quinta-feira, 14 de abril de 2022

SEMANA SANTA

 Santa Cruz teve a ventura de receber imigrantes muito valentes e trabalhadores. Fé, cultura e trabalho, era seu lema . Na nossa região as pessoas eram muito religiosas, sendo fundamentais escolas e igrejas. A cerimônia, as galas, a contrição, a seriedade  eram vividas na Semana Santa.

Nesses dias celebravam-se cultos, com nossa catedral Gótica de luto pesado, para tudo florescer de júbilo no domingo de Aleluia.

Eu acompanhava tudo isso como quem assiste a um espetáculo, prendendo a respiração e muito condoído pelo suplício a que foi submetido Jesus Cristo.

No domingo de aleluia revezavam-se os corais nas Igrejas. E Santa Cruz tinha muitos deles.

E a Hallelujah de Haendel inundava de glória nossos espíritos. Isso me marcou pelo resto da vida.

Mas meus avós não chegaram a viver para presenciar o que agora acontece.

Hoje a coisa virou, em quase  todo país, um banquete  pantagruélico de comilanças, enquanto o pobre sofre o jugo da crendice inocente.

Uns comem lagosta a “thermidor” e  outros são obrigados a comprar uma lata de sardinha. 

De minha parte me recolho na fazenda,  faço minha galinha com arroz e dispenso  a peonada. Eles têm suas crenças que tem que ser respeitadas. Do que não gosto é que, por mais que tenha pesquisado, jamais vi onde está escrito que na sexta feira santa o pobre tem que gastar o que não pode, ou que seja “ obrigatório” comer peixe. 


Vou repetir o lugar comum: éramos felizes, mas não sabíamos avaliar o quanto.

Penso ser fundamental conhecer e reconhecer as feras que nos habitam.

A Humanidade sempre teve, aqui e acolá, a salutar prática de a pessoa se retirar, de tempos em tempos, para pensar, meditar, refletir. Para tanto, o isolamento não era difícil, a população era mais rarefeita do que hoje.

De muito me serviram os chamados "retiros espirituais", em que ficávamos recolhidos às vezes por três dias,  conversando só o necessário, apenas lendo, meditando e ouvindo palestras.


 O "retiro", com o distanciamento, faz com que possamos ver melhor a pequenez do que no aturdimento nos pareceu grande.

Gosto muito de, vez por outra, quando fico inquieto, me recolher um pouco. Pode ser em qualquer das habitações, conquanto a fazenda em Unistalda seja o melhor lugar. Primeira providência: desligar o celular. A seguir, não ligar  o som. 


E então  respirar o ar puro e abraçar até as árvores, como me ensinou minha irmã Lia.

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Cumprimento meu amigo Claudio Spengler pelo lançamento de seu novo livro “ O sentido da vida” em parceria com Enio Medeiros.


terça-feira, 12 de abril de 2022

AINDA SÉRGIO MORO 2

 TITO GUARNIERE  

SÉRGIO MORO  

O ex-juiz Sérgio Moro disse adeus às pretensões de ser presidente da República. Ele foi miseravelmente enganado pelo cacique político Luciano Bivar, chefão da União Brasil. Prometeram-lhe a candidatura presidencial e deixaram-no na estrada.  

Moro, que sempre se atribuiu uma nota alta, que sempre se achou, nem desconfiou e caiu como um pato. Neófito, amador na política, jogou pela janela uma candidatura certa, no partido Podemos, por uma duvidosa na União Brasil.  

E por que trocou? Pressa, ambição e oportunismo. É que a União Brasil tem mais estrutura, mais recursos para a campanha. O Podemos é um partido certinho, mas modesto. E Moro pulou de galho sem medo de ser feliz.  

Com o que não contava, o que não esperava? A reação de caciques como ACM Neto e Ronaldo Caiado, mais interessados nas eleições da Bahia e de Goiás, onde são candidatos a governador, do que na eleição nacional.  Para ambos tanto faz se o presidente vai ser Bolsonaro ou Lula. Eles querem guardar distância de uma candidatura que vai até certa altura, mas não decola.  

A verdade é que Moro se mostrou um mau observador de como funciona a política. E não que lhe tenham faltado situações em que, claramente, era possível intuir certas contingências inescapáveis.  

