quinta-feira, 24 de março de 2022

A FORÇA DE UM JORNAL

 A FORÇA DE UM JORNAL

Como vocês talvez recordem, consegui por gentileza do meu amigo Borowsky, colunista da Gazeta, localizar o exemplar que contém um artigo que escrevi aos 16 anos. Eu brandia contra a descriminação racial nos Estados Unidos.

De vez em quando, quando já adulto, escrevia algo, sempre lia a Gazeta, cujos exemplares minha mãe guardava com muito zelo, para eu ler quando a visitava.

Sei que  não sou uma unanimidade, mas que tenho muitos amigos leitores é fato. Muitos me mandam comentários pelas redes sociais.

Recebi um  e-mail do Odilo Mallmann,meu amigo, assinante da Gazeta, comentando o assunto do Kappesberg. E narrou episódios de sua vida que muito me tocaram, pela semelhança do que comigo aconteceu.

" Nos últimos dois anos do antigo "primário" tive um professor formado num internato.Me convidou, falou com meus pais e lá fui eu em março de 1968. Recém fechado 14 anos. Um choque na vida. Nunca tinha saído de casa por mais de um dia. Tinha que passar no exame de admissão. Na chegada ao colégio,tinha que levar roupas e materiais de higiene pessoal, colchão e, uma enxada para trabalhar na horta e na roça uma vez por semana. Os alunos anteriores costumavam sentar no cabo da enxada e quebravam para fugir do trabalho, embora todos vindos de famílias de minifúndio agrícola.  Meu número de identificação dos pertences era 92. A limpeza do colégio, servir as mesas nas refeições, lavar a louça, etc, era feita em equipes escolhidas por um de confiança da direção. E uma freira supervisionava. Na limpeza, a ordem era simples. Não fez direito, faz de novo. Na volta, banho de chuveiro, claro, frio. Das 8 às 12h. E das 13:30 às 17 aulas. Liberdade para visitar a família, na Páscoa, férias de julho e fim de ano. Ah! Para quem tinha optado em trabalhar na granja, para não ir no sol, tipo fazer ração, tratar os porcos, coelhos, galinhas poedeiras e tirar o leite das vacas, nas férias, tinha que manter o serviço pois o colégio não tinha como pagar funcionários além do único gerente da granja. O regime do quartel era generoso na comparação. Disciplina, dedicação aos estudos, exigências de notas mínimas de 7, respeito aos colegas, etc, era o mínimo que se exigia de um futuro professor. Até me emociono hoje pela gratidão ao sistema."


Outro amigo, Alceu Lau, me mandou  comentário sobre os banhos gelados no Colégio Santo Inácio:

“No inverno a piscina quase chegava a ficar com uma placa de gelo em dias de geada.Mas o frio não era impedimento para dar mergulhos nas águas geladas”.

Aí está a força da Gazeta! A interação.

terça-feira, 22 de março de 2022

TUITES DA CONJUNTURA

 TITO GUARNIERE  

TUÍTES DA CONJUNTURA  

Bloqueio do Telegram  

O aplicativo Telegram é uma terra sem lei. É ambiente acolhedor e amigável se o freguês está interessado em pornografia adulta e infantil, apologia do nazismo, comércio de armas (inclusive ilegal), supremacia branca e racismo, execuções e assassinatos. É o aplicativo predileto do bolsonarismo.  

A Advocacia Geral da União-AGU é a advocacia da União, não de Bolsonaro e do bolsonarismo. Mas foi a Advocacia Geral da União que entrou com uma medida de suspensão do bloqueio do Telegram junto ao STF.  

Rondon se revira no túmulo  

O Marechal Cândido Rondon (1865-1968) é um dos meus heróis prediletos, junto com Gandhi, Mandela, Luther King. Militar, sertanista, pacifista e indigenista, percorreu os sertões do Brasil procurando tribos de índios não contatados, sob o lema "morrer, se preciso; matar, nunca". Agora, o presidente Jair Bolsonaro foi agraciado com a Medalha de Mérito Indigenista, pelo Ministério da Justiça. Rondon deve ter se revirado no túmulo.  

Não ao garimpo em terras índias  

Não somente as esquerdas, ambientalistas e indigenistas são contra mineração em terras de índios. Grandes grupos empresariais ligados ao agronegócio, reunidos na Coalização Brasil Clima, têm posição clara: garimpo nas terras indígenas não resolve o problema dos fertilizantes.  

