terça-feira, 16 de novembro de 2021

SOBRE MORO

TITO GUARNIERE 

 

O CANDIDATO MORO 

 

Quando o ex-juiz Sérgio Moro se tornou conhecido, parecia se tratar de um magistrado jovem e corajoso, capaz de enfrentar as chicanas dos réus de crimes de colarinho branco e, quando fosse o caso, de botá-los no lugar devido, isto é, na cadeia. 

 

Nunca me deixei contagiar de entusiasmo. Sempre me incomodaram os discursos moralistas e as propensões meramente punitivistas que, desde a velha UDN, pretendem reduzir os problemas do país apenas à corrupção. Seria bom que fosse só esse o nosso gargalo, mas eles vão muito além e são muito mais complexos. 

 

Exige muito mais esforço e continuidade no tempo, por exemplo, a realização de um projeto nacional de educação, um projeto consistente de aumentar a produção dos bens e da riqueza. É muito fácil lançar mão ao dinheiro do tesouro e distribuí-lo à população mais carente. Tão fácil que Lula e Bolsonaro, embora pareçam tão antagônicos, fizeram a mesma coisa, chame-se o programa de Bolsa Família ou de Auxílio Brasil. 

 

Mas o discurso moralista sempre foi atraente – por mania e desaviso – e sempre mobilizou certas faixas da população. Collor, Lula e Bolsonaro são exemplos notórios da adesão em massa ao facilitário. 

 

Mas vá lá. A corrupção não é o nosso maior problema, mas é uma chaga moral que precisa ser extirpada. Não há porque não apoiar e aplaudir quem toma a bandeira a si e a desfralda – como Moro. 

 

Encorajado pela adesão entusiasmada das massas moralistas, que estavam em todos os lugares, na imprensa, na sociedade civil, Moro, se tornou um herói. E infeliz é o país que precisa de heróis (Brecht). 

 

Daí a misturar os fins e os meios foi um passo. E lá estava ele, o agora salvador da pátria, dando toda a máquina para atrelar a condenação de Lula, – que o tiraria do pleito de 2018  ao calendário eleitoral. 

 

Até aí tudo ao menos era discutível. Teria de verdade acelerado o processo de Lula para tirá-lo da disputa presidencial? Que ele o fez, eu não tenho dúvidas. Mas sempre poderia ser apenas uma narrativa. 

 

A máscara caiu quando aceitou o cargo de ministro da Justiça. Não se deu conta de que ia pegar mal afastar da disputa o principal contendor de Bolsonaro, e depois servir ao seu governo. 

 

Moro imaginou que no Ministério seria como em Curitiba, onde ele fazia e desfazia, sozinho, no papel do juiz do feito. Iria, portanto, dar as cartas e jogar de mão, propondo medidas, combatendo a criminalidade. Depois, era só correr para o abraço da consagração pública. Foi um fiasco. Tudo o que ele conseguiu foi assumir como seus os méritos que já vinham do governo anterior de Temer, de redução das estatísticas criminais. 

 

Após uma sequência de derrotas no Congresso – ele não tem a menor ideia como funciona o Legislativo – e de humilhações sofridas no interior do governo, pela falta de traquejo, de educação e de lealdade do chefe, pediu as contas e saiu. 

 

Volta agora como candidato. Não terá vida fácil pela frente, por causa dos erros graves que cometeu. Não é à toa que os seus índices de rejeição, nas pesquisas, são praticamente iguais aos de Bolsonaro. Ele vai ter de superá-los – um enorme desafio, dado o seu limite, o seu despreparo. 

 

titoguarniere@outlook.com 

twitter: @TittoGuarnieree 

 

 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

PRECISO DE UM PERÍODO SABÁTICO

 Todos meus filhos têm curso superior nas mais renomadas Universidades do Rio Grande do Sul. Por sinal uma das filhas é Juíza de Direito. 

Tive um casamento que se dissolveu harmonicamente, sem nenhum problema. Fiquei  anos morando sozinho, mas sempre com os filhos na minha volta.

Conforme referi em uma crônica e em um dos meus livros, eu tinha resolvido não convolar novas núpcias. Estava bem assim.

Certa noite, lá pelas 21 horas, eu já estava deitado, era muito frio. Toca o telefone e um querido colega meu, Luiz Bastos Soares, também juiz, me intimou para ir até o Rose Place, em Porto Alegre, um “point” finamente frequentado.

Eu morava em São Leopoldo, mas fui. Sentamo-nos numa mesinha, os dois apreciando as lindas moças que por aí estavam. Eis que surge uma colega juíza, com seu namorado, mais duas outras moças sozinhas. Glênio e eu fomos convidados pela colega para nos sentarmos com elas. 

Uma loirinha, me atraiu imediatamente. Tocou o “unforgettable”, convidei-a para dançar. Ela se chamava Maristela Genro, natural de Santiago,  formada pela Unisinos em Direito, com pós na Escola da Magistratura e era concursada pelo TJRS, exercendo as funções de Assessora de Desembargador. Seus pais  eram de tradicional família campeira.

Maristela era solteira e fui me apresentar à família dela em Santiago.

Já há tformado em Direito pela PUC, advogado. Passei meu escritório em P. Alegre, no Edifício Tribuno, a ele. Rudolf se criou no meio da pecuária. Também deixei para ele administrar a fazenda. 