O ex-juiz cometeu o mesmo equívoco de Doria: não ver que na política a vontade pessoal, o talento, a reputação, a clareza de propósitos, ou mais o que seja, contam, mas estão longe de serem suficientes.  

Quando ele aceitou o convite de Bolsonaro para ser ministro da Justiça estava imbuído da certeza de que seria capaz de fazer a diferença, e de implementar um conjunto de medidas que – na sua visão monolítica, na sua obsessão – iria acabar com a corrupção no Brasil. E desse modo teria definitivamente inscrito o seu nome no panteão dos heróis da pátria.  

Ficou no governo um ano e pouco, demorou uma eternidade a perceber que juiz é uma coisa, ministro do governo é outra.  Na primeira, ele é senhor de suas decisões; na segunda ele deve sopesar outras instâncias, como o presidente da República, como (e talvez principalmente) o Congresso Nacional. Ele precisa mediar as ações: é preciso ganhar, persuadir a maioria de um coletivo amplo, plural, diversificado, volátil.  

No ministério, ignorou a antipatia manifesta de, talvez, um terço dos parlamentares, incomodados pelas ações ostensivas e voluntariosas, por ele conduzidas na Operação Lava Jato. Achou que tirava de letra, como fazia quando era juiz, e se deu mal: teve de sair do governo (no qual nunca deveria ter entrado) de forma não muito honrosa. Não deve ser confortável ser chamado de traidor pelo tipo de gente que faz o bolsonarismo.   

O resto é recente. O partido Podemos fez barro para atraí-lo às suas fileiras. Moro veio com a garantia de que seria candidato a presidente. Mas a União Brasil, muito mais robusta, com muito mais dinheiro em caixa, convenceu-o de mudar.  

A turma do União Brasil, à frente o ardiloso Luciano Bivar, cortou o barato, puxou o tapete: pode vir, mas não com a certeza da candidatura à presidência. Caiu do trapézio sem rede de proteção. Dificilmente se recupera.  

titoguarniere@outlook.com  

twitter: @TitoGuarnieree  


quinta-feira, 7 de abril de 2022

AINDA SOBRE O EX JUIZ MORO

 Preocupado com a faceirice do juiz Sérgio Moro, ainda na ativa, decidi mandar-lhe um  mail no dia 31.10.2018. Com efeito,  presenciei alguns casos de colegas que, deslumbrados com seu fulgor, aposentavam-se para se atirarem no colo daqueles que tanto os louvavam. Acontece que sem suas togas já não eram mais importantes.

Alguns  não  tiveram a experiência necessária para entrar no campo espinhoso da advocacia ou da política.

Eis o mail que lhe enviei:

“Amigo Sérgio Moro!

Nasceste em 1972, ano em que eu assumi meu cargo de Juiz de Direito. Tenho idade para ser teu pai.

Tomo a liberdade de sugerir que não aceites o cargo de Ministro da Justiça. A enorme maioria do povo não sabe que o Ministério da Justiça é órgão do Poder Executivo, não sendo, portanto, um ente judiciário. Nós juízes temos uma formação jurídica, onde não entram condicionantes políticas. A qualquer momento poderá acontecer algo que force o Governo federal a te defenestrar. E aí, como é que fica?

Não te iludas com as luzes da política. É outro departamento, regido por outros algoritmos.

Permito-me sugerir que aguardes  um pouco, porque é certo que serás indicado para o Supremo Tribunal Federal. Lá sim, estarás no teu campo e farás História. Continuarás juiz, o que é muito importante.

 Aguarda que em breve vão se abrir duas vagas no STF!)”

Às vezes o juiz se inebria com seu poder e , ao sair, acredita que pode fazer quase tudo. Ledo engano.


Um  amigo meu, que escreve sob o pseudônimo de Tito Guarniere, (mas é o ex senador por Santa Catarina, Nelson Wedekin), observou:  

“O ex-juiz Sérgio Moro foi da ascensão à queda em pouco tempo. Mas não pode culpar ninguém, a não ser ele mesmo. Descobriu tarde demais que a glória é efêmera, que os aplausos de hoje podem se tornar os apupos de amanhã. Duvido que Moro, hoje em dia, ande com a mesma pose nos lugares públicos, e receba os mesmos aplausos de quando viajava em aviões de carreira e frequentava bons restaurantes. 

