que ia fazer uma proposta para Amparo. Dar-lhe-ia uma casa, mais uma quadra de campo e celebraria com ela um “contrato de bom viver”, quem sabe ter um filho .
Decidiu relatar sua decisão a um compadre. O amigo lhe disse que parasse com isso, que lhe indicaria uma moça cancheira,  recém  chegada na zona e  louca de querendona, como ele mesmo constatara.
Qual é o nome dela, perguntou Hermenegildo?
Amparo, retrucou o amigo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

NA CASA DA PAMPA DA EXPOINTER ENCONTRANDO AMIGOS

Com o Prefeito de Santiago Tiago Gorski Lacerda, mais os vereadores Marcelo Gorski, Dionathan Farias , Joel Oliveira e Maristela Genro Gessinger.
Com Rogério Mendelski e César Pacheco


terça-feira, 27 de agosto de 2019

DIREITOS SIM, DEVERES NEM TANTO - POR TITO GUARNIERE






Ninguém precisa lembrar dos nossos direitos: 
temos a mais completa noção do que eles sejam, do seu significado amplo e 
de como eles nos afetam. Dos nossos deveres, entretanto, temos um vago sentimento, 
e deles frequentemente nos esquecemos - embora estejamos sempre prontos para cobrá-los 
dos outros.
É fácil explicar a opção preferencial pelos direitos: eles nos beneficiam, dizem respeito ao que nos é mais caro e conveniente, do que melhor nos serve e é confortável. A consciência de nossos direitos, a plenitude de sua vigência nos faz cidadãos. Os direitos são, no seu patamar mais elevado, portanto, uma questão de cidadania.
Mas definitivamente não atribuímos aos nossos deveres o mesmo valor e peso. Os deveres não estão inseridos - não no mesmo patamar - na consciência coletiva dos brasileiros, no conceito de cidadania. Nunca pensamos neles - os deveres – como a outra face dos nossos direitos. Nesse desbalanço e descompasso está parte substancial do atraso, da leseira conformista que nos paralisa e não nos permite sair do lugar.
Como diz Luis Felipe Condé, "ter direitos não molda caráter, cumprir deveres, sim. Um dos estragos do mundo contemporâneo é essa histeria por direitos em toda parte". Uma cultura de direitos não molda o caráter do indivíduo e menos ainda da nação.
Não é à toa que a Constituição Federal de 1988 usa a expressão "direito(s)" 76 vezes. Quanto aos deveres do cidadão, a Carta menciona apenas dois: o de se alistar e votar nas eleições e o serviço militar obrigatório. As demais citações de dever(es) dizem respeito à família, sociedade e Estado, como em "a saúde é direito de todos e dever do Estado".
Um amigo bolsonarista (sim, tenho amigos bolsonaristas - não muitos, mas tenho) dizia, antes da eleição, que votaria no capitão porque ele era militar. Segundo ele, a caserna é um lugar onde se aprende a disciplina, a ética da obrigação e do trabalho, uma compulsão para o dever. Meu amigo reconhecia em Bolsonaro um certo primarismo, mas achava que ele, por causa da formação militar, impulsionaria, de uma posição estratégica (a presidência), um novo reequilíbrio entre direitos e deveres, inserindo com vigor na vida nacional, a noção de responsabilidade.
Doce ilusão, ledo engano. Bolsonaro se elegeu contra a velha política, mas era e é um político. E político gosta de falar de direitos, não de deveres. Fala o que o povo quer ouvir.
Bolsonaro ensaiou alguns passos tímidos nesse caminho, ao contar que começou a trabalhar cedo, antes dos 10 anos. Poderia ser um bom começo para introduzir um debate sobre o tema: infundir desde cedo na criança, no adolescente, a noção de responsabilidade do cidadão, os seus deveres para com a sociedade, a obrigação de trabalhar e produzir.
Mas foi apenas um breve pitaco, tão ao gosto do presidente: ele logo recuou, talvez porque os seus opositores acusaram-no de defender (injustamente, diga-se) o trabalho infantil "tout court", sem limites.
Não há sinais de mudança. Vamos continuar assim, proclamando nossos direitos e quanto aos deveres, só os dos outros. Vamos continuar na leseira geral.
titoguarniere@terra.com.br





