quinta-feira, 10 de outubro de 2019

UMA PITADA DE FUTEBOL


Sou colorado. Sempre fui. Mas não doente. Mesmo porque quando, nas poucas ocasiões de minha  vida em que adoeci, ninguém do Inter veio me visitar. Torço pelo Inter mas a triste sina de nós colorados é ressuscitar os mortos, como o Avaí e a Chapecoense e tomar gol dos grandes aos 50 minutos do segundo tempo. O Rio Grande sempre foi assim, vocês sabem. A eterna luta de chimangos contra maragatos. Gremistas e colorados.
O futebol dá muito dinheiro, especialmente  para empresários, jogadores, advogados da área. Há coisas, porém, que me repugnam no futebol.
Raciocine comigo. Eu sou teu advogado numa causa de alto vulto. Sei de todos os teus pontos fracos. Mas, de um dia para outro, passo para o outro lado e vou advogar contra ti.  Inimaginável. Esses dias um treinador que defendia os interesses  de um clube foi demitido. No outro dia chefiou o time contra aquele do qual fora dispensado, aproveitando-se
de  informações privilegiadas.E o que dizer da falta de ética de alguns jogadores, simulando faltas?
Apesar de eu ser colorado admiro muito o Renato Gaúcho.Recentemente Renato não gostou da maneira como um clube que o queria contratar agia. Imediatamente renovou com o Grêmio.
A aparente arrogância de Renato creio ser fruto de sua infância quase pobre. Mas, ao invés de ficar chorando pelos cantos, se manteve forte e foi galgando posições.
E porque seria aparentemente arrogante?
É porque a arrogância calculada enquanto causa revolta nos adversários e fortalece seus comandados.  Está fora de qualquer cenário Renato treinar o Inter, nem na próxima encarnação. Daí porque ele pega pesado nas suas manifestações. Conhece futebol, foi excelente
atleta.Apenas  considera o Colorado fraco e insignificante. Essa tomada radical de posição guerreira, ajuda na união do seu grupo.Gostei de uma entrevista dele após uma derrota nos pênaltis. Disse: “ chegará o dia em que o treinador vai cobrar os pênaltis”.
Renato, eu sei , eu vi, era o rei da noite. Até nisso mudou. Anda quieto e discreto. Mas ele conhece tudo dos bastidores e, principalmente, dos meandros extra campo. Sabe  como pensa a  gurizada que saiu  da favela, mas a favela não saiu deles.  Segundo sei não corteja dirigentes. Hoje, com o Bolzan, que é um lord inglês, não tem atrito.
Em seguida será técnico da seleção brasileira, salvo se o Grêmio lhe oferecer uma grana mais preta ainda.
Mas não irá para o exterior.  É monoglota, só fala  o português.  Não creio que tenha lido o Pequeno Príncipe, muito menos qualquer obra de Paulo Coelho (no que empata comigo).