 

O primeiro dever do juiz é a imparcialidade: como aceitar que ele faça combinações com a autoridade policial, com o Ministério Público? Fazer arranjos com o Ministério Público, como fez Moro sem medo de ser feliz, é a mesma coisa que fazer arranjos com os advogados de defesa.” 

 

 Moro quis colocar Bolsonaro contra a parede mas não deu certo. Entrou na política achando que seria um passeio sua condução à presidência da república. Doce ilusão. Quis passar por cima das raposas, levou um sofrenaço.

Como se diz na campanha, talvez fique “sem mel e sem porongo”.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

JOÃO DORIA

 TITO GUARNIERE 

JOÃO DORIA

O que faltou a João Doria para prosseguir com alguma chance na candidatura à presidência? Afinal, o governador de São Paulo é como que um candidato natural, tal o poderio econômico e político do maior estado da federação.

Além do cargo, Doria teve papel central no combate à pandemia. Não fosse ele a vacina contra a Covid ainda tardaria talvez três meses antes de chegar ao primeiro braço, graças ao negacionismo operoso e estúpido de Bolsonaro e do seu governo. 

Ele enfrentou todas as dificuldades para fabricar a Coronavac e foi vitorioso. No entanto isso não lhe rendeu nenhum dividendo político, ao menos daqueles que se expressam nas pesquisas eleitorais. Doria andou de arrasto nas projeções, uma vez ou outra passou do rés do chão, dos 2% das preferências do eleitorado. 

Então onde ele errou? Na minha opinião o que faltou ao governador paulista foi o conhecimento da política, da vida partidária. Deslumbrado com duas vitórias improváveis, a de prefeito da capital e depois governador do maior estado, achou que podia dar o salto maior, a presidência. 

Não é assim que funciona. Em algum momento, a falta de experiência política e de convívio partidário cobra o seu preço. O PSDB era um partido expressivo, com uma trajetória vitoriosa, com serviços prestados a São Paulo e ao Brasil. Não era – e nem é – uma dessas legendas pequenas, de aluguel, que um Valdemar Costa Neto, um Bolsonaro da vida negocia, adquire e toma conta. 

O PSDB era uma organização política sofisticada, com nomes proeminentes, Montoro, Covas, FHC, Serra, Alckmin, Aécio Neves (não estranhem citá-lo: Aécio teve 54 milhões de votos em 2014. O que veio depois é outra história). Um partido que havia chegado à presidência em duas ocasiões com FHC e que deixou um legado importante para o país – e que não foi uma herança maldita, como maldosamente o PT carimbou. 

Doria, voluntarioso e autossuficiente, meio que desconheceu o peso histórico do PSDB, menosprezou nomes como o de Geraldo Alckmin, quis fazer um PSDB à sua feição e maneira. Quis tomar conta do partido como um cacique de última hora. Faltou-lhe a paciência, habilidade comum nos grandes políticos, – que ele não é nem nunca foi – de agregar, somar, de aumentar as suas áreas de influência pelo respeito e persuasão. 

Nunca o engoliram no partido. Ele venceu as prévias contra Eduardo Leite, mas basicamente pelo que ele herdou: o formidável aparato, a máquina poderosa do PSDB de São Paulo.  

Doria não se projetou nas pesquisas por sua única e exclusiva culpa. No caso de Alckmin: não se escanteia um ex-prefeito e ex-governador do estado, que chegou duas vezes à candidatura presidencial de um partido do porte do PSDB, pacificamente, sem oposições ou dissidências. Não uniu seu próprio partido - e não saiu do chão. 

Doria parece ser do tipo de líder que não gosta de sombra. Quer liderados incondicionais, subordinados. Não quer dividir o poder com ninguém, nem mesmo com os companheiros de jornada. 

Semana passada fez uma manobra confusa, desistiu da candidatura presidencial e voltou atrás. O erro não foi desistir, mas voltar atrás da desistência. 

titoguarniere@outlook.com 

twitter: @TitoGuarnieree 


quinta-feira, 31 de março de 2022

Wandlungen - Mutações

 Aproprio-me do título do belo livro de Liv Ullmann, Wandlungen (Mutações),para algumas reflexões.