sexta-feira, 23 de agosto de 2019

MENSAGEM DA ESCRITORA LISSI BENDER


Ruy querido, o crescimento urbano de Santa Cruz se alastra vertiginosamente pela Linha João Alves e pela linha Santa Cruz. Na minha infância eu trilhava por uma estrada estreita e pedregosa até a escola. Levava quase uma hora, muitas vezes de pés descalços. Quando saí da |Wilde Heimat, estudei na Federal de Santa Maria, estudei em Belo Horizonte, lecionei na Puc de Pelotas, fiz outra graduação e pós-graduação na Unisinos, .... . Quando voltei à Wilde Heimat, para cuidar do pedacinho de terra que meus pais me legaram, ainda havia estrada de chão, mas de lá para cá a ocupação vem devastando árvores, extinguindo espaços naturais das vidas silvestres. Outro dia li que somente em Linha Santa Cruz vivem quase 7 mil almas. A prefeitura está facilitando a ocupação. Ampliaram a área urbana. Até agora somente os 100 metros iniciais da minha Wilde Heimat eram urbanos, o restante dos 5 hectares, rurais. Pois agora o governo municipal decretou como área urbana, todos os meus 5 hectares. Qual será a consequência disso? A partir de agora haverá um substancial aumento de impostos sobre este espaço, imposto territorial urbano. O que isto provocará? Vinda de mais pessoas para cá. Temo dificuldade crescente para manter meu pequeno espaço que considerava intocável e protegido enquanto eu estivesse viva. Temo que chegará o momento em que não mais poderei proteger a floresta, as vidas silvestres que aqui vivem livres desde que me conheço por gente.  Isto me angustia.  

MENSAGEM DE LAIS LEGG, PSIQUIATRA, COMUNICADORA

Não precisa ter nascido no interior para sentir o que os amigos relataram. Eu nasci aqui em Porto Alegre, mais precisamente na rua Vicente da Fontoura. Nossa casa era um sobrado, com cinco dormitórios e um terraço, de onde, pasmem, enxergávamos os guindastes do cais do porto. Não havia edifício algum bloqueando a vista.
 
Na esquina seguinte, na rua Santana, havia uma enorme chácara, a chácara dos Amodeo. Lembro muito bem que ela ficava abaixo do nível da rua e lembro das plantações de alface e hortaliças que todos que moravam no entorno compravam. Adiante, havia um enorme casarão (dos Pilla), que ocupava quase todo o quarteirão. Lembro bem dos portões de ferro da casa.
 
Um dia, saudosa das belas lembranças da infância, bati naquela casa onde nasci e, sem pudor algum, pedi para entrar. E a dona permitiu meu ingresso naquele lugar que, em minhas memórias, era o sítio do pica-pau amarelo. Na minha mente, o quintal era enorme e com três níveis. Ledo engano... eu é que era pequena! A casa ainda está lá, não é enorme como eu recordava e o quintal menos ainda.
 
Resumindo: a chácara dos Amodeo virou a Clínica Pinel, o casarão dos Pilla foi abaixo e deu lugar a uma série de pequenos prédios de três andares e nada mais naquela rua lembra a minha infância feliz. Aconselho a todos a deixar a infância onde ele sempre deve ficar, ou seja, na memória.
Abraços,
Laís

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

TEMPO E MUTAÇÕES - COMENTÁRIOS DE PREVIDI, ROGOWSKI , AGRA E IVANHOE

JOSÉ LUIZ PREVIDI

Ruy e amigos,
Todos os que tem ou tiveram parentes no interior do interior se apavoram ao voltar depois de um tempo.
Eu sabia que a casa de minha avó paterna, Caterina, tinha sido demolida e boa parte da área tinha sido vendida. Mas não imaginava a mudança que tinha acontecido. A casa dela ficava no final da Rua dos Prévidi e até chegar lá haviam casas dos filhos, dos dois lados. Bairro Bonsucesso.
Pra mim, sempre foi área rural.
Depois que ela morreu - e eu acompanhei sua agonia - não tinha mais voltado. Meu Deus, irreconhecível! Só mansões cercavam as casas dos Prévidi. Não me localizei mais. Um negócio muito estranho.
Estive lá em 2015 visitando tias e tios.
Mas não é mais a mesma coisa.
Tudo se foi com a minha infância, onde pegava os ovos das galinhas no ninho, com a autorização da Nona... Andava de charrete com ela e muito futebol com os primos.
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Querido amigo.


