terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

AINDA SOBRE SERESTAS - TEXTO DO DR. ROGOWSKI

Eu não sou da época do gênero musical bate-estacas, mas creio já ser da época do "melhor nem tentar".
Meus amigos de juventude e eu jamais fizemos uma serenata, porque naquela época já estava ficando complicado, mas lembro que na minha infância, nossa família tinha um amigo, policial, chamado José, e, vez ou outra, quando estava de plantão na Delegacia, em madrugadas monótonas proporcionada por uma sociedade sem crimes e que dormia cedo, ele arregimentava outros policiais, músicos, e iam até nossa casa nos brindar com serenata.
De início algum vizinho se assustava com a presença da viatura policial de madrugada, mas em seguida ao ouvir a música logo entendia do que se tratava.
Acordávamos todos e alegres levantávamos da cama e bem recepcionávamos os amigos.
É triste ver que essas homenagens, manifestações de verdadeira amizade, foram se perdendo ao longo do caminho, que as pessoas foram se enclausurando dentro de suas casas e de si mesmas.
Será que algum dia voltaremos a ter um modo de vida mais sadio e afetuoso?

domingo, 24 de fevereiro de 2019

BAILES DA COLA ATADA E OUTROS - SABOROSO TEXTO DE FRANKLIN CUNHA


RUY, amigo
No tempo doas prostíbulos ( casas de tolerância, cabarés, puteiros), na Vacaria, muito longe de Poa - onde funcionavam dezenas deles entre a Voluntários, a Cabo Rocha  e a Pantaleão –alguns fazendeiros, fundaram o que chamavam de Chacrinha, cerca de 5kms da cidade. Construíram cerca de 15 casinhas onde alojavam principalmente meninas pobres do sul- catarinense.
E lá, com a bandinha do seu Chiquinho financiada por ele ( tio de um ex-governador, figura folclórica pois herdou duas fazendas de duas ex-esposas e passou a vida tocando de graça nos bailes da região), ele com o bandonion, uma violeira -que ele papava - um brigadiano na bateria e um chofer de praça, flautista e comunista. As meninas todas peladas e o varões também, menos a camisa que a época elas eram mais compridas e com abas atrás e na frente Então ,para dançar melhor amarravam as abas , as da frente nas detrás e dê-lhe baile a noite toda.
. E lá aconteciam os famosos “ bailes de cola atada “.Sempre às sextas, porque no sábado os alegres e fogosos bailantes machos,cumpriam  o desagradável  e aborrecido compromisso com as esposas no clube do Comércio,  situado  em oposição à Igreja Matriz de Nossa Senhora das Oliveiras.com a qual,os bailantes da sexta , no domingo contribuíam com gordos óbolos.

Caxias.
Um empresária sexual, teve  a ideia de programar um baile às sextas-feiras só para homens da apodada  terceira idade o qual se realizava dentro do horário das 18  às 23. Falei com um deles, primo de 80anos,e lhe perguntei o que lá faziam.Primeiro me disse que a casa estava sempre à cunha. E que lá contavam os acontecimentos da semana, tomavam cerveja, conversavam e contavam piadas para as meninas da casa,  alguma até cursavam a UCS. E...só. As 23 iam todos para casa  onde dormiam muito  bem depois dessa eficiente sessão de psicoterapia de grupo.
No final do papo com meu primo ele me revelou como os jovens da cidade apelidaram o  acontecimento das sextas:BAILE DA COBRA MORTA. Aí ele me olhou nos olhos, deu uma gargalhada e me disse: “ Sabe, primo,  que este  é um apelido bem certo “.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

MUTAÇÕES - COMENTÁRIO DO DES. GUINTHER SPODE


Estava lendo "Mutações" e, ainda sem concluir a leitura, pensava eu, mas será que o Ruy vai esquecer das serenatas.
Coisa bonita que eram. Primeiro aquelas românticas, depois aquelas entre amigos, até mesmo como brincadeira para acordar amigos e amigas na madrugada. Até depois de casado, ao voltarmos para casa tarde da noite (ou já madrugada) em pequenos grupos (de casais e não casados) costumávamos aqui em São Leopoldo e imediações (inclusive Porto Alegre), entre amigos, uns surpreenderem outros que dormiam profundamente. Daí para o prolongamento da noite até o amanhecer, bastava um violão, uns bons tragos e até um churrasco, era para já. Mesmo os incomodados no início, em razão da música, nas mais das vezes muito mal executadas e pior ainda cantadas, aos poucos entravam na brincadeira que virou mais um motivo de encontro e de amizades que existem até hoje.
Não perdi, nem me afastei de nenhum destes amigos músicos importunos da madrugada.
Sabia-se viver. Havia limites e éramos mais tolerantes, até porque naquela época e idade tudo facilmente virava festa.
Cumprimentos pelo texto.
Grande abraço