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

FAR WEST FRACASSADO



À medida que vou avançando na idade, conquanto a cada ano melhore meu drive de direita no tênis, cada vez mais diminui minha vontade de escrever sobre essa bagunça política brasileira. Estou, portanto, me preservando para um dia merecer ser convidado de novo à reunião tenística do Trem das Onze.
Enquanto o nosso querido jurista e advogado Astor Wartchow nos contempla com ensinamentos jurídicos, eu me exponho aos áulicos do politicamente correto e vou desfiando “causos” de campanha. Estou muito enjoado da cena jurídica. A propósito, já várias vezes falei sobre a importância das galas e cerimônias. Nunca compareci a uma audiência sem terno a gravata. Jamais fui a um casamento de camiseta .Pode ser frescura, mas como tive berço, sempre dei senhoria às autoridades, às senhoras, aos senhores.
A cerimônia faz com que nos contenhamos de ímpetos inferiores. As galas nos ensinam a respeitar os demais. Jamais objetar, jamais se atravessar enquanto o orador está falando.
Mas vamos ao far west.
Um eminente integrante de alto escalão  jurídico consegue ser escolhido entre seus pares  e, em seguida, ser guindado ao alto posto do Ministério Público. Age com denodo, enfrenta contrariedades, bate cabeça com cabeças coroadas do dito Excelso Pretório. As luzes dos holofotes estão sempre em sua mira. 
Chega, porém, o dia em que considera melhor se retirar, se aposenta com proventos integrais e parte para a iniciativa privada.
Decide deixar um legado para nós, meros espectadores, escrevendo, com “ghost writers” ao que consta, passagens de sua turbulenta trajetória.
Acompanhemo-lo.
Ele se ressente contra um integrante da alta corte. Integrante esse que não é uma unanimidade e que em matéria de cerimônias e galas sabe pouco. Dito magistrado é daqueles de corar os frequentadores das redes de vôlei do posto 5 em Copacabana.
Nosso procurador achou que o magistrado o tinha desaforado. A solução judiciária  não lhe pareceu correta. Abriu seu cofre e deu bom dia  à Frau Glock, afamada austríaca que, uma vez acionada, vomita azeitonas de chumbo
Decidiu matar o Ministro. E depois se suicidar. Aí já vejo dois problemas. Como assim, matar o ministro desafeto sem lhe dar chance de defesa? Ok, atirou no Ministro e depois? vai esperar para ver se matou e depois se suicidar? Mais um problema: onde se dar o tiro ? Na boca, no ouvido, no coração? Teria prática nessas coisas?
Colocou a Glock debaixo do manto sagrado da Justiça e se dirigiu ao desafeto.
O gaúcho sempre diz: se fores sacar, atira para matar.
Esse procurador não deveria ter contado sua covardia.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

SOBRE JANOT - TEXTO DE TITO GUARNIERE

TITO GUARNIERE


DESTRAMBELHO

Esse cidadão, Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, não é muito certo da cabeça. Dizem que ele era meio chegado à beberagem. A bebida social, relaxa e descontrai o ambiente. Mas em demasia causa danos irreparáveis ao cérebro, ao fígado, ao corpo inteiro. Terá sido a causa do destrambelho?

O ex-procurador é um homem perigoso. Por pouco não cometeu um assassinato a sangue frio e o país – e o mundo – ainda teriam de assistir, em sequência e estarrecidos, um suicídio ao vivo na televisão. Nem o ficcionista mais criativo imaginaria a cena.

Não é possível que Janot não tenha pensado nesse cenário, e nas suas terríveis consequências, para ele e sua família, o Supremo, o Ministério Público Federal, que ele comandava, os seus pares e colegas, e para o Brasil.

Psicopata de carteirinha, destituído de empatia, de respeito pela vida humana (inclusive a própria, já que ia se matar) e, no caso dele, acima de tudo, de senso de justiça, entretanto, ocupava um dos mais altos cargos da República, e era o chefe de uma instituição proeminente do aparato judicial e do Estado brasileiro.

As razões alegadas pelo ex-procurador eram as mais fúteis. O ministro Gilmar Mendes, do STF, teria revelado que a filha de Janot, era advogada de uma empresa investigada pela Lava Jato. Nada mais. Não a acusou de nenhum ato irregular ou ilegalidade. Era apenas um fato – verdadeiro, por sinal.

Pois a ofensa que não houve se tornou de tal gravidade que Janot, na plenitude do exercício do seu alto cargo, em parafuso, tomou a resolução de matar o desafeto. E nessa voragem de loucura, planejou fazê-lo em pleno tribunal, a mais alta corte do país. O ato seguinte ao "tiro na cara" de Mendes, seria o suicídio. Chegou a engatilhar o revólver Glock. Mas na última hora foi contido, segundo ele pela mão de Deus.