As Regras da Sensatez

Rui Veloso
Nunca voltes ao lugar


Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz
Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão
Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez
Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade
Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta nós
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez


Com apreço..Ivanhoé.
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J.F ROGOWSKI

Saudações amigo Ruy e demais confrades!
O sentimento que te assola, ou assombra  o espírito, é comum há muitas pessoas devido às transformações das cidades, entidades vivas que são, nascem, crescem e declinam.
Este ano anda redigi o argumento para vídeo promocional de comercialização de áreas urbanas, dizendo:

"Cidades são entidades vivas e é possível que uma cidade comece a mostrar sinais de idade e decair com o tempo. A despeito de  quão grande ou antiga seja uma cidade, e não importa onde esteja localizada, ela ainda precisa que as pessoas sobrevivam e prosperem.Projetos de renovação urbana, desenvolvimento e revitalização são cruciais para o sucesso da cidade porque estimula a economia, aumenta os valores de propriedade, incute um senso de orgulho cívico, reduz o crime, desenvolve negócios no presente e atrai novos no futuro."

Me criei na zona sul de Porto Alegre comendo peras que eu colhia na hora, bem onde ficava o cinturão agrícola da cidade com muitas chácaras que produziam hortifrutigranjeiros, com destaque para o pêssego, que ensejava a anual e tradicional Festa do Pêssego no bairro Vila Nova.
As chácaras foram desaparecendo dando lugar a aglomerados urbanos, entre loteamentos e luxuosos condomínios fechados, algumas vilas problemáticas,  não sei ainda existe um único pé de pêssego plantado.
Como disse o poeta:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
....
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
....
Casimiro de Abreu


Abraços.

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SÉRGIO AGRA
Caro Ruy. Irmanamo-nos neste mesmo sentimento, descrito na crônica MUITO ALÉM DA ALMA, que te enviei há algumas semanas.

Eu, com Taquari, e tu com Santa Cruz do Sul, cidade que tenho gratas recordações das férias na companhia de Homero Neto de Cunha e Agra, hoje médico e diretor da Unieim, aí mesmo, na majestática Santa Cruz. Quando lancei meu pequeno romance, Mar da Serenidade, fiz uma sessão de autógrafos na livraria e cafeteria onde fora o Colégio Mauá.

Meu tio, Victor Agra, funcionário do Banco do Brasil e meu incentivador nas ousadias lierárias, assinou durante muitos anos a coluna Notas Dissonantes, na Gazeta do Sul.

Os bailes do Corinthians, com a orquestra Cassino e o então lançamento da Souza Cruz, brinde oferecido à entrada do baile: um maço de Jean Nicot, que liquidei entre a npote do sábado e a tarde do domingo. Saudações.

Sergio



TEMPO E MUTAÇÕES

O título poderia ser: “a Santa Cruz que eu desconhecia”.
Como já referi, quando  terminei o segundo ano do Científico do Colégio Mauá resolvi cursar o terceiro ano do Clássico no Colégio Júlio de Castilhos em P. Alegre. Trabalhava de dia e estudava de noite.
Ia visitar meus pais quando conseguia carona . Chegava na casa paterna e praticamente não saía. Conversava  bastante, me atracava na maravilhosa comida de minha mãe e depois do meio dia de domingo me mandava de volta. Quando estava no quarto ano da Faculdade de Direito da UFRGS conseguí comprar um carrinho usado e minhas idas passaram a ser mais confortáveis. Meu trajeto era descer a estrada do Grasel, fazer o sinal da cruz ao passar pelo penhasco onde meus avós paternos sofreram um acidente e faleceram, cruzava pelo estádio do Santa Cruz, subia a Tomás Flores, estacionava e não saía mais. No máximo ia a Boa Vista visitar meu tio Lino Etges. Não ia ao Quiosque, não ia a bailes. Sempre com pressa, sempre correndo.
Depois de alguns anos a coisa foi ficando estranha. Eu já era juiz  e estive em muitas cidades distantes. Perguntavam-me: da onde tu és? Eu respondia: de Santa Cruz! Ao que me indagavam: conheces o Fulano de Tal? Quinze anos depois de ter saído eu só conhecia os amigos de infância e da adolescência. E aí vinha a frase: mas como?  és de Santa Cruz e não conheces o Fulano?
Tinha até o sonho de um dia voltar a morar na minha terra natal, mas quis o destino   ter tido a sorte e a ventura de ser feliz como magistrado, depois na advocacia e no agronegócio. Filhos, netos, todos enraizados em outros lugares. Será que eu me adaptaria nessa altura do campeonato? Concluí ser melhor não aventurar.Meu prêmio foi a formação de caráter  que tive em Santa Cruz.