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

MUTAÇÕES


O que houve com os bailes?
Eu admito, peço perdão, que sempre fui objetivo e prático. O baile era, na minha concepção pecaminosa, (da qual dava meticulosas explicações no confessionário), uma mera primícia do amor carnal e do namoro.Tirando fora  mãe,irmãs, avó, tia, senhoras casadas, noivas, com as quais não tinha nenhum interesse em dançar.O baile, portanto, para minha mente meio fogosa, era um jeito de ,no ardor dos 17 anos, abraçar a menina dos seus 16, sempre respeitando sua relutância , o que ela fazia empurrando meu  ombro para trás, mas eu tentando haurir seu perfume de” Miss France” e ouvir seu coraçãozinho batendo e batendo.
Beijo na boca, só escondido.
 Enfim, hoje há, segundo meu filho mais novo,aplicativos, que entre outras coisas, localizam, num zaz, tua futura parceria para um namoro. Nem sabia .
 Vamos em frente . As mulheres conquistaram seus lugares. Viva! Tenho filhas vitoriosas e nada raivosas. Mas essa de uma senadora dar uma de Maria Bonita, tirando uma pasta das mãos do presidente  do Senado, foi demais. E ainda, ante o pedido de devolução, disse desafiadoramente “então vem buscar”. Ficou feio. As mulheres, com a igualdade  conquistada, têm que também aceitar os ônus da convivência. Ou não?
Outra perquirição. Onde estão as cantorias? Ao tempo em que eu lecionava na Unisinos, após as aulas nas sextas feiras à noite, nos reuníamos para  um churrasco e - sabem o que?- para cantar. Sim, cantar. Nos anos oitenta, início dos 90, era comum jantar com alunos, ocasião em que se cantava após a quinta cerveja. Coisa de louco era quando se entoava o Carinhoso. Na passagem do “ai se tu soubesses” era uma desafinação só. Mas era bom. Hoje seria quase impossível isso num restaurante. Atrapalharia os que passam teclando suas infinitas mensagens pelo celular .
Muito comuns eram as serestas na praia. Quantas e quantas fazíamos Guido Koehler, Celso Campos e eu. Hoje não dá mais por causa das cercas elétricas e das portas trancadas.
O máximo que estou conseguindo hoje é tocar em casa com meu filho Rudolf. Se há convidados, raramente um  se aguenta quieto até o fim da música. Penso em estabelecer uma regra nos meus churrascos caseiros. Duas salas: uma para os tagarelas. Esses só ganhariam mocotó frio com cerveja quente e tomada no bico; outra para  os que apreciam música ao menos 15 minutos. Para esses filé argentino e chopp importado de München ou aquela Freixenet Brut tiritando de frio.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A REBELDIA DE BOLSONARO


A nação está inquieta com a situação de saúde do nosso presidente. Um pouco do que está acontecendo se deve a algumas imprudências do próprio Bolsonaro. Primeiro foi permitir que o carregassem em via pública, sem um esquema mais técnico de segurança, o que redundou no atentado.
Apesar de eu não ser médico, aprendi muitas coisas na vida.Conto um episódio. Eu estava com 45 anos, jogando tênis , quando meu calcanhar começou a incomodar. Um médico que jogava comigo olhou e diagnosticou ali na hora que era um “ esporão do calcâneo”.Acabei decidindo mandar operar. Fui para casa e achei que em breves dias voltaria a jogar normalmente. O médico me dera instruções para ficar em repouso, com a perna mais levantada. Não dei muita bola . Eram duas incisões. Uma estava fechando bem. A outra parecia meio estranha, Resumo: era uma deiscência de sutura que levou ao debridamento e tive que esperar 90 dias para que houvesse cicatrização por segunda intenção. Tudo por não acatar as instruções do médico.
Essas pequenas  ansiedades e imprudências do presidente, viajando para lá e para cá, nitidamente não se cuidando, fazendo uma viagem que não era urgente para Davos, certamente não ajudaram em nada para a recuperação. Está com 63 anos de idade, o que não é muito nos dias de hoje, mas há que se convir que sua resistência está longe de ser a de um homem de 23 anos. Sofreu um procedimento invasivo  o que representava muitos cuidados. Mas o primeiro cuidador de sua bronca é o paciente.
Fiquei matutando muito tempo sobre o por que dessa inquietude do presidente. Qual a razão de não se acalmar? Não poderia ter tomado posse, reunir-se com seu vice e ministros e estabelecer que ninguém deveria sair dos trilhos ( incluindo-se o vice), e que quando estivesse completamente apto, voltaria a tomar as rédeas. Para que uma pressa afobada se o mercado estava calminho, calminho com as diretrizes já reveladas? Mais: o que não tem solução, solucionado está. As reformas estão esperando e se arrastando há decênios, não custava aguardar por mais um ou dois meses?
É possível que essa bateção de cabeças dos primeiros dias do novo governo tenha sido um dos motivos de Bolsonaro não passar o governo ao vice. Ficou um pouco bizarra essa desordenação inicial, um desautorizando ao outro, um falando uma coisa e o outro desmentindo. Todo mundo temendo que o Ministro Paulo Guedes chutasse o balde num acesso de impaciência.
Não sei não,  todos esses desencontros iniciais têm solução,mas será que nosso presidente não estará receando o chamado fogo amigo?.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

