segunda-feira, 15 de abril de 2019

PUTZ, TUDO QUE ME FALTAVA ERA PUBLICAR CRÔNICA DE UM GREMISTA

Meu pai era torcedor do Renner, que fechou em 1954, após ser campeão gaúcho. Como bom alemão, bandeou-se para o Grêmio. Minha mãe Ludmila, também alemoa, tinha pena dos pobres do Colorado. E torcia  pelo Inter. Claro que a segui. Mas não toco flauta, não vou a jogos e só olho os gols do Inter depois do jogo, se ele tiver sido vitorioso.
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ATÉ DE BONDE NÓS IREMOS!
Sérgio Agra

— O dia está lindíssimo. Não é só um domingo cristão, é um imenso domingo universal — dissera o Bruxo de Cosme Velho ao pé do ouvido do moleque de quatro anos que seguia seguro pelas mãos firmes do pai rumo ao abrigo do bonde Auxiliadora, na Praça XV. O destino, Estádio da Baixada. O ano era 1953.
O pai prometera o levar por vez primeira para torcer, não apenas para o vizinho de apartamento, o cearense Itamar Sampaio, mas pelo “team” que naquele ano de seu cinquentenário ganharia o terceiro e definitivo Hino, composto por seu não menos ilustre torcedor, Lupicínio Rodrigues, e que o Tempo ungiria o Clube homenageado na ode ao Olimpo como o Imortal Tricolor.
Na esquina da Rua Mostardeiro o elétrico fizera a última parada antes de dobrar à esquerda e prosseguir pela Florêncio Ygartua. Ali uma leva de senhores, alguns em terno e gravata, e jovens trajando roupas leves e desportivas desceram a íngreme lomba da continuidade da Mostardeiro— que os gaiatos do início dos anos 70 apelidaram de “O último suspiro das virgens”. À esquerda, ao fim do declive, situava-se o Jockey Club do Rio Grande do Sul, ponto de encontro da “rai soçaite”, em que, não raro, no tradicional Grande Prêmio Bento Gonçalves, transfigurava-se no palco do desfile de cavalheiros fidalgamente encartolados e de luzidias e “britanicamente” enchapeladas madamas e presumíveis vestais senhorinhas.
Voltemos, porém, ao Planeta Terra. À direita, numa construção de madeira, simples, mas de bom gosto, destinada para abrigar sócios e convidados, resplandecia o Estádio da Baixada, também conhecido como o Fortim da Baixada. Os não sócios se acomodavam ao redor do campo em cadeiras, entre as árvores ou nos barrancos.
O vizinho Itamar Sampaio e seus companheiros, dentre os quais Airton Ferreira da Silva, Ênio Rodrigues, Sergio Moacir e Tesourinha seriam condescendentes para com as desatenções do molequinho de quatro anos que preferira galgar os degraus das arquibancadas de madeira até o seu cimo e, através de pequenas aberturas, espiar as carreiras que se desenrolavam nas pistas do hipódromo. Afinal, era aquela a iniciação do futuro e fervoroso torcedor.
Foi ainda pelas mãos do pai que o menino viajara, ou no bonde Glória ou no Teresópolis até a Pedreira, para desembarcar na esquina da Avenida Carlos Barbosa com a Rua José de Alencar e se acomodar nas arquibancadas de cimento do Estádio Olímpico. A novidade era a recente contratação de um argentino que revolucionaria a indumentária dos goleiros com sua berrante camisa amarelo-gema: Germinaro.
Definitivamente, a paixão assaltara o guri de forma que, ainda hoje, ele nomeia aquele que fora o primeiro grupo de seu coração: Germinaro, Figueiró, Airton, Ortunho, Elton, Ênio Rodrigues, Marino, Gessy, Juarez Milton e Vieira. Era a tradicional formatação inglesa: dois, três, cinco.
Trinta anos mais tarde, o piá, feito homem e pai, levava seguro pela mão um curioso fedelho ao Olímpico Monumental. Ali, muitos foram os jogos que pai e filho torceram e vibraram até o último Gre-Nal, em dezembro de 2012, quando todos os que lá estiveram se despediram daquele Templo sagrado.
Muitas foram as lágrimas de dor e de alegria vertidas naquele amado Casarão que a descúria de uma construtora fraudulenta e a incompetência dos gestoresmunicipais permitiram transformasse em covil de desocupados e drogadictos. “Não há nada menos vazio do que um estádio vazio. Não há nada menos mudo do que as arquibancadas sem ninguém". As palavras são do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Através do Rogério, combativo Editor deste Litoralmania e fraterno amigo do “homem”, a quem outorguei procuração para, junto a ele, Romildo Bolzan Júnior, solicitar não um busto, menos ainda uma estátua; um simples, mas especial convite ao camarote.
É mais do que chegado o momento, num dia lindíssimo, não apenas um domingo cristão, um imenso domingo universal, em que filho e neto hão de segurar-lhe as mãos e se transfigurarem os olhos do pai e avô que lhes há de dizer, ante a imponência e sacralização da Arena: — Me ajudem a olhar!


