segunda-feira, 29 de maio de 2023
A BELA CIDADE DE SANTIAGO-RS
quinta-feira, 18 de maio de 2023
COISAS DO SÉCULO PASSADO
Observando o império das crianças sobre seus pais e avós e a “juvenilização” brasileira, meus pensamentos não param de voltar ao século passado. Não sei se meus pais e avós agiram certo, se seria correto agir assim hoje, mas eu não os trocaria por nada deste mundo.
A família de meus avós Rudolf e Rosália era numerosa. Os dois exerciam forte poder sobre os filhos, até sobre meu pai, que já era casado.
As relações eram respeitosas. À mesa meu avô servia-se em primeiro lugar, depois a avó e depois os filhos e netos, por ordem crescente de idade. Isso mesmo, as crianças vinham primeiro. Rezava-se antes de iniciarem as refeições.Quando se iniciava uma pequena discussão entre meus tios ou tias, o simples olhar do meu avô os silenciava. Nunca vi meu avô gritar ou ter um gesto violento.
Meus pais me ensinaram o gosto pelo comércio, pelo lucro lícito, pelo trabalho e por ser pontual nas contas. A estrutura familiar antigamente impunha limites que a gente não se atrevia a ultrapassar, mesmo depois de adulto. No tempo em que eu fumava, jamais me atrevi a o fazer na frente de meu pai.
Mas sempre chamei meus avós e meus pais por tu, nunca por senhor.
Eu sei, eu sei, eu tentei fazer o mesmo com meus filhos e agora os vejo também meio “ autoritários” em suas famílias.
Comprazo-me com isso.
Um dia escandalizei um amigo. É que descobri, na casa de meus pais, uns guardados, fotos antigas e os boletins escolares.O amigo, ao os examinar, exclamou:” Bah amigo , andaste fazendo cola quando piá.”
Vejam só: havia matérias como Desenho, Trabalhos Manuais, e eu só tirava 3 ou 4 na nota.
Em compensação, eu era bom em idiomas estrangeiros, filosofia, e assuntos do gênero.
A gente tinha uma espécie de caderneta escolar, onde eram registradas as notas. Inicialmente, temendo a tristeza do meu pai, esmerei-me em falsificar sua assinatura, o que se podia ver a olho nu.
Depois evoluí para a terceirização: encomendava os trabalhos manuais, com a serra tico-tico e outras bobagens. Entregava o desenho para coleguinhas mais aptos, em troca de lhes fazer trabalhos abstratos.
Assim ia passando de ano e as notas melhoraram.
Meu amigo estranhou quando lhe mostrei os vestígios de meus deslizes já prescritos.
Mas será que eu já era um " espertinho" ou só queria sobreviver?
Tarde demais para saber.
Será que vai ruir todo o meu conceito?
Só sei que me divirto até agora ao ver a cara de espanto do meu amigo que, na crença da ética, talvez me conceda o benefício do “estado de necessidade”.
( Como está tudo agora ?
Melhorou?)
sexta-feira, 5 de maio de 2023
PASSANDO POR FRITZ E FRIDA
Podem perguntar a qualquer um.
Quem nasceu em Santa Cruz e, por contingências, teve que sair, nunca se esquece desse maravilhoso lugar.
Sempre me vêm as lágrimas quando passo pelo viaduto Fritz e Frida.
Venho lá de longe, de onde está nossa fazenda em Unistalda e onde temos, bem pertinho, uma casa em Santiago.
De madrugada saímos descendo a serra para passar por Jaguari, São Vicente, São Pedro, Santa Maria.
Aí opto para seguir, não por São Sepé, mas pelo caminho que leva a Santa Cruz, até chegar a Porto Alegre, onde também moramos.
São seis horas de viagem, se não houver alguma tranqueira.
Por vezes penso em entrar na cidade e ver como vão meus parentes. Quase nunca dá. E somos poucos. Uma irmã é falecida; a outra mora em Porto Alegre. Meus pais são falecidos.
É muita saudade.
Gosto de parar ao passar pelo estabelecimento do sr. Schuster, sempre ao lado de sua querida esposa. É aquela conversa boa, sempre falamos em alemão e compro um monte de linguiça. O papo vai sobre o gado, a falta de chuva, etc.