POR ISSO QUE NUNCA QUIS TER FACEBOOK

Texto primoroso de J.F.Rogowski



caiam fora da zumbilândia

Caros todos!
Estamos vivendo na @zumbilândia, a terra dos zumbis digitais.
As pessoas independentemente de nível cultural e social estão passando por um processo de lavagem cerebral e idiotização que tem me assustado.
Na política impera o maniqueísmo e o patrulhamento ideológico de dois lados radicais e antagônicos.
Estamos proibidos de pensar por conta própria, de exercer o senso crítico sobre a realidade, temos que escolher um de apenas dois lados, e seguir com a manada respectiva daquele curral mental.
Fora da política estão os demais loucos de todo o gênero, tem para todos os gostos (ou mau gostos). Eles formam grupos e movimentos estruturados, com simpósios, congressos, etc., uns defendendo que a terra é plana, outros que ela é quadrada; outros afirmando a inocuidade dessa polêmica já que ela será inapelavelmente destruída pelo planeta Nibiru que se aproxima em rota de colisão; outros dizem que sim, que haverá a colisão, mas que seremos salvos pela frota de espaçonaves estelares do comandante Ashtar Sheran que está em prontidão atrás do sol.
Meu intuito longe está de ridicularizar essas pessoas, porque elas sinceramente acreditam nisso, embora, fizesse até mais sentido um “astral cheirão” debaixo do sol da Jamaica do que no espaço sideral.
E pior disso tudo é que os habitantes da Zumbilândia não se contentam em confraternizar entre si, buscam fazer novos adeptos, assim entopem a minha caixa postal com todo tipo de mensagens surreais - 99,9% não passam de lixo eletrônico.
Tendo a situação ficado insuportável pelo tempo que eu estava  gastando até mesmo para apagar essas mensagens, fiz um público apelo (reproduzo abaixo) pedindo que só me enviassem mensagens que fossem realmente relevantes.
Pedi encarecidamente que cessassem o envio de Spam. Não sei se foi de pirraçada, mas aí que aumentou o tráfego de lixo.
Então, sem alternativa, acabei me retirando do Facebook.
E, se o bombardeio continuar no WhatsApp, me retirarei dali também.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O OUTRO LADO DAS VIAGENS


Toda vez que viajo estranho minha imersão compulsória em três situações: no check in no aeroporto; no avião antes da partida e , já no hotel, na hora do café da manhã.Nesses momentos a gente vê coisas para lá de estranhas ao nosso dia a dia.Câmeras em mim, com foco num banco do aeroporto.
Meu Deus o que é um Aeroporto às 5 da manhã! É visível que algumas pessoas caíram da cama e saíram, em desabalada carreira, sem trocar de roupa e, por conseguinte, sem banho, em direção ao aeroporto. Claro que, como é da filosofia brasileira, os pontuais são relegados ao inferno e os retardatários e relapsos têm preferência. Os alto falantes gritam desesperados pelos tardinheiros. Os passageiros já no avião, esperando que os atrasados  embarquem, o que pune  e atinge os “ certinhos”.
Mas voltemos ao portão de embarque. Todo mundo sabe que não pode levar consigo faca, tesoura etc. Pronto, pára a fila. A moça passa no detector que dá o alarme. Mais um incidente que poderia ter sido evitado.
Todo mundo sentadinho no avião e antes  de ele começar a corrida para alçar vôo  o senhor Jones, que ficou uma hora no saguão, só agora sentiu vontade de ir ao banheiro.
Na viagem,  muitas pessoas  , na falta de espelhos para mirar suas  maravilhosas e incomparáveis belezas, usam esse aparelho vital para o prosseguimento da vida, o celular, para suas indispensáveis selfies, pena de sofrerem uma apoplexia. E dê-lhe selfies, com direito a mil caras e bocas, sorrisos congelados que chegam às raias da idiotice.Fico matutando: para que e para quem tantas fotos?
O avião está pousando e o comandante implora que todos fiquem sentados até ele estacionar. Nada feito , mesmo o pessoal sabendo que não há como  subir ao pódio e ser o primeiro a sair do avião. Em seguida a correria para ser  primeiro a pegar sua mala.Na saída  muitos vão certificando, em altos berros, ao celular,que amam seus interlocutores, comentam como foi o  dia anterior, para que todos nós saibamos de sua  inefável e indispensável história.
Já no local de recolhimento das bagagens, erram de esteira e se desesperam por não localizarem sua mala. Claro que não tiveram  o dificílimo tirocínio de saberem o número de seu vôo e em qual esteira está.
Corta para o refeitório do hotel.
As portas dos elevadores se abrem e dezenas de famintos, que provavelmente há 30 dias não se alimentam, irrompem qual um arroio durante a enchente e vão em busca de uma mesa. Se atracam no buffet enchendo o prato até cerca de 30 centímetros, para deixar quase tudo intocado ao final.
Por que estranho isso?Será que meus pais erraram na minha educação?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O FENÔMENO WATTSAPP