Maristela se aposentou.

Sou muito grato a ela porque se adequou muito aos meus costumes e convicções. Logo que fomos morar juntos levei-a a Santa Cruz para conhecer minha mãe, minhas irmãs e meus sobrinhos. Minha mãe se apaixonou por ela imediatamente. Na volta, na estrada, Maristela me disse: “como achei lindo tu falando em alemão com tua mãe. Amanhã vou me  matricular no Goethe Institut e vou em breve falar em alemão com ela.”

Pois não é que ela até entende bem o básico? Em casa, sempre que posso, peço em alemão as coisas para ela.

Agora ela e eu pensamos em ficar mais soltos, jogando tênis, não tendo mais horários, viajando um pouco. Vou precisar de um período sabático para deixar o tempo fluir calmamente, sem maiores compromissos, sem horários, mas com leves meditações.

Tenho nítida impressão de que meus artigos fugiram, nos últimos tempos, de questões mais relevantes. 

Vou, portanto, me dar um tempo, para recarregar as baterias.


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

QUANDO ESCREVO - RUDOLF GENRO GESSINGER

QUANDO ESCREVO


Normalmente acontece no intervalo entre duas tarefas. 


Às vezes no final de uma que quanto mais perto de terminar, mais demora.


Alguma coisa em certos dias é sorteada para ser interrompida.


Uma sensação que vem como um convite pra me desconectar do que for.


Do que estiver me prendendo.


Chega sutil, tateando o foco da minha atenção.


Como alguém que assopra suavemente o ouvido de uma pessoa bem próxima.


Mas, sem dizer nada, se afasta devagar e na ponta dos pés.


Começo a caminhar errático. Bagunço meu apartamento com uma facilidade incrível!


Já é madrugada de terça para quarta-feira e algumas coisas... já poderiam estar prontas.


Algumas semanas são iguais aos anos no Brasil: só começam mesmo depois do carnaval.


Hoje não vou encontrar solução pra mais nada.


Nem vou parar para escrever: fica bom o que eu escrevo troteando. 


Quando viajo também. Escuto música, que, junto com a paisagem, me alisam as ideias. 


A que não estiver pronta puxo pelo rabo. Gravo áudios que depois escuto, lapido e passo a limpo. 


No próprio celular ou numa folha de papel, só depois de pronto que meu texto vira um alvará para ter uma boa noite de sono.


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O QUE QUERES COMER?

 “ Was willst Du essen?”.

Essa era a primeira coisa que minha mãe dizia quando eu chegava de visita, qualquer que fosse o horário: o que queres comer?

Depois que saí de Santa Cruz aos 17 anos, procurava visitar meus pais ao menos uma  vez por mês. 

Saía sábado cedo, ficava todo tempo na casa paterna e retornava depois do meio-dia aos domingos.

Aos 21 anos consegui comprar um DKW usado.

Mais tarde, ao assumir o cargo de Juiz de Direito em Horizontina, as visitas ficaram mais espaçadas.

Por vezes chegava estafado, empoeirado, mareado,ansioso por um banho e uma cerveja no bico mesmo. Não adiantava. Eu era obrigado a comer alguma coisa: cuca, sonho, torresmo, torta, ovo frito, linguiça, resto de galinhada, enfim: era extenso o cardápio da mãe superprotetora daquele tempo. Só depois de ser bem alimentado ela contava as novidades. Meu pai aproveitava o ensejo para abrir uma cerveja, o que fazia minha mãe franzir as sobrancelhas. 

Ela era de compleição mais forte que meu pai e para ela  mulher bonita era aquela quase gordinha. Associava a magreza com falta de alimentação.

Quando eu ia embora minha mãe lacrimejava e seus olhos ficavam ainda mais azuis. 

Com o tempo comecei a ligar as coisas. 

Ao ser convidado por  amigos para almoçar, muitas vezes ouvi a seguinte frase: “ Ruy, vem na nossa casa domingo ao meio dia, vai ter muita carne, bastante comida!”

Não me importava se a carne era quase crua ou queimada.  Fui entender, na minha juventude, o valor que tem a comunhão, comer juntos. Só bem depois me flagrei que a comunhão com amigos vale muito mais que o próprio alimento.

Certo dia, estando  na Itália, embarquei num trem. Algumas estações depois entrou um senhor já de alguma idade e sentou ao meu lado. Pouco depois abriu um farnel dentro do qual estava um garrafão de vinho e um baita pão caseiro. Colocou isso sobre os joelhos, partiu um pedaço de pão com as mãos, e me alcançou  dizendo : “ mangia che  te fa bene” ( come que vai te fazer bem). Em seguida abocanhou outro pedaço para si. Após mastigar pegou o garrafão de vinho e tomou um sorvo seguido de um arroto de satisfação e prontamente me alcançou a  bebida. Aceitei com alegria. Só então me perguntou se eu era” tedesco” ( alemão). Não queria acreditar que eu era brasileiro.

Mostrei-lhe meu passaporte. Aí sim, o italiano se abriu num largo sorriso. Levantou-se do assento e fez um arremedo de dança: Pelé, carnaval, mulheres lindas.

Naquele tempo o Brasil era idolatrado pelo mundo inteiro.

Eu disse: “ in illo tempore”.  