Minha irmã Cleonice estava gravemente enferma e  fui ao hospital Ana Nery visitá-la. A descida do Grasel estava bloqueada e foi necessário ir pela estrada da Linha João Alves, por onde nunca mais havia passado. Levei um susto. Será que estava na via certa? Liguei o GPS e fui observando os clubes, as mansões, naquilo que antes eram singelas casas de colonos. Uma torrente de imagens do passado invadiu minha retina.Só ao chegar na hoje demolida casa de meus pais é que me dei conta de onde estava. Desviei o olhar para não chorar. O GPS foi me guiando e eu admirado do tamanho da cidade. Não reconheci mais Arroio Grande, me perdi mas depois achei o hospital. Mais de 50 anos de ausência cobraram seu preço. Heráclito de Éfeso ( 540 a.C) tinha razão.O rio não passa duas vezes pela gente.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O CÉU TEM MAIS UMA ESTRELA

Cleonice Gessinger, casada Kraether, minha irmã mais nova, minha baita amiga desde todo o sempre,partiu.
 Por sinal, eu me divertia muito pelo fato de haver uma época, em setembro, em que Lia, minha outra irmã e eu tínhamos a mesma idade, de seis a 27 de setembro de cada ano. Nós dois nascemos “em domicílio” como se dizia antigamente. Isso lá na Linha Arlindo. Era na base da parteira e estava feito o brique .Já a Cleonice nasceu quando  morávamos na cidade e olha que chique, a mãe deu a luz no hospital. Meu pai era enlouquecido pela Nice. Enquanto Lia e eu também éramos tratados com carinho normal, nossa irmã mais nova mandava literalmente no pai e na mãe. 
Nice se escapou de ter morrido lá pelos três anos de idade. Meu pai tinha um armazém e não é que essa guria travessa foi subir numa pilha de sacos de feijão? Pai e mãe estavam na parte da frente do armazém, quando se ouviu um barulhão. Eram os sacos desmoronando. Meu pai subiu correndo para o depósito e lá estavam os sacos amontoados. Num frenesi começou a retirar as bolsas até que viu uns fios de cabelinho louro aflorando. Retirou mais dois sacos e lá estava a guria sem um arranhão. Deus quis que ficasse entre o vão de dois sacos.
Nice sempre foi muito mimosa, mas não gostava de ser forçada a nada. Quando meu tio Afonso Gessinger S.J. foi ordenado padre, a festa foi em Boa Vista. Nice era a anjinha madrinha, toda vestida de branco. Pois chorou o tempo todo, já que não queria exercer tal papel. Vendo-se as fotos antigas da carinha dela , não tem como não convir que atualmente seria caso de chamar o Conselho Tutelar.
Ao contrário de Lia e eu que gostávamos dos luxos da casa dos avós paternos, Nice não se desgrudava de sua mãe e de sua avó Bertha, na humilde casa sem água corrente e sem luz elétrica. Gostava de correr descalça e ajudar a pegar os ovos lá no galpão ou ir de carroça com o Tio Lino Etges buscar pasto para as vacas.
Nice casou-se bem jovem com o dr. Raul Kraether. Raul mostrou ser um cavalheiro ao  aceitar que o casamento fosse na igreja católica, pois era luterano. Mas com Nice não tinha grêgrê para dizer gregório.
Foram vindo os filhos. Léo, Juliana e Henrique. Minha mana parecia uma galinha choca com seus filhos. Era impressionante ver seu desvelo, seus cuidados. Seguindo os passos de seu pai Raul, odontólogo de grande renome, todos os três filhos abraçaram a Odontologia. 
Nice viveu para seus filhos e, depois, para seus netos.Era mãe, avó, amiga e conselheira.