O renomado médico e escritor J.J. Camargo escreveu recentemente:
“Há uma incontrolável ânsia de usar todos os instrumentos de aproximação virtual para conectar pessoas que foram convivas em épocas tão remotas que o tempo se encarregou de borrar-lhes a lembrança.
O convite para que participasse de um grupo de WhatsApp que devia reunir todos os sobreviventes de um tempo de colégio me pareceu desde logo assustador. Não conseguia imaginar como recuperar uma intimidade necessária para  justificar a reaproximação depois de, sei lá, 55 anos, só porque esta prática virou uma febre (passageira?) na internet. O desespero aumentou quando fomos comunicados de que todos os abaixo listados estavam automaticamente incluídos no grupo, e eu só lembrava bem de uns cinco de uma turma de 50.”
Digo eu.Pois é: o Whatts se espalhou e se mostrou útil. Todavia, trouxe consigo um monte de inconvenientes, para se dizer  o menos. A começar pelo dilúvio de fakes, informações irrelevantes, calúnias, ofensas e até coisas risíveis. Na pressa de digitar, a pontuação foi uma das vítimas. Exemplo: eu estava viajando e mandei uma  mensagem para minha empregada que mora em São Leopoldo e vem trabalhar em P. Alegre, perguntando se ela ainda estava na minha casa . Resposta: “não estou no trem”. E agora: “não, estou no trem”; ou “não estou no trem”?
Outra situação. Às vezes se é convidado para entrar num grupo que, por exemplo, gosta de jogar tênis e marcar horários. Pronto: em seguida meu aparelho se enche com mil “ bom dia”, informações sobre frutas que fazem mal, frutas que fazem bem, malefícios do vinho, benefícios do vinho e por aí vai. Resultado, achei mais prático contatar direto com os parceiros e saí do grupo.
Aí entro no assunto das amizades virtuais e , desde já, adianto minha tese. A amizade, como diz o nome, é virtual; pois que fique nessa esfera. Querer reunir o grupo para uma janta vai resultar, depois das saudações de praxe, em ensurdecedores silêncios.
Mas o que me provocou frouxos de risos foram as recentes eleições. Tsunamis de denúncias contra o Bolsonaro, outros contra o PT e as esquerdas, um caos total que acabou resultando em brigas entre até pessoas da mesma família.
Volto, agora, ao assunto dos grupos. Penso que são inviáveis os grupos com exagerado número de participantes. Ninguém aguenta ler tanta coisa a cada cinco minutos.
Quanto aos reencontros com amigos que não se viam há décadas, todo cuidado é pouco. Melhor é distribuir crachás, com letras bem grandes e vigiar a boca. Nada de “ como tu tá velho”, “ bah… como tu tá gordo”.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

BRILHANTE CRÔNICA DE AFIF JORGE SIMÔES NETO - MAGISTRADO E ESCRITOR


SÓ TU E EU





Tenho contabilizado horas de voo a transportar esta minha fuselagem carnal pra lá e pra cá, desorientado, como quem carrega o filho padecido à procura de um posto de saúde sempre lotado. Com ela, períodos atrás, subia serras que pareciam tocar seus galhos na soleira do céu. Atravessava pequenos rios que ainda davam vau e descia bravas encostas, sem sequer perguntar o que estava achando da travessia.

O meu corpo, quando moço, era pleno de viço e vaidade. Tinha fôlego de maratonista. Braços em incansável préstimo aos outros da mesma espécie, e pernas resolutas a buscar amores desviados de sua rotina vulgar. Uma cabeça que eu não diria lúcida, mas complacente com a turbulência da viagem, e um tórax descarnado, muito próprio de quem viveu escondido na timidez.

O meu corpo, quando moço, tinha veias e artérias assemelhadas ao desenho de arroios interioranos, por onde o sangue novo desfilava todo o seu ímpeto de cavaleiro medieval.

Nos olhos vívidos, um cenário de primaveras enfloradas, quando a vida ainda era uma paisagem de aurora, musicada pelo riso sinfônico dos canarinhos da terra.

É claro que a gente não envelhece tão depressa assim, entre um jantar e o café da manhã do dia seguinte. Mas tenho notado que o meu corpo já não é mais o mesmo quando se acalma dentro de mim a cada sono que empeça. Os constantes deslocamentos deixaram-no afônico, em dispneia, embora resista em admitir a chegada da maresia que vai apodrecendo máquina e casco e convés.

A propósito, a linhagem racional a qual pertenço clama não é de hoje por uma CPI contra o Criador. O intento dos meus pares é investigar a fundo a ação omissiva d’Ele, que nada fez para impedir que os dias roubassem descaradamente o nosso tônus muscular, nosso colágeno, os cabelos e até um pouco da gana de viver, a cada despedida na gare da estação.

Sinto que se aproxima o momento de a carcaça me abandonar, exaurida e febril em razão do sofrimento tirano que lhe impus no verdor dos anos. E na minha opaca lembrança do que serei depois, restarão algumas imagens reveladas pela fotografia esmaecida de um tempo imemorial.