Entre essas empresas: Bayer, Bradesco, Basf, Cargill, Carrefour, Danone, Gerdau. Boticário, Klabin, Vale, Nestlé.  

JMB agracia JMB  

O presidente Jair Messias Bolsonaro, com a autoestima em alta, concedeu a Jair Messias Bolsonaro a Medalha de Honra ao Mérito do Ministério de Justiça e Segurança Pública.  

Otários não acreditam em vacina  

1) Segundo o competente primeiro-ministro Italiano Mário Draghi, graças à vacina 80 mil mortes de Covid foram evitadas na Itália. Na proporção da população, então se pode calcular que no Brasil 270 mil brasileiros estão vivos por causa da vacina.   

2) Um estudo do estado de São Paulo, de dezembro a fevereiro deste ano, mostra que sem vacina a Covid mata 26 vezes mais.   

3) Nas cidades que mais votaram em Bolsonaro, do Sudoeste e do Sul, prevaleceram as teorias negacionistas, contra o isolamento social, a máscara, a vacina. Resultado: em torno de 44% mais mortes por Covid do que do Nordeste. Exemplo:  na bolsonarista Sapiranga-RS, foram 360 óbitos por 100 mil habitantes; em Crato-CE, onde venceu Haddad, 110.   

República de pastores  

1) O pastor Renê Arian, da Igreja Agnus(?), realizou uma cerimônia de benção de revólveres, espingardas, etc. O bolsonarismo armamentista cria essas aberrações – pastores abençoando armas.   

2) Bolsonaro falando a um grupo de pastores evangélicos: "Dirijo a nação para o lado que os senhores desejarem". Bolsonaro não tem a menor noção dos princípios republicanos. Só existe o lado dos pastores? E nós outros? E os demais? Por que só evangélicos? Por que não aiatolás?   

3) O Ministério da Educação, cujo ministro é o pastor Milton Ribeiro, foi – segundo o jornal O Globo – aparelhado por pastores evangélicos. Pastores, em teoria, devem se ocupar da cura das almas. Esses mudaram o foco: atendem nos balcões do Ministério.  

No MEC, chame o seu pastor e nada lhe faltará.  

titoguarniere@outlook.com  

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quinta-feira, 17 de março de 2022

O INESQUECÍVEL KAPPESBERG 2

 Havia três dormitórios enormes, um para cada divisão. As camas eram simples e pequenas e não havia quartos. Ao lado de cada leito um estande pequeno com uma toalha e uma bacia. Ao fundo  os WCs . Os banhos de verdade eram às quartas-feiras, se não me engano. Havia uma piscina encravada na rocha. Entrávamos de calção e ali nos lavávamos na água fria, inclusive no inverno. Necessário frisar que não tínhamos férias de inverno. No dia de Santo Inácio os pais e parentes podiam visitar os seminaristas. As férias eram em janeiro e fevereiro.

O nosso dia era assim: bem cedo soava a sirene para que todos despertassem. Íamos ao pátio para exercícios físicos. Após era servido um café com leite e uma fatia de pão com “Schmier”. Depois todos se dirigiam para as salas de aula. O silêncio era rigoroso e o aluno que quisesse fazer uma pergunta tinha que levantar a mão e esperar o professor permitir.

O currículo pode-se se dizer que era como os antigos “ clássicos”, com ênfase , portanto ,para Idiomas, Filosofia, Religião, História etc. 

Em idiomas o Latim e o Português eram obrigatórios e havia opção para escolha do Francês, Inglês ou Alemão. Diga-se de passagem que o Latim era obrigatório no vestibular de Direito da UFRGS no meu tempo. Fui aprovado graças ao estudo no Seminário.

Havia uma excelente biblioteca, muito importante para uma  formação sólida.

Também havia uma ala bem grande para o estudo da música. Nesse ponto os padres primeiro viam quem tinha  dom musical para o canto. Alguns logo se destacavam para algum instrumento. Havia vários órgãos , instrumentos de corda , sopro etc.

Eram três os  campos de futebol. Muitos jogavam de pés descalços, davam voadoras pois valia para eles tudo do pescoço para baixo. Realmente muitos eram filhos de agricultores e um número um pouco menor vinha das cidades.


As cartas enviadas não podiam ser fechadas.Só eram despachadas depois de um Padre as ler. As que vinham eram previamente abertas e lidas pelo superior.