É o perigo de ter armas à mão. Mesmo Janot, figura central na hierarquia da República, que deveria se conduzir com comedimento, treinado nos embates de que é feita a vida de um procurador, por um triz não causou uma tragédia histórica.

Como sabemos agora, Rodrigo Janot dormia com a arma carregada na cabeceira da cama, decerto atormentado pela paranoia comum a indivíduos da espécie. Outro que dorme com o revólver ao lado da cama é Bolsonaro. É de dar calafrios na espinha.

Janot é aquele procurador-geral da República que assinou um acordo de delação de pai para filho, concedendo aos irmãos Batista, Joesley e Wesley, da JBS, perdão eterno de todos os rolos em que estavam metidos, em troca de gravar o próprio presidente da República, a fim de incriminá-lo. O ex-procurador, provavelmente já tomado de algum grau de demência, havia se imbuído da missão de afastar Temer da presidência a qualquer custo. E usou de todo o seu poder, artimanhas e truques baixos, para alcançar o objetivo. Causou um mal irreparável. Não há país que resista a tal grau de insolência.

Que os moralistas de baixo custo – que infestam as redes sociais –, nada tenham visto de anormal na armação, era de se esperar. Mas a grande mídia, com raras exceções, como o Estadão, deitou e rolou sobre o episódio, crucificando a vítima (Temer) e livrando a cara dos delinquentes.

titoguarniere@terra.com.br

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

AS PERDIZES SALVADORAS


Na região da campanha, até alguns anos, era comum a caça de lebres, perdizes, pacas, jacus, marrecas, pombas, quase tudo, enfim, de que se mexesse. Quase todos tinham armas de caça. Até eu tinha duas, uma calibre 12 e outra calibre 20. Os campos eram, como ainda hoje, muito extensos. 
Quero deixar claro que mais tarde nunca deixei caçar nos campos da nossa família. Inclusive a queridos amigos negava a entrada. Até brincava, “se teu problema é carne, vamos carnear um chibo (cordeiro)”. Nem pescar não deixava. Todavia  uma noite antes da sexta-feira santa não tem jeito. Tudo bem, é fazer de conta que não se vê  nada, mesmo porque não há como fiscalizar ou montar guarda  ante quase 40 açudes.
Mas voltemos aos anos 60 e 70. Era comum se ver carros voltando das caçadas com os bichos “ornando” as portas e os tetos . 
Naquela época eu até caçava,mas sempre dentro da quota. Depois de um tempo, quando casei com Maristela e juntos tocamos a fazenda, é que eu vi como era daninha a caça e me tornei um conservacionista.
Certa feita, logo que assumi em Santiago, lá por 1975, fui convidado para comer uma perdizada no sítio de um forte fazendeiro de um município vizinho, que usava o refúgio para suas festas. Seria num sábado à noite. Era verão e o homem tinha até piscina, coisa rara naqueles tempos.Estavam convidadas também umas meninas faceiras que seriam trazidas lá de São Borja, fato que eu desconhecia antes de chegar.
Um amigo meu, que era casado,o Carlos, teve dificuldades em explicar para a esposa da razão de ser festa só de homens, ao que ele retrucou que ia ser caçada com pescaria e só voltaria dia seguinte. Mas a esposa choramingava perguntando porque o esposo tinha se barbeado e perfumado. Peguei carona com meu amigo e nos fomos. Chegados ao sítio as perdizes estavam preparadas, com saladas e tudo que era coisa boa,em grandes e finas travessas. Por “mala suerte” as meninas não puderem ir e deu um temporal bagual, assim que só vieram cinco dos 40 homens convidados. Não ía sair a festa. Ao que tive uma idéia: “Carlos, vamos pedir e pegar umas travessas dessas, encher de perdizes, total vai quase tudo fora e vamos jantar na tua casa.” O anfitrião concordou e nos deu travessas de saladas, umas vinte perdizes assadas, um engradado de cervejas geladas, mais sobremesas . Saímos à toda para a cidade.Carlos tocou a campainha e exclamou: 
“Amoooorrr, surprêsa, arruma a mesa que já vou servir as perdizinhas, ou tu achou que eu ia fazer bobagem?” 
Veio a jovem esposa toda vermelha de tanto chorar: “meu anjo e eu fui duvidar de ti…”

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

DE MÉDICOS E LOUCOS...


