Francisco
Marshall é historiador e arqueólogo. Licenciado em História pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e doutor em História Social
pela Universidade de São Paulo - USP, fez estágio pós-doutoral na Princeton
University (EUA) e na Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha). Leciona
na UFRGS. É fundador e curador cultural do StudioClio - Instituto de Arte &
Humanismo, em Porto Alegre. Publicou Édipo Tirano, a tragédia do saber (EdUFRGS
e EdUnB, 2000), que venceu o Prêmio Açorianos 2001.
Confira a
entrevista.
IHU
On-Line – É notória a crise econômica pela qual passa o Rio Grande do Sul. Para
além dela, que outras crises o estado vive e por quê?
Francisco Marshall –
Sete pontos:
1) Narcísica, ao modo lacaniano: pensa ser o que não é, é o que não pensa ser.
2) Política: degradação da democracia, vazio de articulação entre sociedade,
partidos e lideranças, ausência de debate de alto nível para planejamento e
determinação de metas, derrota da alta burocracia de Estado e do pensamento
acadêmico pela insensatez de governantes despreparados.
3) Econômica e fiscal: com desindustrialização e sem projeto de
desenvolvimento, incapaz de agregar valor à produção primária, incapaz de
combinar pesquisa em C&T com desenvolvimento social e econômico, capacho
derrotado na guerra fiscal (com a União e com os demais estados), o Rio Grande
do Sul cresce como rabo de cavalo.
4) Social: persistência e mesmo expansão das favelas em cidades médias e
grandes, ausência de recursos e projetos públicos para os fundamentos da
cidadania (ciência, cultura, educação, espaços públicos, saúde e segurança),
desmotivação da juventude.
5) Educacional: escolas públicas e professorado historicamente depreciados.
6) Moral: safados atacam princípios virtuosos movidos por fundamentalismo
ideológico e ganância, com aplauso de imprensa lacaia.
7) Histórica: começou faz tempo, não dá sinais de que será superada.
IHU
On-Line – O senso comum diz que o povo gaúcho é educado, culto e politizado.
Onde está o acerto ou o exagero dessa afirmação? Por quê?
Francisco Marshall –
Não temos homogeneidade suficiente para constituir um povo; somos uma equação
desequilibrada de segmentos sociais discordantes. Há delicadeza e grossura,
cultura e ignorância, lucidez e demência políticas, mas creio que predomina a
inconsistência cultural, sobretudo nas classes afluentes. O trânsito é bom
espelho da grossura hegemônica: não se respeita pedestre, poucos cedem espaço,
não há alinhamento dos carros para facilitar o fluxo das motocicletas,
autoridades preferem caçar multas fáceis a educar motoristas, há muitos
acidentes e mortes, as pessoas abrem a janela do carro e jogam lixo pela
janela, combate-se plano cicloviário como se fora ideia de esquerdista; isto é
espelho de uma sociedade incivilizada e metáfora do que ocorre no restante da
sociedade gaúcha, porto-alegrense em particular. Quanto ao politizado, fica por
conta de Getúlio Vargas e Leonel Brizola , bem como das experiências do
Orçamento Participativo e seu irmão cultural, o Fórum Social Mundial ; tudo no
passado, sucumbido, arquivado. O eleitor gaúcho hoje elege dementes e se aliena
com cara de penico. Se não está morta, a cultura política gaúcha hiberna
pesadamente.
IHU
On-Line – O que há de arcaico e de contemporâneo no estado?
Francisco Marshall –
A estrutura produtiva básica é da era colonial (âncora na produção primária sem
valor agregado – soja in natura); tal como no Brasil, as lideranças
empresariais (agronegócio, comércio, indústria e serviços) não assumem seu
potencial burguês e sufocam a transformação social possível pelo trabalho, o
que bloqueia o futuro e produz tensão social. Parte desse atraso se reflete em
lideranças de péssima qualidade e de ideologias atrasadas e improdutivas. Mais
que arcaico (o princípio que pode se modernizar), este lastro é de índole
retrógrada. Por incrível que pareça, temos contemporaneidade em alguns aspectos
(não muitos): artes de excelente qualidade (especialmente artes visuais,
cinema, literatura e música), ciência e cientistas de bom nível em vários
campi, festivais culturais muito interessantes (Fronteiras do pensamento, PoA
em Cena, Virada sustentável, Noite dos Museus, PoA Jazz Festival, FantasPoa
Literária, entre outros), jovens com capacidade de inovação e, sobretudo, um resíduo
de gente consciente, capaz de ao menos perceber e denunciar o rumo errado de
muitas decisões – resistência iluminista em era de catástrofes.