O sr. Schuster é uma pessoa carinhosa, pois esse dias cheguei atrasado (ele fecha ao meio dia), mas me viu da janela de sua casa. Me acenou e assim pude comprar suas iguarias.
Pronto: não faltaria por bom tempo esse alimento tão gostoso e prático.
Embarquei na caminhonete, respirei fundo, e falei com minha mulher: eu não tinha como ficar entre meus amigos de infância e juventude. O destino me mandou para outras plagas, onde também me dei bem.
Próxima parada: uma bela confeitaria,
Não conheci ninguém no recinto, mas aquilo parece ser a Alemanha, de tanto cuidado e capricho.
Sigo em frente, remoendo muitas coisas.
Minhas aulas de violino com a Senhora Amália Eidt. Rigorosa até na postura com o instrumento, inclusive os pés.
Era uma senhora bem magrinha, super caprichosa na sua casa. Se eu tocasse um tom diferente do que estava na pauta, ela interrompia com muita delicadeza. Detalhe: eu vinha com o violino e ela mandava eu o afinar. Não se contentava facilmente. Assim faço hoje com meus filhos que tocam algum instrumento.
A propósito sempre me lembro, ao passar por Santa Cruz, das minhas tias Brunhilde e Hildegard, ambas falecidas. Nas minhas férias eu ia a Boa Vista na casa de meus avós paternos. As duas eram exímias em vários instrumentos, inclusive a cítara.
Tia Hildegard era muito alegre e tocava gaita. Tia Brunhilde, quando solteira, me dava também aulas de solfejo.
Não tenho como agradecer essas queridas tias.
Bom, passei por Santa Cruz.
Cessem as lágrimas e reminiscências.
“Siga el corso”
quinta-feira, 20 de abril de 2023
SOBRE PECUÁRIA
Amigos me indagam como cheguei a ser Pecuarista.
Sou natural de Santa Cruz do Sul. Meu pai era comerciante. Desde cedo ele me chamava para, nas horas livres, o ajudar. Isso foi importante na minha vida, pois vi como o comércio tem suas regras. Meu pai era muito bonachão, vendia muitas coisas no “fiado” e depois não recebia. Apesar das advertências da minha mãe, a falência foi inevitável.
Concluí, então, que na vida se deve aprender a dizer “não”. Caridade é uma coisa; negócios são outra.
Tive que me virar sozinho e aos 17 anos fui morar numa pensão em Porto Alegre, onde me matriculei no 3º ano do Clássico no Colégio Júlio de Castilhos, que era gratuito. Trabalhava de dia e estudava de noite.
Fiz o vestibular de Direito na UFRGS em 1965 e fui aprovado.
No quarto ano da faculdade fiz concurso para Delegado de Polícia e aos 22 anos fui aprovado após fazer a Escola de Polícia, sendo classificado em 1º lugar.
Em 1969 me formei, pedi demissão do cargo de Delegado e fui advogar. Dois anos depois fiz concurso para Juiz de Direito e fui aprovado.
Fiquei um ano em Horizontina e um em Arroio do Meio.
Santiago estava sem juiz há dois anos. O presidente do Tribunal de Justiça me pediu que aceitasse promoção para Santiago. Assumi em l974. Tudo era novo para mim. Não sabia distinguir entre um cavalo e uma vaca.
Passei por outras comarcas, fui subindo na carreira até que cheguei a Desembargador. Terminado meu tempo voltei a advogar em Porto Alegre.
Conheci minha esposa Maristela, natural de Santiago, mas trabalhando no Tribunal de Justiça.
Isso nos fez visitar amiúde seus pais. Seu pai sabia muito de pecuária.
Pronto: passei a comprar lotes de campos ( sempre contíguos).
Como a advocacia me dava bons frutos, passamos a intensificar a pecuária.
Um dia fui convidado para ser o presidente do Sindicato Rural de Santiago, o que aceitei com muito orgulho .
Sucedeu que, naquelas épocas conturbadas, parte dos associados achavam que deveríamos fechar estradas em sinal de protestos de diversas ordens.
Conversei com os colegas e se decidiu que não faríamos protestos que prejudicassem o livre trânsito.
Estando eu em Bagé, numa feira, fiquei sabendo que parte dos companheiros tinham fechado a estrada.
Com razão ou sem razão, achei que não tinha mais o apoio da maioria dos colegas.