Fora dos períodos de aula, havia o trabalho. O seminário tinha uma boa extensão de terras, com animais e plantações.Os “ colonos” preferiam a roça. E nós, os “ cidadãos”, pegávamos mais leve, como trabalhos manuais, jardins, colheita de frutas.

Durante as refeições era comum a leitura em voz alta de textos. Por sinal o hábito da leitura cresceu para mim no Colégio Santo Inácio.

De minha parte asseguro que fui muito feliz e fiz eternas amizades , nunca tendo qualquer dissabor.


“At last but not least”, falarei sobre as orações e outros temas, porém  mais adiante . 


terça-feira, 15 de março de 2022

UM OLHAR LOCAL

 TITO GUARNIERE  

UM OLHAR LOCAL   

Nos acontecimentos do Leste Europeu são poucas as análises e raros os especialistas da região, que nos permitam uma visão menos ocidentalizada, em geral contaminada por categorias conceituais que remontam aos tempos da União Soviética e da Guerra Fria.  

Um artigo publicado em O Globo de algum modo supre a lacuna, ao ouvir dois acadêmicos poloneses, Jan Smolenski e Jan Dutkiewicvz, que rebatem interpretações comuns no mundo ocidental, e que eles consideram parciais e limitadas.  

Ambos rejeitam a hipótese habitual (no Ocidente, inclusive) de que foi a expansão da OTAN que teria levado a Rússia a uma reação belicosa. Isto é, o ataque de Putin teria se dado porque a Rússia se sentiu insegura, agredida, e teve de reagir.  

Como eles explicam, essa versão ignora dois dados fundamentais: a autonomia da Ucrânia – o país não pode ser visto apenas como um peão do qual se possa dispor para atingir objetivos geopolíticos; e as nuances históricas e socioeconômicas das relações russo-ucranianas – o povo ucraniano tem na memória e no sentimento profundo as atrocidades que sofreu em vários momentos da história comum.   

Há 43 milhões de ucranianos no país, e embora existam de fato bolsões separatistas pró-russos e grupos neonazistas, a maioria da população tem a manifesta vontade de pertencer ao Ocidente – não é por mera coincidência que vigora no país um grau razoável de liberdade política, de respeito ao voto, e que está em curso um processo de aprimoramento das instituições democráticas.  

Os Jans não aceitam a ideia de que se deva buscar atenuantes para a realidade crua: a Rússia é a potência opressora e invasora, a Ucrânia e os ucranianos são as vítimas. Como eles lembram: se em outras regiões do planeta o papel dos americanos nem sempre foi virtuoso, como na América Latina, na Europa Oriental os Estados Unidos tiveram papel positivo e central na derrubada das ditaduras comunistas da região.  

Os autores também se insurgem contra o comentário comum de certos grupos políticos, particularmente os grupos identitários, que ao trazer o assunto para o âmbito (quase) único do seu interesse, reduzem-no à condição de um conflito de brancos contra brancos, como quem diz "eles que são brancos que se entendam".    

Eles reagem, por igual, à notícia de que os refugiados brancos (a quase totalidade) sejam acolhidos em países como a Polônia de forma mais humana e calorosa do que as minorias raciais. Seria uma solidariedade seletiva, preferencial para os brancos.    

Essas nuances reducionistas, parciais, que enfatizam circunstâncias possíveis, mas com toda a certeza residuais, têm o efeito (senão a intenção), segundo os autores, tão somente de passar o pano, justificar a intervenção russa, atenuar a culpa de Putin e seus asseclas.    

Sendo poloneses, Smolenski e Dutkiewicz estão tomados do sentimento comum de todos os povos que um dia já estiveram sob o tacão russo. A antiga União Soviética era uma comunidade de nações, porém com a asfixiante hegemonia da nação maior e mais poderosa, exatamente a Rússia.  

  

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sexta-feira, 11 de março de 2022

O INESQUECÍVEL KAPPESBERG

 Eu estava com 13 anos e estudava no Colégio São Luiz, em Santa Cruz do Sul.

Certo dia vieram a nossa casa dois padres conversar com meus pais. Ao cabo de uns minutos meu pai me chamou e perguntou se eu concordava em estudar no Colégio Santo Inácio que se situava no Kappesberg, na chamada estação São Salvador. Se percorresse todas as etapas eu poderia me tornar um sacerdote católico. Pensei um pouco e concordei.

Lá chegando com vários colegas de Santa Cruz, não demorei a me adaptar .