Agora, não saberia dizer...


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

FENÔMENO NO LITORAL NORTE 2

Por vezes me pergunto: por que os humanos gostam demais de se agrupar? Porque a vida fica mais segura e cômoda? Mas por que em cidades com milhões e milhões de pessoas?

E aí minhas lembranças vão para dezenas de anos atrás. Entrava-se num  Banco e encontrava-se centenas de pessoas datilografando, outras com maquininhas Facit fazendo cálculos, no balcão os atendentes e assim ia. Hoje uma só pessoa faz todo esse serviço. Há anos que não entro num banco.

Por que a pessoa vai ao seu escritório se não tem encontro com ninguém e a sua própria casa tem todo o aparato para sua espécie de trabalho?

Um juiz precisa ir ao fórum para elaborar sua sentença?

Vamos agora pensar na pessoa que se aposentou e mora numa megalópole. De sua  janela vislumbra como paisagem a parede do vizinho. Penso que se essa pessoa puder, deve vender aquela moradia e ir morar numa cidade pequena. Não há porque ficar nesse emaranhado que é a megacidade.

No caso de Capão da Canoa e Xangri-Lá devo admitir que não possuem paisagens tão lindas como algumas praias de Santa Catarina. Ocorre, todavia, que você sai de Porto Alegre e menos de duas horas depois está na praia. Não há superlotação, o ar é puro e o seu melhor vinho você encontra em qualquer supermercado.

Antigamente se adquiria  um freezer enorme e se trazia víveres para a orla. Hoje há  tudo o que você quiser, com a melhor qualidade.

Há alguns anos não havia consultórios médicos ou odontológicos  em Xangri-Lá. Hoje há inúmeros. O sistema de saúde funciona muito bem.

Perto da minha casa  havia um buraco grande na rua. O que fiz? Liguei para o nosso prefeito “Celsinho” e horas depois estava solucionado o problema .

Creio que em breves anos o trabalho remoto vai imperar. 

Preocupa-me, todavia, o desaparecimento de muitos empregos que hoje perderam sua razão de ser. Minha mulher, por exemplo, compra muita coisa pela internet sem precisar de atendentes. No caso do Mercado Livre o produto chega pontualmente à tua casa.

Penso que o Estado tem que dar mais ênfase  às escolas técnicas em que o aluno saia com um emprego garantido. 

Para finalizar: meus ternos e minhas gravatas estão mofando nos armários do nosso apartamento em Porto Alegre. Os sapatos, outrora reluzentes e de marca, jazem numa prateleira, pois perderam seu lugar para os tênis. As calças tiveram que dar lugar aos os moletons.

E mais: camisetas, calções, jeans que me apertavam,  agora voltaram triunfantes,  sem academia nem nada, pois os  jogos de tênis e as caminhadas fizeram seu trabalho. 

É  como se diz em Santiago: “tá ruim, mas tá bom”.


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

FENÔMENO NO LITORAL NORTE 1

 Tive quatro casas em Xangri-lá. Há trinta  anos comprei uma simples, mas bem localizada. Fui melhorando e trocando de imóveis até ficar com a atual, que fica “ sobre el mar” como dizem os argentinos.

Até uns vinte anos atrás eu gostava muito de aparecer na primavera e, é claro, no verão. Às vezes vinha no outono e no inverno. A praia ficava vazia mesmo, na verdadeira acepção da palavra. Os vizinhos não vinham porque tinham medo. Havia um ou dois supermercados.De vez em quando se ouvia falar em arrombamentos. De minha parte eu me cuidava e sempre tinha a bela companhia da “ Frau Glock”, com dois carregadores.

O receio de muitos  deu azo ao surgimento dos condomínios fechados. 

Começaram a florescer com eles mais supermercados, casas de ferragem, enfim uma série de  casas comerciais. Várias firmas de vigilância se criaram.

Hoje, entre Capão da Canoa e Xangri-lá, há condomínios que sozinhos têm mais casas do que alguns pequenos municípios do interior. 

Esses condomínios, em sua maioria, têm quadras de esportes de todos os tipos. A maioria das casas têm piscinas.

Pronto: alguém tem que zelar pelas piscinas, as quadras de tênis, os jardins.

Começaram a surgir trabalhadores que antes não tinham muito serviço. Alguns começaram colocando em seus carros usados cortadores de grama e passaram a ganhar dinheiro. Surgiram pedreiros, pintores, eletricistas, encanadores, faxineiras.

Com a pandemia foi aquela diáspora para as praias. Muita gente, inclusive eu, fechamos as casas ou apartamentos  , e fomos nos acostumando com a nova vida na praia. Vizinhos se aproximaram mais, formando grupos de whatsapp.

Era costume de muitos, anteriormente à pandemia, levar móveis usados para a orla. Enfim :as casas de alguns eram um lugar de descarte. 

Foram aparecendo lareiras e modernos aparelhos de ar condicionado e a mão de obra especializada veio atrás. 

Hoje Xangri Lá é um canteiro , tanto de obras, como de reformas. 

Mas aconteceu algo muito interessante. Exemplo: eu conhecia um rapaz que era zelador  de imóveis e que , nas horas vagas, limpava piscinas e fazia pequenos consertos. Era um “ faz tudo”. Com a pandemia ele largou a zeladoria e passou a fazer  reformas em casas. Meses depois comprou uma caminhonete usada para carregar as ferramentas, sacos de cimento, etc. .Em  seguida contratou um auxiliar, adquiriu ferramentas mais modernas, contratou mais gente e passou a construir casas.