Na partilha dos haveres, não terei mais nada a oferecer-te, oh, Deus, afora estes pedaços meus sobrados do naufrágio.

Tu me fizeste assim, uma inquieta biruta a desviar-se das rotas da ventania, e eu sou, tão-somente, um rascunho em papel de pão do que fui quando me era inteiro.

Ah, corpo velho de ternas lembranças, agora sei por que andas arredio comigo, com cara de enfado e uma importuna vontade de quem pensa em se aprontar para o salto mortal. É chegada a hora do retorno ao colo úmido da terra, abrigo virginal e morno de todos os teus iguais de pele, ossos e fadigadas carnes

Varando estradas, em virações sentidas, vai o meu corpo, adulterado e melancólico. Do Corcovado ao Chiniquá, com cantos vagos, seguimos nós. Bem no final, por entre nuvens ou arrebóis, só tu e eu...


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A ÚLTIMA FLOR VERÁ NOSSO FIM


Sem árvores, sem flores, nada de polinizadores, abelhas, pássaros, sequestro de carbono, fim da vida. Fim para a qualidade do ar e do solo. Fim de tudo.
Tenho uma casa em Xangri La, a uma quadra do mar, sobre três terrenos. Muitas flores, árvores, cuidamos de manter lindo o nosso jardim, nas quatro estações do ano. Fui notando que, tirando o verão, ninguém arrancava flores que se esgueiravam para a calçada. No período de veraneio, muitas pessoas seguiam para suas casas e , ao cruzarem com um galhinho para fora da cerca, o arrancavam para o jogar, passos adiante, fora. Também decidi colocar, encostados à cerca, dois pequenos containers, um para lixo orgânico e outro para reciclável, com amplos dizeres para os distinguir. Amarrei-os com uma corrente contra a cerca. No verão as pessoas passam e atiram papéis, garrafas etc., o que é um desrespeito, mas nem sequer selecionam o coletor certo.
Um dia ví um jovem passando e atirando uma garrafa no meu coletor orgânico. Eu estava perto e lhe chamei a atenção. O rapaz abriu o coletor, pegou a garrafa e a atirou aos meus pés. Quis lhe perguntar em que presídio aprendeu a ser tão mal educado, mas claro que recolhi a garrafa e dei por encerrado o assunto. O moço me dirigiu uns impropérios e se afastou, sob os olhares dos vizinhos que já tinham acorrido para me auxiliar no caso de uma encrenca.
No inverno passado decidi fazer outra experiência. Comprei vários vasos grandes de argila, coloquei humus, plantei florzinhas neles e os deixei na frente da minha casa, no meio fio da calçada. Foi tudo tranquilo, inclusive no começo do verão. Chegou a bagunça do fim de ano, dormi muito pouco devido ao foguetório, levantei seis da manhã do primeiro do ano, pois tinha ido dormir às 22 horas (não dou a mínima pelota para as “entradas”, com seus propósitos e juras de melhoras, janto qualquer coisa com meus afetos e vou dormir bem feliz), abri a porta da frente e…. os vasos estavam tombados. Gente arruaceira cruzara vinda da praia em direção aos seus albergues temporários e achara maravilha maltratar, não a mim, mas a mãe Natureza. Levantei os vasos que, por sorte, não se haviam quebrado e replantei as plantinhas com suas flores. Reguei-as primeiro com minhas lágrimas e, depois, com água.
Agora em seguida chega a hora do Planeta Atlântida. Milhares de pessoas  aportam em Atlântida, distrito de Xangri La. Já decidi deixar todas as flores plantadas nos vasos grandes  . Só vou colar um adesivo: “não nos mate por favor,ajudamos no sequestro de carbono”. Saberão o que é isso?