Renunciei ao cargo de presidente, mas prossegui como amigo de todos e sempre defendendo os interesses do agro.
Continuei, no entanto, com nossa Fazenda que sempre melhora e assim vai ser até que eu seja chamado por Deus para a última morada.
terça-feira, 18 de abril de 2023
CALIBRAGEM NECESSÁRIA
titoguarniere@terra.com.br
Twitter : @TitoGuarnieree
Lula tem méritos indiscutíveis. Como negar que um retirante nordestino, pobre como todos os outros, vindo de Garanhuns para São Paulo na carroceria de um caminhão, que se tornou um dos maiores líderes sindicais da AL, depois se elegeu deputado e presidente da República , é alguém diferenciado, para não dizer predestinado?
Digam o que quiserem. Chamem-no de Luladrão, de analfabeto ou de chegado a uma ou mais doses de caninha pura. Mas se ele não fosse um ser especial, uma exceção, não teria chegado nem perto das honrarias que conquistou, inclusive o posto de autoridade máxima do país em três eleições.
Talvez o problema em Lula seja o de se julgar predestinado. Tendo superado todas as dificuldades para ser o que é, então lhe estava reservado o destino dos heróis, dos grandes homens. Muito do ódio que lhe devotam tem a ver com uma frustração pessoal dos que o desprezam e odeiam: como pode alguém tão destituído de riqueza e instrução, tão distante das elites, tão tipicamente ligado à miséria que afeta uma parte ponderável dos nossos irmãos, ter merecido tamanho destaque entre os seus pares, muito mais afortunados?
Julgando-se especial, deixa-se levar pela vaidade, quase natural na circunstância. Lula não convive com o erro, porque acha que nunca erra. E se algo vai mal, se as coisas não correram como ele previu, é somente porque o caso ainda não chegou ao fim. Assim, ele descuida das consequências do que diz e do que faz, abre a guarda e com enorme frequência derrapa na curva.
Bem sucedido na sua admirável trajetória, ele não ouve ninguém, não precisa estudar ou ler um relatório mais complexo ( e enfadonho): ao final e ao cabo a sua intuição prevalecerá e dará certo. A autoconfiança que o move e inspira é ilimitada.
Mais do que não ouvir ninguém, e preso uma visão discutível de mundo – para dizer o mínimo - , alimentado por lendas urbanas e equívocos históricos, incensado pelos "cumpanheiros", ele vai em frente sem medo de ser feliz.
Na sua recente viagem à China, Lula abusou de declarações descuidadas, e de bobagens homéricas ditas com certo ar de mentor espiritual da humanidade. Para espanto geral, afirmou que é preciso que " os EUA parem de incentivar a guerra ". Até pode ser, mas a Rússia agressora, invasora de um país vizinho e soberano, não merece nenhuma reprimenda, nenhuma palavra de desaprovação?
A guerra não interessa a americanos e europeus, como ele imagina e como acusou. Eles só têm a perder, porque têm obrigações políticas e morais diante da agressão traiçoeira e vulgar, que lhes custa uma fortuna incalculável de dinheiro e recursos bélicos e materiais.
Em Xangai disse que os bancos têm de ajudar os países e não asfixiá-los. Se tem algo que os bancos não gostam de fazer é asfixiar seus devedores. O sonho dourado de todo banqueiro é receber em dia os seus créditos. Os bancos só apertam(asfixiam) os caloteiros que não honram seus compromissos, como está acontecendo com nossos hermanos da Argentina.
Lula precisa confiar menos na intuição, se preparar melhor nas suas intervenções e entrevistas, calibrar as declarações.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
RETIROS E OUTRAS QUESTÕES
“Pecador, agora é tempo
de pesar e de temor,
serve a Deus, despreza o mundo
já não sejas pecador”.
Muitas vezes ouvi, quando era coroinha na Catedral de Santa Cruz do Sul, o coral regido pelo Irmão Ludovico, se não me falha a memória.
Me deu uma baita nostalgia porque participei de vários retiros.
Geralmente eram três dias em completo silêncio,comida frugal e muita meditação.
Foi ali que, mal ou bem, aprendi a amar o silêncio, a paz, a serenidade e adquiri um certo preconceito contra gente espaçosa, risonha demais.
Também me aborrecem as aglomerações, as falas em alta voz, os gritos.