Por sinal Liv diz que, ao nascer, sua mãe perguntou ao médico  se era menino ou menina. O médico disse  contristado: lamentavelmente é uma menina. Digo a seu marido ou você mesmo diz?( “ Es ist leider ein Mädchen.Möchten Sie es ihrem Mann vielleicht lieber selbst sagen.)

Tudo mudou, não é? E para o bem e para o mal. Cada dia em que observo crianças me convenço  que as gurias  são mais “ haraganas” que os piás. Mais vivazes.

Conheço gente que tem pavor do novo; que vive uma vida no raio de 10 kms e é feliz. E lhes dou razão. Importante é se respeitar e ser venturoso. E acatar o modo de vida dos outros.

Olhando um pouco para o meu passado, constato um balanço positivo. Uma infância feliz. Bons colégios, vida normal. Mudança para P. Alegre 

No meio disso Freiburg, na Alemanha, eu estagiando no    Max Planck Institut für ausländisches und internationales Strafrecht (Instituto Max Planck para Direito Penal estrangeiro e internacional).

Lá conheci o famoso jurista Hans-Heinrich Jescheck. Por sinal faleceu em 27 de setembro de 2009, data do meu aniversário. 

Logo que fui   apresentado a ele, falei em alemão e ele disse: teus ancestrais vieram do Mosel. E acertou: vieram de Zeltingen-Rachtig.

Não era tão difícil assim, pois quando se aproxima de nós uma pessoa chiando deve ser carioca; se tem um “r” caipira é paulista do interior. O jeito de os alemães falarem é muito divercificado.

Muitíssimo aprendi com meu tempo na Alemanha. O Direito não é só “ praxis”, mas muita teoria, que tantos desprezam.

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A vida bucólica, mas dura, da pecuária.

Mais mutações.  Do charolês para zebu; dele para Angus, daí para Brangus. 

Ovelhas,  começando com Ideal e mudando  para Ile de France.

E tempo para escrever, para ler? Para viajar, para ver filhos e netos?

A gente tem que reconhecer os avisos do tempo.

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Como avô achei por bem esses dias, ao contemplar esse mar azulzinho e manso,  tomar um banho de mar com o Matheus ( Ma + Theos = presente de Deus) . Como meu genro se encontrava  viajando, resolvi convidar o guri. Temperatura de uns 15 graus .

Mas o piá não refugou, apesar das reprimendas de uma senhora que passava na orla : “Senhor, esse guri vai contrair uma gripe!”

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 Lamentavelmente as cartas e os livros físicos agonizam. Vai tudo para uma tal de nuvem. Quem está certo? O ensino remoto ou como era desde séculos? Olho no olho? Amigos para sempre: o remoto nos dá isso? 

As mutações acontecem, queiramos ou não.


quinta-feira, 24 de março de 2022

A FORÇA DE UM JORNAL

 A FORÇA DE UM JORNAL

Como vocês talvez recordem, consegui por gentileza do meu amigo Borowsky, colunista da Gazeta, localizar o exemplar que contém um artigo que escrevi aos 16 anos. Eu brandia contra a descriminação racial nos Estados Unidos.

De vez em quando, quando já adulto, escrevia algo, sempre lia a Gazeta, cujos exemplares minha mãe guardava com muito zelo, para eu ler quando a visitava.

Sei que  não sou uma unanimidade, mas que tenho muitos amigos leitores é fato. Muitos me mandam comentários pelas redes sociais.

Recebi um  e-mail do Odilo Mallmann,meu amigo, assinante da Gazeta, comentando o assunto do Kappesberg. E narrou episódios de sua vida que muito me tocaram, pela semelhança do que comigo aconteceu.