É um velho refrão: de médicos e loucos, todos temos um pouco.Salvo porém com coisas muito simples não deveríamos bancar os médicos, baseados por
exemplo no Google. Concordo que essa ferramenta é muito útil para nossa informação. Mas daí a nos auto medicarmos vai um perigo real. Também tenho certeza de que é um erro grave desobedecer às instruções dos profissionais da saúde. Em fevereiro deste ano publiquei uma crônica na qual narrava uma bobagem que cometi, aos 47 anos, após me operar de um esporão do calcâneo. O médico mandou que ficasse de repouso vários dias, com a perna para cima. Não dei muita bola, não sentia dores, saí de muleta  para lá e para cá, deu uma deiscência de sutura, tive que me submeter a debridamento e esperar por longo tempo pela cicatrização por segunda intenção.
Certo dia cheguei à fazenda após uma semana de ausência. Após os relinchos de praxe,perguntei pelo filho de um dos peões. Me disseram que estava de cama. Tinha caído de moto e “lastimado” a perna, mas estaria tudo bem porque um “arrumador” de osso já tinha dado jeito. Entrei no quarto do rapaz. Estava de calção e com uma tala de lascas de taquara envolta numa fita de pano, do meio da coxa até o meio da canela. Claro que se tratava de uma fratura grave. Chamei o pai do guri e disse que ia levar o filho imediatamente ao hospital. “Mas doutor, não “percisa”, o osso vai ficar bom!”. Insisti que não tinha conversa e que ia já chamar a ambulância. E o pai renitente. Fui claro: “então vou chamar agora a Polícia! !” A ambulância veio logo, o rapaz foi internado, é claro que a perna estava fraturada. O moço se salvou. Graças aos médicos do Hospital de Santiago.
Certa madrugada, na estrada, vi uns carros estacionados no acostamento. Tinha havido uma colisão frontal entre dois caminhões. Um dos motoristas dava a impressão de já estar morto. Nisso chegou a Polícia. Ainda deu tempo de eu conseguir subir na cabine do outro caminhão, que estava com o vidro da janela semi aberto e o motorista estava lúcido. A deformação com o choque não permitia abrir nenhuma das portas e ele estava com as pernas presas. Alguns homens arrancaram os cabos da bateria para evitar um incêndio. Os policiais pediram que nos afastássemos, que a ambulância já fora chamada. Subi na boléia do que estava vivo e lhe perguntei como estava. Ele respondeu: “atendam o outro, vejam se está vivo e fiquem frios que estou bem”. Segui meu caminho e de noite o rádio deu a notícia. Os dois motoristas tinham morrido.A falta de um médico...que pena.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MORO, MOURÃO, GUEDES E BOLSONARO