sábado, 13 de abril de 2019

NO CAMINHO DE TAQUARI - SÉRGIO AGRA


NO CAMINHO DE TAQUARI





Chovia muito na véspera daquela Sexta-feira Santa. As nuvens carregadas e a fúria dos ventos emprestavam a São Jerônimo, Triunfo e General Câmara, de tão quietas e desertas, a aparência de cemitérios abandonados. O barco a vapor de Mestre Dário, o Porto Alegre, o maior da frota da Companhia de Navegação Arnt— com capacidade de transportar até 400 passageiros, dotado de camarotes, cozinha e refeitório —, enfrentara com valentia a correnteza do Rio Jacuí. Há muito escurecera quando a embarcação, finalmente, enveredou para o Rio Taquari, por onde alcançaria o embarcadouro da cidade a que dera o nome. No porto, apesar do dilúvio, Nenê Agra, meu avô, lá estava, abrigado do torrencial aguaceiro, no volante do seu Prefect estrategicamente estacionado o mais próximo possível do cais, à nossa espera.
Após o tormentoso desembarque, envolvido pelo afetuoso abraço avoengo e perguntado como fora a viagem, eu jurara que jamais faria outra jornada a bordo de balouçantes embarcações, não nas condições de tempo como o daquela noite. Minha mãe, sempre prestimosa aos meus caprichos, aquiescera e, para me sossegar, conjeturara que, dali para diante, as excursões àquele pequeno e bucólico lugarejo se fariam no automóvel de meu pai. Esta decisão, no entanto, não passaria de uma única e desgastante experiência, às vésperas do Natal daquele mesmo ano.
A rodovia — então extremamente precária — era, em alguns trechos, de chão batido. A poeira, erguida pelos automóveis que trafegavam no sentido contrário, cegavam a visão de meu pai, sem considerar as pedras que eram lançadas com violência pelos pesados caminhões deixando suas marcas na pintura da lateral do carro. Em dias de chuva a estrada transformava-se em verdadeiro atoleiro, e não guardavam, a qualquer tempo, o fascínio das viagens, mesmo nos barcos a motor, que sucederam os antigos vapores impulsionados por caixas de roda.
Ao se partir de Porto Alegre, antes de alcançar o delta do Rio Jacuí, vislumbravam-se das vigias dos camarotes as Ilhas da Pintada, da Pólvora e das Flores para, aí sim, se iniciar a subida do leito sinuoso dos rios Jacuí e Taquari, margeado por densas matas nativas que presenteavam com deslumbrantes cenários a cada meandro. Ao longe e em dias de intensa claridade, a uma distância de quatro quilômetros do porto da cidade, quando o vapor iniciava uma longa e suave curva para a esquerda, apoiado nas balaustradas, eu avistava por entre a copa das árvores do bosque que ainda hoje circunda a pequena povoação, primeiro, o campanário da Igreja Matriz São José de Taquari, na elevação da Rua Sete de Setembro; aos poucos, os altos muros e os telhados já sem cor definida dos antigos sobrados no estilo açoriano. Mais próximo, eu distinguia, tal sentinela, a possante águia esculpida em granito na cumeeira do solar de meu avô. A ave parecia premonizar a chegada de seus hóspedes.
Na casa avoenga vivenciavam-se verdadeiros festivais de aromas e sabores indescritíveis que se perpetuariam na minha memória: a essência do óleo de peroba nos móveis antigos, o perfume dos jogos de cama lavados e caprichosamente engomados, os eflúvios da goiabada, ou do doce de abóbora recém-feitos em tachos de cobre pela avó, que se evolavam por todos os recintos do casarão. O avô não cabia em si de contentamento com a visita do primeiro neto. Prometia, para o dia seguinte, uma ida ao orquidário para exibir os novos espécimes de sua coleção e as medalhas mais recentes, fruto dos lauréis nas exposições.
Na companhia de meu avô eu fruía, naquela hora preguiçosa de pós-almoço, do suave e inusitado prazer em aspirar a adocicada fragrância da fumaça do crioulo e ver o fumo caprichosamente desbastado e enrolado com habilidade na folha de palha. Eu era tomado por assomos de risos ante os “causos” então narrados com fina ironia — traço marcante do ancestral — das gafes e trapalhices de alguns confrades da aldeia. Meu avô inventava, mesmo ante minha ingênua curiosidade, anedotas contando as sandices de antigo administrador da cidade.
Nos feriados prolongados como aquele, a casa, após o almoço, era invadida pelo alarido dos demais netos, a despeito dos clementes pedidos de minha avó para que guardássemos silêncio, afinal a sesta era sagrada para o velho orquidófilo e exímio inventor de histórias. Era, então, permitida a incursão do alegre bando à Lagoa Harmênia.
Para alívio de minha avó, o descanso do patriarca estava salvo.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

SOBRE ANIMAIS - 1


Nosso cancioneiro nativo gaúcho tem pérolas, tanto sonoras, como poéticas que miram a vida de campo. Uma delas é a belíssima composição de Ewerton Ferreira e José H. Retamozo, “ Poncho Molhado”:

“Poncho molhado olhar na tropa e no horizonte/Vai o tropeiro devagar estrada aforaA chuva encharca que está chovendo desde ontontem/Dói dentro d'alma essa demora/

Irmão do gado ele se sente nessa hora/E o seu destino também vai nesse reponte/
Igual a tropa nesse tranco estrada afora/Sempre encharcado de horizontes/
A tropa segue devagar mugindo tonta/Talvez pressinta que seu fim é o matadouro
E o tropeiro entristecido se dá conta/O boi é bicho mas tem alma sob o couro….”

Nada mais verdadeiro. Hoje, queiramos ou não, a maior parte de nós está confinada em
apartamentos ou em casas bem gradeadas, cheias de sensores, alarmes, câmeras.
Saímos das fábricas ou qualquer local de trabalho e nos socamos dentro do
automóvel, para apear já dentro da moradia. Se não estivermos teclando no
celular, é provável que estejamos degustando a overdose de informações, cuja
única “ virtude” é nos deixar mais aflitos e estressados.No máximo teremos um
cachorro, cujo horizonte é a grade da casa, com o qual passeamos, sempre com
uma guia e coleira, impedindo que saia correndo e brinque com alguma coisa.
Sendo assim, pouco tempo temos de contemplar a  natureza, tal qual ela foi
gestada pelo Criador. Às vezes chegamos ao absurdo de pensar que  vegetação que não foi por nós colocada nos vasos ou plantada no jardim, é cisco, é capoeira, é erva daninha.

As pessoas ficam , assim, desnorteadas por imposição de nossos tempos. Os pequenos
povoados, as bucólicas cidades , onde não pega bem a internet, são
inimagináveis para a maioria.
 

Pois como se diz em Unistalda, “ é aí que me refiro”.

Por eu estar há mais de 20 anos em estreito e frequente contato com os campos,
observei que os animais são maravilhas da natureza. Tanto os domesticados como
os livres. Não concordo com a assertiva de que os animais, por não terem o
aparelho fonador como os humanos, sejam irracionais. Lá na fazenda andam livres
canídeos, felinos, veados, etc que não deixam lixo por onde habitam. E
proclamo: eles têm tanto direito de viver aqui na Terra como nós.

Se você tiver bastante contato com os cavalos verá que eles tem, no seu grupo,
parceiros escolhidos, trocam afagos, se acostumam com os humanos, sabem “ de vereda”
quem é cavaleiro e quem não é.