" Nos últimos dois anos do antigo "primário" tive um professor formado num internato.Me convidou, falou com meus pais e lá fui eu em março de 1968. Recém fechado 14 anos. Um choque na vida. Nunca tinha saído de casa por mais de um dia. Tinha que passar no exame de admissão. Na chegada ao colégio,tinha que levar roupas e materiais de higiene pessoal, colchão e, uma enxada para trabalhar na horta e na roça uma vez por semana. Os alunos anteriores costumavam sentar no cabo da enxada e quebravam para fugir do trabalho, embora todos vindos de famílias de minifúndio agrícola.  Meu número de identificação dos pertences era 92. A limpeza do colégio, servir as mesas nas refeições, lavar a louça, etc, era feita em equipes escolhidas por um de confiança da direção. E uma freira supervisionava. Na limpeza, a ordem era simples. Não fez direito, faz de novo. Na volta, banho de chuveiro, claro, frio. Das 8 às 12h. E das 13:30 às 17 aulas. Liberdade para visitar a família, na Páscoa, férias de julho e fim de ano. Ah! Para quem tinha optado em trabalhar na granja, para não ir no sol, tipo fazer ração, tratar os porcos, coelhos, galinhas poedeiras e tirar o leite das vacas, nas férias, tinha que manter o serviço pois o colégio não tinha como pagar funcionários além do único gerente da granja. O regime do quartel era generoso na comparação. Disciplina, dedicação aos estudos, exigências de notas mínimas de 7, respeito aos colegas, etc, era o mínimo que se exigia de um futuro professor. Até me emociono hoje pela gratidão ao sistema."


Outro amigo, Alceu Lau, me mandou  comentário sobre os banhos gelados no Colégio Santo Inácio:

“No inverno a piscina quase chegava a ficar com uma placa de gelo em dias de geada.Mas o frio não era impedimento para dar mergulhos nas águas geladas”.

Aí está a força da Gazeta! A interação.

terça-feira, 22 de março de 2022

TUITES DA CONJUNTURA

 TITO GUARNIERE  

TUÍTES DA CONJUNTURA  

Bloqueio do Telegram  

O aplicativo Telegram é uma terra sem lei. É ambiente acolhedor e amigável se o freguês está interessado em pornografia adulta e infantil, apologia do nazismo, comércio de armas (inclusive ilegal), supremacia branca e racismo, execuções e assassinatos. É o aplicativo predileto do bolsonarismo.  

A Advocacia Geral da União-AGU é a advocacia da União, não de Bolsonaro e do bolsonarismo. Mas foi a Advocacia Geral da União que entrou com uma medida de suspensão do bloqueio do Telegram junto ao STF.  

Rondon se revira no túmulo  

O Marechal Cândido Rondon (1865-1968) é um dos meus heróis prediletos, junto com Gandhi, Mandela, Luther King. Militar, sertanista, pacifista e indigenista, percorreu os sertões do Brasil procurando tribos de índios não contatados, sob o lema "morrer, se preciso; matar, nunca". Agora, o presidente Jair Bolsonaro foi agraciado com a Medalha de Mérito Indigenista, pelo Ministério da Justiça. Rondon deve ter se revirado no túmulo.  

Não ao garimpo em terras índias  

Não somente as esquerdas, ambientalistas e indigenistas são contra mineração em terras de índios. Grandes grupos empresariais ligados ao agronegócio, reunidos na Coalização Brasil Clima, têm posição clara: garimpo nas terras indígenas não resolve o problema dos fertilizantes.  

Entre essas empresas: Bayer, Bradesco, Basf, Cargill, Carrefour, Danone, Gerdau. Boticário, Klabin, Vale, Nestlé.  

JMB agracia JMB  

O presidente Jair Messias Bolsonaro, com a autoestima em alta, concedeu a Jair Messias Bolsonaro a Medalha de Honra ao Mérito do Ministério de Justiça e Segurança Pública.  

Otários não acreditam em vacina  

1) Segundo o competente primeiro-ministro Italiano Mário Draghi, graças à vacina 80 mil mortes de Covid foram evitadas na Itália. Na proporção da população, então se pode calcular que no Brasil 270 mil brasileiros estão vivos por causa da vacina.   

2) Um estudo do estado de São Paulo, de dezembro a fevereiro deste ano, mostra que sem vacina a Covid mata 26 vezes mais.   

3) Nas cidades que mais votaram em Bolsonaro, do Sudoeste e do Sul, prevaleceram as teorias negacionistas, contra o isolamento social, a máscara, a vacina. Resultado: em torno de 44% mais mortes por Covid do que do Nordeste. Exemplo:  na bolsonarista Sapiranga-RS, foram 360 óbitos por 100 mil habitantes; em Crato-CE, onde venceu Haddad, 110.   