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

AINDA EXISTE UM LUGAR





Venha sentir a paz que existe aqui nos campos/ O ar é puro e a violência não chegou/
O céu bem limpo e muito verde pela frente/ Uma vertente que não se contaminou/ Pela manhã o sol nascente vem sorrindo/ E os passarinhos cantam hinos no pomar/ O chimarrão tem um sabor de esperança/ E a criança traz um futuro no olhar (Ivo Brum e Miguel Marques).
De muita tertúlia participei com Miguel Marques. Este é um caso raro de instrumentista perfeito e dono de uma voz super afinada. Miguel anda mais recolhido ao seu sítio no interior de Santiago, a idade vai pegando, mas continua com suas maravilhosas composições. Toca tudo de ouvido, tem o famoso e raro “ouvido absoluto”. Certa vez,como alhures já contei, ele me convidou para ajudar, numa Califórnia em Uruguaiana, a tocar uma obra musical sua. Eram vários instrumentistas. Estávamos “passando o som” no palco e ele chegou perto de mim e sussurrou: “dá uma levantada na tua corda mi”. E de fato, ele tinha razão.
Mas o que eu queria falar era sobre a verdadeira música nativa. Não concordo com o termo música galponeira A música nativa se cria e se toca até numa taipa de açude. Existem os compositores que não sabem distinguir um cavalo de uma égua. Fazem um barulhaço bagual, é música para baile, tipo bate-coxa, em que os músicos rebolam mais que baiana no trio elétrico. Mas é válido, tem quem goste e é preciso respeitar.
De outro lado , a música que descreve dores, amores, natureza, céu, estrelas, lidas, os animais,  as vidas “pra fora”. A Ministra do STJ Fátima Andrighi, minha querida amiga,  me perguntou da razão de nossa música autêntica não ter muita acolhida de São Paulo para cima. Não soube lhe responder: talvez porque não se priorize a percussão, talvez pelos vocábulos que só aqui se usam, ininteligíveis para nossos irmãos de outras plagas, e talvez por causa da excelente temática das letras, que não contém aquelas lamúrias “kitsch” de dor de cotovelo.
O fato é que no nosso Estado há diferenças que vivenciei. As regiões coloniais e industriais têm times de futebol famosos, gostam de música de todos os tipos e gêneros. As regiões campeiras tem população rarefeita,ênfase na agricultura e pecuária, não têm grandes times de futebol. Lá o esporte é o rodeio, o tiro de laço.Até cidades pequenas têm seus locais de rodeio.  A música ainda é a gaúcha, mas também tem alguma sertaneja, por incrível que pareça.
Há quem lastime que sua cidade não tenha mais de 50 mil habitantes. Penso que mais vale ficar do tamanho em que está, para que ainda  se possa dormir sem grades…( ainda existem lugares assim)

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMAS? SERÁ MIGUÉ?


A FLEXIBILIZAÇÃO DA POSSE DE ARMA

Tá me cheirando migué


por João-Francisco Rogowski
Advogado

Além de votar em Bolsonaro fiz campanha para ele nas redes sociais, porque entendi que elegê-lo era a única forma de derrotar o projeto criminoso lulopetista e o terrorismo.
Na sua posse ao ministério o General Augusto Heleno enalteceu sobremodo a estruturação e a eficiência da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, levada a cabo pelo General Sérgio Etchegoyen.
O presidente Jair Bolsonaro manifestou-se pelo Twitter informando que quer a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) com validade de 10 anos.
Hoje (15) o presidente assinou o decreto que flexibiliza a posse de arma de fogo de defesa pessoal pelo cidadão.
Para ser justo reconheço algum avanço nessas questões, mas para ser fiel à  minha consciência devo dizer que eu esperava bem mais.
Claro que entendo que atual administração pública federal está apenas no início de sua gestão, mesmo assim já sinto um aperto incômodo no peito.
Se o Serviço de Informações está tão bem estruturado como afirmou o Gen. Heleno, por que então o governo foi pego de calças na mão em relação à onda de atentados terrorista no nordeste do país?
Recentemente passei uma temporada em Portugal e fiquei sabendo que em muitos países europeus  a Carta de Condução de veículos é vitalícia, em outros é válida por 15 e até 50 anos.
A obtenção da  Carta de Condução também é muito simples, dependendo da categoria, se amador, o condutor é dispensado de exame de direção, assina uma declaração sob as penas da lei que sabe manejar veículos.
A exigência mais rigorosa é a do Atestado Médico para que se possa dirigir o qual pode ser solicitado ao médico de família, ou atendimento nas Unidades Públicas de Saúde ou  clínicas particulares.
Esse documento é exigido uma única vez, porque o condutor tem a obrigação legal de comunicar ao Departamento de Trânsito qualquer alteração em seu estado de saúde que limite sua capacidade para conduzir veículo. Os médicos também são responsáveis por  efetuar essa comunicação caso observem em seus pacientes déficit prejudicial à condução de veículo.

Por fim a questão da “flexibilização” da posse de arma de defesa pessoal.


Há que se diferenciar as armas de fogo de defesa e de ataque.
Armas de defesa têm menor potencial ofensivo, geralmente o revolver e pequenas pistolas.
Já as armas de ataque são os fuzis, pistolas de uso restrito das Forças Armadas e outras armas mais potentes.
Lembro-me que antigamente a pessoa interessada em adquirir uma arma de defesa ia a uma loja de armas, apresentava documento de identidade, comprovante de endereço e preenchia um formulário e aguardava uns dias a aprovação pela Polícia que obviamente levantava a ficha (antecedentes) do comprador.
Uma vez aprovado o cadastro do candidato a venda era formalizada e ele poderia ter a arma de defesa em sua posse e guarda (não o porte).
O decreto de “flexibilização” assinado hoje traz uma série de regulamentações e exigências que tutelam o cidadão em detalhes dos mais triviais, como ter um cofre ou armário com tranca para guardar a arma de defesa se houver crianças ou doentes mentais no local.
Quando eu era criança recordo-me que meu Pai guardava a arma em cima do roupeiro e descarregada, ele nunca precisou de uma lei obrigando-o a ser diligente e cuidadoso com a guarda de sua arma.
O excesso de regulamentação tratando o cidadão com um retardado, como um incapaz desprovido  de autodeterminação e pragmatismo é próprio do comunismo totalitário que tutela tudo e todos, e nada tem a ver com um sistema político democrático, liberal, que respeita e assegura aos indivíduos o direito de viverem e se conduzirem de acordo com a sua liberdade natural, o seu livre arbitro dado pelo Soberano Deus ao homem e que até mesmo ELE respeita.
Sinceramente eu esperava que o lema desse novo governo fosse liberdade com responsabilidade!