Com Sérgio Moro eu me preocupava muito. Ele era um juiz singular, ainda não tinha a prática de julgamentos em colegiado. Explico-me: o juiz singular  despacha, instrui o processo e ao término profere a sentença, que tem que ser fundamentada. Isso o juiz vai fazer solitariamente, ele e Deus. Talvez se valha de pesquisas de assessores, mas quem tem a caneta é ele sozinho. No colegiado, Tribunais de Justiça, STJ, STF etc, a regra é que uma turma, um grupo, decide. Isso exige serenidade, acatar quando a maioria decide em contrário a suas convicções. É uma fase para a qual o magistrado tem que estar consciente de que a maioria decide e não ele sozinho.Por vezes se vêem em Tribunais, discussões acirradas, o que não é e nunca foi de meu gosto. Moro, portanto, se já não tinha a experiência de ser contrariado, muito menos tinha a vivência dos meandros  da política.
Por isso  esteve na corda bamba pronto para levar um empurrão e ser defenestrado sem cerimônia. A meu ver - e posso estar errado- o que o salvou foi a opinião pública. Com efeito, quando surgiram as pesquisas dando Moro com alto percentual  de aprovação, ligou-se a sirene do mundo político. Com Bolsonaro em baixa nas pesquisas, só um louco para dar o cartão vermelho a Moro. As ruas seriam tomadas por manifestantes e tudo mais.
Moro maneirou a expressão de suas contrariedades e vai surfando, calmo e fagueiro, na onda de seu prestígio ante as massas.
O General Mourão logo de início não se deu conta de que, conquanto ele fosse general e Bolsonaro capitão, este era Presidente. Mourão quis ajudar, mostrar seu potencial  de , na falta do Presidente, ser o homem certo para continuar no leme do barco. Acontece que isso não pegou bem, começaram as críticas e Mourão fez o certo. Diminui as aparições públicas. 
O nosso ministro Guedes é de pavio curto o que às vezes é bom. É muito preparado para a área, não estava precisando desse cargo para viver, ao contrário, está deixando de ganhar dinheiro. Muitas de suas posições causam certo temor, mas creio que o navio está no rumo certo. Por vezes me pareceu que ia chutar o balde, mas deve ter tido bons conselheiros que o dissuadiram. Posso estar errado mas o caminho para o bem estar de um povo não passa pelo coitadismo, por medidas populistas e por óbices à livre iniciativa.
No que tange ao Presidente, vamos ter que rezar para que seus excessos verbais não causem uma situação de irreversibilidade, se é que me entendem. 
Bolsonaro saiu das praias do Rio, mas a espontaneidade da maioria dos cariocas não saiu dele

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

A BELA AMPARO


Hoje, sem nenhum preconceito, vou contar um episódio de que tomei conhecimento há muitos anos.  É sobre um costume, que creio hoje desaparecido, que alguns homens da campanha tinham: “ter uma  protegida”. É um caso de amor “brujo” e enfumaçado, amalgamado com paixões carnais inconfessáveis.
Os fatos se deram também na região  da campanha gaúcha. A vida fluía sem muitas novidades .Vou descrever o que vi e ouvi, mas “por la leche de mi madre” juro que eu nunca fui dessas práticas, muito menos frequentar a “ zona”, pois minha mãe Ludmila,  me advertia severamente a não  frequentar esses lupanares, brandindo seu dedo em riste e me alertando  para as sífilis, gonorréias e outras coisas que poderiam me acontecer. 
Nessa cidade a que me refiro, havia um, como se diz hoje, operador do direito, que era meio feio, mas possuía muita “plata”. Tinha família constituída, ia com esposa e filhos para a santa missa, mas era um predador voraz das delícias do amor clandestino. 
O ínclito dr. Hermenegildo , chamemo-lo assim,  era respeitado e até admirado. Mas tinha um “fraco” por jovens mulheres. É que, segundo “pérfidos” costumes da época, era tolerada a “proteção” a uma mocinha, desde que isso não implicasse desrespeitar publicamente a esposa “legítima”. Até se ouvia: “ normal, coisa de homem”.
O dr. Hermenegildo, no entanto, tinha um mau costume para os preceitos consuetudinários da época. Não se contentava só nos meneios e práticas, mas se apaixonava. Alugava uma casinha, montava um instituto de beleza, como era usual. Todavia, depois de certo tempo, se “desapaixonava” e resolvia as coisas em perdas e danos.
Certo dia desembarcou, vinda de Rivera, uma morocha de fechar o trânsito. Aparecia nos cafés e restaurantes, vendendo “alfajores” que ela mesma fazia na casa de uma tia que morava lá perto dos trilhos. Arrastava olhares lascivos. Amparo era seu nome. Linda como laranja de amostra.
O dr. Hermenegildo a viu passando pela rua principal e a abordou. A moça não lhe deu atenção, fez um muxoxo e seguiu com o balaio de doces. Tipo da guria para constituir família.  Hermenegildo não se sofreu e concluiu que ia fazer uma proposta para Amparo. Dar-lhe-ia uma casa, mais uma quadra de campo e celebraria com ela um “contrato de bom viver”, quem sabe ter um filho .
Decidiu relatar sua decisão a um compadre. O amigo lhe disse que parasse com isso, que lhe indicaria uma moça cancheira,  recém  chegada na zona e  louca de querendona, como ele mesmo constatara.
Qual é o nome dela, perguntou Hermenegildo?
Amparo, retrucou o amigo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