Continua
na próxima.

terça-feira, 9 de abril de 2019

TEM GENTE DESCONHECIDA QUE ESCREVE BEM MELHOR QUE MUITO FIGURÃO

Escrever poemas numa hora dessas? Sergio Agra

SERGIO AGRA – Intelectual não vai a praia. Intelectual bebe.
ESCREVER POEMAS NUMA HORA DESSAS?
 (Ou não ter algo mais útil por fazer)
Como invariavelmente acontece, meus bruxos, meus duendes, meus fradinhos da mão furada, invadem meu sonho, roubam-me o sono e, na algazarra que lhes é característica, me imobilizam pés e mãos, sem ofereceram-me chances de defesa, e me arrastam até o computador. Nada lhes demove daquela travessura, sequer meus argumentos que já passam das duas horas da madrugada.
Ciente do que eles são capazes, tanto em me concederem favores e benefícios como me enganarem e pregarem-me partidas, pergunto-lhes o que pretendem desta feita. Pulando, batendo palmas, num uníssono, garantem-me que adoraram brincar de “fazer poesia” e desejam continuar a brincadeira.
Lembro a madrugada do dia 13 de março em que eles, em alegre bando, assaltaram meu quarto e ordenaram que eu lhes fizesse algumas poesias. Argumentei dizendo-lhes que não era e nunca serei poeta. Ardilosamente me indagaram o que fazem os poetas. Respondi-lhes, escrevem poesia! E tu, replicaram, não és escritor? Então, um escritor também “escreve” poesia! Inútil seria minha tréplica ante tamanha sagacidade. E, naquele quase amanhecer, escrevi “Decompondo a Poesia”, que Litoralmania publicou no mesmo dia.
Admiro os poetas – os talentosos – que reinventam sonhos, pintam crisálidas, cantam os amores. Mais que admirar, no entanto, é saber ler e entender o que o poema traduz, sob o risco, o que acontece amiúde, de se ler uma espécie de “torre de babel” de pretensas poesias. Duvidam? Então, leiam:
“O plenilúnio, na pluviosa e invernal noite,/ de doirado e intenso esplendor,/ borrifa sobre a dama-da-noite,/ acolhida pelo indevassável dossel de uma estufa, / desenhando um halo de inusitada cor”.
E a cativa claque explode em loas!
O poema, dos gêneros literários, se não é o mais difícil de ser bem escrito, o é em ser entendido. Mesmo sendo-lhe contemplado voos sem limites da imaginação do versejador, há de guardar lógica e verossimilhança.
Se a noite, como a descrita acima no poema “ensaio”, é de chuva, há de se presumir que as nuvens impeçam o brilho, mesmo sendo lua cheia (plenilúnio), ser vislumbrado; menos ainda que os raios desse luar trespassem o “indevassável dossel” da estufa. Quanto ao esplendor “doirado”, ainda que um tanto forçoso, a licença poética concede esse arroubo.
Enfim, mais intrincado do que escrever e ler um poema, é entender se o que o poeta versejou tem um sentido, tem uma lógica. Caso contrário, nem a licença poética o absolve.
Por esta insofismável razão, apesar da tirania desses monstrinhos e inimigos íntimos, fico eu com minha descomplicada prosa. Mas sempre se abre uma exceção. Afinal, estamos no Brasil, sil, sil…
O Face Book e os “poetas” de ocasião
Num distante,tão distante carnaval,
entre tirolesas,havaianas e colombinas,
misteriosa e dissimulada odalisca,
a fronte envolvida por purpurinas
e delicado véu que me concedia a vista
dos verdes olhos como o mar abissal,
desafiou-me – tal zíngara dissimulada –
para dar asas a seus devaneios,
dedicar-lhe parnasiana poesia
como se fora ela, a odalisca,
Sherazade, a mulher de meus mil e um anseios.
Jurei-lhe, veemente,
ser menestrel de escasso cântico,
de verso desataviado e anacrônico.
A irreal escrava de harém, obstinada,
provocava-me, com fingida lascívia,
com seus “óhs” de encantamento
e “ais” de enganosa paixão
– canora cotovia –,
sacralizar em juramento,
exaltar-lhe o viço em suave canção.
As tolas havaianas,
colombinas e tirolesas,
incultas mulheres praianas,
presumem-serainhas e princesas,
alvas de lamecha poesia.
A cada poema(zinho),
também (mal)lido,
compartilham num delírio compulsivo:
“Lindo! das coisas da alma, quanta leveza.”
“Lembra-me, tua poesia,
das panelinhas de coco que mamãe fazia”.
Deus meu!
Dou-me conta neste momento
de que hoje sequer é festajunina ou carnaval,
e de que sou incapazde tamanha descortesia,
mesmo aquineste universo virtual!
Assim,logradas e românticas princesinhas,
claque cativa dos obtusos bardos
que infestam as redes sociais,
serei eternamente grato e feliz em saber,
“no plenelúnio deste anoitecer”,
(como “eles” abusam dessa litania)
que minha despretensiosa poesia
dispensa vocês dos mil e um sussurros:
“Lindo! Que poético!
Lembra as noites de São João
e as paçoquinha que mamãe fazia
no velho e fumarento fogão!”