Ele nem cursou o fundamental completo e me confidenciou que tira limpo “ uma grana” muito boa por mês. Está com a agenda completa até o fim do ano.

( continua)


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

SOBRE COMPOSTURA

 Não que eu queira que sejamos casmurros ou pouco sociáveis.

É que me recordo dos meus tempos de guri e, ante uma traquinagem, meu falecido pai me dizia: “stell dich nicht dumm an” , em tradução livre: “não te comportes mal”.

A todo tempo meus pais me advertiam com “pensa bem antes de falar”. Professores meus eram severos com as concordâncias e os vícios de linguagem.

Esses dias, ao ligar a TV, me estarreci ao ouvir dois políticos vociferando, um chamando o outro de ladrão, canalha e outros epítetos desagradáveis.

Eu muito admirava o então juiz de direito Alfredo Zimmer. Ele morava perto de nossa casa. Eu, com 15 anos de idade, era amigo da filha dele. Fui convidado para a festa de seu  aniversário de 15 anos . O Dr. Zimmer me perguntou o que eu queria ser quando fosse adulto. Respondi que queria ser como ele, um juiz.

Quando passei no concurso para a magistratura, aos 26 anos, encontrei-me com o  já Desembargador Zimmer, que me parabenizou e me deu vários conselhos.

Disse-me ele: agora tu vais para uma cidadezinha do interior e serás observado por toda a população. Procura não consumir bebida alcoólica em público. Caso sem querer virares o copo hão de dizer que és um ébrio contumaz. Dá tratamento de “senhor “ e “senhora” para todos, inclusive para jovens. Procura ser absolutamente pontual para as audiências. Não te olvides de te arrumar com as vestes que a circunstância exige. Jamais comentes em público sobre ações em curso. De maneira alguma aceites presentes.

Valiosos conselhos.

Gostaria de sublinhar algo que me incomoda. Alguns pais se descuram de dar educação a seus filhos. Alguns nem conversam muito com eles, tudo pela esfarrapada desculpa de que não tem tempo. Isso me soa como  irresponsabilidade grave e falta de amor. Me convenci, durante minha vida, que não ter tempo, inclusive conversar com filhos, vai redundar como sendo a  rua  a “professora” dos adolescentes.

Antigos filósofos cunharam uma frase que merece reflexão: “non omne quod licet, honestum est”. Vale dizer: “nem tudo que é lícito é honesto”. O mundo inteiro, um pouco mais, um pouco menos, conhece esse adágio. 

Recentemente se descobriu que um cuidador dos dinheiros da nação também usufruía de benesses em paraísos fiscais. Não sou da área, mas algo me diz que não é atitude correta jogar de centroavante e, ao mesmo tempo, apitar a partida.

Essa matéria foi bem esmiuçada em artigo recente, na Gazeta do Sul, pelo excelente articulista Dr. Astor Wartchow.

Existe a possibilidade de haver conflito de interesses no caso?


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O RIO SEMPRE FOI LINDO, MAS...

 Se não me engano foi em 1967 , quando cursava Direito na UFRGS em Porto Alegre, vi no jornal a notícia de que sairia uma excursão para assistir o Internacional jogar contra o Flamengo.

Foi fretado um avião da hoje extinta Sadia e lá me fui. Perdemos de 1x 0, gol de Fio Maravilha.

A partir de então me apaixonei pelo Rio, visitando-o regularmente.

Nos primeiros anos ficava em hotéis de Copacabana. Fiz amizade, que perdura até hoje, com o Edson,dono de uma barraca que fica no Posto 5.

Ali jogava futevôlei com amigos que sempre me convidavam. Depois de um tempo preferi dar caminhadas.

Recentemente optei pela Barra da Tijuca. Tudo muito lindo mas também tudo fica  longe.

Eu não conhecia o Leblon. Como uma amiga dos tempos de faculdade mora no Leblon e sempre me dizia que lá que era gostoso, decidi passar quinze dias hospedado no Hotel  Ritz.

0 Leblon é diferente. Ruas arborizadas, casas antigas mas bem conservadas. É um paraíso gastronômico.

Os garçons são extremamente atenciosos e a culinária realmente rivaliza com os grandes centros mundiais. A comida é excelente, mas nada lá é barato . O Shopping Leblon só tem griffe.

Tudo é perto e quase não se precisa de carro.

Na orla o calçadão é uma beleza. Muito limpo e bem frequentado. Em toda sua extensão há redes para vários esportes ,menos futebol sete ou de campo. E há muitos treinadores dando aulas para crianças e adultos dos dois sexos.

Cedo de madrugada toda orla é limpa. Não se vê sujeira.

Chamou-me a atenção o fato de muita gente caminhar. Crianças,

jovens, gente madura, muitas pessoas de idade. Notei também que são raros os casos de obesidade.  Também pudera, com essa paisagem e esse mar azul dá gosto  caminhar.

Por igual  observei que, ao contrário do que acontece em outros balneários , as pessoas se vestem muito bem, principalmente as mulheres. 