IHU
On-Line – O atual prefeito de Porto Alegre defende a privatização do Mercado
Público. O projeto de revitalização do Cais Mauá, preparado em gestões
anteriores, prevê a construção de shopping center na orla do Guaíba. O que
esses fatos dizem sobre a visão de futuro para a cidade por parte das
administrações?
Francisco Marshall –
O principal problema de todas as democracias é a demagogia. Os eleitores votam
iludidos em candidatos inconsistentes, enganados por imagens manipuladas. Estes
candidatos costumam não declarar ou detalhar programa, mas uma vez eleitos
aplicam pacotes ideológicos automatizados, como o caso atual do neoliberalismo
de sarjeta, hoje epidêmico, que hostiliza a palavra “público” e acalenta
diversos compromissos com o que chama de “privado”: os interesses de grandes
corporações e mamatas para parceiros empresariais. Ademais, estes gestores (como,
e.g., [Nelson] Marchezan Jr. e [José Ivo] Sartori ) simplesmente não sabem
governar, não têm capacidade de estudo, diálogo, inovação, planejamento, não
conseguem formar equipes de qualidade e liderá-las com inteligência e
serenidade, não possuem qualquer virtude acadêmica ou conhecimento
contemporâneo, então sua sujeição ideológica e seus erros, próximos da
demência, tornam-se ainda mais patéticos e onerosos para a população. Para quem
não sabe governar, a ideologia de pacote pronto preconiza, e a mídia lacaia
ratifica: privatiza!
Nos dois
casos apontados, há uma erosão perversa da esfera pública e um solapamento da
inteligência contemporânea e de potenciais virtuosos. Mercado Público: o jovem
prefeito tomou como alvo a palavra (público) e antes de diagnosticar qualquer
problema e de examinar como solucioná-lo, na condição de gestor, aperta um
botão; simplório, ineficiente, possivelmente interesseiro (alguém lucrará, e
isso pode bonificar o demagogo profissional, na forma de apoios e verbas). Cais
do Porto: trata-se de um projeto horrendo, que quer shopping center em área
vocacionada a parque, e baseia-se em modelo de verticalização e economia
concentrada, em lugar de horizontalização e economia criativa e cooperativa,
recomendadas para revitalizações urbanísticas. Repleto de vícios e mesmo
delitos, o projeto é protegido por agentes muito suspeitos na administração
municipal (Executivo e Legislativo) e estadual, e conta com certa leniência e
morosidade judiciária, aparentemente refém do medo de onerar o poder público
com eventual indenização rescisória. Enquanto isso, perdemos o tempo precioso
para ali desenvolver um projeto realmente bom, bonito, eficiente e
contemporâneo, o qual nem requer recursos vultosos, apenas inteligência,
atualidade e espírito público. Logo, enquanto a opinião pública não perceber os
riscos de apoiar este tipo de políticos (demagogos inconsistentes e nocivos) e
o alto preço de sua alienação social e política, estaremos expostos a muita
batalha para evitar catástrofes, que podem ocorrer.
IHU
On-Line – Não é curioso que os integrantes do movimento tradicionalista, de
maneira geral, valorizem como atributo dos gaúchos traços rústicos, chulos e
grosseiros?
Francisco Marshall –
Os regionalistas defendem também valores positivos de autenticidade, lealdade e
hospitalidade, gostam de poesia (mesmo que de estilo antigo), valorizam a
música e o folclore, têm uma certa noção de identidade e enquanto tomam mate ou
assam ovelhas estão deixando de fazer outras bobagens; então, não é perda
total. Paixão Côrtes foi um folclorista à altura de Câmara Cascudo , e a
cultura regionalista, com seus festivais e em seu circuito social, conseguiu
gestar artistas valiosos, como Borghettinho , Luiz Carlos Borges , Mário
Barbará , sem falar na família Fagundes , cheia de talentos, e outros bons
valores. Creio que o maior volume de grossura é mesmo do arrogante urbano, um
íncola sem cosmopolitismo, indelicado, conservador e tolo. O médico racista que
lidera movimento de opinião contra as cotas sociais, por exemplo, revela uma
grossura muito mais grave, aquela de quem tem acesso a recursos culturais e os
desdenha em favor de interesses mesquinhos; este tipo é de uma rusticidade
chula e grosseira deplorável, muito pior que a de qualquer devoto de
galpão-oratório.