quinta-feira, 4 de abril de 2019

AS MULHERES NA MAGISTRATURA GAÚCHA


Inicio dizendo que o que vou contar é verdadeiro, por incrível que possa parecer.
No início dos anos setenta as mulheres já estavam em toda parte. Nas faculdades de medicina, de odonto, engenharia e tantas mais. Na minha turma do Direito da
 UFRGS havia um terço de gurias, todas muito estudiosas. Em várias áreas se destacavam: nas rádios, nas TVs, nos jornais, na advocacia, no magistério superior, na política. Mas não tinham acesso à magistratura estadual aqui no RGS.
Era assim: o Tribunal de Justiça abria o edital para o concurso a juiz de direito,do qual constavam vários ítens como idade, escolaridade, bons antecedentes, mas não havia nenhuma restrição quanto ao gênero. Esgotado o prazo para as inscrições, a lista era submetida ao exame da comissão de concursos, que indeferia, sumariamente, a inscrição das mulheres. No meu concurso, que aconteceu em 1971, eu tinha 25 anos de idade, havia centenas de candidatos aptos a concorrer, mas não aparecia o nome de nenhuma mulher.
Dizia-se, a boca pequena, que não era viável uma mulher ser juíza de direito  lá nos cafundós. Como é que uma mulher poderia ser juíza? e o marido, e os os filhos, e os perigos?
No concurso seguinte ao meu várias mulheres se inscreveram novamente e o assunto foi levado por mais uma vez ao órgão especial do TJRS.  Acontece que o colegiado já tinha uma composição de desembargadores mais jovens, não tão conservadores. Foi fundamental, a meu ver, o fato de uma filha do desembargador César Dias  haver se inscrito. Seu nome: Maria Berenice Dias. Aí mudou a cantilena. Houve uma grande discussão interna e a votação mudou , abrindo as portas para as mulheres. Maria Berenice fez uma maravilhosa carreira, foi juíza brilhante, ascendeu ao cargo de desembargadora, hoje está aposentada e é uma famosa escritora e advogada no campo do Direito de Família.
Assim como a pioneira Maria Berenice as mulheres começaram a se destacar, ruindo por terra todas aquelas falácias que eram motivo para os receios já narrados. Muitas se casaram, se separaram, tiveram filhos e ninguém morreu por causa disso. Foram se destacando e hoje, salvo engano, constituem quase 50% no quadro dos magistrados estaduais. As mulheres galgaram todos os cargos, inclusive na Ajuris.
Falta apenas uma desembargadora assumir, num momento propício , a Presidência no Tribunal de Justiça.
Eu eu,modéstia a parte, sou pai de uma guria linda, se formou na UFRGS, casou e conservou  seu nome de família, tem dois filhinhos  e é Juíza de Direito na Comarca de Tramandaí,Milène Koerig Gessinger.


terça-feira, 2 de abril de 2019

CULTURA : MARAVILHOSA E ERUDITA CARTA DE UM FILÓSOFO, JOSÉ NEDEL

Caro ensaísta acadêmico Franklin Cunha,
  
    Seu belo e instrutivo ensaio “Funerais linguísticos” (agora no Correio do Povo, Caderno de Sábado, 30/3/19), me induz a propor algumas reflexões. A matéria ventilada é rica, exibe variados aspectos, todos interessantes.
Seleciono tão só alguns pontos.
    O perigo de descaracterização da língua francesa pela invasão incontrolável de palavras da língua inglesa, denunciado por René Etiemble, mutatis mutandis, ameaça também a nossa língua, que se vê ante um sem-número de termos desse gênero invadindo reportagens, artigos e colunas na imprensa cotidiana (v. g., compliance, 50% off, startups, spoiler, for sale, whatsapp, e-commerce, workshop, etc.). Mas não é essa questão que me interessa aqui e agora, senão outra, a da emergência da linguagem humana, “estrutura de grande complexidade, definidora da humanização do homem”, como escreve acertadamente o eminente ensaísta.
    É verdade, a possibilidade da fala é uma condição adquirida in utero; mas é duvidosa a afirmação de que as crianças “não aprendem a falar: [pois] já o sabem”, atribuída a linguistas como Noam Chomsky e outros. Essa tese é platônica: implica a existência de ideias inatas, que é contrariada pela majoritária tradição aristotélica. Segundo Aristóteles, na origem, a mente ou a alma (psyché) é uma tábula rasa em que nada está escrito. A partir da experiência sensível é que nela se lançam os conteúdos do saber. Assim se realiza verdadeira e progressiva aprendizagem. Sendo assim, o que é inerente à natureza é a capacidade de conhecer, não seu conteúdo. Este  é adquirido com a experiência.
   Outra questão relevante está implicada na afirmação bem lançada de que o “substrato anatômico e neurológico complexo e único no reino animal” torna possível a emergência da linguagem.  Esconde-se nisso uma sutileza que vale a pena desvendar: a distinção entre condição e causa. “Tornar possível”, permitir, é função da condição, não da causa. Condição não produz o efeito (no caso, pensar, falar), mas permite que a causa o produza.
    Segundo a antropologia filosófica, o substrato anatômico e neurológico é condição do pensamento, do conhecimento racional, da linguagem. Sua causa é a parte ultrabiológica do composto humano: a psyché, a alma racional, o noûs que, segundo Aristóteles, “vem de fora”; e, na concepção hebraico-cristã, é criação direta de Deus, não produto evolutivo a partir da matéria. Em virtude desse componente racional, o ser humano, verdadeiro “centauro ontológico” composto de uma parte imersa na circunstância e de outra dela emersa (José Ortega Y Gasset), tem uma plenitude interior que o impele à criação da linguagem, a fim de satisfazer a premente necessidade de se comunicar. Os animais não humanos, carentes de racionalidade, não tem semelhante plenitude interior que os incite à linguagem lógica. A propósito dessa matéria, o padre jesuíta Balduíno Rambo, cientista gaúcho de renome, deixou este registro curioso: O macaco tem aparelho fonador perfeito, condição que lhe daria plena possibilidade de falar. Porém não fala, porque, sem inteligência ou racionalidade e, pois, sem interioridade, “não tem nada a dizer”.
    Essa disquisição da antropologia filosófica escapa à linguística, à psicologia experimental, à ciência empírica in genere. A filosofia, por sua vez, sente-se à vontade em dar conta disso, e o faz com boas razões teóricas desafiadoras até da peremptoriedade das posições antagônicas, materialistas. Entre elas há quem (v. g., Karl Vogt) defina o pensamento como “secreção do cérebro” à semelhança da bílis, segregada pelo fígado; e da urina, pelos rins. Errado. A verdade é outra: o substrato anatômico e neurológico do composto humano é tão só condição do pensamento e de sua expressão pela linguagem, não sua causa, como foi evidenciado.
   Caro Acadêmico Franklin Cunha. Agradeço a oportunidade de ler seu belo ensaio, que me impeliu a propor esta singela reflexão.
    Um forte abraço.
    José Nedel

quinta-feira, 28 de março de 2019

REPERCUSSÕES SOBRE OS CUSCOS DO DR. FRANKLIN

ROSANE DE OLIVEIRA


Que bela forma de começar o dia, meus caros! Estou me sentindo mais rica nesta manhã. E não é só porque gosto de perros, mas porque um bom texto é capaz de iluminar meu dia. 
Boa quinta-feira a todos! 
Obrigada, Ruy e Franklin. 
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DR. MARCELO AIQUEL
Quem não gosta de cães BOM SUJEITO NÃO É!
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DES. ELISEU TORRES