Outro ponto . A idolatria dos moradores pelos cães. Em muitos casos se vêem pessoas passeando com  cachorros de diversos donos, ( ou tutores como hoje muitos dizem). Geralmente são contratados para levar os bichinhos a passear. 

 Por igual pouco se encontram pessoas " em condição de rua". Gostei de almoçar em restaurantes que oferecem mesas ao ar livre. Que beleza ficar num ambiente bem  arejado  desfrutando um belo vinho.

Não presenciei nenhum assalto , nem situações desagradáveis. No Rio há frutas de todos os tipos.. A própria carne é muito gostosa.

Mas ao cabo de duas semanas sempre sinto saudade das nossas coisas: minha casa ,  meu pessoal, meus amigos,  minha cama.

Viajar é bom, mas melhor ainda é voltar para casa.


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

VENDO A MORTE DE PERTO

 Diz a lenda que, de tanto vai o pote à fonte , que um dia se quebra.

O homem é uma criatura incrível. Para tudo, desde o nascimento, tem que aprender desde o início. Leva um tempão para se desenvolver. Até poder se locomover vão anos de aprendizado e desenvolvimento. Incrível como os terneiros nascem numa madrugada de geada e horas depois saem atrás da mãe.

Eu nunca quis falar que quando bois ou vacas passam num lugar onde há pouco morreu um semelhante, se põem a mugir, como se fosse choro. Achei que seria motivo de chacota. 

Nós, como os animais, temos   premonições.

Dito isso, quero relatar o que houve comigo na estrada.

Vamos lembrar que nossa fazenda situa-se em Unistalda, um município com muita área, mas pouca população. Em qualquer fazenda há mais bois e vacas do que pessoas em  toda a cidadezinha. Não consultei o IBGE mas deve ter 3.000 habitantes.

Unistalda  não é pouca coisa. Só a Pecuária Gessinger arrebatou na Expointer, tempos atrás , um grande campeão da raça ideal e três Grandes campeões de Ile de France.

Para chegar à nossa fazenda eu saio de Porto Alegre, vou pela Br 290, dobro à direita para São Sepé, vou a Santa Maria, pego a 287, passo por São Pedro do Sul, São Vicente, Jaguari, chegando em Santiago. De lá , mais 30 kms para Unistalda.

Certo dia acordei cedo, 4 horas da manhã, e iniciei o retorno para Porto Alegre, voltando da fazenda.   Ao passar por São Sepé entrei na 290 e iniciei a rota que me levaria às pontes do Guaíba. 

Numa reta ( lembremo-nos que a pista é simples e não duplicada) vinha, em sentido contrário, uma extensa fila de caminhões e ônibus. Nada à minha frente nem atrás. Num dado momento não é que sai um carro pequeno do meio da extensa fila do outro lado?

Indizível o que senti, pois vinha a 80 quilômetros por hora.  O carrinho a poucos metros de bater de frente na minha SW 4. Em um átimo de segundos, que durou não sei quanto tempo, fiquei triste, muito triste, sabendo que ia morrer. Naqueles segundos me lembrei dos meus familiares e recordo bem que pensei: “ vou morrer”.

Um anjo da guarda  abriu seu caminhão para o acostamento e assim permitiu que o carrinho voltasse para a direita. Da minha parte, tudo em milésimos de segundos, infleti para o acostamento à minha direita. A caminhonete  quis capotar mas consegui dominar a situação.

Parou todo o trânsito e eu ali completamente sem saber o que fazer.

O carrinho não parou e tratou de sair daí.Esperei quase uma hora, encostei num posto e desabei.Chamei meu filho Rudolf que veio me buscar.

A morte tem cara. Eu vi.


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

MENSAGEM TELEPÁTICA DOS MEUS DOIS CAVALOS PREFERIDOS

 Em sonhos recebi essa mensagem.

“E daí, patrão!

 O senhor tem poderes sobrenaturais como, por exemplo, só   olhando para um cara, já  saber se ele gosta ou não do senhor. Acreditamos que  consiga captar nossa mensagem telepática.

Seu Ruy: aqui falam o Poeta  e o Tiaraju. Se lembra quando dez anos atrás o senhor nos comprou? Não levando a mal, o senhor sempre foi baiano né, gaúcho de apartamento como se diz? Nós dois deixávamos o senhor “amuntar” na passarela da mangueira e  ficávamos  frios até o senhor conseguir se enforquilhar e meter o bico das botas nos “estrivos”. Nós sentíamos sua adrenalina, a égua Macaca vivia nos metendo pilha para atirar o senhor fora ,só para ver o barulho do tombo, mas nunca deixamos. Êta égua maleva, coiceira , mal domada.

Depois que o senhor começou a “entordilhar” as melenas, já notamos que se ressentiu dos tombos que levou. Também! quis montar em “culhudo”!

Seu Ruy, hoje tem rodeio grande lá no Seu Aldonino .  Sempre éramos nós dois que íamos .

Faz tempo que o senhor chega na fazenda - e nem as horas para nós, que somos  seus amigos. O senhor, anos atrás, chegava, nos “amanunciava”, falava conosco, nos  enchia de “balda”.  Pois hoje o capataz  encostou o caminhão e sabe quem ele carregou para o rodeio?