Partiu antes do tempo. Agora ela é uma estrelinha brilhando no céu.

domingo, 4 de agosto de 2019

HAPPY HOUR CULTURAL


Nesses tempos de redes sociais está cada vez mas difícil uma conversa com pouca gente, nada de TV
ou barulho, mas sim violão, violino ao vivo e um vinho especial.
Conversa fluindo . O tempo passando sem a gente perceber. 

Na foto o acadêmico Franklin Cunha em sua residência no meio das árvores, Maristela e eu , Rosane de Oliveira e seu esposo o escritor Tailor Diniz. Não se falou em política. Só amenidades.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O GRE-NAL DO SEU ELEUTÉRIO


Seu Eleutério nasceu, cresceu e se fez homem na Vila Florida, Santiago. Herdou de seu pai 300 hectares de campo, que não eram muito, mas não eram pouco.  Foi na Vila Florida que mataram o juiz dr. Moisés, que tinha ido fiscalizar uma urna. Os votos eram de papel e havia a notícia de que uns desordeiros iam falsificar os papéis. O dr. Moisés, juiz de Santiago , foi lá para coibir esses desaforos, mas um facínora  puxou do smith wesson e o baleou. Hoje o dr. Moisés é patrono da Justiça Eleitoral do Brasil.
Seu Eleutério criava gado “poliango” e ovelhas “corriedal”. Onde morava não existia ainda televisão. Mas pegava bem, de noite, a rádio farroupilha de Porto Alegre, além das desgranidas estações dos castelhanos. Também pegava a rádio Santiago, do seu Jaime Pinto.
Seu Eleutério tinha duas taras: uma era, em dia de chuva, pegar sua Rural Willys e ir para Santiago jogar truco do Club União e depois dar um carinho para as prendinhas na casa da “Pintinha”. A outra era ser fanático torcedor do Internacional, o Colorado.
Seu Eleutério nunca tinha assistido um jogo de futebol de verdade, nem em Santiago. Mas sabia a escalação do time do Inter de 1955: Milton, Florindo e Oreco; Mossoró, Odorico e Lindoberto; Luizinho, Bodinho, Larry,Jerônimo e Canhotinho. Quando se passava nos tragos, insistia em lembrar  e recitar a escalação.
Seu Eleutério tinha um problema, que era uma pontada “nos polmão”. Achando que sua vida estava meio para o fim, decidiu visitar sua filha, que morava em P. Alegre. Ele iria com um neto ver um Gre-Nal. Era nos Eucaliptos.
Seu Eleutério lustrou bem as botas, foi no barbeiro arrumar os cabelos e não dormiu duas noites de tanta ansiedade.O trem saía de Santiago 20 horas, fazia baldeação em Santa Maria e chegava em Porto Alegre 8 da manhã. Tinha um vagão restaurante em que comeu ovos fritos com bife. Tomou todas, percorreu os vagões, encontrou vários estancieiros, com os quais proseou a noite inteira, alternando uma pinga com cerveja Gazapina.
O trem chegou em Porto Alegre com algum atraso, só  11 da manhã, mas a filha estava esperando. Se abraçaram, se relincharam bastante, pegaram um carro de praça e se foram para o Passo da Areia, onde a filha morava.
Seu Eleutério não quis almoçar, só descalçou as botas e se atravessou no sofá para tirar uma pestana. O jogo era 16 horas e o trem de volta saía meia noite. Seu Eleutério acordou com um barulhão de tiros e foguetes.O jogo tinha terminado 1x0 para o Inter.
E a filha: “Pai, tu tava dormindo tão bonito, que não quis te acordar.”