Costumo brincar com Vanessa, minha mulher e colega de trabalho. Digo a ela que qualquer dia desses, pelo menos uma de nossas duas yorkshires, irá falar. Chama-se Clicquot, por ter a cor da champagne francesa. Já tem idade provecta (13 anos), mas isso só vai acentuando suas virtudes. Assumiu voluntariamente o papel de minha guardiã. Passa o dia do eu lado, enquanto leio, trabalho ou simplesmente durmo uma sexta. Se amanheço com algum mal-estar, ela intui e sabe mais rapidamente do que eu mesmo, que não estou bem. Ai, não sai de meu lado e fica me observando com aquele olhar penetrante, como 
que perguntando se estou melhor..Se vou  ao banheiro ela fica na porta e quer em troca de seus cuidados apenas uma palavra de carinho e o meu afago. Agira, que a idade me tornou mais lento, desço a escada que vai para a parte de baixo do nosso apartamento, degrau por degrau, por cautela.Pois ela deu-se conta disso e também passou a descer na mesma velocidade que eu.  Sofro só em pensar em perde-la mais sei que isso será, um dia, inevitável. Sim, ela não consegue falar mas seus olhos falam por  ela. Temos tambem  a Crystal, que é pura alegria, mas dela falarei outro dia,  ElIseu
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NELSON WEDEKIN

Que legal !

Não sei como seria se os cães falassem como nós. No Brasil de hoje, uma parte estaria pedindo o Lula Livre, e a outra estaria distribuindo petardos contra o "marxismo cultural".
Mesmo asim, não sei se algum deles seguiria o guru da Virgínia, o Olavo de carvalho. Não suportaria a paranóia do bruxo, e nem os palavrões que ele costuma expelir.
De todo modo, caro Ruy, vou experimentar contar as histórias para o meu boxer Jobim, que é um cachorro manso, carinhoso, que adora crianças. Esse eu sei que não gosta da turma que hoje manda no Brasil.
Obrigado, caro amigo!

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DRA. EVA MÜLLER

carissimo amigo Ruy,

tu sabes da minha paixão por animais ,em especial os cães.A fidelidade deles é indiscutível.Já tive vários, mas o marcante mesmo foi o apolo um labrador que foi presente para o meu marido ,mas ele era meu companheiro para todas as atividades ,sempre me esperando com aquela alegria mesmo que eu me ausentasse alguns minutos de casa.
Meu filho costuma brincar e dizer que os cães que temos em casa um dia vão falar e eu com certeza infartarei de susto, pois entendem tudo .
E independente de como são tratados não abandonam  seus amigos e nem seu lar. Acompanhei por anos uma senhora idosa acumuladora de animais, a poucos dias adoeceu e tive que buscar seus fiéis amigos, que não deixavam ninguém entrar na casa pois estavam como guardiões do que tinha sobrado.
Abraços
Eva M.R. Müller
Médica Veterinária
CRMV/RS 5047
Coordenadora Centro de Controle de Zoonoses
Santiago

SOBRE CÃES - Franklin Cunha


QUANDO OS CACHORROS FALAM.

Franklin Cunha
Médico
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras

No “Colóquio de los Perros“ uma das Novela Exemplares de Cervantes, lê-se a autobiografia do cachorro Berganza, que deitado à porta de um hospital de loucos,  teve  a oportunidade de observar a desgraça do matemático incapaz de descobrir a quadratura do círculo, a tristeza do poeta cujos sonetos ninguém editava e  o desespero do político que não tinha conseguido explicar ao Rei o  engenhoso projeto financeiro para dominar a inflação e  evitar a bancarrota da Espanha.
Na porta do hospital logo se instalou outro cão, Cipion que entre eles  conversavam e contavam suas aventuras nas ruas. Um alferes, hóspede do mesmo hospital, passou a ouvir as conversas dos dois cães e se admirava que eles eram mais sábios do que ele. Ao contar para um enfermeiro o que ouvira, este se negava a acreditar que cães falassem e muito menos dizer verdades tão desagradáveis sobre o reino da Espanha.
A sabedoria de Cervantes e seu amor pelos cães é revelada nessa história, obra de elogios e afetos a uma criatura de honestidade inquebrantável, olhos melancólicos, companheiro desde tempos imemoriais, cujos ossos já eram encontrados ao lado de ossos humanos quando o homem caminhava à procura de alimentos e seus companheiros de quatro patas os seguiam para comer o que sobrava.
Outras histórias caninas já se contam desde antes de Homero, cujo cão Argos foi a única criatura que reconheceu Ulisses  ao voltar para casa depois de vinte anos de ausência.

Uma das mais recentes no gênero da literatura fantástica é As Cidades Mortas “( na versão, portuguesa, Colecção Argonauta, edição Livros do Brasil, Lisboa) e “ Cidade “ (na edição brasileira), cujo autor é Cliford Simak, escritor norte-americano,  um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica de todos os tempos.
No livro, Simak conta a história humana a partir do ponto de vista dos representantes da família Webster e de um robô. Foi um antepassado remoto dos Webster, quem primeiro ensinou um cão a falar. A partir daí, milênios vão se passando e Simak demonstra toda sua habilidade ao criar uma obra fantástica. Com grandes doses de imaginação o autor mostra como aos poucos, os cães – muito mais ponderados e pacifistas que o homem – se tornam a espécie dominante na Terra. Nele, seres caninos questionam se a espécie humana teria realmente existido e dele se tira uma lição moral, ética e uma coerente visão do futuro. E fica-se com a pergunta final: Será que o destrutivo ser humano merece continuar no comando da Terra com todas as atrocidades que não se cansa de cometer? Ou será que nosso planeta estaria em melhores mãos, se guiado por criaturas que dão mais valor ao amor e à amizade, como os cães”? Há uma outra deliciosa história de cães de autoria do tão criativamente divertido  como socialmente “corrosivo “. É de  Pitigrilli ( Dino Segre, 1893-1975).
Um dia, um cão de fina estirpe foge de casa e se encontra , à noite, debaixo de uma ponte com um vira-lata magro e sarnento. Conversam e o cão de bela e perfumada pelugem conta sua vida na casa burguesa onde nasceu  e foi criado.