NA CASA DA PAMPA DA EXPOINTER ENCONTRANDO AMIGOS

Com o Prefeito de Santiago Tiago Gorski Lacerda, mais os vereadores Marcelo Gorski, Dionathan Farias , Joel Oliveira e Maristela Genro Gessinger.
Com Rogério Mendelski e César Pacheco


terça-feira, 27 de agosto de 2019

DIREITOS SIM, DEVERES NEM TANTO - POR TITO GUARNIERE






Ninguém precisa lembrar dos nossos direitos: 
temos a mais completa noção do que eles sejam, do seu significado amplo e 
de como eles nos afetam. Dos nossos deveres, entretanto, temos um vago sentimento, 
e deles frequentemente nos esquecemos - embora estejamos sempre prontos para cobrá-los 
dos outros.
É fácil explicar a opção preferencial pelos direitos: eles nos beneficiam, dizem respeito ao que nos é mais caro e conveniente, do que melhor nos serve e é confortável. A consciência de nossos direitos, a plenitude de sua vigência nos faz cidadãos. Os direitos são, no seu patamar mais elevado, portanto, uma questão de cidadania.
Mas definitivamente não atribuímos aos nossos deveres o mesmo valor e peso. Os deveres não estão inseridos - não no mesmo patamar - na consciência coletiva dos brasileiros, no conceito de cidadania. Nunca pensamos neles - os deveres – como a outra face dos nossos direitos. Nesse desbalanço e descompasso está parte substancial do atraso, da leseira conformista que nos paralisa e não nos permite sair do lugar.
Como diz Luis Felipe Condé, "ter direitos não molda caráter, cumprir deveres, sim. Um dos estragos do mundo contemporâneo é essa histeria por direitos em toda parte". Uma cultura de direitos não molda o caráter do indivíduo e menos ainda da nação.
Não é à toa que a Constituição Federal de 1988 usa a expressão "direito(s)" 76 vezes. Quanto aos deveres do cidadão, a Carta menciona apenas dois: o de se alistar e votar nas eleições e o serviço militar obrigatório. As demais citações de dever(es) dizem respeito à família, sociedade e Estado, como em "a saúde é direito de todos e dever do Estado".
Um amigo bolsonarista (sim, tenho amigos bolsonaristas - não muitos, mas tenho) dizia, antes da eleição, que votaria no capitão porque ele era militar. Segundo ele, a caserna é um lugar onde se aprende a disciplina, a ética da obrigação e do trabalho, uma compulsão para o dever. Meu amigo reconhecia em Bolsonaro um certo primarismo, mas achava que ele, por causa da formação militar, impulsionaria, de uma posição estratégica (a presidência), um novo reequilíbrio entre direitos e deveres, inserindo com vigor na vida nacional, a noção de responsabilidade.
Doce ilusão, ledo engano. Bolsonaro se elegeu contra a velha política, mas era e é um político. E político gosta de falar de direitos, não de deveres. Fala o que o povo quer ouvir.
Bolsonaro ensaiou alguns passos tímidos nesse caminho, ao contar que começou a trabalhar cedo, antes dos 10 anos. Poderia ser um bom começo para introduzir um debate sobre o tema: infundir desde cedo na criança, no adolescente, a noção de responsabilidade do cidadão, os seus deveres para com a sociedade, a obrigação de trabalhar e produzir.
Mas foi apenas um breve pitaco, tão ao gosto do presidente: ele logo recuou, talvez porque os seus opositores acusaram-no de defender (injustamente, diga-se) o trabalho infantil "tout court", sem limites.
Não há sinais de mudança. Vamos continuar assim, proclamando nossos direitos e quanto aos deveres, só os dos outros. Vamos continuar na leseira geral.
titoguarniere@terra.com.br