IHU
On-Line – O senhor é curador de uma instituição inserida na vida cultural do
estado. Neste campo, as produções costumam receber apoio de verbas públicas ou
patrocínios privados. Qual a situação do Rio Grande do Sul no que tange aos
incentivos culturais?
Francisco Marshall –
O StudioClio não recebe nem verba pública nem patrocínio privado; é uma
experiência visando à sustentação unicamente pela produção e consumo cultural.
Como o gaúcho tem pouco hábito de consumo cultural e gosta de comprar em camelô
(mesmo os ricos), a situação lá é dificílima. A LIC-RS [Lei de Incentivo à
Cultura] passou por revisão recentemente, que a piorou um tanto, pois os
recursos autorizados para grandes projetos são insuficientes e os para projetos
menores, inexistentes, aquém da capacidade de captação e realização. No
Conselho Estadual de Cultura, que emite pareceres da LIC, nota-se uma
assombrosa falta de preparo técnico, pelo predomínio de indicações políticas na
sua composição. Atualmente (2017), ninguém sabe onde anda ou o que faz a gestão
estadual, pois a decadência é vertiginosa, sobretudo dos museus e projetos de
desenvolvimento cultural. O fomento via Pronac-mecenato [Programa Nacional de
Apoio à Cultura] no MinC [Ministério da Cultura] é igualmente crítico, ainda
mais neste momento recessivo, em que as empresas não declaram lucro e não têm,
portanto, de onde tirar recursos fiscais habilitados.
Infelizmente
a meta de Sérgio Paulo Rouanet não se realizou – o desenvolvimento de uma
cultura de mecenato. Atrelaram-se projetos culturais a finalidades de
marketing, e nisso predominou a preferência por fenômenos de massa com pouca ou
nenhuma densidade cultural em detrimento do poder de inovação dos
arte-criadores, do estímulo ao florescimento pela arte e pela cultura e do
desenvolvimento das relações entre arte e educação. O regime de editais
temáticos e do fortalecimento das instituições realizadoras (institutos,
museus, bibliotecas, centros culturais) permite contornarem-se os vícios dos
programas de incentivos fiscais, mas ainda predomina a grave escassez de
recursos.
No Rio
Grande do Sul, ademais, vivemos o escabroso quadro de um ataque do governo
estadual (Sartori) a instituições de arte, ciência, cultura e conhecimento
técnico aplicado (as fundações ameaçadas de extinção), em um programa demente
que atinge bases seguras do desenvolvimento socioeconômico regional; uma
insensatez monstruosa. O Brasil e o Rio Grande do Sul seguem à espera de um
novo modelo de fomento à cultura, mais eficiente e favorável ao desenvolvimento
dos valores necessários a todas as civilizações – arte e cultura.
IHU
On-Line – No cenário cultural nacional, prevalecem produções do Rio de Janeiro
e de São Paulo. Há também expressões importantes de estados nordestinos, como
Pernambuco. Por outro lado, artistas que trabalham no Rio Grande do Sul
costumam apontar que suas obras têm pouca aceitação nacional. Isso procede?
Deve-se ao quê?
Francisco Marshall –
O modernismo brasileiro, patrono de nossas noções e instituições de patrimônio,
orientou sua bússola para o patrimônio mineiro e para o Nordeste, efetivamente
ricos em arte e folclore. Mário de Andrade e Villa-Lobos são avatares desta
tendência, perpetuada desde então. O Rio Grande do Sul era sentido mais como
concorrência, por possuir sua própria cultura (e economia), do que como assunto
meritório; alinhava-se ao Pampa e às culturas castelhanas, longe de um mundo de
praias, coqueiros, coloridos da flora tropical, lastros de lusitanidade castiça
e africanidades pulsantes. Nos anos 30, ademais, especialmente depois de 1932,
cresceu a hostilidade política de São Paulo contra o Rio Grande do Sul. Isto
ajudou a construir a miopia incapaz de ver Simões Lopes Neto em seu esquadro
real, alinhado a James Joyce e a Guimarães Rosa , e uma certa dificuldade de
assimilar expoentes como Erico Verissimo e Josué Guimarães (entre outros) em
sua verdadeira dimensão, máxima. Na música, porém, creio que temos expressões
mais bem acolhidas, em um arco que vai de Radamés Gnattali a Yamandu Costa .