Havia três divisões, conforme fosse a idade do seminarista.

Jamais se ouvia rádio. TV ainda não existia. Certo dia de julho de 1958, estávamos no pátio, quando um Padre nos disse que o Brasil se sagrara  campeão mundial graças a um jogador chamado Pelê ( assim mesmo, com “e” fechado).


Cada seminarista tinha um número.O meu era 80. Em todas as roupas  estava marcado, num lugar discreto, esse número para que não houvesse confusão na lavanderia.


Às vezes, ainda de madrugada,encostava um caminhão de carga, subíamos todos na carroceria e íamos para algum lugar acampar por um dia. Era o chamado “ passeio grande”. Imagina hoje um monte de guris na carroceria de um caminhão  estrada a fora.


Para os meninos vindos das “ colônias novas” , filhos de agricultores, o  seminário era o único meio de conseguirem estudar. Não era meu caso.

 Tão sólido era o estudo, que a maioria passava facilmente nos vestibulares da UFRGS .

Pouquíssimo se usava dinheiro. Para necessidades como sabonetes, desodorantes e essas coisas, havia uma espécie de lojinha em que eram anotadas as compras, a serem acertadas depois com os pais. Não havia refrigerantes, muito menos bebidas alcoólicas.  A carne era suficiente, mas nem de longe a gastança de hoje. Frutas havia  à vontade.


Ao findar meu segundo ano de Kappesberg   decidi  sair. Não tinha vocação para o  sacerdócio e além do  que estouravam nas minhas veias os  hormônios da adolescência.E ainda havia o problema do celibato.


Quem voltou para Santa Cruz foi um cara que não ouvira nada de Elvis Presley, que não sabia jogar basquete ( a moda em Santa Cruz), que não fumava ( apesar de já ter 15 anos), nem bebia . Além disso, não dizia palavrão, nunca tinha  nem passado perto da “ zona”, nem sabia o que era “ secar” uma guria.Esse era eu.


Nunca encontrei um só ex seminarista que  não tenha sido feliz  com aquela vida espartana e  não recorde com gratidão e satisfação os ensinamentos lá hauridos.  Na próxima sigo com a vida no interior do seminário, o longo tempo longe dos pais e da família , as orações e outras situações.


quinta-feira, 3 de março de 2022

A JOVEM MÃE, A SOLIDÃO E OS MOSQUITOS

 


Em São Leopoldo, o colégio São José, das irmãs franciscanas, decidiu lotear uma área que se transformou no Bairro São José.


Eu tinha uma casa lá.


Num dia de verão escaldante , estávamos, eu e meus filhos, jogando no nosso pátio. Eis que a bola foi para o terreno  vizinho.


 


Essa casa  estava alugada para um casal alemão. Parecia sempre fechada.


Saí pela calçada e apertei a campainha . Nada. Insisti. Até que surgiu uma moça muito jovem, loira, rosto muito vermelho, carinha de choro que vou te dizer.


Falei com ela em alemão e pedi licença para buscar a bola. 

- Was ist los? perguntei. ( o que há)


- kommen sie  herein, bitte, disse ela, me convidando para entrar.


Na sala havia um berço com um  gordinho e rosado bebê, só de fraldas, olhinhos azuis,todo picado de mosquitos .Um calor bárbaro. Ela abanando o bebê.Me disse que estava desesperada, não tinha nada para fazer, o marido passava o dia fora, estava com saudade de seus pais e  queria que eu lhe desse o número do telefone de um taxista de confiança. Queria ir ao aeroporto e voltar para a Alemanha.


Falei para ela se acalmar,estava evidente sua depressão. Não sabendo o que fazer, peguei a bola e lhe dei tchau.


Fiquei com pena daquela guria que poderia ser minha filha. Suas lágrimas me cortaram o coração.  Mas é claro que não alonguei a conversa, mesmo porque poderia ser mal interpretado.


Os dias se seguiram.


Uma bela manhã chamei um táxi  para me levar ao aeroporto em P. Alegre.


 Lá pelas tantas o motorista me falou:


- semana passada eu carreguei sua vizinha e o nenê para o aeroporto. Estranhei que ela não tinha  mala. Só a criança e uma mochilinha. Balbuciou que tinha muita pressa, ia pegar um avião para o Rio de Janeiro. 

Na volta da viagem me informei.


A moça, cansada de passar o dia sozinha, simplesmente deixou tudo para trás, menos o nenê , e voltou para sua terra.