É viajando que a gente começa a ver que se pode ser alegre sem ser ruidoso e inconveniente, que se pode rir sem precisar beber, que é um bálsamo ouvir "com licença", " desculpe", “por favor". Em quase todos os países frios é assim. O frio induz ao estudo, ao trabalho, à beleza transcendental.
Uma das minhas filhas, a juíza de Direito Milene Gessinger, mãe de dois guris, se mirou no meu gosto por retiros.
Desde guri gosto de ficar em silêncio no dia da Paixão de Cristo.
Milene também se afasta para a casa da praia e lá fica em seu retiro. Os meninos e o marido ficam em casa.
Diz ela: “Trouxe o ukulele para tocar, a prancha, o pirógrafo, comprei suprimentos e escolho na hora a programação do dia. Procuro a melhor praia para a condição do vento e ondulação”.
Quando mais jovem ela ia para a nossa fazenda, embrenhava-se no mato, em companhia de um cusco, abria uma barraca e lá ficava.
Nem muitos lembram, mas incrivelmente houve uma época em que as mulheres não tinham acesso à magistratura. A minha turma de concursados para juiz de direito foi a última constituída só de homens (1971).
Em seguida houve uma mudança feliz e as mulheres começaram a passar, aos poucos, nos concursos.
Tive a graça de minha filha Milene ter sido aprovada no Direito da UFRGS. Preparou-se muito e foi aprovada no concurso para a magistratura gaúcha.
Mudando de assunto.
Esses dias vi o filme “Os Dois Papas”.
Muito bem feito. Convenci-me de que não tardará e as mulheres poderão exercer o sacerdócio católico.
Eu sou egresso de uma família muito católica, vinda da Alemanha, no povoado de Rachtig, no rio Mosel. Aqui no Brasil tivemos muitos sacerdotes, entre os quais meu Tio Afonso Gessinger, que usava o codinome de Afonso de Santa Cruz. Faleceu recentemente e está no cemitério dos Jesuítas de São Leopoldo.
Me confidenciou, no dia do batismo do meu filho Rudolf, que era inevitável que as mulheres fossem sacerdotisas um dia.
Quem viver, verá.
sábado, 1 de abril de 2023
CUIDADO NO ABASTECIMENTO DO CARRO
Posso estar enganado. Mas pouca gente está se cuidando com o perigo dos abastecimentos de combustível.
Há poucos dias uma pessoa muito próxima a mim, mas que não quer ter problemas no curso do processo, me relatou que tinha uma Rav 4. Era a gasolina. Parou num posto para encher o tanque. Falou que tinha que ser comum e foi ao banheiro. Voltou e pouco depois sentiu problemas. O veículo parou. Foi levado à concessionária. Um funcionário dela decidiu dar uma corrida pela free way. O carro parou de novo e acabou pegando fogo. Perda total.
O Dr. Leo Kraehter, meu querido sobrinho, odontólogo, passou também por esse dissabor com uma caminhonete a diesel.
Disse ele: “A gente sempre vai no mesmo posto, em Passo de Torres, porque lá se tem algumas comodidades.
Como tinha lavagem a gente não fica do lado da bomba, enquanto vai abastecendo o carro. Eu pedi para que ele enchesse o tanque, com diesel S 10 e acabei indo a próxima loja de conveniência, porque tem como se acomodar sentados. Depois pagamos a conta e ficamos lá um dia e no dia seguinte nos deslocamos para Santa Cruz.
Nossa rota dessa feita foi pela BR 116 e depois BR 290, porque nossa rota usual (287) está em fase de duplicação. Quando a gente chegou passou as pontes do Rio Jacuí, na grande Porto Alegre, em Guaíba, a gente parou num posto para ir no sanitário.
Quando tentamos fazer pegar o carro, não deu mais. O socorro rápido identificou que a camionete tem um sistema de segurança, e a partir dali nós acabamos vindo guinchados, até Santa Cruz.
Deixamos o carro já na vinda numa mecânica de confiança nossa, e no outro dia qual não foi minha surpresa a gente tinha combustível equivocado, nós tínhamos gasolina ao invés de diesel. O bacana é que a caminhonete tem um reconhecimento por conta da emissão dos gases, e aí ela não funciona mais até para evitar maiores danos. Mas o transtorno foi bárbaro, porque tem limitação para ir na cabine do guincho, não dá para ir todo mundo, e ficar em cima é muito ruim, é desconfortável, fica muito alto e chacoalha muito.