sexta-feira, 23 de agosto de 2019

MENSAGEM DA ESCRITORA LISSI BENDER


Ruy querido, o crescimento urbano de Santa Cruz se alastra vertiginosamente pela Linha João Alves e pela linha Santa Cruz. Na minha infância eu trilhava por uma estrada estreita e pedregosa até a escola. Levava quase uma hora, muitas vezes de pés descalços. Quando saí da |Wilde Heimat, estudei na Federal de Santa Maria, estudei em Belo Horizonte, lecionei na Puc de Pelotas, fiz outra graduação e pós-graduação na Unisinos, .... . Quando voltei à Wilde Heimat, para cuidar do pedacinho de terra que meus pais me legaram, ainda havia estrada de chão, mas de lá para cá a ocupação vem devastando árvores, extinguindo espaços naturais das vidas silvestres. Outro dia li que somente em Linha Santa Cruz vivem quase 7 mil almas. A prefeitura está facilitando a ocupação. Ampliaram a área urbana. Até agora somente os 100 metros iniciais da minha Wilde Heimat eram urbanos, o restante dos 5 hectares, rurais. Pois agora o governo municipal decretou como área urbana, todos os meus 5 hectares. Qual será a consequência disso? A partir de agora haverá um substancial aumento de impostos sobre este espaço, imposto territorial urbano. O que isto provocará? Vinda de mais pessoas para cá. Temo dificuldade crescente para manter meu pequeno espaço que considerava intocável e protegido enquanto eu estivesse viva. Temo que chegará o momento em que não mais poderei proteger a floresta, as vidas silvestres que aqui vivem livres desde que me conheço por gente.  Isto me angustia.  

MENSAGEM DE LAIS LEGG, PSIQUIATRA, COMUNICADORA

Não precisa ter nascido no interior para sentir o que os amigos relataram. Eu nasci aqui em Porto Alegre, mais precisamente na rua Vicente da Fontoura. Nossa casa era um sobrado, com cinco dormitórios e um terraço, de onde, pasmem, enxergávamos os guindastes do cais do porto. Não havia edifício algum bloqueando a vista.
 
Na esquina seguinte, na rua Santana, havia uma enorme chácara, a chácara dos Amodeo. Lembro muito bem que ela ficava abaixo do nível da rua e lembro das plantações de alface e hortaliças que todos que moravam no entorno compravam. Adiante, havia um enorme casarão (dos Pilla), que ocupava quase todo o quarteirão. Lembro bem dos portões de ferro da casa.
 
Um dia, saudosa das belas lembranças da infância, bati naquela casa onde nasci e, sem pudor algum, pedi para entrar. E a dona permitiu meu ingresso naquele lugar que, em minhas memórias, era o sítio do pica-pau amarelo. Na minha mente, o quintal era enorme e com três níveis. Ledo engano... eu é que era pequena! A casa ainda está lá, não é enorme como eu recordava e o quintal menos ainda.
 