Aquele cavalo que o senhor comprou num remate , louco de cheio , meio se olhando de atravessado, eu acho que até haragano  é. Sabe quem ele  carregou das éguas? Aquelas sem fundamento que o senhor comprou na Expointer num remate depois de ter tomado um pouco demais de vinho. Tudo cavalo caro e de apartamento.

O senhor sabe que somos  nós que fazemos as lidas do campo.Nós é que “campereávamos” de sol a sol ; os finórios  e as  frescas só no bem bom. Na hora de entrar no mato, atrás de uma vaca braba, éramos   nós que nos  ralamos nos espinhos. 

Na hora do frio eles dormem dentro das baias e o nosso cobertor é a geada .

Seu Ruy, o senhor não é mais aquele humilde que nós conhecemos, pois vem nessas caminhonetes grandes, já nem usa mais bota e bombacha, mais parece aqueles branquelas da cidade.

O senhor se lembra de quando saiu sozinho com o Tiaraju , se perdeu nos campos e o baio  o trouxe  de volta para as casas?

Se não gosta mais de andar “de a cavalo” conosco , por favor ,nos solte para o campo, mas não nos venda para salame num matadouro. Prometemos que não daremos despesa, até “mio- mio” a gente come, mas nos deixe numa invernada qualquer, na companhia de uma potranca  novinha , que vamos rezar para o senhor ser abençoado pelo  Deus dos bichos.” 


Dedico a quem gosta de animais.


 


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

TEMPOS DIFÍCEIS

 Gostaria de dizer aos que me leem e têm menos de trinta anos que nosso país já foi diferente, muito diferente.

Pai, mãe, avós, tios eram figuras sacrais, de quem nunca se ouviu uma expressão chula. 

Quando eu ia a Boa Vista com meus pais a mesa era um lugar sagrado. Crianças deviam se manter caladas e comer tudo o que era posto no prato. Iniciava-se com uma oração de graças pelo alimento. O primeiro a se servir era meu avô Rudolf Gessinger, depois a avó e após meus tios, pela ordem de idade. De preferência meu avô ficava silencioso e assim se procedia.

Na hora da sesta as crianças tinham que ficar quietinhas.

Palavrão era algo quase desconhecido. Mas quando uma criança o proferia levava uns laçaços no trazeiro  ou na palma das mãos .Nunca levei “ tunda” de meus pais. Xingão sim. E castigo de rezar um terço, ajoelhado ao lado do fogão.

Incrível, caros jovens que me leem, havia um respeito total para com os padres, os pastores, professores,  as religiosas. Naqueles tempos não era costume proferir palavras bagaceiras, como hoje é quase praxe em muitos círculos.

As autoridades eram muito respeitadas. Não me lembro de nenhum episódio, tanto na infância como na juventude, de menoscabo sistemático às autoridades.

O que houve com nosso país?

Muitos alegam que somos um país jovem. Não é desculpa. 

Desde quando se pensaria num deputado boquirroto, num magistrado sem compostura e numa alta autoridade federal que , ante centenas de pessoas, faz brincadeira de péssimo gosto, referindo-se ao governador do nosso Estado.

 Com que influência abjeta  jovens aprenderam a desrespeitar os mestres?

Com que direito sobrenatural alguns caminhoneiros fecham as estradas causando prejuízos? Com que base jurídica o ocupante  do palácio do planalto deu licença para os caminhoneiros ficarem ainda mais uns “ diazinhos” bloqueando estradas ?

 Pais brigam com filhos; tios com sobrinhos, amizades se desfazem. 

Ululam quase todas as redes portando  mentiras, fake news, usando dos sofismas da falsa analogia, que encantam os  desavisados.

Experimente na Tunísia bancar o espaçoso.

Tente, ao desembarcar no aeroporto de Catar, ser ruidoso.

Discuta sem razão com um guarda nos Estados Unidos.

Entre em altos brados num Tribunal em Londres. Tente algum negócio ilegal com um funcionário público na Alemanha. Atire um lixo no chão  numa cidade do Japão.

Temos que melhorar.

Por que Santa Cruz tem tanto progresso e bom nível de vida?

Por causa da educação “lato sensu” falando.

Em síntese: chega de tanta bobagem nas redes sociais. Afaste-se um pouco. Consulte os veículos sérios.



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

SOBRE A VIDA DOS ANIMAIS 3

 Como cavaleiro sofrível  até que caí pouco dos cavalos. Foram quatro vezes. O único problema é que a costela quebrada leva um tempão doendo. É igual a mordida de traíra no dedo da mão.

Eu sempre fui metido, mas não cheguei às raias da imprudência. Só depois fui me dar conta que a maioria dos campeiros e peões têm uma linguagem cifrada que não pode ser levada ao pé da letra.

Por exemplo:  quando a chuva já é boa, mas falta mais, eles dizem que está garoando; quando um cavalo é manso, no entender deles, para um urbano será um fogoso  corcel botando fogo pelas ventas.