República de pastores  

1) O pastor Renê Arian, da Igreja Agnus(?), realizou uma cerimônia de benção de revólveres, espingardas, etc. O bolsonarismo armamentista cria essas aberrações – pastores abençoando armas.   

2) Bolsonaro falando a um grupo de pastores evangélicos: "Dirijo a nação para o lado que os senhores desejarem". Bolsonaro não tem a menor noção dos princípios republicanos. Só existe o lado dos pastores? E nós outros? E os demais? Por que só evangélicos? Por que não aiatolás?   

3) O Ministério da Educação, cujo ministro é o pastor Milton Ribeiro, foi – segundo o jornal O Globo – aparelhado por pastores evangélicos. Pastores, em teoria, devem se ocupar da cura das almas. Esses mudaram o foco: atendem nos balcões do Ministério.  

No MEC, chame o seu pastor e nada lhe faltará.  

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quinta-feira, 17 de março de 2022

O INESQUECÍVEL KAPPESBERG 2

 Havia três dormitórios enormes, um para cada divisão. As camas eram simples e pequenas e não havia quartos. Ao lado de cada leito um estande pequeno com uma toalha e uma bacia. Ao fundo  os WCs . Os banhos de verdade eram às quartas-feiras, se não me engano. Havia uma piscina encravada na rocha. Entrávamos de calção e ali nos lavávamos na água fria, inclusive no inverno. Necessário frisar que não tínhamos férias de inverno. No dia de Santo Inácio os pais e parentes podiam visitar os seminaristas. As férias eram em janeiro e fevereiro.

O nosso dia era assim: bem cedo soava a sirene para que todos despertassem. Íamos ao pátio para exercícios físicos. Após era servido um café com leite e uma fatia de pão com “Schmier”. Depois todos se dirigiam para as salas de aula. O silêncio era rigoroso e o aluno que quisesse fazer uma pergunta tinha que levantar a mão e esperar o professor permitir.

O currículo pode-se se dizer que era como os antigos “ clássicos”, com ênfase , portanto ,para Idiomas, Filosofia, Religião, História etc. 

Em idiomas o Latim e o Português eram obrigatórios e havia opção para escolha do Francês, Inglês ou Alemão. Diga-se de passagem que o Latim era obrigatório no vestibular de Direito da UFRGS no meu tempo. Fui aprovado graças ao estudo no Seminário.

Havia uma excelente biblioteca, muito importante para uma  formação sólida.

Também havia uma ala bem grande para o estudo da música. Nesse ponto os padres primeiro viam quem tinha  dom musical para o canto. Alguns logo se destacavam para algum instrumento. Havia vários órgãos , instrumentos de corda , sopro etc.

Eram três os  campos de futebol. Muitos jogavam de pés descalços, davam voadoras pois valia para eles tudo do pescoço para baixo. Realmente muitos eram filhos de agricultores e um número um pouco menor vinha das cidades.


As cartas enviadas não podiam ser fechadas.Só eram despachadas depois de um Padre as ler. As que vinham eram previamente abertas e lidas pelo superior.

Fora dos períodos de aula, havia o trabalho. O seminário tinha uma boa extensão de terras, com animais e plantações.Os “ colonos” preferiam a roça. E nós, os “ cidadãos”, pegávamos mais leve, como trabalhos manuais, jardins, colheita de frutas.

Durante as refeições era comum a leitura em voz alta de textos. Por sinal o hábito da leitura cresceu para mim no Colégio Santo Inácio.

De minha parte asseguro que fui muito feliz e fiz eternas amizades , nunca tendo qualquer dissabor.


“At last but not least”, falarei sobre as orações e outros temas, porém  mais adiante . 


terça-feira, 15 de março de 2022

UM OLHAR LOCAL

 TITO GUARNIERE  

UM OLHAR LOCAL   

Nos acontecimentos do Leste Europeu são poucas as análises e raros os especialistas da região, que nos permitam uma visão menos ocidentalizada, em geral contaminada por categorias conceituais que remontam aos tempos da União Soviética e da Guerra Fria.  

Um artigo publicado em O Globo de algum modo supre a lacuna, ao ouvir dois acadêmicos poloneses, Jan Smolenski e Jan Dutkiewicvz, que rebatem interpretações comuns no mundo ocidental, e que eles consideram parciais e limitadas.  