Resumindo: a chácara dos Amodeo virou a Clínica Pinel, o casarão dos Pilla foi abaixo e deu lugar a uma série de pequenos prédios de três andares e nada mais naquela rua lembra a minha infância feliz. Aconselho a todos a deixar a infância onde ele sempre deve ficar, ou seja, na memória.
Abraços,
Laís

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

TEMPO E MUTAÇÕES - COMENTÁRIOS DE PREVIDI, ROGOWSKI , AGRA E IVANHOE

JOSÉ LUIZ PREVIDI

Ruy e amigos,
Todos os que tem ou tiveram parentes no interior do interior se apavoram ao voltar depois de um tempo.
Eu sabia que a casa de minha avó paterna, Caterina, tinha sido demolida e boa parte da área tinha sido vendida. Mas não imaginava a mudança que tinha acontecido. A casa dela ficava no final da Rua dos Prévidi e até chegar lá haviam casas dos filhos, dos dois lados. Bairro Bonsucesso.
Pra mim, sempre foi área rural.
Depois que ela morreu - e eu acompanhei sua agonia - não tinha mais voltado. Meu Deus, irreconhecível! Só mansões cercavam as casas dos Prévidi. Não me localizei mais. Um negócio muito estranho.
Estive lá em 2015 visitando tias e tios.
Mas não é mais a mesma coisa.
Tudo se foi com a minha infância, onde pegava os ovos das galinhas no ninho, com a autorização da Nona... Andava de charrete com ela e muito futebol com os primos.
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Querido amigo.


As Regras da Sensatez

Rui Veloso
Nunca voltes ao lugar


Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz
Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão
Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez
Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade
Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta nós
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez


Com apreço..Ivanhoé.
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J.F ROGOWSKI

Saudações amigo Ruy e demais confrades!
O sentimento que te assola, ou assombra  o espírito, é comum há muitas pessoas devido às transformações das cidades, entidades vivas que são, nascem, crescem e declinam.
Este ano anda redigi o argumento para vídeo promocional de comercialização de áreas urbanas, dizendo:

"Cidades são entidades vivas e é possível que uma cidade comece a mostrar sinais de idade e decair com o tempo. A despeito de  quão grande ou antiga seja uma cidade, e não importa onde esteja localizada, ela ainda precisa que as pessoas sobrevivam e prosperem.Projetos de renovação urbana, desenvolvimento e revitalização são cruciais para o sucesso da cidade porque estimula a economia, aumenta os valores de propriedade, incute um senso de orgulho cívico, reduz o crime, desenvolve negócios no presente e atrai novos no futuro."

Me criei na zona sul de Porto Alegre comendo peras que eu colhia na hora, bem onde ficava o cinturão agrícola da cidade com muitas chácaras que produziam hortifrutigranjeiros, com destaque para o pêssego, que ensejava a anual e tradicional Festa do Pêssego no bairro Vila Nova.
As chácaras foram desaparecendo dando lugar a aglomerados urbanos, entre loteamentos e luxuosos condomínios fechados, algumas vilas problemáticas,  não sei ainda existe um único pé de pêssego plantado.
Como disse o poeta:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
....
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
....
Casimiro de Abreu


Abraços.

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SÉRGIO AGRA
Caro Ruy. Irmanamo-nos neste mesmo sentimento, descrito na crônica MUITO ALÉM DA ALMA, que te enviei há algumas semanas.

Eu, com Taquari, e tu com Santa Cruz do Sul, cidade que tenho gratas recordações das férias na companhia de Homero Neto de Cunha e Agra, hoje médico e diretor da Unieim, aí mesmo, na majestática Santa Cruz. Quando lancei meu pequeno romance, Mar da Serenidade, fiz uma sessão de autógrafos na livraria e cafeteria onde fora o Colégio Mauá.

Meu tio, Victor Agra, funcionário do Banco do Brasil e meu incentivador nas ousadias lierárias, assinou durante muitos anos a coluna Notas Dissonantes, na Gazeta do Sul.

Os bailes do Corinthians, com a orquestra Cassino e o então lançamento da Souza Cruz, brinde oferecido à entrada do baile: um maço de Jean Nicot, que liquidei entre a npote do sábado e a tarde do domingo. Saudações.

Sergio