- Agora não estou mais naquela casa. Consegui fugir.
- Que queres? Aquela casa não me agradava mais. Os seus hóspedes eram demasiados ricos, demasiado bons, queriam-me demasiado bem. Até me enfastiavam  e me irritavam  com o seu afeto sem medidas. Enfim, davam-me tudo o que eu queria. E o que não queria.
- Não sabes quanto se está mal na abastança.
— Deixavam-te lamber os pratos? pergunta o vira-lata.
— Isso não, diziam eles, porque é anti-higiênico deixar que os cães comam nos pratos do dono. Até contavam uma história de um cão que por ter lambido o prato onde comera uma senhorita de dezoito anos  de família distinta, pegou a sífilis.
Assim se contam três amenas histórias de cães quase humanos, nossos fieis amigos desde imemoráveis épocas da história humana.



“
!
“



terça-feira, 26 de março de 2019

PRA REFLETIR - TEXTO DE TITO GUARNIERE


TITO GUARNIERE

 

TROFÉU DA INSENSATEZ

 

Na semana que passou no Brasil tudo o que tinha de dar errado, deu. Se Deus é brasileiro, entrou de férias. Somos incapazes de concordar minimamente sobre o que é mais prioritário e urgente. Cada um tem sua receita e não abre mão dela.

 

Para começo, há dúvidas sobre se existe governo. Bolsonaro confirma a cada passo o que já era antes possível intuir: falta-lhe visão estratégica, capacidade de diálogo com a nação, conhecimento da política. Falta-lhe leitura e o dom da palavra. É homem de reduzidas habilidades. Só se faz entender pelos seus exaltados seguidores nas redes sociais. Não acresce um único aliado aos seus valores e propósitos, e perde rapidamente o capital político que angariou na eleição.

 

Bolsonaro já disse, mais de uma vez, que não veio para fazer, mas para desfazer o mal que veio antes dele. Pode dar certo um governo de ambição tão rala? É isso que ele pensa, que foi eleito para o desmantelamento, a desconstrução? O papo maçante do PT era o do “nós contra eles”. O de Bolsonaro é o mesmo, de mão trocada.

 

Em Brasília, a reforma da previdência está no caminho certo para o brejo. Partidos inteiros desertam do compromisso de apoiá-la. Não há reforma previdenciária sem perdas. Mas se ficar a impressão de que uma corporação - como a dos militares - receberá compensações e perderá menos, os políticos, com o seu aguçado senso de sobrevivência, terão a razão que falta para não votarem a reforma impopular.

 

De outro ponto da Esplanada, o ministro Sérgio Moro resolveu peitar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para que acelere o trâmite do seu pacote anticrime. O juiz pode expedir mandado de prisão, quebrar sigilo bancário, homologar acordo de delação, condenar réu no processo de sua alçada. Mas projetos de lei , para passarem no Congresso, pedem tenacidade, paciência, articulação política. Ninguém aprova leis pelos belos olhos de ministro de Estado.

 

Maia não é o meu deputado predileto, mas era tudo o que o governo tinha na articulação política. Ela agora está nas mãos de um punhado de neófitos voluntariosos.

 

Na mesma Praça dos Três Poderes, uma parte ponderável do Supremo Tribunal Federal está em conflito aberto com os procuradores da Lava Jato. Semana sim, outra também, estes últimos, diante das críticas mais banais, ou de qualquer decisão que os incomode, entoam o mantra de que “querem acabar com a Lava Jato”. Eles se têm na alta conta de únicos honestos e de último baluarte na luta contra a corrupção. A empáfia gera reações. A do STF é apenas uma delas.

 

Até mesmo a prisão de Temer vai engrossar a indisposição do MDB, de setores do PSDB e de outros partidos, para qualquer coisa que venha do governo.

 

Os poderes digladiam entre si, em embates gerais e pontuais: é tudo o que o Brasil não precisa nesta quadra errática da vida nacional. Haverá alguma voz disposta a trazer um pouco de luz, a propor uma trégua, necessária para que, de algum modo, nós possamos nos recompor? Ou vai continuar rodando assim o carroção pesado, de rodas enferrujadas, em que nos transformamos? No final, nos enfrentaremos todos para saber quem ganha o troféu da insensatez?

 


 

domingo, 17 de março de 2019

ÁGUAS DE MARÇO E OS CAMPEIROS







Lindas as cenas que ontem presenciei na agora plácida e calma Xangri Lá. Na praia quase deserta, com mar azul, sol radiante, apareceram jovens cavaleiros, alguns montados de em pelo, com suas montarias.
Vieram conhecer o mar, junto com seus cavalos e éguas.
Até um jovem casal, pilchado a preceito apareceu.

sexta-feira, 15 de março de 2019

AINDA SOBRE AS FALAS DE BOLSONARO

( J.F. Rogowski - Jurista e teólogo)
Sobre as excentricidades comportamentais de Jair Bolsonaro e filhos penso que vem agradando ao povo por variadas razões, embora por vezes nos assuste.

Particularmente eu preferia  ler no Twitter do Presidente Bolsonaro mais sobre projetos para tirar o país da crise.

O Brasil está enfermo, edemaciado pelo acúmulo de sujeira e corrupção ano após ano.

O povo tornou-se gado, mas não da raça  Ile de France bem  cuidado e sim uma boiada magra, perebenta, maltratada, refém de inúmeras estruturas cujo único objetivo é poder, dinheiro e dominação.

Somos dominados por uma burocracia perversa que comanda um Estado paquidérmico, socialmente inútil, que suga todos os nossos recursos em forma de impostos injustos onde os mais pobres pagam mais e os mais ricos pagam menos e não se tem retorno de nada.

A Tributação Injusta e Excessiva é Uma Forma Cruel de Dominação do Povo. https://t.co/9bBICxfmEE

Estamos aprisionados no interior de uma gigantesca maquina caça-níquel  sempre a espreita para nos tirar dinheiro, seja com multas de trânsito, pedágios, taxas e etc.

Em Portugal, um país com uma  economia tímida, sem grandes parques industriais, agronegócio inexpressivo, mas  com um povo maravilhoso e hospitaleiro,  quando  lá se vê uma rodovia magnífica que mais  parece um tapete de veludo preto com pedágio a 30 centavos (lá se diz cêntimos), uma bombona de 20 litros água mineral por 70 cêntimos, percebe-se  a monstruosidade que é o custo de vida no Brasil.