Aí pensei: e nossos antepassados? Seu bilhete era sem volta.


Quantos e quantas  terão chorado de saudade de sua Heimat?


Naqueles tempos a  única solução era espantar os mosquitos, secar as lágrimas, ter fé, rezar e trabalhar. E , como se verificou, acabaram , em grande maioria, vencendo e se adaptando.


Por sinal, quando as terras ficaram escassas na região de  Santa Cruz, muitos colonos, inclusive parentes de minha mãe, partiram para o oeste de Santa Catarina.  Quando vinham para nos visitar, muito esporadicamente, contavam de suas dificuldades.

Contei isso aos meus parentes distantes na Alemanha em Zeltingen Rachtig , que muito se admiraram.



Quanto à moça, a culpa não foi dos mosquitos nem do calor. Foi da solidão.


quarta-feira, 2 de março de 2022

PUTIN, CRIATURA DAS SOMBRAS - TITO GUARNIERE

 

  

 Consumou-se a tragédia e a Rússia atacou militarmente e invadiu a Ucrânia.  

Há quem, para explicar os terríveis eventos, queira apenas embaraçar os acontecimentos e reforçar narrativas. Mas os fatos se apresentam na sua aparência e inteireza, da primeira até a última leitura e impressão.  

Quem fez todos os movimentos voltados para um só objetivo? Quem fez ameaças o tempo todo, com breves instantes de (má) dissimulação, alegando motivos nobres e a intenção de esgotar os esforços diplomáticos para pôr fim ao conflito? Quem reposicionou tanques e armas de destruição na mais perfeita simetria com o ataque iminente, nas fronteiras com a Ucrânia? Quem ignorou todos os apelos de paz para a região? Quem puxou o primeiro gatilho, deu o primeiro tiro? Quem avança território adentro do país ocupado, derrubando muros e prédios a ferro e fogo, destruindo propriedades e exterminando vidas preciosas, inclusive de mulheres e crianças?  

A resposta é uma só: a Rússia, Putin. Não é o caso de se referir, agora, a outras variáveis, como a desse personagem meio distante, aloprado, que é Bolsonaro, que se deu ao trabalho e ao vexame de ir – poucos dias antes da tragédia – oferecer "solidariedade" a Putin. E nem a certos protagonistas da política no Brasil, como Lula e o PT, que fazem uma condenação genérica às guerras, mas no caso concreto, atribui culpa igual (senão maior) à Ucrânia, Otan e Estados Unidos.  

No centro do drama de desdobramentos ainda imprevisíveis, está a figura sinistra de Vladimir Putin.  Frio, calculista, completamente destituído de escrúpulos, ele não tinha como trair as suas origens, a sua formação – a sua escola foi a temível KGB, a agência sinistra de delação, espionagem, torturas e assassinatos da antiga União Soviética. Do aprendizado macabro não teria como resultar um ser humano, digamos, normal, sensato, dotado de empatia, orientado por valores e princípios.  Do buraco soturno só podem sair anjos da morte. Putin está mais para Stalin do que para Gorbachev.  

A Rússia tinha convivido em paz com a Ucrânia, desde a derrocada da União Soviética, mas não sem um ressentimento profundo dos ucranianos em relação aos russos em geral – que é, por sinal, compartilhado por todos os povos da ex-URSS. Os países da Cortina de Ferro, do Pacto de Varsóvia, em grau maior ou menor, eram, a rigor, dirigidos com a mão de ferro por fantoches comandados de Moscou. Quem os sustentava eram os tanques de Moscou. Não há povo, dentre aqueles que estavam sob a influência soviética, que não tenha medo, ressentimento e ódio de Moscou e dos russos.   

Mas não havia tensões insuportáveis, que não pudessem ser abrandadas e mesmo resolvidas através do diálogo e do convívio civilizado.   Fazia tempo, depois dos Balcãs, que não ocorriam conflitos violentos na região, que não havia conflitos armados na Europa.  

Há, é certo, razões históricas, econômicas e geopolíticas para a crise. Mas a razão dominante é a sede de sangue, a sanha belicista, o caráter psicopata de um personagem – Putin – que se fez e criou nos porões do totalitarismo.  

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Futebol, Carnaval e Tatuagem

 Quando daqui a milhares de anos uma incursão de outra galáxia aportar no sistema solar, ficará bem interessada em  examinar o planeta Terra, pois foi o último a ter vida sob todas as formas.