Ambos rejeitam a hipótese habitual (no Ocidente, inclusive) de que foi a expansão da OTAN que teria levado a Rússia a uma reação belicosa. Isto é, o ataque de Putin teria se dado porque a Rússia se sentiu insegura, agredida, e teve de reagir.  

Como eles explicam, essa versão ignora dois dados fundamentais: a autonomia da Ucrânia – o país não pode ser visto apenas como um peão do qual se possa dispor para atingir objetivos geopolíticos; e as nuances históricas e socioeconômicas das relações russo-ucranianas – o povo ucraniano tem na memória e no sentimento profundo as atrocidades que sofreu em vários momentos da história comum.   

Há 43 milhões de ucranianos no país, e embora existam de fato bolsões separatistas pró-russos e grupos neonazistas, a maioria da população tem a manifesta vontade de pertencer ao Ocidente – não é por mera coincidência que vigora no país um grau razoável de liberdade política, de respeito ao voto, e que está em curso um processo de aprimoramento das instituições democráticas.  

Os Jans não aceitam a ideia de que se deva buscar atenuantes para a realidade crua: a Rússia é a potência opressora e invasora, a Ucrânia e os ucranianos são as vítimas. Como eles lembram: se em outras regiões do planeta o papel dos americanos nem sempre foi virtuoso, como na América Latina, na Europa Oriental os Estados Unidos tiveram papel positivo e central na derrubada das ditaduras comunistas da região.  

Os autores também se insurgem contra o comentário comum de certos grupos políticos, particularmente os grupos identitários, que ao trazer o assunto para o âmbito (quase) único do seu interesse, reduzem-no à condição de um conflito de brancos contra brancos, como quem diz "eles que são brancos que se entendam".    

Eles reagem, por igual, à notícia de que os refugiados brancos (a quase totalidade) sejam acolhidos em países como a Polônia de forma mais humana e calorosa do que as minorias raciais. Seria uma solidariedade seletiva, preferencial para os brancos.    

Essas nuances reducionistas, parciais, que enfatizam circunstâncias possíveis, mas com toda a certeza residuais, têm o efeito (senão a intenção), segundo os autores, tão somente de passar o pano, justificar a intervenção russa, atenuar a culpa de Putin e seus asseclas.    

Sendo poloneses, Smolenski e Dutkiewicz estão tomados do sentimento comum de todos os povos que um dia já estiveram sob o tacão russo. A antiga União Soviética era uma comunidade de nações, porém com a asfixiante hegemonia da nação maior e mais poderosa, exatamente a Rússia.  

  

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sexta-feira, 11 de março de 2022

O INESQUECÍVEL KAPPESBERG

 Eu estava com 13 anos e estudava no Colégio São Luiz, em Santa Cruz do Sul.

Certo dia vieram a nossa casa dois padres conversar com meus pais. Ao cabo de uns minutos meu pai me chamou e perguntou se eu concordava em estudar no Colégio Santo Inácio que se situava no Kappesberg, na chamada estação São Salvador. Se percorresse todas as etapas eu poderia me tornar um sacerdote católico. Pensei um pouco e concordei.

Lá chegando com vários colegas de Santa Cruz, não demorei a me adaptar .

Havia três divisões, conforme fosse a idade do seminarista.

Jamais se ouvia rádio. TV ainda não existia. Certo dia de julho de 1958, estávamos no pátio, quando um Padre nos disse que o Brasil se sagrara  campeão mundial graças a um jogador chamado Pelê ( assim mesmo, com “e” fechado).


Cada seminarista tinha um número.O meu era 80. Em todas as roupas  estava marcado, num lugar discreto, esse número para que não houvesse confusão na lavanderia.


Às vezes, ainda de madrugada,encostava um caminhão de carga, subíamos todos na carroceria e íamos para algum lugar acampar por um dia. Era o chamado “ passeio grande”. Imagina hoje um monte de guris na carroceria de um caminhão  estrada a fora.


Para os meninos vindos das “ colônias novas” , filhos de agricultores, o  seminário era o único meio de conseguirem estudar. Não era meu caso.

 Tão sólido era o estudo, que a maioria passava facilmente nos vestibulares da UFRGS .