--
João-francisco Rogowski



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A PRAGA DOS FOGOS


A Gazeta de quinta-feira passada publicou um artigo de Afonso Schwengber , a quem ainda não tenho o prazer de conhecer, sobre os fogos de artifício. Gostei muito da crônica, de estilo direto, claro, sem rodeios e salamaleques. Apesar de eu não achar  graça nenhuma  em fogos, nada tenho contra os não ruidosos.
Em qualquer lugar do mundo, exceção feita a alguns lugares atrasados , os fogos são tratados como algo perigoso. Ao ar livre ou fora dele.
Nos noticiários, os dedos e mãos amputados, os olhos arrancados e as coisas estúpidas de ano novo, carnaval e outras festas.
Comprar fogos ruidosos deveria ser como comprar antibióticos: receita retida.  Teria que ser como comprar uma arma de fogo: com papéis em dia, passando pela Polícia e tudo; fogos têm pólvora, da qual dá para fazer munição de armas. Essa barulheira absurda incomoda demais, mas como existe gente que gosta de bobagens, vá lá. Para comprar fogos o sujeito teria que entrar na loja munido de uma guia da autoridade competente. Essa guia teria que ser retida e clipada na nota fiscal. Para obter essa guia o sujeito teria que fazer um requerimento à Prefeitura expondo as razões de incomodar os outros (juntando atestado psiquiátrico). O filho passou no vestibular  lá na Universidade de Barro Amarelo?  Dê-lhe foguetes! O comprador não acha bonito o céu estrelado, precisa do artifício humano? Adora assustar as pessoas normais? Ou odeia os animais?
Passo seguinte:onde quer soltar os foguetes? perto de hospitais? nem pensar. Perto do Centro da cidade onde vivem  milhares de  idosos? nem pensar. Perto da mata onde moram os passarinhos? nem pensar. Soltar os fogos num lugar isolado ele não quer, por que será?
Quem sabe pode soltar os foguetes no porão de sua própria  casa. Também não vai querer.
Vejam o absurdo: o cidadão comum tem que entrar em filas e realizar um périplo demorado para obter uma licença ambiental. O fogueteiro não precisa de nada. Compra sem formalismos e solta onde bem entende e nos obriga a ouvir o que não queremos!
Mais uma observação: penso que os gestores públicos têm que refletir bem se bancar a compra desses artefatos não beira às raias da improbidade administrativa.Só quem não se informa apoia a aplicação de dinheiro num evento efêmero , quando há outras necessidades urgentes.As entidades públicas, que gastam nosso dinheiro, têm que observar prioridades. Estivéssemos morando num país em que reluzem o ouro e o dinheiro, todo mundo  gordinho e são de lombo, até vai. Mas estamos mais pobres do que imaginamos.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

JEJUM E RECEIO - BLAU SOUZA *



 

 

           Ainda na fase de valorizar Natal, parábolas e histórias edificantes ou divertidas, vou lembrar uma contada pelo Dô, meu cunhado, pai do Fernando Adauto, da Ana Maria, do alemão Gilberto e do Guilherme. O apelido, última sílaba acentuada do nome Fernando, fixara-se nos tempos em que atuava como jogador de futebol e nas rodas boêmias, nas serenatas, ao exercitar voz e violão. A verdade, é que suas visitas de noivo à Vera, na Estância do Sobrado, eram muito festejadas pela gurizada da casa. Pois ele sabia muito bem alternar música e histórias que se iam encaixando no imaginário de guris de campanha. Algumas ficaram bem gravadas em minha memória, de onde seleciono, hoje, uma delas, para compartilhar com os leitores. 

            Num tempo que já vai longe, quando não havia automóvel e as viagens eram feitas na base do cavalo, os gaúchos valorizavam a hospitalidade de uma forma comovente, até porque, em alguma ocasião, dela poderiam depender. Mandar desencilhar, servir mate e oferecer boia e pousada fazia parte do bem receber. É claro que isso não dispensava minuciosa observação do paisano recém-chegado, da sua montaria, das vestes e arreios, bem como do trato dispensado por ele à montaria e aos pertences. Em alguns lugares, o tratamento incluía lavar os pés de quem chegava, como ocorreu com o nosso viajante, que desde a madrugada cavalgava com poucos intervalos para descansar, arrumar os arreios e beber água de sanga. O fiambre, as galletas tinham sido devoradas havia algum tempo e a fome não era pouca. Olhando para o sol e os horizontes, calculava o meio dia, e ainda estava distante da estância que divisava ao longe. Não seria aconselhável apressar a marcha, pois o cavalo, suado e arfante, dava mostras de cansaço em dia quente de verão. Mas a sombra de arvoredo, casa, galpão e expectativa de presença humana, reavivavam cavaleiro e montaria. Finalmente, anunciados pelo latido dos cachorros, ouviu-se um Ô de casa do chegante, enquanto alguns peões saiam pela porta do galpão e o patrão se aproximava, respondendo à saudação de Laus Sus Cris (Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo) feita pelo viajor. A este, não passara despercebida a noção de ter chegado com atraso, na hora da sesta, que sucede ao almoço e recupera o pessoal para as lides da tarde.