quinta-feira, 11 de julho de 2019

SOBRE AS DECLARAÇÕES RECENTES DE FRAU MERKEL


Penso,  pedindo antecipadas desculpas a quem discorde, que a Alemanha não está em condições, como nenhum país está, de censurar nosso presidente, que recém foi empossado no cargo, com o apoio de milhões de brasileiros.
Recentemente a renomadarevista Der Spiegel publicou ampla reportagem sob o título  “die fettenJahre sind vorbei” em tradução livre: “os anos gordos se foram”. Num subtítulo consta “ wir sind ärmer, als wir meinen” ( somos mais pobres do que pensamos”). E em outro parágrafo: “gastamos mais dinheiro com o passado do que com ofuturo”.
Como é bem de ver, a situação não é de otimismo, pois já ouvi de várias pessoas que a Alemanha tem dificuldades.
Creio que os alemães superaram um pouco o “Schuldkomplex” ( complexo de culpa)por causa das duas guerras em 50 anos .É difícil entender como ir para uma guerra quando, mesmo que vencessem, não teriam paz, nem futuro. 
Lembro-me bem que há poucos anos os atletas da seleção alemã não cantavam seu hino nacional, por medo,segundo concluo, de serem nacionalistas em excesso.  Por sinal, só cantam o último verso, abandonando, com razão o “Deutschland über alles”. Ainda bem que permaneceram com  um dos movimentos do Quarteto do Imperador de Joseph Hayden, que é a música do hino alemão.
No momento em que o Brasil quer parcerias, quer voltar a crescer, a senhora Merkel manifesta sua desconfiança de que vamos acabar com  o pulmão do mundo.
 Argumentam que, junto com a Noruega, a Alemanha manda muito dinheiro para que a Amazônia não seja dilapidada. Não saberia dizer se esse dinheiro vai para as mal explicadas ONGs ou o que. O que é óbvio é que nosso país não tolera interferências em sua plena soberania sobre seu território.
Nossas leis ambientais são rigorosas. Claro que há problemas na Amazônia, mas isso não quer dizer que queiramos sua destruição.
Por essa razão lamento, como descendente de alemães, que a senhora Merkel não tenha sido mais prudente e cuidadosa. Somos um povo afável, bom de dialogar.
O Brasil tem tudo: rios,cachoeiras, pecuária, soja e demais grãos, enormes áreas que permitem produção de alimentos naturais em escala,  riquezas que poucos países têm. Mais:tem  alegria!
Quando o avanço da tecnologia for corriqueiro, a briga vai ser por água e alimentos. O Brasil agora é um ótimo parceiro . E a Alemanha também o é. Parceiros não devem brigar.
Hostilizar um chefe de Estado não é bom negócio.

domingo, 7 de julho de 2019

O homem na Lua e muita gente nua - Flávio Tavares




O homem na Lua
 e muita gente nua
     FLÁVIO  TAVARES*

O  cinquentenário da chegada do homem à Lua, no próximo 20 de julho, não é apenas data de festa e júbilo pelo que a ciência e a tecnologia alcançaram. O maior e mais admirável feito da História humana nos obriga, também, a uma profunda reflexão crítica sobre o comportamento e a atividade de cada um de nós, habitantes do planeta: o que aprendemos com aquela façanha de amor e dedicação à ciência, ou de que nos serve no dia a dia?

    A própria ciência tem centenas de respostas, desde a antevisão de desastres naturais até as previsões da meteorologia, além do que descobre aos poucos, ao entender o universo.

   Nosso humanismo, porém, pouco – ou nada, até – aproveitou para valorizar nossa vida na Terra a partir da comprovação da desolação da Lua, onde tudo é inércia e morte. Aqui, onde a água dá cor à vida, tratamos o planeta com desprezo, como se a natureza não nos protegesse e nossos semelhantes fossem indesejáveis intrusos.

  Fui um dos bilhões de habitantes da Terra que, naquela madrugada do domingo 20 de julho de 1969, assistiram ao vivo, pela televisão, aquilo que mais parecia o deslumbramento de um sonho fantástico. Até então, a inatingível Lua só era perscrutada pelos telescópios. Ou era, apenas, um relato poético, um Sol noturno dos namoros apaixonados. “Levar-te-ei à Lua!”, exclamavam os namorados (assim, em mesóclise), no êxtase da paixão.

   Naquele momento, a façanha da astronáutica mudava a correlação de forças na “guerra fria” e os Estados Unidos passavam à frente da União Soviética. Doze anos antes os russos haviam lançado o Sputnik e em 1961 Iuri Gagarin fizera o primeiro voo espacial. Naqueles tempos de 1950-1970, tudo se circunscrevia à disputa entre as duas superpotências e isso fez a repercussão política do feito superar a visão humana e da ciência.