A ideia agora é tentar reaver todo o prejuízo, de combustível abastecido que foi descartado, o guincho que foi utilizado, a mecânica, agora então vamos entrar nessa fase.”
Penso que está mais que na hora se estabelecer , como nos países adiantados, que o próprio proprietário do carro tenha que abastecer o veículo.
Ou, pelo menos, a pedido do proprietário , delegue a um servidor a tarefa.
terça-feira, 28 de março de 2023
MÁ SEMANA
TITO GUARNIERE
MÁ SEMANA
Não estamos bem. Tomem a semana que passou. Primeiro, uma ameaça assustadora do PCC, a mais notória organização criminosa brasileira: plano para assassinar Sérgio Moro, Geraldo Alckmin, procuradores da República, autoridades carcerárias.
Na instância dos militantes políticos aloprados, ou bem foi uma armação do próprio Moro(segundo Lula) ou bem foi uma armação da esquerda(segundo Bolsonaro). Ora, por enquanto não há evidência nem de uma coisa nem de outra. É por tais inconsequências, ditas assim como quem não quer nada, até pelos atores mais importantes do embate político, que vivemos essa quadra da vida nacional, onde prevalece o ódio e a polarização.
E lá a bandidagem do PCC precisa dos políticos, de Moro, Lula, Bolsonaro, para fazer suas armações, suas ameaças?
Mas os políticos brasileiros de ponta, como Lula e Bolsonaro, jamais perdem a oportunidade para confundir e alimentar a confusão, trazer a brasa para a sua sardinha, inflar as respectivas narrativas. Eles gostam é do beco escuro, do lodaçal – nada que traga um pouco de civilidade e racionalidade ao debate político. Nada que contribua de alguma maneira para criar um clima de respeito e convívio civilizado, que nos permita sair um dia desse cenário de briga de rua.
Depois, descobre-se que Lula, que prometeu governar para todos – ao contrário de Bolsonaro, que só falava e governava para os seus -, entretanto, parece mais obcecado que nunca em agradar a militância, em falar somente para os seus, em reafirmar as velharias da esquerda, e em fechar portas e janelas para uma possível concertação, a mais ampla , para um governo de união nacional. Esse Lula 3 é apenas uma outra face do governo Bolsonaro.
Então Lula só vai ficar bem quando ferrar Sérgio Moro? (Sei bem que não usou o verbo "ferrar", usou outro que torna a expressão mais grosseira e deselegante, e que também começa com "f"). Ou seja, ele está cheio de ressentimento, de desejo de vingança, esses péssimos conselheiros de todo ser humano, e mais ainda de líderes e dirigentes.
Se tais sentimentos menores movem o presidente , ainda que eles possam ser justificáveis (a prisão de 540 dias, por exemplo, que ele acha injusta com boa dose de razão) então se compreende este começo de governo, incapaz de dizer com clareza a que veio, confuso, sem prumo e direção.
Um governo não se sustenta apenas pelo mal que evita. Ele tem a obrigação moral e política (ao menos) de apresentar as linhas gerais de um projeto, um plano. Não basta o velho truque das intenções meramente declaratórias – quem será contra um governo que pretende eliminar a pobreza, distribuir a renda, alinhar o país com as demandas do tempo presente, respeitar e fazer respeitar a democracia e os direitos humanos?
A retórica, a disputa da narrativa, tudo é parte da política. Mas o governo – mais do que todos os protagonistas da cena política e institucional - tem obrigações para com a sociedade que ultrapassam esse limite trivial: onde pretende chegar? o que vai fazer para alcançar seus objetivos? Está focado na ação, no trabalho duro para alcançá-los ou na guerra de palavras?
titoguarniere@terra.com.br
Twitter : @TitoGuarnieree
sexta-feira, 24 de março de 2023
DIVERSAS CONSIDERAÇÕES
Minha querida e admirada Irmã Roberta tem, com suas irmãs, um belo lugar de orações. Isso em Santa Cruz do Sul, um pouco além da cidade. Ali se reza, se pedem graças, se conversa pouco, enfim. É lugar de preces e de orações.
