quinta-feira, 26 de março de 2026

LIRA DOS TRINTA ANOS

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RUDOLF GENRO GESSINGER


        Escrevi algumas vezes sobre o tempo e como o vejo passar. Já me disseram que chegaria um dia em que eu me olharia no espelho impressionado com os sinais que a vida deixou no meu semblante.

        No meu aniversário de trinta anos, o espelho não me contou nada que eu não soubesse. Como uma pessoa intensa, vejo que cheguei até aqui forte e emparelhando juventude com experiência.

         Como aprendi a descansar, durmo principalmente para sonhar.

       Desde que me conheço por gente, gosto de alimentar minha imaginação olhando para as estrelas, para as nuvens e para o pôr do sol, meu momento favorito do dia. Nos dias em que as responsabilidades mais apertam, encontro soluções no que o céu me mostra.  

          Noto que já me estressei demais em ser prevenido e, mesmo assim, levei algumas pauladas da vida: essas me apresentaram meus limites e o quanto é importante respeitá-los. Atalhei muitos caminhos por observar onde os outros erraram.

          Tive grandes conselheiros desde piá. Com eles aprendi que um cachorro se torna teu amigo depois de ganhar carinho atrás das orelhas e que as pessoas ruins sabem criar sorrisos lindos.

          Em algum rincão nas profundezas do meu peito, se esconde quieto o educado guri que fui: tímido, mas artístico; desajeitado, mas estudioso; bagual, mas sensível; alegre, mas solitário.

          Entretanto, minha essência floresceu depois que descobri como é maravilhoso ter amizades. Conservo meus amigos como minha maior fortuna e qualquer desculpa vira motivo para estar com eles.

        Com as pessoas que levo comigo, aprendi que os sonhos servem para encostarmos neles com a mão. Sempre houve quem me lembrasse, nos momentos certos, de onde eu queria chegar.

          Incentivo e carinho dos que me são próximos foram decisivos para minhas conquistas, pois, por melhor que eu seja, jamais terei somente em mim toda a força de que preciso.  

          Sendo a amizade uma via de mão dupla, busco acompanhar o que acontece na vida dos meus e participar efetivamente das lutas deles. Minha felicidade também está em vê-los conquistando os seus objetivos.

          O que não consigo esconder é a sinceridade crua dos meus olhos: eles produzem o reflexo mais fiel da minha alma. Quem me conhece bem – ou quem entende de fisionomia – traduz o que eu penso ao medir o meu olhar.

          Quem sabe meu jeito de ver o mundo siga me ensinando sobre mim e sobre as outras pessoas na nova década que se abriu na minha vida. Quando eu completar quarenta anos, espero que eu me olhe no espelho e ainda acredite que os sonhos não envelhecem.


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O QUE TE FAZ VOLTAR

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RUDOLF GENRO GESSINGER

Muitas vezes, o tempo que nos sobra para irmos para onde queremos estar é o período de férias. Um mês que justifica outros onze de privações que as obrigações cotidianas nos impõem.

O calorão de janeiro corre de casa quem mora em Porto Alegre ou em sua região metropolitana, especialmente, para o litoral norte do Rio Grande do Sul.

        Maioria dos meus verões foram por lá. Muito por (fuga da) rotina, eu andava de bicicleta a tarde inteira e por isso conheço todas as ruas de Xangri-lá, do Remanso a Atlântida.

         Hoje em dia, o que me faz voltar para Xangri-lá são os momentos de convívio com meus pais. Na última vez em que estive lá, não fui nenhuma vez para a beira da praia.

        Com as prioridades que tenho atualmente, faz mais sentido para mim reservar esses raros dias para ficar dentro de casa conversando, assando carne e bicando uma cerveja.

        No verão de 2013, eu ia todas as noites para o centrinho de Atlântida agitar com minha gurizada. A passagem desses anos transformou tanto a versão de mim que ia até lá quanto a disposição física do local que eu frequentava.

        Pessoas marcam, memórias ficam, mas a força do tempo acomoda todas as coisas no lugar onde pertencem.

Como bem ensinou Heráclito, nenhum homem se banha no mesmo rio duas vezes, pois nem o homem nem o rio são os mesmos.

        Recentemente, viajei novamente para o Uruguai depois de um ano. Nesse período, me pareceu nítido o progresso do nosso país vizinho, principalmente pelas obras públicas, que ficam prontas de um ano para o outro.

        A percepção do andamento diferente das coisas é um dos aspectos que identifica e enriquece a experiência de viajar. Estarmos em desaceleração nos permite aproveitar melhor um lugar.

        Particularmente, procuro me hospedar onde eu não perca mais do que meia hora me deslocando. Faz tempo que prefiro o Airbnb ao hotel.

Em bares e restaurantes, a qualidade do atendimento é o fator mais decisivo para fidelizar um cliente. Em menor medida, produtos ofertados, localização e ambiente do estabelecimento também são importantes, no meu entender.

As avaliações recentes no Google são um parâmetro confiável para saber se vale a pena voltar a um lugar.

Lugares artísticos e culturais como a Casapueblo, em Punta del Este, não mudam e, no entanto, não envelhecem: fui pela quarta vez e voltarei quando tiver oportunidade.

Assim como nós, os lugares também mudam e, na necessidade de se reinventar, a essência tanto pode ficar pelo caminho como se fortalecer para criar identidade e pertencimento.