   Hoje, a cada dia mais sabemos da desolação lunar. As fases da Lua ganharam suportes científicos que explicam sua influência na Terra. Assim, a todo instante o universo e o Sistema Solar passam, também, a fazer parte da nossa vida. A astronomia tem nova e mais ampla dimensão. Se ainda indagamos os astrólogos para saber do amanhã, é apenas por nosso apego ao lúdico, esse atávico amor ao inesperado, originado na tradição e em nosso apego à fantasia.

  Não aprendemos, porém, a grande lição de o ser humano ter pisado na Lua. Em vez de tentar entender o universo, ou em vez de nos sentirmos pequenos ante ele, a cada dia destruímos nosso planeta, obra suprema do processo da Criação.

    Nos últimos cem anos, em nome do “progresso”, devastamos a Terra muito mais do que a destruição acumulada ao longo dos bilhões de anos do planeta. Sabemos que o aquecimento global é catastrófico e que as mudanças climáticas nos levarão a uma desolação comparável à da Lua, mas permanecemos praticamente inertes. Seduzidos pela cobiça e por suas prazerosas pequenezes, continuamos a desmatar imensas áreas verdes, como a Amazônia. Ou a poluir e degradar terras, águas e ar, como em Brumadinho ou em Mariana.

    A extração e o uso dos combustíveis fósseis – em especial, o carvão – são apontados pela ciência como os principais responsáveis pela hecatombe do aquecimento global. Com base nessa constatação, as reuniões intergovernamentais promovidas pela ONU vêm advertindo para o horror à vista e fixando datas e metas para evitá-lo, ou acertando acordos sobre o clima. O de Paris, mais recente, ampliou o que fora acertado já em 1992 na cúpula de chefes de Estado no Rio de Janeiro. O papa Francisco aprofundou o debate na encíclica Laudato Si’, fez a teologia tocar no tema fundamental – a vida – num alerta que ele próprio renova a cada momento.

    A série de intermináveis pequenezes do dia a dia, porém, desvia nosso olhar do essencial e vemos tudo sem enxergar nada. É como anoitecer ao meio dia, à luz do Sol, e usar lanterna ou lampião para vislumbrar o próprio rosto.

    Imprensa, rádio e televisão mostram, todo dia, nosso desdém pela natureza, que é vida em si. As geleiras derretem-se na Groenlândia e no Himalaia. Na Antártida, no inverno do Hemisfério Sul, a terra preta mostra que o gelo sumiu.

   O desdém irresponsável torna-se criminoso também aqui, ao nosso redor. A poucos quilômetros da nascente, as águas do rio Tietê estão infestadas de espuma branca industrial, num horror antes visível apenas na cidade de São Paulo. A Petrobrás e as demais petroleiras que exploram o nosso litoral jogam no oceano (sem nenhum tratamento) o equivalente a mais de 2 mil caminhões de cascalho e areia encharcados de óleo, por ano. E o fundo marítimo se infesta de HPA, um hidrocarboneto de alto poder cancerígeno.

       Como serão os segredos devastadores da exploração do nosso pré-sal?

    Ao norte do País, a cobiça continua a desmatar a Amazônia. Agora o atual governo nos expõe ao ridículo espetáculo circense de que a Alemanha e a Noruega tenham de “convencer” nosso ministro do Meio Ambiente a proteger nossa floresta. Ao sul, o projeto de uma mina de carvão a céu aberto degradará, em poucos anos, o rio Guaíba, que abastece a capital gaúcha.

    Somos o país que mais consome agrotóxicos, permitindo aqui até pesticidas proibidos na Europa e nos Estados Unidos. A lista de nosso irresponsabilidade é longa, sempre incompleta por ser interminável...
      Faz 50 anos, ciência e tecnologia levaram o homem à Lua. Não aprendemos, porém, a viver em paz e em solidariedade. Somos difusos e complicados, ternos e brutais. As religiões e filosofias surgiram para nos emendar ou regenerar, mas o delírio da condição humana não se dissipou.
     Hoje conhecemos a Lua, mas cada vez há mais gente vivendo na rua, ignorando o mundo, às vezes quase nua.
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*  JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM  2000 E 2005, PRÊMIO APCA EM 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
 (Por especial e honroso pedido do dr. Franklin Cunha)