Ao ensejo da minha coluna recente, ela disse:
“ As regras campesinas têm algo da regra de São Bento: organização e bom senso e espírito de colaboração.”
Sábias palavras.
—----
Eu era criança, em Santa Cruz, morando na nossa casa hoje demolida na esquina da Tomás Flores, 876.
Tínhamos dois funcionários para as cargas dos caminhões e distribuição de mercadorias.
Houve um problema em que um empregado se machucou fora já de seu local de trabalho.
Não sei como foi o desenlace, mas meu pai teve que o sustentar. Achou melhor acertar tudo até a recuperação.
A verdade é que me pareceu mais um auxílio voluntário.
……..
Vamos agora para o campo, onde muitos peões trabalham.
Todo cuidado é pouco. É preciso acertar “os papel”, do contrário pode vir uma demanda.
Um conhecido meu, cuja fazenda está nas proximidades da nossa, pediu para um moço desempregado arrumar um telhado .Depois pediu que fizesse pequenas tarefas. Isso durou cerca de um mês. Pagamentos feitos como combinado.
Semanas depois, uma reclamatória .
…….
Há pouco tempo estourou o assunto dos peões vindos do nordeste ou norte.
Miséria extrema? Passavam fome?
Não sei dizer.
Acho que os empresários fizeram bem não discutindo muito e concordaram em resolver a questão de modo correto. É certo que, tendo razão ou não, o desgaste seria muito grande.Maior do que seria caso teimassem em discutir o assunto na Justiça.
Não aprovo o que disse um político da região serrana.
Provavelmente vai perder seu cargo.
…….
Vamos agora aos trabalhadores rurais. Muitas vezes são filhos de antigos peões.
Em geral se afeiçoam ao patrão de tal maneira que nunca saem do emprego
Hoje há muitos Engenheiros Agrônomos , Veterinários e Zootecnistas que são filhos de peões.
Muito conheci casos de ajuda aos filhos dos trabalhadores.
Modéstia à parte eu também ajudei o filho do nosso capataz.
……..
Finalizando, não posso me olvidar da “ ressolana”.
Em quase todas as estâncias existe esse costume no forte do verão.
O pessoal almoça e depois pega um pano bem grande ou um travesseiro e se deita debaixo de uma árvore. Fica às vezes na sombra do galpão. Nesses horários de ressolana tudo se aquieta: os humanos, os cavalos, os cuscos, os gatos, o gado, as ovelhas.
É o sono da ressolana.
Silêncio na estância.
quinta-feira, 9 de março de 2023
REGRAS CAMPESINAS
Remexendo em uns guardados dei com um texto muito interessante.
Lendo alguns parágrafos conclui que são atualíssimos. Uma fazenda é todo um universo, diferente de qualquer outro empreendimento.
“Regras para o Galpão e para a Vida, de Blau Souza
“Medidas a serem tomadas para o melhor andamento dos serviços:
1. Assumir com responsabilidade e boa vontade suas obrigações, sempre pronto a ajudar os colegas de trabalho.
2. Terminar com conversas, fofocas, etc., que só dividem e nada somam. Elas só desgastam a pessoa que as faz.
3. Quando estiver descontente com alguma coisa, procure falar comigo em particular. Tenho o maior interesse e boa vontade com todos.
4. Por ocasião de temporal, independente de função, tomar as devidas providências, fechando janelas, portões, moinho, etc.
5. Ter criatividade e bom senso. Exemplo: recolher pedaços de arame, sacos
plásticos, arrancar espinhos e outras pragas.
6. Quando estragar alguma coisa, ou se machucar um animal, comunicar à administração. Jamais querer transferir para os outros, mas assumir as
faltas.
7. Procurar não pegar, sem necessidade maior, arreios, xergões, pelegos,
cordas e outras coisas dos patrões.
8. Cuidar do arreamento, poncho e demais utensílios. Procurar trazer sua cama arrumada.
9. Reparar sempre se não ficou torneira mal fechada, ou a descarga do vaso
escapando, principalmente quando houver mais gente nas casas.
10. Procurar trazer os utilitários de galpão sempre limpos, nos devidos lugares.
11. Não trazer cachorro para o estabelecimento sem o meu consentimento.
12. Sempre que chegar alguém, ver quem é e dar o atendimento necessário,
comunicando após à administração.