Meu primeiro tombo foi assim: eu saí, numa manhã de geada, para ver uns terneiros do cedo que estavam nascendo. O capataz não estava e fui com um peão. Vimos uma vaca deitada, com o útero de fora e o terneirinho em redor da mãe. O peão me pediu que trocássemos de montaria porque a égua dele não ia deixar ele levar o terneirinho sobre os arreios. Apeei, trocamos e alcancei a ele o terneiro de seus 35 kgs.  Feito isso "amuntei" naquela desgranida. Não consegui me enforquilhar e nem colocar o pé no estribo do lado do laço e a tirana saiu velhaqueando e disparando campofora. Eu tinha medo de sofrenar  aquela exibida , receoso  que ela empinasse e caísse em cima de mim.  E a louca galopeando . Até que consegui conduzi-la para um cerro de pedras e pensei: " medonha, agora tu vais ralar as patinhas". Realmente ela sentiu a dor do pedregal e deu uma vacilada. Foi quando me atirei de cima dela.

A danadinha só foi parar uns  kms depois.

Outro episódio foi com minha mulher Maristela, que tem o sangue centenário dos centauros do pampa. Também tem uma pitada de sangue alemão de sua avó dona Oliva Müller. Maristela, como já relatei, foi presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Ile de France.

Um dia comprei para ela uma lindíssima égua baia, de nome Guria. Égua formosa, cheia de razão, imponente. Quem via Maristela montando  se encantava nos desfiles de 20 de setembro.

Um dia de manhã pedi para um peão jovem, recém chegado, colocar os arreios na Guria. Estávamos olhando uns terneiros,  quando Maristela fez um movimento brusco e  virou os arreios que estavam mal apertados, caindo ao chão.  Guria parou imediatamente e vi que ela mantinha a pata dianteira  levantada. Debaixo da mão   da égua estava a cabeça de Maristela que se levantou sem ferimentos. ( Usa-se para equinos também o termo “mãos” para os membros dianteiros). 

( Estou sem paciência para falar em política, é como tosa de porco,muito grito e pouca lã ). 

 

 

 

   

 


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

SOBRE A VIDA DOS ANIMAIS 2

 Lá por dezembro começam as lidas com a tosquia ou tosa, como também se diz. A lã já valeu muito, mas os sintéticos deram causa à diminuição da procura. De qualquer maneira ainda vale a pena.

A exemplo de vários produtos como o tabaco, se não me engano, a lã tem várias classificações e varia de que parte do animal ela é . Existem ovinos de ótima lã, mas perdem na qualidade da carne. Assim como há ovinos cuja lã não é muito valiosa, mas sua carne é excelente.

Numa fazenda relativamente grande, o melhor é contratar os tosadores, que são práticos, e não os peões da própria fazenda, que teriam que deixar suas lidas específicas, o que daria problemas. Eles chegam e vão tosando, guardando a lã no galpão e dormindo lá mesmo. O bom, depois que escurece, é o chimarrão com muita prosa e risada. 

Depois de tosado o animal fica como se estivesse pelado, nu. O pior é que os Carneiros ( os reprodutores) não se reconhecem mais uns aos outros e começam a brigar, batendo cabeça. Há que os separar para que não se machuquem.

Tosado o rebanho, é preciso que não se molhem na chuva, pois podem morrer devido a uma choque térmico, apesar do verão.

Não pode haver fazenda sem cachorros. São eles que dão o alarme se chega alguém pela estrada ou se aproxima das casas. Não são como os cães da cidade, muitos dos quais são levados para os banhos e são sensíveis. Cachorro de campo dorme na geada mesmo e se banha nos arroios e açudes.

Eles trabalham por turno. De manhã uma turma. Voltam para o almoço e depois até as cobras fazem a sesta. Passada  a  ressolana sai o outro grupo.

As cadelas só cruzam com o cachorro Alfa. Às vezes um novato que aporta destrona aquele Alfa. Pronto, rei morto, rei posto.

Os cachorros e as cadelas de campo têm ouvidos apuradíssimos e são essenciais para , quando um boi se embreta no mato, fazê-lo sair.

Com cavalos a questão é complexa. Esqueçam aqueles pobres animais que ficam puxando carroças, levando chicotadas, os ossos aparecendo de tão magros. Como pode ser feliz um animal assim? Como podem as cidades ainda permitir essa tortura de um irmão nosso?

Graças ao cavalo o homem conseguiu viajar para longe.

Então vamos fazer uma distinção. Cavalos urbanos são calmos e  mansinhos.O cavalo de campo por vezes tem medo da proximidade de um carro. Uma bolsa de papel voando por causa do vento o assusta.

Mas há algo que eu constatei. O cavalo campeiro conhece quem sabe montar e sabe quem tem medo e é inexperiente. O cavalo de fazenda te dá segundos para tu te enforquilhares ( montar). Se  bobeares ele te atira fora.


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

SOBRE A VIDA DOS ANIMAIS I

 Dias atrás a Professora Lourdes Hubler publicou um belo artigo na Gazeta e mencionou um livro de Peter Wohlleben intitulado “ A vida secreta dos animais” ( Das seelenleben der tiere). 

Fiquei muito interessado e comprei o livro. Eu ainda sou um dinossauro que gosta de ler livros físicos . Só os jornais é que hoje leio pela internet.

O autor discorre com maestria sobre diversos aspectos da vida animal. Reparte suas considerações em 41 capítulos, um mais interessante que o outro. Além disso, é didático  e preciso.

Ocorre que ele mora na Alemanha cuja fauna não é tão abundante como a nossa no Brasil.

 Todavia  , no que a nós pertine ,ele acerta em todas.