Verão ao certo grandes covas que eram os oceanos, centenas de condutos aquíferos, que eram os rios, ruínas em quase toda extensão. Logo constatarão que o planeta era super povoado pois ainda era do tempo em que se tinha que se alimentar para sobreviver. Como não havia mais o que comer, a civilização acabou. 

Algo vai causar perplexidade nos cientistas. Quase todos os humanos tinham senhas nos corpos, que vinham a ser pinturas indeléveis.

Os cientistas notarão que até os anos 1970, mais ou menos, a humanidade não tinha nada disso na sua pele. 

Peço desculpa ao leitor pela brincadeira , mas é verdade: nossa geração não pensava em ajudar a natureza a fazer mais bonitos os corpos. Achávamos que estava bem bom assim, sem as tatuagens.


A saúde de que o carnaval?

Não vejo mais sentido. O carnaval é celebrado todos os fins de semana, geralmente com muito álcool, drogas e correrias de carro.

Um exemplo foram as brigas e quebradeiras na praia em Atlântida. Agora virou moda beber até cair ao amanhecer ou sair a dirigir  pelas ruas em altíssima velocidade. O melhor de tudo é se manter quieto dentro de casa, não reclamar e segurar os cachorros apavorados.

Isso ocorre em todas as cidades, mesmo nas pequenas. E a Polícia não tem como fazer algo. Mete a mão no piá e pronto: vai ter processo.

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Um papinho sobre o  futebol.

Sempre joguei futebol até os 60 anos. No tênis continuo firme. Ao menos é um esporte para gente educada. Se bem que alguns que migram do futebol para o tênis, não se adequam e são “espertinhos”.No meu tempo era assim. A intenção era fazer o gol. Para isso era necessário jogar para a frente. Para jogar para frente era preciso coragem.

A bola está ao centro para ser iniciada a partida. Toca um metro para frente. O cara devolve para o zagueiro. Este entrega ao goleiro.O goleiro mete para o zagueiro, que dá um balão para o meio do campo, assim ao léu. Um avante consegue chegar bem na frente. Em vez de se arrojar para dentro da área, recua para o meia, este manda para o  ala, que manda para o lado, o qual recua para o goleiro.

Mais um pouco e vão colocar  duas goleiras nas laterais.

Muitos  atletas não sabem  escrever corretamente, não lêem. Mais ainda, a maioria é monoglota.

Agora vem um uruguaio, que não fala português, ensinar os jogadores que não sabem castelhano. 

Não olvidemos: “ traduttore,traditore”. (tradutor, traidor)


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

CARTA DA PSIQUIATRA LAÍS LEGG

 Laís é psiquiatra e comunicadora. A conheci há  muitos anos. Eu tinha um programa na Rádio Pampa de Porto Alegre aos domingos, das 7 às 9.30 da manhã. O programa era ao vivo. Durou sete anos. Tive que parar porque fui convidado a participar na TV no programa do Paulo Sérgio Pinto. 

A Laís brilhou muito na Pampa. Sempre foi muito incisiva nas suas falas, mas com o tempo parou para melhor atender sua real profissão.

É quase minha vizinha em Porto Alegre. Mora num belo apartamento quase em frente aos terrenos da Diocese Metropolitana. E não é que apareceu um galo, assim do nada, nos terrenos da Diocese , exercendo seu mister de cantar ao surgir da aurora? Alguém que não gosta de  acordar cedo  deve ter dado um sumiço no galo.Laís interveio, mas isso conto em outro artigo. 

Vamos à carta da Laís sobre meu artigo da semana passada na Gazeta, ela com seu estilo livre e direto.

“Que beleza! E é a mais pura verdade!

Cito um exemplo que aconteceu comigo: faculdade de Medicina UFRGS, década de 70, eu, em plena aula de patologia, os alunos enfileirados, lado a lado, cada um com seu microscópio, quando, de repente, essa que vos escreve teve uma dúvida quanto às células hepáticas que via e ergueu o braço. O professor: "como é que a senhora ousa me fazer uma pergunta com a luz do microscópio acesa? Aliás, o que a senhora faz aqui? Medicina é lugar de homem".

Pode?

Aliás, o hino era: "Medicina, papa fina, não é coisa pra menina".