           Claro que o Dô ia adaptando a história à capacidade de entendimento da gurizada, bem como dando espaços para perguntas e comentários, que por vezes alteravam enredo e fluxo do que pretendia dizer. Por sabedoria que a vida lhe ensinara, adequava as histórias ao público como fazem os editores de literatura infantil no aproveitamento de textos, por vezes trágicos, de autores consagrados como os irmãos Grimm, Hans Handersen e tantos outros. Certamente os autores citados não seriam tão conhecidos mundo afora, não fossem mascaramentos e traduções orientados através dos tempos e com valorização crescente de imagens e cores. Numa cadeira de balanço, cercado pelos guris, que disputavam seus joelhos, ele criava fatos e personagens que preenchiam o imaginário de ouvintes atentos e curiosos. Dô pontilhava linhas que iam sendo preenchidas pela imaginação e pela memória de cada um. As interrogações eram muitas e às vezes serviam como ponto final e instigante das histórias.

           Mas voltemos ao paisano e sua fome. Estava claro para ele, que chegara após a refeição, algo muito precioso em dia de estômago vazio. Desencilhou, foi bem recebido, mas ninguém mencionava alguma coisa que lembrasse almoço, comida, boia... Antes que o estancieiro voltasse para a sesta, ordenou que trouxessem banco, bacia, jarro com água e toalha para lavar os pés cansados do recém-chegado, que se ia apresentando ao responder perguntas enquanto mateava. O peão caseiro ia iniciando o preparo do ritual do lava-pés, quando o paisano, avaliada a situação e a fome, perguntou com voz entre firme e suplicante: Será que não faz mal, lavar os pés em jejum?

 

 

*Médico e escritor

 

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A BIC E A MICHELLE




“Michelle, ma belle
Sont les mots qui vont très bien ensemble
Très bien ensemble”

Impressionante. Até eu, calejado, maroto nas curvas da vida, peleador, homem de brigar com filhos e netos, dizendo que quem dorme demais termina pobre; logo eu, que aprendi ser a maior maldição se comover por coisas simplórias e golpistas, seguindo, por exemplo,  alguns grupos pseudo religiosos caça níqueis, logo eu que tomei ferro vida a fora, até fome passei quando morava na casa da UESC, na Tomás Flores, em Porto Alegre, nos anos sessenta, estudando na gloriosa UFRGS, até eu chorei emocionado. As lágrimas não eram de crocodilo, sem embargo da  inefável beleza de Michelle, a esposa de Bolsonaro
 e seu ballet de libras. Mais ainda  me comoveram  as lágrimas da  tradutora e os beijos na boca, selinhos, da Michelle em Bolsonaro. Que espetáculo surpreendente; Michelle, la belle, deu um show, abanou, muito mais do que seu combalido consorte esfaqueado. Um cara que convive com uma mulher assim, esse taura é de fundamento.
Depois vieram o vice eleito, com sua cabeleira de asa de graúna, mais preta que  noite de tormenta, o meu querido amigo Lorenzoni e outros menos votados, todos assinando o papel com a caneta Bic. Olha só: usar a caneta Bic é uma afronta à Mont Blanc. E se fosse mil anos atrás, um agravo à Parker 51.
Que lance!!  Podia, na hora da assinatura, vazar tinta, sujando os punhos engomados dos escolhidos. Ao revés, a Mont Blanc mostraria o poder e a nobreza. Mas, me indago, por que assinar? Se hoje é tudo digital?
Não bastaria Bolsonaro dizer que tinha escolhido e pronto? Quem ousaria confrontá-lo? Quem sabe receio de uma liminar de um juiz de plantão num sábado à meia noite, num dia de feriadão?
Bolsonaro optou pela Bic.  Optou porque quer mostrar que é despojado, que ao assinar não mostrou um relógio de ouro como Collor, ou um Tag Heuer ou, pior ainda, um relógio de algibeira folhado a ouro?
Ok, até aqui meu querido leitor, minha amiga que me lê já sestrosa.
Seguinte: eu votei no Bolsonaro e quero que tu e eu possamos ter a frau Glock ou um 38 legalizado em casa, não quero que mexam para pior na reforma trabalhista, quero um governo que não persiga injustamente, usando  um demônio chamado  burocracia, os  empresários.
Mas teria havido um  pouco  de populismo?
Ou não...Vamos ver o que vem por aí.