Permito-me, no entanto, dar o meu testemunho de quem há dezenas de anos lida com o que ocorre numa fazenda. Também não me considero  um especialista, apesar de muito ter lido e observado, desde conselhos de peões, até dicas preciosas de fazendeiros que tem tradição de séculos, na zona da campanha .

Os animais, em geral, tem sentimentos, costumes, mas nós humanos não temos muito prestígio entre os   não  domesticados.

Anotei algumas coisas interessantes.

Animais de todos os tipos e raças costumam beber água nos açudes e sangas.Vão, tanto domésticos,  como os selvagens. Bebem em paz todos, sem qualquer problema. Basta se aproximar um humano a pé e pronto, fogem em desabalada carreira ou vôo os animais selvagens. Quando a gente se aproxima sem gritaria a cavalo eles até ficam olhando, mas ante maior aproximação se mandam “ a la cria”. 

A primeira coisa que um bovino ou ovino faz ao adoecer é se esconder no mato ou numa moita para não ser vítima de algum predador. Daí ser importante a constante vigilância em todas as invernadas. Normalmente ele tem que ser laçado, imobilizado e ali mesmo medicado.

Na maior parte das fazendas os partos  se dão ao ar livre,  nas invernadas. Se a cria nasce com problemas, igual a mãe a lambe normalmente . Se o terneiro não se levantar, a vaca espera um determinado tempo e abandona a cria. É  hora de o campeiro tentar criar o terneiro “ guacho” ( não confunda com gaúcho) . Muitas vezes se salva o animal, que se cria muito mansinho. O problema é, na hora de vender, a choradeira das crianças que se encarregaram de cuidar do bichinho.

No mundo ovino acontece , por vezes, que  a borrega sofre demais no parto e abandona o cordeirinho.

 A nomenclatura nem sempre é conhecida dos urbanos: cordeiro(a), borrego(a), ovelha , capão   e carneiro. Carneiro é o reprodutor.

Dizer que quer comer carne de carneiro é o mesmo que pedir carne de touro.



terça-feira, 24 de agosto de 2021

O PRODIGIO HOLANDÊS

 TITO GUARNIERE 



O PRODÍGIO HOLANDÊS 



Quem exporta mais em produtos de agropecuária, valor em dólares, o Brasil ou a Holanda? A resposta parece simples: a Holanda tem 42 mil km2, o Brasil mais de 8 milhões de km2. O Brasil é uma potência mundial exportadora de grãos e proteína animal. É o segundo exportador mundial em volume, atrás apenas dos Estados Unidos. 



Surpresa: a pequenina Holanda, nem metade do território de Santa Catarina, exporta em dólares mais do que o Brasil, em produtos agrários. As exportações brasileiras ficam em torno dos U$ 90 bilhões, as holandesas em U$ 110 bilhões ao ano. 



Qual é o segredo da Holanda? Para começo, o país está localizado numa confluência estratégica da Europa e mundo. O porto de Rotterdam há séculos é um dos portos mais movimentados do mundo. No porto holandês, a rigor, não há esforço braçal, tudo é operado por guindastes sofisticados e robôs de alta performance – por computador. 



Não falta dinheiro para quem queira investir – amplas linhas de crédito e recursos fartos de instituições locais e do Mercado Comum Europeu. As empresas se instalam e produzem em ambiente amigável para os negócios, com regras tributárias simples e a mais completa segurança jurídica. 



O uso da tecnologia aplicada à produção de itens de cultivo (como flores) e alimentos é a base do sucesso do modelo holandês de agropecuária sustentável. As políticas para o setor não mudam quando mudam os governos. Há investimentos maciços em pesquisa. 



Os cérebros do prodígio holandês estão na Wageningen University & Researach-WUR, a mais prestigiosa instituição do mundo de investigação, pesquisa e métodos de produção agrária. Além da Holanda, mais de uma centena de países em todos os continentes se beneficiam da chamada “agricultura de precisão”, um conceito de excelência máxima do segmento – as linhas mestras são criadas nos estudos e nos experimentos da WUR. 



Para a WUR, ciência e mercado andam juntos – nada parecido ao que acontece nas nossas instituições públicas de ensino superior, em que certos dirigentes (em geral advindos das ciências humanas e sociais) têm, mais do que desconfiança, resistência ativa e declarada a qualquer aliança da universidade com o setor produtivo e empresarial. 



No exíguo território, nas estufas imensas, do tamanho de campos de futebol, computadores controlam água, luz, temperatura, umidade. As plantas não param de crescer nem durante a noite. Os pés de tomate chegam a alcançar a altura de 13 metros. Uma enorme embarcação abriga uma fazenda flutuante de 500 vacas leiteiras. Uma vaca holandesa produz quase 10 vezes mais leite do que uma brasileira. 



A logística impecável permite que os laticínios, tomates e flores holandesas sejam colhidos e acondicionados em um dia, e em menos de 24 horas depois estejam nos mercados de Tokio, Nova York, Londres. 



Valor agregado e produtividade são as palavras-chave desse prodígio de produção, que usa espaço físico cada vez menor e cada vez menos defensivos agrícolas. 



No Brasil há exemplos isolados de excelência no uso de tecnologia nas atividades agropastoris. Alguma coisa já existe – mas estamos anos-luz atrás dos holandeses. 



 titoguarniere@hotmail.com 

 Twitter: @TitoGuarnieree