Mas Ruy, me pergunta de que sexo eram os alunos que desistiram da medicina por não conseguir ver sangue e cadáveres? Ou que desmaiavam dentro do bloco cirúrgico quando o professor usava o bisturi? E se alguma menina levava a avó para as aulas de anatomia para lhes enxugar o suor da testa quando tinha que dissecar um cadáver?

Pois é... as desistências eram todas dos meninos, os "papa fina".

Agora, que já somos a maioria dentro do curso da medicina, podemos dizer, a plenos pulmões: "Medicina é colo. E o colo materno é insuperável".

Só consegue dar um bom colo quem gestou, pariu, produziu o alimento do filho no próprio corpo e cuida da prole por um bom tempo.

E os machões? Agora, eles sabem que duram 8 anos menos que as mulheres e as doenças mais graves "preferem" os XY.

Passem na frente de um boteco lá pelas 18h... alguém vê uma mulher, ali, tomando um martelinho de cachaça? Não, elas foram direto para casa, cuidar dos filhos, e torcer para não ser morta por um feminicida.

Mas há exceções, conheço homens maravilhosos. Pena que são poucos..”

Digo eu: Die Gedanken sind frei. ( os pensamentos são livres).


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

ARTIGO DE FRANKLIN CUNHA

COMO SE ESCOLHEM MINISTROS 

Bolsonaro na Rússia pergunta ao Putin:

- Senhor presidente, como consegue escolher tantos ministro tão maravilhosos?

E o Putin responde:

- Eu apenas faço uma pergunta inteligente. Se a pessoa souber responder ela é capacitada a ser ministro. Vou lhe dar um exemplo...

E o Putin manda chamar o seu primeiro-ministro Dmitri Medvedev e pergunta:

- Dmitri, seu pai e sua mãe têm um bebê. Ele não é seu irmão nem sua irmã. Quem é ele?

Medvedev responde:

- Presidente, esse bebê sou eu.

Ele vira pra Bolsonaro:

- Viu só? Mereceu ser ministro.

Bolsonaro maravilhado volta ao Brasil. Voltando ao Brasil, chama o Onyx Lorenzoni e lasca a pergunta:

- Onyx, seu pai e sua mãe têm um bebê. Ele não é seu irmão nem sua irmã. Quem ele é?

Onyx responde:

- Vou consultar nossos assessores e a base aliada e lhe trago a resposta.

Ela vai então e cobra a resposta. Ninguém sabe. Aconselham perguntar ao Olavo de Carvalho, que é muito inteligente.

Onyx liga pra Olavo:

- Olavo, aqui é o Onyx. Tenho uma pergunta pra você: se seu pai e sua mãe têm um bebê e esse bebê não é seu irmão nem sua irmã, quem é esse bebê?

Olavo responde imediatamente:

- Ora Onyx, é lógico que esse bebê sou eu!

E Onyx vai correndo levar a resposta ao presidente Bolsonaro:

- Presidente, se meu pai e minha mãe têm um bebê e esse bebê não é meu irmão nem minha irmã, é lógico que ele só pode ser o Olavo de Carvalho!!

Bolsonaro dá seu sorrisinho sabido e diz:

- Te peguei, Onyx. Sua resposta está completamente errada... o bebê é o Dmitri Medvedev!

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

DESEMBARGADORA IRIS - MAIS UMA PRECURSORA

 Inicio dizendo que o que vou contar é verdadeiro, por incrível que possa parecer.

No início dos anos setenta as mulheres já estavam em toda parte. Nas faculdades de medicina, de odonto, engenharia e tantas mais. Na minha turma do Direito da UFRGS havia um terço de gurias, todas muito estudiosas. Em várias áreas se destacavam: nas rádios, nas TVs, nos jornais, na advocacia, no magistério superior, na política. Mas não tinham acesso à magistratura estadual aqui no RGS.

Era assim: o Tribunal de Justiça abria o edital para o concurso a juiz de direito, do qual constavam vários ítens como idade, escolaridade, bons antecedentes, mas não havia nenhuma restrição quanto ao gênero. Esgotado o prazo para as inscrições,  a lista era submetida ao exame da comissão de concursos, que indeferia, sumariamente, a inscrição das mulheres. No meu concurso, que aconteceu em 1971, eu tinha 25 anos de idade, havia centenas de candidatos aptos a concorrer, mas não aparecia o nome de nenhuma mulher.

Dizia-se, a boca pequena, que não era viável uma mulher ser juíza de direito  lá nos cafundós. Como é que uma mulher poderia ser juíza? e o marido, e os os filhos, e os perigos?