Todos deveriam viajar para países de primeiro mundo, especialmente os menos aquinhoados precisariam fazer um esforço e ir nem que fosse vez única na vida, porque somente quando  se sai daqui e se consegue olhar de fora é que se vê o tamanho da fossa séptica em que estamos metidos (ou fedidos ou f...).

Diante de um cenário de tamanha perplexidade, a nação acuada a com água batendo no pescoço, as  idiossincrasias do Presidente Jair Bolsonaro acabam tendo uma conotação positiva ainda que noutro contexto fossem reprováveis, porque esse comportamento incomum digamos assim, cria uma conexão com as massas populares que ao menos vislumbram algo diferente saindo  da mesmice,  dando a impressão que daqui a pouco o Messias Bolsonaro fará um gol de bicicleta e nos tirará dessa  caótica e triste realidade.

quinta-feira, 14 de março de 2019

MENSAGEM DE ROSANE DE OLIVEIRA A RESPEITO DE MINHA MAIS RECENTE POST


Caríssimo Ruy,

Como sempre, teu comentário é perspicaz e equilibrado. Tens a isenção necessária para criticar os erros do presidente. A ti ninguém poderá chamar de comunista nem te mandar pra Cuba ou pra Venezuela, como fazem os leitores comigo quando aponto o equívoco de dar foco a irrelevâncias ou de se deixar levar pelos arroubos dos rebentos.
Tenho certeza de que a tua intenção é colaborar, porque sabes (com o perdão pela metáfora surrada) que estamos todos em um transatlântico e a ninguém interessa que afunde. Sabemos muito bem que, se o navio afundar, não haverá bote para todo mundo. 
Eu gostaria de ver o presidente focado em questões relevantes, como a reforma da previdência, das quais o país depende para voltar a crescer. Siga nessa trilha. Acho que o presidente ganharia muito se chamasse pessoas como tu para umas duas horas de prosa. No poder, os homens (e mulheres) cercam-se de concordinos. Não sabem o quanto ganhariam se ouvissem vozes plurais, como disse o general Hamilton Mourão a propósito do caso Ilona Szabó. 

OVELHA NÃO É PARA MATO, SR. PRESIDENTE


Está causando perplexidade, em alguns setores da sociedade, o agir do presidente da república.
Na maioria das nações, principalmente as que aprendem com o passado, os governantes optam por comportamento discreto. A humanidade foi coletando, pelo andar dos séculos, normas, algumas consuetudinárias, outras legais, de comportamento, tanto  das autoridades como dos cidadão comuns.
É de bom alvitre,portanto, para todos nós, cuidar com o que se diz .Já antes de Cristo se dizia que “ se ficasses calado, passarias por filósofo ( Si tacuisses, philosophus mansisses).E não é por nada que os germânicos advertiam  que falar é prata, mas silenciar é ouro ( reden ist Silber, schweigen ist Gold). Não aconteceu já contigo, que me lês, que a todo passo alguém, mesmo decênios depois,traz a tona uma frase infeliz que proferiste? Daí o outro provérbio:” és o dono das palavras não ditas,mas escravo eterno das ditas”.
O nosso presidente criou constrangimento, pela falta de clareza, quando disse que só há democracia com aquiescência das Forças Armadas. No que ajudou essa afirmação? Teria sido um afago aos militares? era necessário expressar esse pensamento?
A publicação, pelas redes sociais, de uma irresignação sua por uma postura de gosto condenável durante o carnaval redundou no que? Resultou no fato de que aquele proceder, de pouquíssima repercussão, percorreu o país, teve manchetes até no exterior. Muitos mandatários de países adiantados devem ter se perguntado: mas será que no Brasil não há outras autoridades, em nível inferior ao presidente, para tomar conta desse incidente? Teria sido de bom gosto o próprio presidente ter reproduzido o ato que achou condenável?
Daí chegamos à outra assertiva: o pretor não cuida de coisas pequenas ( de minimis non curat praetor). Assim como não cabe ao juiz algemar o assaltante, não faz nenhum sentido o presidente se arvorar em guardião dos bons costumes.
Sinceramente penso que o presidente deveria trazer, para perto de si, pessoas que bem o aconselhassem. Cito como exemplo meu colega de bancos acadêmicos do Direito da Ufrgs Nelson Jobim, deputado federal,ministro do STF e seu presidente, ministro da defesa, advogado de escol. É desse padrão de conselheiros, não desdenhando os demais que o assessoram, que necessita Bolsonaro. Homens e mulheres experimentados, de uma vida inteira sem máculas, pessoas razoáveis e prudentes que possam ajudar a amenizar essa turbulência que está desnecessariamente ocorrendo. A saúde de que entrar em  áreas em que há controvérsias técnicas? Ovelha não é para mato.


sexta-feira, 8 de março de 2019

FUNERAIS LINGUÍSTICOS


Funerais linguísticos

Franklin Cunha
Médico
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras
      
E quando a Divindade quer abater a arrogância dos homens  não necessita do raio nem da violência; basta que confunda a sua linguagem, que a unidade da língua seja abolida, e a torre cuja cúspide deveria tocar no céu torna-se uma ruína, como estigma da impotência humana.   
Walter Porzig
em “O Mundo Maravilhoso da Linguagem”.