A última
derrota cultural do Rio Grande do Sul foi nos anos 80 e início dos 90, quando
uma geração muito talentosa foi colocar-se no Rio de Janeiro, mas explodia, na
época, um produto em compota, o assim chamado rock nacional, que concentrou e
quase monopolizou mídia e produção. Ultimamente, o Brasil inteiro sucumbe a uma
pavorosa leva de mau gosto musical, que contamina também o Rio Grande do Sul. O
ônus dessas relações desequilibradas é que artistas locais têm pouco acesso à
rica economia concentrada no Sudeste e ficam condenados a atuar em um brejo com
pouco vigor econômico e cultural, insuficiente para sustentar a produção
efetiva dos artistas e a renovação necessária da cultura.
IHU
On-Line – Há poucas bibliotecas públicas no estado, não existe uma política
oficial para compra de livros e as escolas públicas estão em situação precária,
justamente em um estado que desde a Primeira República era referência em
educação. O que dizer deste cenário?
Francisco Marshall –
Pior: um projeto da prefeitura de Porto Alegre, em parceria com a Câmara Rio-grandense
do Livro, o Adote um escritor, que vitaliza ricamente literatura e produção
editorial nas escolas da cidade, foi recentemente (gestão Marchezan Jr.)
desfigurado, rumo ao colapso. A falta de bibliotecas é homóloga à falta de
teatros, auditórios, cineclubes e centros culturais; na periferia das cidades,
onde mais se necessita destes recursos, o vazio é total e trágico. As
autoridades não percebem que as emanações culturais são a fonte mais virtuosa
para o desenvolvimento: potencializam destinos, fomentam a autoria e a
construção de símbolos, identidades e sujeitos, distribuem pensamentos e
sensibilidades elevadas, mobilizam as comunidades em harmonia, ocupam o tempo
com qualidade e, como percebeu Aristóteles , ajudam a cidade a purgar seus
males (catarse). Como efeito complementar, mas não menos relevante, a cultura
incide rápida e vigorosamente sobre os índices de violência, hoje críticos. O
livro e as bibliotecas são parte deste processo; mesmo que o livro tenha uma
dimensão comercial, é um bem cultural precioso, que necessita fomento. A
cultura é como a democracia: sempre um bebê cheio de possibilidades, mas
necessitando de alento e cuidados vários. O meu sonho cidadão é que houvesse um
StudioClio público em cada distrito, bem como mais espaços culturais, em
formatos variados, junto aos parques, na paisagem urbana, para o florescimento
de qualidades com as quais um mundo melhor efetivamente se realiza.
IHU
On-Line – Deseja acrescentar algo?
Francisco Marshall –A
humanidade hoje vive diversos dilemas graves; mais graves do que os pretéritos,
pois todas as forças se desenvolveram nestes 5.000 anos como vetores potentes,
e hoje uns cooperam, muitos conspiram coligados, quase todos colidem. A
agressividade contra o ambiente degradou o planeta e ameaça a todos. A
polarização social cresceu, e o desenvolvimento conquistado segue restrito a
uma parcela pequena da população. Bens vitais e simbólicos são preciosos e
escassos. Retóricas e imagens perversas ocultam e ameaçam. Talvez o mais grave
conflito hoje seja entre capital e humanismo. O capital alimenta-se do humano
para concentrar-se, tornar-se cada vez maior – e mais devastador. Seu limite e
sua única chance de têmpera é o humanismo. Não se trata apenas de embate entre
direita e esquerda, mas de algo muito mais denso e grave. Olhamos para trás e
vemos um patrimônio de inteligência que nos alimenta. É disso que vive o
humanismo, e de onde provêm forças e possibilidades que nos resgatam da
adversidade e nos nutrem para criar presente e futuros melhores para nós e para
todos. Que este humanismo, que inspira a esta bela edição e a quem deseja viver
em harmonia, seja também e sempre a razão para nos posicionarmos no mundo e
cooperarmos. Eis o bem maior, possui graça inata e dá sentido a tudo o que
fazemos, humanistas. ■