No concurso seguinte ao meu, várias mulheres se inscreveram novamente e o assunto foi levado por mais uma vez ao órgão especial do TJRS.  Acontece que o colegiado já tinha uma composição de desembargadores mais jovens, não tão conservadores. Foi fundamental, a meu ver, o fato de uma filha do desembargador César Dias  haver se inscrito. Seu nome: Maria Berenice Dias. Aí mudou a cantilena. Houve uma grande discussão interna e a votação mudou, abrindo as portas para as mulheres. Maria Berenice fez uma maravilhosa carreira, foi juíza brilhante, ascendeu ao cargo de desembargadora, hoje está aposentada e é uma famosa escritora e advogada no campo do Direito de Família. 

Assim como a pioneira Maria Berenice as mulheres começaram a se destacar, ruindo por terra todas aquelas falácias que eram motivo para os receios já narrados.

Muitas se casaram, se separaram, tiveram filhos e ninguém morreu por causa disso. Foram se destacando e hoje, salvo engano, constituem quase 50% no quadro dos magistrados estaduais. As mulheres galgaram todos os cargos, inclusive na Ajuris.

E eu, modéstia a parte, sou pai de uma guria linda, se formou na UFRGS, casou e conservou  seu nome de família, tem dois filhinhos  e é Juíza de Direito na Comarca de Tramandaí, Milène Koerig Gessinger.

Agora temos a primeira mulher presidindo  nosso Tribunal de Justiça, a desembargadora Iris Helena Medeiros Nogueira.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

MINHA PRIMEIRA VIAGEM AO EXTERIOR (2)

 Voltamos e a viagem de volta , também de trem, foi iniciada no meio da tarde.

O trem sulcava aquele mar verde que é o bioma pampa gaúcho.Com o tempo começou a aparecer a  lua cheia. Noite clara, portanto. Fui até o último vagão, abri a porta traseira e me sentei no degrau, contemplando o céu “ bordado de estrelas”  e aqueles campos planos, com pontas de gado e ovelhas aqui e ali, passando como num filme, por horas e horas, sem que se visse uma só casa , vila ou cidade. No ar um perfume de maçanilha, trazida das macegas pelo cálido vento norte .


Tudo isso quando eu era piá. Pensei: um dia eu quero morar no pampa, um dia vou ter um pedaço de campo, nem que seja pequeno.

E assim fiquei apreciando tudo, completamente maravilhado. De quando em quando passávamos por cisternas grandes que no tempo da Maria Fumaça serviam para colocar água no trem.

Enfim, a vida foi passando, mas  nunca me esqueci dessa viagem para o que me era absolutamente desconhecido.


Anos mais tarde  assumi como  juiz de direito em Horizontina e depois em  Arroio do Meio e logo  fui promovido. Convidaram-me para assumir em Santiago. Aceitei na hora, conquanto nunca tenha ido lá.


Ali me inteirei melhor das coisas do campo. 

Santiago era uma cidade de pequena para média. Tinha tudo o que se pode querer. Ali conheci a verdadeira música de raiz do Rio Grande do Sul. Incrível a lhaneza das pessoas, sempre um sorriso, sempre um " aperta firme quando alguém lhe estende a mão" (Ainda existe um lugar ,Wilson Paim) .

Aproveitava os dias de folga para conhecer o folclore local, que até então nem de perto conhecia.

Apoiei a criação do Cruzeiro de Santiago e aceitei ser seu vice-presidente. O mentor era o lendário Tenente Jacques.

Fiquei dois anos e fui embora, de novo promovido, mas carregando comigo meu sonho. Desta vez eu já tinha melhor ideia do que eram as cidades daquela região, com uma pecuária muito forte. Foram dois anos de muita experiência. Fui promovido para Ijuí. Tive que aceitar porque afinal eu queria fazer carreira e, se possível, ser promovido um dia a desembargador.

Ijuí era outra outra história. Estava florescendo com suas plantações de soja e trigo. Logo depois me removi para São Leopoldo, onde fui muito bem acolhido e até fiz parte da administração do Clube Esportivo Aimoré, onde fui presidente do Conselho Deliberativo.

Finalmente fui promovido à Capital. 

Tive, portanto, uma visão panorâmica do que é esse Rio Grande amado.



Com Maristela pude entrar no Agro.

Nosso Estado é muito rico. E lindo. 

Temos tudo. É só ir atrás.

Tudo começou naquele trem.