quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

UM NATAL MÁGICO

 De nuevo estoy de vuelta/ Después de larga ausencia/ Igual que la calandria/ Que azota el vendaval/ Y traigo mil canciones/ Como leñita seca/ Recuerdo de fogones/Que invitan a matear

(JOSE IGNACIO RODRIGUEZ)

Cumpri meu período sabático. Andei por serras e campos,  espiei possibilidades. Recorri caminhos passados.

Tudo muito lindo.

Mas me convenci que o Brasil não está tão ruim. O Brasil do agro é que nos empurra para o sucesso. 

Então aqui estou para uma conversa sentada.

Um forte abraço ao pessoal da Gazeta, gente querida, aos quais quero muito bem. 

Aproveitei para varrer umas cataratas das vistas, minha mulher também o fez.

Quero pedir de novo que não me queiram mal ou me rotulem de pretensioso. Mas a verdade tem que ser dita. Fui e sou um homem feliz  e como diz o poeta "soy feliz, soy un hombre feliz y quiero que me perdonen".

Tive a grande ventura de nascer no interior de Santa Cruz. Aos 6 anos nos mudamos para a cidade.

Estudei no São Luiz e no Mauá. Só boas lembranças.

Me lembro bem do  Natal daqueles tempos.

Nada de porres, festas ruidosas, perus (nem se sabia o que era isso). Era receber um presentinho singelo, cantar o Noite Feliz e ir dormir.

Mas hoje quero narrar um Natal absolutamente diferente.

Eu recém tinha me casado com Maristela (a minha rainha do gado e das ovelhas) e compramos uma gleba relativamente grande de campo onde havia mangueiras, galpões, poço artesiano, mas a casa de moradia era mal cuidada e não tinha energia elétrica.

Nos pusemos, na véspera do Natal,  a tirar fora coisas velhas, limpar cozinha, banheiro e quartos, com baldes.

Exaurido falei: "vamos dormir aqui mesmo? trouxe umas linguiças, pão, e duas garrafas de vinho (quente, é claro)”.

Nos deitamos na cama precária e quis ligar o rádio de pilhas para adormecer. Maristela me disse: "pára um pouco com rádio e  vamos ouvir os bichos, passarinhos, o balir das ovelhas, o ronco dos bugios". 

É incrível o que acontece ao amanhecer ainda madrugada. É uma sinfonia de trinados. Parece que os seres que habitam os campos e matos estão sob a regência de um ser supremo.

Saímos e nos dirigimos até uma sanga que corre perto da casa. Está protegida por árvores nativas, compondo assim as florestas ciliares. Estas são as heroínas quando começa a estiagem: são a garantia contra a seca. 

Entramos, então, no arroio e juntos tomamos um banho de várias horas.

Foi aí que resolvemos recuperar a casa, puxar a energia elétrica, aumentar o número de açudes e adquirir mais glebas de campo encostadas às nossas. 

Aquele natal mudou nossas vidas.