René Etiemble, professor de literatura da Sorbonne, está empenhado há anos numa intensa luta  contra o perigo de descaracterização da língua francesa pela invasão incontrolável de palavras inglesas ou, pior, anglo- americanas. Em seu livro Parlez-vous franglais? editado há três décadas, ele se propõe a defender não apenas o idioma, mas a cultura e o modo de viver dos franceses. Não são apenas palavras de empréstimo que se insinuam no francês - diz Etiemble - mas trata-se de uma doença metastática que corrói a pronúncia, o léxico, a morfologia, a sintaxe e o estilo. E, segundo recente pesquisa, dois terços dos gauleses são favoráveis à instituição de uma terapêutica radical contra essa grave doença.
Há duzentos anos Rivarol afirmava: “O que não é claro não é francês”. Dessa boutade Etiemble não participa, pois sabe que nenhum idioma é auto-suficiente e nem pode dispensar verbetes alienígenas para permanecer fluidamente vivo e atualizado. Porém a admissão indiscriminada  de torrentes de palavras com grafia, pronúncia, forma e flexão completamente diversas da língua original pode prejudicá-la seriamente, embotando a criatividade linguística dos seus usuários e obstruindo as fontes genuínas de enriquecimento e renovação.
A linguagem é uma estrutura de grande complexidade, definidora da humanização do homem. O linguista Noam Chomsky afirma, e tanto  neuropsicólogos como  geneticistas confirmam, que a possibilidade da fala é uma condição adquirida in útero (“As crianças não aprendem a falar: já o sabem “). Cavalli-Sforza, outro linguista, diz que o ser humano nasce com a capacidade de apreender uma língua, o que o distingue das outras espécies animais, mesmo as mais vizinhas, possuidoras de meios de comunicação limitados. A linguagem é uma criação cultural, tornada possível graças a um substrato anatômico e neurológico complexo e único no reino animal. Afinal, ela foi o principal veículo transmissor de toda a cultura e garantiu a sobrevivência e a supremacia desse ramo de primatas ao qual pertencemos. E a maravilhosa diversidade de culturas criadas pelo homem através dos tempos, é que fez surgirem milhares de idiomas.
Se estes fossem apenas um meio técnico para o mero exercício do comércio internacional, haveria vantagens e nenhum prejuízo em falarmos todos a mesma língua.  O problema é que signos linguísticos diversos implicam em modos de pensar, de sentir e de interpretar o mundo, igualmente, diferenciados.
Esse é o sentido mais profundo de uma comunidade idiomática específica;  o de ter uma imagem e uma  visão peculiar do homem e do seu universo cósmico e mental. Por isso, quando uma língua se extingue, perdem-se milhares de anos de história do desenvolvimento cultural e da experiência psicobiossocial de todo um povo.
Se o desaparecimento das línguas prosseguir no ritmo atual, o futuro nos reservará  uma uniformização não só lingüística, mas cultural, ética, estética  e mesmo ideológica. E já se tornou um truísmo afirmar-se que na diversidade está a liberdade. 
Um exemplo ilustrativo de diversas e ricas articulações em línguas culturalmente muito próximas, oferecem as designações das várias espécies de relógios, nos idiomas alemão e francês. Em alemão, Taschenuhr é o relógio de bolso; Wanduhr o de parede; Turmuhr, o relógio da torre; Sonnenuhr, o de sol; Wasseruhr, o de água; Sanduhr, o de areia. Quer dizer, todos os instrumentos para medir o tempo estão, primeiro, designados sob o nome principal Uhr, hora, depois se distinguem por sua forma e maneira de funcionar. Essa distinção aumenta nossa compreensão sobre o objeto designado. O francês, diversa e caracteristicamente, coloca nesses utensílios de uso diário, mais interesse nas diferenças de forma do que nas de funcionamento. E, assim, os nomeia: montre, o relógio de bolso; pendule, o de parede; horloge, o da torre, cadran, o relógio de sol; clepsydre (lindíssima palavra !), o de água e sablier, o de areia.
Então, os diversos tipos de relógios desempenham entre os alemães exatamente o mesmo papel que entre os franceses, porém a concepção linguística é diferente, não apenas foneticamente como, também, pelo conteúdo, quer funcional, quer estético.
Se tais diferenças já se manifestam em objetos concretos e singelos, o que ocorrerá naqueles voláteis e complexos conceitos que expressam a mais alta elaboração do pensamento humano tais como o bem, o mal, a liberdade, os direitos individuais, a vida e todos os juízos de valor no seu mais amplo sentido? Pois bem; a comunidade idiomática se funda sobre a posse comum e consensual de um grande número de tais concepções e interpretações. E, precisamente porque essa concordância é sentida como natural e não como algo especial, os povos se unem mais fortemente pela  comunidade idiomática  do que por um discurso ideológico de qualquer origem. 
Muito se tem realçado o desaparecimento de etnias, de espécies animais, vegetais e de paisagens, mas pouca ou nenhuma atenção tem se dado às perdas linguísticas e ao papel essencial desempenhado pelos idiomas nas suas respectivas culturas. Para George Steiner, se os funerais linguísticos continuarem com a frequência atual, os seis mil idiomas hoje existentes, dentro de um a dois séculos serão reduzidos somente a uma centena ou menos. E, assim, perderemos um preciosíssimo acervo de nossa milenar e diversificada herança cultural que, na verdade, deu relevante contribuição para o atual estágio civilizatório.
A luta pela manutenção de variados idiomas e culturas talvez seja decisiva para a resistência à uniformização totalitária, não apenas linguística, mas de estilos de vida, de condutas éticas, de sensos estéticos e, enfim, da  liberdade de expressão e de pensamento.                      




   

           


terça-feira, 5 de março de 2019

MAIL DA PSIQUIATRA E COMUNICADORA LAIS LEGG


Pois eu sou do tempo que tínhamos aulas de música na escola, além de dança e canto orfeônico. E todas nós adorávamos. Quando chegávamos para a aula de música, a “ma soeur” Ruth Maria já tinha enchido o quadro-negro com as letras quilométricas da música que iríamos cantar. Lembro de “História triste de uma praieira” (“era meu lindo jangadeiro, de olhos da cor verde do mar, também como ele, traiçoeiro...”), “Camino  Verde”, “Guanabara linda”  e outras tantas.

Sabíamos o que era uma clave de sol, colcheia, semi-colcheia, etc. E também cantávamos na capela do colégio, cuja acústica deixava o nosso canto quase celestial. Cantávamos em latim!!! Lembro, até hoje, a letra de “Tantum ergo”  (“tantum ergo sacramentum veneremur cernui et antiquum documentum novo cedat ritui...”). Sabíamos que era de São Tomás de Aquino.

Assim, a música entrava pelas veias e artérias desde a tenra idade. Claro que as freiras tinham as suas objeções: rock and roll nem pensar! Elvis Presley era o demônio e, para desespero delas, vieram os Beatles, aqueles cabeludos de Liverpool. Imaginem se elas ouvissem as músicas de hoje ... teriam um piripaque.

A música consegue alterar, imediatamente, o humor de qualquer pessoa. É mais eficaz que qualquer fármaco. Assim, considero uma lástima que os concertos, as serenatas  e quaisquer outras manifestações artísticas estejam desaparecendo. Quem sabe voltando ao currículo escolar não melhore?