Pouquíssimo se usava dinheiro. Para necessidades como sabonetes, desodorantes e essas coisas, havia uma espécie de lojinha em que eram anotadas as compras, a serem acertadas depois com os pais. Não havia refrigerantes, muito menos bebidas alcoólicas.  A carne era suficiente, mas nem de longe a gastança de hoje. Frutas havia  à vontade.


Ao findar meu segundo ano de Kappesberg   decidi  sair. Não tinha vocação para o  sacerdócio e além do  que estouravam nas minhas veias os  hormônios da adolescência.E ainda havia o problema do celibato.


Quem voltou para Santa Cruz foi um cara que não ouvira nada de Elvis Presley, que não sabia jogar basquete ( a moda em Santa Cruz), que não fumava ( apesar de já ter 15 anos), nem bebia . Além disso, não dizia palavrão, nunca tinha  nem passado perto da “ zona”, nem sabia o que era “ secar” uma guria.Esse era eu.


Nunca encontrei um só ex seminarista que  não tenha sido feliz  com aquela vida espartana e  não recorde com gratidão e satisfação os ensinamentos lá hauridos.  Na próxima sigo com a vida no interior do seminário, o longo tempo longe dos pais e da família , as orações e outras situações.


quinta-feira, 3 de março de 2022

A JOVEM MÃE, A SOLIDÃO E OS MOSQUITOS

 


Em São Leopoldo, o colégio São José, das irmãs franciscanas, decidiu lotear uma área que se transformou no Bairro São José.


Eu tinha uma casa lá.


Num dia de verão escaldante , estávamos, eu e meus filhos, jogando no nosso pátio. Eis que a bola foi para o terreno  vizinho.


 


Essa casa  estava alugada para um casal alemão. Parecia sempre fechada.


Saí pela calçada e apertei a campainha . Nada. Insisti. Até que surgiu uma moça muito jovem, loira, rosto muito vermelho, carinha de choro que vou te dizer.


Falei com ela em alemão e pedi licença para buscar a bola. 

- Was ist los? perguntei. ( o que há)


- kommen sie  herein, bitte, disse ela, me convidando para entrar.


Na sala havia um berço com um  gordinho e rosado bebê, só de fraldas, olhinhos azuis,todo picado de mosquitos .Um calor bárbaro. Ela abanando o bebê.Me disse que estava desesperada, não tinha nada para fazer, o marido passava o dia fora, estava com saudade de seus pais e  queria que eu lhe desse o número do telefone de um taxista de confiança. Queria ir ao aeroporto e voltar para a Alemanha.


Falei para ela se acalmar,estava evidente sua depressão. Não sabendo o que fazer, peguei a bola e lhe dei tchau.


Fiquei com pena daquela guria que poderia ser minha filha. Suas lágrimas me cortaram o coração.  Mas é claro que não alonguei a conversa, mesmo porque poderia ser mal interpretado.


Os dias se seguiram.


Uma bela manhã chamei um táxi  para me levar ao aeroporto em P. Alegre.


 Lá pelas tantas o motorista me falou:


- semana passada eu carreguei sua vizinha e o nenê para o aeroporto. Estranhei que ela não tinha  mala. Só a criança e uma mochilinha. Balbuciou que tinha muita pressa, ia pegar um avião para o Rio de Janeiro. 

Na volta da viagem me informei.


A moça, cansada de passar o dia sozinha, simplesmente deixou tudo para trás, menos o nenê , e voltou para sua terra.


Aí pensei: e nossos antepassados? Seu bilhete era sem volta.


Quantos e quantas  terão chorado de saudade de sua Heimat?


Naqueles tempos a  única solução era espantar os mosquitos, secar as lágrimas, ter fé, rezar e trabalhar. E , como se verificou, acabaram , em grande maioria, vencendo e se adaptando.


Por sinal, quando as terras ficaram escassas na região de  Santa Cruz, muitos colonos, inclusive parentes de minha mãe, partiram para o oeste de Santa Catarina.  Quando vinham para nos visitar, muito esporadicamente, contavam de suas dificuldades.

Contei isso aos meus parentes distantes na Alemanha em Zeltingen Rachtig , que muito se admiraram.



Quanto à moça, a culpa não foi dos mosquitos nem do calor. Foi da solidão.