13. Procurar, dentro do possível, estar por dentro das contas de bovinos e
ovinos de cada invernada.
14. Por ocasião de banho de gado, vacinação ou outros serviços nas
mangueiras, ajudar a verificar se as porteiras estão fechadas, se o corredor
está aberto e, após, se foi fechado e se foi medida a carga do banheiro.
15. Sempre que abrir porteiras, não esquecer de colocar o pino de segurança
ao fechá-las.
16. Procurar não maltratar os animais e, nas mangueiras, evitar gritaria e
cachorro. “
Muito atuais as regras campesinas.
Mas algumas coisas mudaram.
Hoje os galpões em regra são para colocar implementos, sementes, etc, sendo que os peões têm alojamentos confortáveis. Os cavalos também têm suas baias.
Alguns peões têm carros ou motos.
No galpão de convívio geralmente há televisão.
Vários filhos de peões vão à faculdade: alguns alçam voo, outros são reaproveitados na própria fazenda.
(Volto oportunamente)
terça-feira, 28 de fevereiro de 2023
PILAR BÁSICO DA DEMOCRACIA
TITO GUARNIERE
PILAR BÁSICO DA DEMOCRACIA
Os textos curtos das redes sociais têm o seu valor. Talvez o maior deles seja o de obrigar o autor a ser conciso, a dizer o máximo no menor espaço e uso de caracteres: a concisão é uma virtude de estilo, desde que se consiga a façanha de se fazer entender, de ser claro no que pretende passar.
Mas tem um problema. Não há nenhum tema que não comporte um contraponto, uma versão contrária, um outro ponto de vista. Assim, se o caro leitor quiser – de verdade – ter um entendimento razoável a respeito de um assunto, seja lá o que for, é preciso ir além dos 280 caracteres do Twitter.
Este articulista é um leitor obsessivo, por gosto pessoal, e porque, querendo estar bem informado, evitando embarcar em teorias simples porém erradas, detestando fakes e vulgaridades, dá uma boa passada de olhos nos grandes jornais diários – Folha, Estadão, Globo. Não tenho nenhum preconceito contra a grande imprensa e, ao contrário, tenho-a na conta de prestar um enorme serviço de interesse público, e de um pilar básico da boa informação e da democracia.
Meu modelo de liberdade de imprensa é a imprensa brasileira. Modelo perfeito? Não. Nada e ninguém é perfeito. Mas um país que se queira dizer democrático deve ter um modelo de imprensa igual ou muito parecido com o Brasil. Um país sem jornais como a Folha, Estadão e Globo, e só com redes sociais, ficaria mais burro do que já é e seria uma calamidade completa.
As hordas militantes, na esquerda e na direita, têm por costume atribuir à imprensa, assim como ela é no Brasil, as mais abjetas intenções, uma vez que supostamente sempre expressa um combate (ainda que meio dissimulado) às suas próprias concepções. Nos arraiais de Bolsonaro e Lula é dominante a impressão de que a imprensa tradicional só existe pata criticar e prejudicar as causas respectivas, aquelas destinadas à missão gloriosa de salvar o Brasil e às vezes o mundo.
A imprensa livre, plural e aberta à iniciativa da sociedade, da cidadania, de quem tiver disposição e capacidade, não é necessariamente a garantia da informação honesta, mas tende a assegurar a busca permanente de um noticiário e uma linha editorial confiável e de qualidade, permitindo aos leitores um leque de escolhas – qual a abordagem mais coerente, profissional, genuína e conscienciosa.
É infantil esperar que os grandes jornais e meios de comunicação somente veiculem informações de interesse das facções do embate político. É como esperar que os juízes do Supremo Tribunal Federal decidam sempre ao nosso gosto e preferência. É fácil detestar Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, mas é comum que eles tomem decisões coincidentes com os pontos de vista dos seus críticos.
Pior ainda é a expectativa de que uma imprensa oficial, como a Empresa Brasil de Comunicação-EBC, criada por Lula e usada exaustivamente depois por Bolsonaro ( que havia prometido fechá-la), dê conta de informar honestamente o distinto público. Governos têm necessidade de mentir como nós temos a necessidade de respirar. Imprensa livre é, acima de tudo, oposição. O resto é, como dizia Millôr Fernandes, armazém de secos e molhados.
titoguarniere@terra.com.br
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