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RUDOLF GENRO GESSINGER
Escrevi algumas vezes sobre o tempo e como o vejo passar. Já me disseram que chegaria um dia em que eu me olharia no espelho impressionado com os sinais que a vida deixou no meu semblante.
No meu aniversário de trinta anos, o espelho não me contou nada que eu não soubesse. Como uma pessoa intensa, vejo que cheguei até aqui forte e emparelhando juventude com experiência.
Como aprendi a descansar, durmo principalmente para sonhar.
Desde que me conheço por gente, gosto de alimentar minha
imaginação olhando para as estrelas, para as nuvens e para o pôr do sol, meu
momento favorito do dia. Nos dias em que as responsabilidades mais apertam, encontro
soluções no que o céu me mostra.
Noto que já me estressei demais em ser prevenido e, mesmo
assim, levei algumas pauladas da vida: essas me apresentaram meus limites e o
quanto é importante respeitá-los. Atalhei muitos caminhos por observar onde os
outros erraram.
Tive grandes conselheiros desde piá. Com eles aprendi que
um cachorro se torna teu amigo depois de ganhar carinho atrás das orelhas e que
as pessoas ruins sabem criar sorrisos lindos.
Em algum rincão nas profundezas do meu peito, se esconde
quieto o educado guri que fui: tímido, mas artístico; desajeitado, mas
estudioso; bagual, mas sensível; alegre, mas solitário.
Entretanto, minha essência floresceu depois que descobri como
é maravilhoso ter amizades. Conservo meus amigos como minha maior fortuna e
qualquer desculpa vira motivo para estar com eles.
Com as pessoas que levo comigo, aprendi que os sonhos
servem para encostarmos neles com a mão. Sempre houve quem me lembrasse, nos
momentos certos, de onde eu queria chegar.
Incentivo e carinho dos que me são próximos foram decisivos
para minhas conquistas, pois, por melhor que eu seja, jamais terei somente em
mim toda a força de que preciso.
Sendo a amizade uma via de mão dupla, busco acompanhar o
que acontece na vida dos meus e participar efetivamente das lutas deles. Minha
felicidade também está em vê-los conquistando os seus objetivos.
O que não consigo esconder é a sinceridade crua dos meus
olhos: eles produzem o reflexo mais fiel da minha alma. Quem me conhece bem –
ou quem entende de fisionomia – traduz o que eu penso ao medir o meu olhar.
Quem sabe meu jeito de ver o mundo siga me ensinando sobre
mim e sobre as outras pessoas na nova década que se abriu na minha vida. Quando
eu completar quarenta anos, espero que eu me olhe no espelho e ainda acredite
que os sonhos não envelhecem.